Domingo IX do Tempo Comum – Ano C

Tema do 9º Domingo do Tempo Comum

 

 

A liturgia deste domingo dá-nos conta da expansão da fé, não mais confinada ao território histórico de Israel. Este tema está bem presente no convite do refrão do Salmo, a anunciar o Evangelho em todo o mundo.

Na primeira leitura, Salomão invoca o Senhor, pedindo que escute as orações que os estrangeiros lhe dirigirem no Templo de Jerusalém, de modo que o Senhor seja conhecido para lá das fronteiras de Israel e todos os povos possam prestar culto ao Deus de Israel.

Na segunda leitura, Paulo apresenta-se como guardião do verdadeiro Evangelho de Cristo que é anunciado também aos pagãos, reclamando a falsidade de qualquer outra mensagem que negue que a salvação de Deus vem pela fé em Jesus Cristo, de quem ele recebeu o Evangelho que agora transmite.

O Evangelho mostra-nos a grande fé de um estrangeiro, um oficial romano, que coloca toda a sua confiança na misericórdia de Jesus e na sua Palavra, enquanto pede a cura de um seu servo. Jesus acede à sua súplica e mostra admiração pela grande fé deste homem estrangeiro.

 

 

LEITURA I – 1 Reis 8, 41-43

 

Leitura do Primeiro Livro dos Reis

 

Naqueles dias,

Salomão fez no templo a seguinte oração:

«Quando um estrangeiro,

embora não pertença ao vosso povo, Israel,

vier aqui dum país distante por causa do vosso nome

– pois ouvirão falar do vosso grande nome,

da vossa mão poderosa e do vosso braço estendido -,

quando vier orar neste templo,

escutai-o do alto do Céu, onde habitais,

e atendei os seus pedidos,

a fim de que todos os povos da terra

conheçam o vosso nome

e Vos temam como o vosso povo, Israel,

e saibam que o vosso nome é invocado

neste templo que eu edifiquei».

 

AMBIENTE

Os livros dos Reis (1-2Rs) continuam a narrativa da história da monarquia em Israel, que tinha começado já em 1Sam 11,12-15, com o reconhecimento do reinado de Saul sobre Israel. Com David, segundo rei de Israel, viria a conquistar-se Jerusalém e aí estabelecer a capital do reino que passa a englobar os territórios das várias tribos do Norte e do Sul num só reino. 1Rs 3-11 são capítulos que descrevem a sabedoria e a excelência de Salomão, bem como esplendor das suas construções, sobretudo do templo, sonhado por David, mas concretizado apenas no reino do filho Salomão (cf. 1Rs 6; 1Sm 7,1-16).

O texto da primeira leitura de hoje é um excerto da grande oração de Salomão (1Rs 8,23-53), que por sua vez se insere no contexto da festa da dedicação do templo de Jerusalém, acabado de construir, em que Salomão, além de rei, exerce funções sacerdotais, proferindo orações de louvor diante do Senhor, abençoando o povo e oferecendo sacrifícios diante do altar do Senhor.

A grande oração que Salomão profere no templo (1Rs 8,23-53), voltado para o povo e de mãos levantas ao céu tem uma estrutura típica de um salmo, começando por invocar a fidelidade de Deus ao rei David e à nação (vv. 23-24), suplicando a continuidade dessa fidelidade (vv. 25-27) e o favor de Deus (vv. 28-30). A oração prossegue estabelecendo uma relação entre o céu, morada de Deus, e o templo, de construção humana, dando sete exemplos de oração de súplica e da resolução que o povo espera do seu Deus a essas orações de súplica (vv. 31-53). O texto da primeira leitura é o quinto desses exemplos e é uma digressão sobre a oração do estrangeiro que não pertence ao povo.

 

MENSAGEM

Este pedaço da oração de Salomão é basicamente um pedido a Deus para que escute a oração que um estrangeiro Lhe dirigir no Templo que se está a dedicar (v. 43a). Antes de mais, este trecho da oração ajuda a esclarecer o significado do Templo para Salomão e para a teologia de Israel: o Templo é o lugar onde se invoca a Deus (v. 41), mas não a morada de Deus que é nos céus (v. 43a).

A este respeito será interessante notar alguns elementos que estão subjacentes a esta formulação. Antes de mais, a oração fornece-nos os motivos que terão levado o estrangeiro a ir rezar ao Templo de Jerusalém: depois de ter ouvido falar dos grandes feitos maravilhosos de Deus em favor do povo de Israel, o estrangeiro sentirá desejo de invocar o Deus de Israel (v. 42).

Poderá estranhar-se que os israelitas em guerra com os povos estrangeiros, com uma configuração patriótica exclusivista, peçam ao Senhor que escute a oração dos estrangeiros. Todavia, pode facilmente identificar-se uma motivação de expansão missionária da religião javista: na medida em que as orações dos estrangeiros forem atendidas no Templo de Jerusalém, o templo e, sobretudo, o Senhor, Deus de Israel, que nele se invoca serão famosos e hão de ser temidos também na terra do estrangeiro (v. 43b).

Note-se, portanto, uma abertura da religião de Israel ao estrangeiro, na medida em que reconhece, por um lado, que este último poderá vir ao Templo de Jerusalém por causa do nome do Senhor, ou seja, por reconhecer a presença do Senhor no Templo (v. 41) e, por outro lado, que o nome do Senhor, Deus de Israel, poderá ser temido, adorado na terra do estrangeiro (v. 43).

 

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 116 (117), 1.2

 

Refrão: Ide por todo o mundo, anunciai a boa nova.

 

Louvai o Senhor, todas as nações,

aclamai-O, todos os povos.

 

Firme a sua misericórdia para connosco,

a fidelidade do Senhor permanece para sempre.

 

 

LEITURA II – Gal 1, 1-2.6-10

 

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Gálatas

 

Irmãos:

Paulo, apóstolo,

não da parte dos homens, nem por intermédio de um homem,

mas por mandato de Jesus Cristo

e de Deus Pai, que O ressuscitou dos mortos,

e todos os irmãos que estão comigo,

às Igrejas da Galácia:

Surpreende-me que tão depressa tenhais abandonado

Aquele que vos chamou pela graça de Cristo,

para passar a outro evangelho.

Não que haja outro evangelho;

mas há pessoas que vos perturbam

e pretendem mudar o Evangelho de Cristo.

Mas se alguém

– ainda que fosse eu próprio ou um Anjo do Céu –

vos anunciar um evangelho diferente

daquele que nós vos anunciamos,

seja anátema.

Como já vo-lo dissemos, volto a dizê-lo:

Se alguém vos anunciar um evangelho diferente

daquele que recebestes,

seja anátema.

Estarei eu agora a captar o favor dos homens

ou o de Deus?

Acaso procuro agradar aos homens?

Se eu ainda pretendesse agradar aos homens,

não seria servo de Cristo.

 

AMBIENTE

As comunidades cristãs da Galácia (centro da Ásia Menor) conheceram, pelos anos 56/57, um ambiente de alguma instabilidade. A culpa era de certos pregadores cristãos de origem judaica que, chegados à zona, procuravam impor aos gálatas a prática da Lei de Moisés (cf. Gal 3,2; 4,21; 5,4) e, em particular, a circuncisão (cf. Gal 2,3-4; 5,2; 6,12). São, ainda, esses “judaizantes” que, nas primeiras décadas do cristianismo, tanta confusão trouxeram às comunidades cristãs de origem pagã.

Paulo não está disposto a pactuar com estas exigências. Para ele, esta questão não é secundária, mas algo que toca no essencial da fé: se as obras da Lei são fundamentais, é porque Cristo, por si só, não pode salvar. Isto será verdadeiro? Quanto a esta questão, Paulo tem ideias claras: Cristo basta; a Lei de Moisés não é importante para a salvação.

É neste ambiente que Paulo escreve aos Gálatas. Diz-lhes que os ritos judaizantes apenas os prenderão numa escravatura da qual Cristo já os tinha libertado. O tom geral da carta é firme e veemente: era o essencial da fé que estava em causa.

Começa-se hoje a leitura da Carta aos Gálatas. Depois de uma breve saudação epistolar, em que Paulo se apresenta (cf. Gal 1,1-2), Paulo continuará a expor aquele a situação e o problema fundamental (cf. Gal 1,6-10) que o levará a discorrer sobre a relação entre a fé e as obras da Lei e que serão motivo da nossa reflexão nos próximos domingos.

 

MENSAGEM

Na saudação epistolar (vv. 1-2), além de dar conta dos destinatários da sua carta – “às Igrejas da Galácia” -, Paulo apresenta-se como “apóstolo por mandato de Jesus Cristo e de Deus Pai, que O ressuscitou dos mortos”, rejeitando a possibilidade de uma apostolado meramente humano. Desta forma, Paulo está a antecipar a sua tese exposta em Gal 1,11-12: tal como o seu mandato de apóstolo, também o “seu” Evangelho não é de origem humana, mas divina, de Jesus Cristo, por revelação divina. É, por isso, importante esta caracterização da sua missão de apóstolo que lhe garantirá o caráter inviolável da mensagem do “seu” evangelho. Ainda nesta breve saudação, Paulo demonstra que não está sozinho, mesmo se tem opositores, como se notará no corpo desta carta: de forma inteligente, Paulo apresenta a saudação de todos os irmãos que estão com ele, ou seja, de todos os que aceitam e defendem o carácter inviolável do “seu” Evangelho.

A leitura continua com uma expressão de surpresa de Paulo (v. 6), dirigindo-se aos Gálatas, mas tendo em vista sobretudo aqueles que perturbaram a fé desta comunidade, aqueles “que pretendem mudar o Evangelho de Cristo” (v. 7). Ao falar de um “outro evangelho”, como se fosse possível haver mais que um, o apóstolo deixa claro que há um único Evangelho, o de Cristo, e que corresponde ao conteúdo do seu anúncio e do “seu” Evangelho (v. 7). Vai mais longe e declara anátema – ou seja, fora da comunhão da fé – quem anunciar um evangelho diferente do “seu” (v. 8-9): a Carta deixa de ter assim carácter apologético, de defesa de Paulo, para tomar um carácter de direito divino, tal como o Evangelho de Paulo provém de revelação divina.

O texto termina com perguntas retóricas e uma afirmação de Paulo: demonstra que procura agradar a Deus e não aos homens, o que decorre de ser servo de Cristo (v. 10). O apóstolo demonstra assim o seu carácter irreprovável e a ortodoxia da sua fé e do seu anúncio. Mostrando que é a Deus que procura agradar, Paulo tenta indiretamente agradar aos seus próprios opositores que reprovariam imediatamente alguém que tentasse agradar mais aos homens que a Deus.

 

 

ALELUIA – Jo 3, 16

 

Aleluia. Aleluia.

 

Deus amou tanto o mundo

que lhe deu o seu Filho unigénito;

quem acredita n’Ele tem a vida eterna.

 

 

EVANGELHO – Lc 7, 1-10

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

 

Naquele tempo,

quando Jesus acabou de falar ao povo,

entrou em Cafarnaum.

Um centurião tinha um servo a quem estimava muito

e que estava doente, quase a morrer.

Tendo ouvido falar de Jesus,

enviou-Lhe alguns anciãos dos judeus

para Lhe pedir que fosse salvar aquele servo.

Quando chegaram à presença de Jesus,

os anciãos suplicaram-Lhe insistentemente:

«Ele é digno de que lho concedas,

pois estima a nossa gente

e foi ele que nos construiu a sinagoga».

Jesus acompanhou-os.

Já não estava longe da casa,

quando o centurião Lhe mandou dizer por uns amigos:

«Não Te incomodes, Senhor,

pois não mereço que entres em minha casa,

nem me julguei digno de ir ter contigo.

Mas diz uma palavra e o meu servo será curado.

Porque também eu, que sou um subalterno,

tenho soldados sob as minhas ordens.

Digo a um: ‘Vai’ e ele vai,

e a outro: ‘Vem’ e ele vem,

e ao meu servo: ‘Faz isto’ e ele faz».

Ao ouvir estas palavras,

Jesus sentiu admiração por ele

e, voltando-se para a multidão que O seguia, exclamou:

«Digo-vos que nem mesmo em Israel

encontrei tão grande fé».

Ao regressarem a casa,

os enviados encontraram o servo de perfeita saúde.

 

AMBIENTE

O texto situa-nos na primeira parte do Evangelho segundo Lucas. Convém recordar que esta primeira parte se desenrola na Galileia, sobretudo à volta do Lago de Tiberíades. Durante essa fase, Jesus aparece a concretizar o seu programa: trazer aos homens – sobretudo aos pobres e marginalizados – a liberdade e a salvação de Deus. Toda esta primeira parte é, aliás, dominada pelo anúncio programático da sinagoga de Nazaré, onde Jesus define a sua missão como “anunciar a Boa Nova aos pobres, proclamar a libertação aos cativos e mandar em liberdade os oprimidos” (cf. Lc 4,16-30). Citando os exemplos de Elias com a viúva de Sarepta e de Eliseu com o sírio Naamã, Jesus já tinha aí deixado claro que Deus tinha tido atenção aos estrangeiros na história de Israel. O nosso texto de hoje coloca-nos diante de uma situação em que Jesus exaltará a fé de um estrangeiro, um centurião romano, mostrando a sua misericórdia para com este homem com um alto cargo, mas com a capacidade de se abaixar, entrando na lógica do Evangelho de Jesus: os últimos serão os primeiros. Lucas entra assim na discussão teológica sobre o acesso dos pagãos à salvação anunciada a Israel, que será fundamental para a segunda parte da sua obra, nos Atos dos Apóstolos, onde um outro oficial romano, Cornélio, fará despoletar a discussão entre a comunidade cristã nascente sobre qual o estatuto dos pagãos que abraçam o Evangelho no contexto da Igreja.

 

MENSAGEM

O episódio da cura do servo do centurião romano centra-se no valor da fé deste homem que é um pagão, apesar de se ter mostrado favorável aos judeus e de lhes ter construído a sinagoga, conforme as palavras dos mensageiros judeus em Lc 7,4. É verdade que esta é uma história de uma cura, conforme é dado pela situação inicial em Lc 7,2 – “um servo que estava doente, quase a morrer” – e no resultado final, em Lc 7,10 – “os enviados encontraram o servo de perfeita saúde”. No entanto, o grande objetivo do texto é a exaltação da grande fé de um pagão, a ponto de Jesus reconhecer: “Nem mesmo em Israel encontrei tão grande fé” (Lc 7,9). De facto, grande parte do texto centra-se a contar os procedimentos não da cura, mas da súplica do centurião romano: (1) manda mensageiros judeus e pede que Jesus venha a casa (cf. Lc 7,3); (2) mostra-se a insistência dos mensageiros judeus, exaltando as características deste oficial pagão (cf. Lc 7,4-5); (3) apesar de Jesus ter acedido ao pedido dos primeiros mensageiros, este homem manda novos emissários, a declarar a sua indignidade e falta de mérito para que Jesus venha a sua casa (cf. Lc 7,6-8). Tudo isto resulta na declaração de Jesus sobre a fé deste homem em Lc 7,9.

Esta declaração de Jesus abre a fé aos estrangeiros que, por estatuto, não teriam outro modo para se aproximar do credo de Israel, senão convertendo-se e, consequentemente, abraçando todas as tradições israelitas. Apesar dos merecimentos deste homem, bem evidenciados pelos mensageiros dos anciãos judeus, é bem claro que ele não fazia parte da comunidade judaica oficial.

Mas este episódio de Lucas, sendo uma sucessão de súplicas, conforme já se mostrou, vem de encontro a uma caracterização da oração cristã. Notamos antes de mais que o servo que está doente não vai ao encontro de Jesus, mas é o seu patrão, o centurião, a interessar-se por ele. Por sua vez, o centurião faz-se valer de mensageiros que por ele falam a Jesus. Por outro lado, notamos que os primeiros a abeirar-se de Jesus, os anciãos dos judeus, além da insistência com que suplicam, fazem-se valer dos méritos deste homem no modo de suplicar (cf. Lc 7,5-6: “ele merece”). O texto deixa claro que Jesus não se opõe a este raciocínio, acompanhando-os (cf. Lc 7,7). Mas a admiração de Jesus pela fé do oficial romano (cf. Lc 7,9) vem da mensagem enviada pelos amigos, onde o homem se faz despir de todos os méritos: “Eu não mereço que entres em minha casa, nem me julguei digno de ir ter contigo” (Lc 7,6-7). Mais forte ainda é a súplica cheia de fé e confiança que causa admiração: “Diz uma palavra e o meu servo será curado” (Lc 7,7). Há, por assim dizer, uma progressividade da fé manifestada na oração: este oficial romano dá conta que, para realizar o seu desejo, não fazem falta méritos, nem posses ou subalternos, porque o que conta é a misericórdia de Deus, manifestada em Jesus, que é totalmente gratuita.

Este milagre de Jesus dispensa o toque e mesmo a proximidade física de Jesus. Pelas palavras do centurião, entendemos o valor da palavra de Jesus (cf. Lc 7,7), que se aliará à fé daquele que suplica, independentemente de haver méritos ou não. É bem que se note que já no relato da cura de um paralítico tinha sido a fé a impressionar Jesus e instiga-lo ao milagre (cf. Lc 5,20: “Vendo a fé daquela gente”), se bem que aí Jesus estava próximo do doente a curar. Neste caso, apesar da distância, é a palavra de Jesus, que expressa a sua grande misericórdia em favor dos que estão oprimidos por qualquer tipo de mal; e a misericórdia precisa apenas da fé do orante. A sucessão narrativa, que coloca a notícia da cura miraculosa (cf. Lc 7,10) depois de ter dado conta da admiração de Jesus pela fé do centurião (cf. Lc 7,9), é uma forma implícita de reconhecer o que será reconhecido explicitamente noutras curas, que é a fé a salvar (cf. Lc 17,19).

 

 

A LITURGIA DA PALAVRA INTERPELA-NOS HOJE

 

Acreditar na Palavra

Neste 9.º domingo do tempo comum, o Evangelho apresenta-nos a figura de um centurião romano que se dirige a Jesus para que salve o seu servo, que estava muito doente. É impressionante este relato em que o centurião, amigo dos judeus pois até lhes construiu a sinagoga, pede a alguns anciãos dos judeus para interceder junto de Jesus pela cura do servo a quem muito estimava. E quando Jesus se dirige para a sua casa, manda alguns amigos dizer para não entrar, pois basta-lhe a sua palavra para que aconteça a cura.

Temos aqui uma relação muito estreita e concreta entre a fé e a palavra de Jesus, que se enche de admiração pela fé deste homem a ponto de dizer que nem em Israel encontrou tão grande fé. E tudo na infinita misericórdia e compaixão de Jesus para com o servo e o seu senhor. Este centurião, homem de grande fé, para mais estrangeiro à raça de Israel e aos seus cultos, aponta-nos o sentido da nossa fé, sempre em profunda intimidade com a Palavra e na atenção dedicada a quem precisa do nosso amor.

«Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo»: são as palavras do centurião que dizemos antes de comungarmos em cada Eucaristia que celebramos. É profundamente eucarístico este encontro entre o centurião que acredita sem mais em Jesus, sem o ver, e a palavra de Jesus, proclamada também sem ver o centurião. A Eucaristia, celebrada, adora e quotidianamente vivida, não é mais do que um encontro como este.

Às vezes pergunto-me se nós, cristãos de hoje, que andamos enfarinhados nas coisas de Deus, nas liturgias bem aprumadas e em longas orações, assumimos a causa de Deus na liturgia quotidiana da nossa vida. Pergunto-me se basta a Palavra para a fé, ou ainda procuramos outros sinais que podem parecer importantes mas não essenciais. Pergunto-me se andamos no único Evangelho que conta, o de Jesus Cristo, ou navegamos noutros evangelhos; assim nos provoca Paulo na segunda leitura. Pergunto-me se habitamos e conhecemos o nome de Deus e lhe oramos com plena escuta do nosso ser ou entretemo-nos com outros nomes e repetidas orações que apenas passam pelo ouvido; assim nos interpela a primeira leitura.

Toda a liturgia deste domingo nos coloca nesta centralidade em Jesus que a todos se dá, sem exceção e sem olhar a quem, exigindo a adesão plena à sua Pessoa a quem o quiser seguir como discípulo missionário. Uma adesão de fé centrada no amor misericordioso de Deus em Jesus Cristo, que há três dias celebrámos na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo e que na próxima semana vamos intensamente viver na Solenidade do Sagrado Coração.

Dehonianos

O Canto na Liturgia

 

Antífona de Entrada

Olhai para mim, Senhor – Az. Oliveira

Olhai para mim, Senhor – A. Cartageno

Olhai para mim, Senhor – M. Carneiro

Olhai para mim, Senhor – M. Faria

Os meus olhos estão sempre fixos no Senhor – M. Faria

Os meus olhos se fixam no Senhor – F. Lapa (Libellus 1)

Os meus olhos, Senhor – M. Luís

 

Salmo Responsorial

Ide por todo o mundo e anunciai a boa nova (Sl 116) – Az. Oliveira

Antífona da Comunhão

Inclinai o vosso ouvido – F. Lapa

Escutai, Senhor, as minhas palavras – M. Carneiro

Respondei-me, Senhor – F. Valente

Ouvi, Senhor, as minhas palavras – F. Silva

Outros cânticos para o Domingo IX do Tempo Comum

Como é admirável – F. Santos

Tudo o que pedirdes na oração – C. Silva/P. Cruz

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo – Ano C

 

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

 

No centro da Solenidade deste domingo está a celebração de Deus que alimenta o seu povo e que, no seu Filho, dá-lhe o alimento supremo e eterno, a grande Eucaristia dos crentes.

Para exprimir esta oração de louvor e de agradecimento, que dirigimos ao Senhor acolhendo o dom do seu amor, a Escritura emprega duas palavras: a bênção (primeira leitura) e a ação de graças (segunda leitura).

Estas duas dimensões de oração estão intimamente ligadas e devem habitar a nossa vida para além da missa, para testemunhar todo o amor com o qual Cristo ama os homens (Evangelho).

 

LEITURA I

Gen 14, 18-20

Leitura do Livro do Génesis

Naqueles dias,
Melquisedec, rei de Salém, trouxe pão e vinho.
Era sacerdote do Deus Altíssimo
e abençoou Abraão, dizendo:
«Abençoado seja Abraão pelo Deus Altíssimo,
criador do céu e da terra.
Bendito seja o Deus Altíssimo,
que entregou nas tuas mãos os teus inimigos».
E Abraão deu-lhe a dízima de tudo.
 
 
 
 
 
 
 

 

Breve comentário à primeira leitura.

Na história do povo de Deus, o rei Melquisedec só intervém uma vez, no seu encontro com Abraão. Mas este episódio teve uma importância decisiva para a ação de Jesus.

O Antigo testamento está cheio de sacrifícios sangrentos. Mas eis aqui um sacrifício sem qualquer efusão de sangue. Melquisedec, um rei sacerdote, oferece diante de Abraão pão e vinho. Os cristãos reconheceram nesse gesto um anúncio da Eucaristia e muitas vezes representaram este sacrifício nas pinturas e vitrais das igrejas, na proximidade do altar. Reconhecemos também neste episódio antigo um traço da pedagogia divina, que provocou continuamente o seu Povo a purificar as suas práticas sacrificiais, para prepará-lo para acolher a ação definitiva do seu Filho.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 109 (110)

Refrão 1: O Senhor é sacerdote para sempre.

Disse o Senhor ao meu Senhor:
«Senta-te à minha direita,
até que Eu faça de teus inimigos escabelo de teus pés».
 
O Senhor estenderá de Sião
o cetro do teu poder
e tu dominarás no meio dos teus inimigos.
 
A ti pertence a realeza desde o dia em que nasceste
nos esplendores da santidade,
antes da aurora, como orvalho, Eu te gerei».
 
O Senhor jurou e não Se arrependerá:
«Tu és sacerdote para sempre,
segundo a ordem de Melquisedec».
 
 

LEITURA II

1 Cor 11, 23-26

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios

Irmãos:
Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti:
o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue,
tomou o pão e, dando graças, partiu-o e disse:
«Isto é o meu Corpo, entregue por vós.
Fazei isto em memória de Mim».
Do mesmo modo, no fim da ceia, tomou o cálice e disse:
«Este cálice á a nova aliança no meu Sangue.
Todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de Mim».
Na verdade, todas as vezes que comerdes deste pão
e beberdes deste cálice,
anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha».
 
  

Breve comentário à segunda leitura.

As dificuldades surgidas na primeira comunidade de Corinto tinham incitado o apóstolo Paulo a recordar por escrito o que comporta a celebração do grande mistério da fé, a Eucaristia.

Nesta narração da instituição da Eucaristia, Paulo põe na boca de Jesus uma dupla «ordem de reiteração». Depois da fração do pão, e mesmo antes de lhes dar o cálice, Jesus diz aos Apóstolos: «Fazei isto em memória de Mim». Palavra explícita, fundadora da nossa prática eucarística. E Jesus explica todo o alcance deste memorial, tal como o canta a anamnese: proclamar o que Jesus fez por nós (dom da sua vida), celebrar a sua Ressurreição que nos salva, esperar a sua vinda na glória.

O que os Apóstolos nos dizem da Eucaristia está nestas breves linhas de uma carta de São Paulo.

Que diferenças entre as primeiras celebrações e as nossas, atualmente. Paulo dá-nos indicações importantes: refere-se, em primeiro lugar, à tradição que ele mesmo recebeu, e esta tradição vem do próprio Senhor, que deu a ordem de «refazer isso em memória dele»; indica, em seguida, que esta celebração recebida da tradição está integrada numa refeição, como a fração do pão na última Ceia e as refeições do Ressuscitado com os seus discípulos, em Emaús e em Jerusalém. Esta refeição coloca-nos em situação de esperança, sempre na espera do regresso do nosso Mestre Jesus Cristo, nosso Deus e Senhor.

 

SEQUÊNCIA

Terra, exulta de alegria,
Louva o teu pastor e guia,
Com teus hinos, tua voz.
 
Quanto possas tanto ouses,
Em louvá-l’O não repouses:
Sempre excede o teu louvor.
 
Hoje a Igreja te convida:
O pão vivo que dá vida
Vem com ela celebrar.
 
Este pão – que o mundo creia –
Por Jesus na santa Ceia
Foi entregue aos que escolheu.
 
Eis o pão que os Anjos comem
Transformado em pão do homem;
Só os filhos o consomem:
Não será lançado aos cães.
 
Em sinais prefigurado,
Por Abraão imolado,
No cordeiro aos pais foi dado,
No deserto foi maná.
 
Bom pastor, pão da verdade,
Tende de nós piedade,
Conservai-nos na unidade,
Extingui nossa orfandade
E conduzi-nos ao Pai.
 
Aos mortais dando comida,
Dais também o pão da vida:
Que a família assim nutrida
Seja um dia reunida
Aos convivas lá do Céu.
 
 

ALELUIA 

Jo 6,51

Aleluia. Aleluia.

Eu sou o pão vivo descido do Céu, diz o Senhor.
Quem comer deste pão viverá eternamente.
 
 

EVANGELHO

Lc 9, 11b-17

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
estava Jesus a falar à multidão sobre o reino de Deus
e a curar aqueles que necessitavam.
O dia começava a declinar.
Então os Doze aproximaram-se e disseram-Lhe:
«Manda embora a multidão
para ir procurar pousada e alimento
às aldeias e casais mais próximos,
pois aqui estamos num local deserto».
Disse-lhes Jesus:
«Dai-lhes vós de comer».
Mas eles responderam:
«Não temos senão cinco pães e dois peixes…
Só se formos nós mesmos
comprar comida para todo este povo».
Eram de facto uns cinco mil homens.
Disse Jesus aos discípulos:
«Mandai-os sentar por grupos de cinquenta».
Assim fizeram e todos se sentaram.
Então Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes,
ergueu os olhos ao Céu
e pronunciou sobre eles a bênção.
Depois partiu-os e deu-os aos discípulos,
para eles os distribuírem pela multidão.
Todos comeram e ficaram saciados;
e ainda recolheram doze cestos dos pedaços que sobraram.
  
 

Breve comentário ao Evangelho.

A refeição da fração do pão, que Jesus celebrou com os seus discípulos, é destinada ao conjunto do seu povo. O próprio Jesus significou isso alimentando a multidão que O seguia, como Deus o havia feito outrora no deserto.

Para viver, é preciso comer. E como Deus nos quer vivos, Ele próprio intervém. Como um Pai que cuida dos seus filhos, quando estes não encontram o alimento necessário. A tradição de Israel tinha guardado a memória de uma intervenção providencial, em que Deus tinha alimentado o seu povo no deserto, depois da saída do Egipto, com o maná e as codornizes (Ex 16); era um pão vindo do céu, portanto, de Deus.

Por seu lado, Jesus alimenta o povo que está quase a fracassar. Vários detalhes anunciam a Eucaristia: Jesus parte os pães e fá-los distribuir pelos seus discípulos, como na comunhão: o povo está organizado, os Apóstolos fazem o serviço, é a Igreja; no deserto, o maná era apenas suficiente, mas aqui, no banquete do Senhor, restam cestos cheios, porque o pão de Jesus é-nos oferecido generosamente, para que tenhamos a vida em abundância (Jo 10,10).

É impossível isolar a «ordem de reiteração» da Eucaristia propriamente dita de outras ordens que Jesus nos deu: muito próximo da Eucaristia, há o «exemplo» do lava-pés; há ainda o «mandamento do amor» e a necessidade primordial de amar o nosso próximo; e hoje, o apelo a darmos nós mesmos de comer àqueles que nada têm que comer. Significando já o Reino onde todos os bens superabundam, Jesus recorda que Ele quer associar desde já todos os batizados à sua construção, ao seu anúncio. E para isso, Ele santifica-nos com a sua própria vida.

Dehonianos

O Canto na Liturgia

 

Antífona de Entrada

O Senhor alimentou-nos – C. Silva

O Senhor alimentou o seu povo – F. Santos

O Senhor alimentou o seu povo – M. Carneiro

Da flor da farinha os alimentou – M. Carneiro

 

Salmo Responsorial

O Senhor é sacerdote para sempre (Sl 109) – M. Luís

Sequência 

Terra exulta de alegria – M. Faria

Antífona da Comunhão

Quem come a minha carne – M. Simões

Quem come a minha carne – F. Santos

Quem come a minha carne – M. Carneiro

Tomai e comei – F. Silva

 

 

Outros cânticos para a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

A minha carne é verdadeira comida – F. Silva

Abriu o Senhor as portas do Céu – Az. Oliveira

Bendito sejas, Senhor – A. Cartageno

Como é suave, Senhor – M. Luís

Corpo de Deus, Pão da vida – Az. Oliveira

Corpus Domini Nostri – M. Sousa Santos

Do Céu nos destes, Senhor, o pão – F.Santos

Ecce Panis – M. Ribeiro

Encheis a terra,Senhor – P. Miranda

Eucaristia, Corpo de Jesus –  P. Cruz

Eu sou o pão da vida – M. Luís

Eu sou o Pão da vidaquem me come não morrerá – B. Sousa

Eu sou o Pão vivo – M. Luís

Eu sou o Pão vivo – Duarte Morgado

Eu sou o Pão vivo descido do Céu – C. Silva

Isto é o meu corpo – F.Santos

Isto é o meu corpo – F. Santos

Isto é o meu corpo – C. Silva

Isto é o meu corpo – M. Carneiro

O Corpo de Jesus é alimento – A. Cartageno

O Corpo de Jesus é alimento –  D. Oliveira

O Pão de Deus  – J. Santos (NRMS 62| IC, p. 498)

O Pão que vem do Céu – T. Sousa

O Senhor abriu as portas do Céu – F. Silva

O Senhor deu-lhes o pão do Céu – Az. Oliveira

O vosso Corpo é o Pão – J. Santos

Ó Sagrado Banquete – C. Silva

Ó verdadeiro Corpo do Senhor – M. Simões

Ó verdadeiro Corpo do Senhor – C. Silva

Porque ele está connosco – F. Santos

Quem come deste pão – C. Silva

Quem comer deste pão – C. Silva

Quem come deste pão – M. Luís

Quem come deste pão – M. Luís

Saciastes o vosso povo – F. Silva

Senhor, Tu és o Pão – G. Kirbye

Somos o novo Israel – F. Santos

Vós sois o pão vivo, Senhor – F. Santos

Vós sois o pão vivo, Senhor – F. Silva

Ó sacrossanta Hóstia – J. Santos

 

 

 
 
 
 

ATITUDES FUNDAMENTAIS DA 

EUCARISTIA

 

 

INTRODUÇÃO

Que a Eucaristia é uma Festa é um dado adquirido. Mas é igualmente seguro que a Festa, biblicamente falando, é uma roda de alegria, um círculo aberto. Na verdade, na Bíblia, uma Festa é um encontro marcado (mô‘ed) , plural mô‘adîm, de ya‘ad [= marcar um encontro], com Deus e com os outros [1]. Sendo um encontro marcado com Deus e com os outros, então é sempre um espaço de alegria, de filialidade e de fraternidade. E se a Festa é de peregrinação, como são a Páscoa, as Semanas ou Pentecostes e as Tendas –, então a alegria, a filialidade e a fraternidade são ainda mais intensas, dado que Festa de peregrinação se diz, na língua hebraica, hag, plural hagîm. E hag deriva de hûg, que significa círculo, e, portanto, família, lareira, encontro, alegria, música, roda, dança, vida [2].

Os verbos implicam acção, traduzem atitudes, desenham passos e gestos. É, por isso, importante, neste estudo sobre a Eucaristia, começar por mostrar os verbos que lhe servem de suporte no Novo Testamento. Percorremos, para o efeito, todos os textos significativos que a manifestam: a) os cinco textos que se referem à instituição da Eucaristia (Mt 26,26-27; Mc 14,22-23; Lc 22,17-20; 1 Cor 11,23-26; 1 Cor 10,16), a que acrescentaremos ainda um texto do Livro dos Actos (27,35); b) os seis textos que habitualmente são mencionados a propósito da chamada «multiplicação dos pães» (Mt 14,19; 15,36; Mc 6,41; 8,6; Lc 9,16; Jo 6,11), a que acrescentaremos um sétimo (Lc 24,30), que também poderíamos catalogar na secção da instituição da Eucaristia. Apresentamos primeiro os verbos tal como aparecem no texto grego do NT, logo seguidos da respectiva versão em língua portuguesa. No que se refere à instituição da Eucaristia, apresentamos primeiro o pão, depois o cálice. No que diz respeito à chamada «multiplicação dos pães», apresentamos em primeiro lugar a primeira e depois a segunda, sendo que Lc 24,30 ocupa aqui o lugar da segunda, que falta em Lucas. João conta apenas uma.

 

1. TEXTOS REFERENTES À INSTITUIÇÃO DA EUCARISTIA

Mt 26,26-27        Mc 14,22-23     Lc 22,17-20      1 Cor 11,23-26

1 Cor 10,16         Act 27,35

 

2. TEXTOS REFERENTES À «MULTIPLICAÇÃO» DOS PÃES

Mt 14,19                        Mc 6,41           Lc 9,16               Jo 6,11

Mt 15,36                        Mc 8,6             Lc 24,30

 

3. VERBOS FUNDAMENTAIS DA EUCARISTIA

Tendo em conta os textos atrás apresentados, podemos enunciar assim os verbos fundamentais, que traduzem as atitudes fundamentais que fazem a Eucaristia:

RECEBER, BENDIZER e AGRADECER,
PARTILHAR e DAR,
COMEMORAR, ANUNCIAR e ESPERAR

Debruçar-nos-emos de seguida sobre cada um destes verbos e respectivas atitudes.

 

3.1. RECEBER (1 Cor 11,23b-26; Mt 26,26-29)

Como se vê no alinhamento dos textos bíblicos acima enunciados, o verbo «receber» (lambánô) abre todos os textos. Vejamo-lo, a título de exemplo, agora inserido em dois textos seleccionados:

«11,23(…) O SENHOR JESUS, na noite em que ia ser entregue (paredídeto),  RECEBEU  (élaben) o pão (árton),  24e dando graças (eucharistêsas), partiu-o (éklasen) e disse: “Isto é o meu corpo, que é para vós; isto fazei para memória de mim”. 25Do mesmo modo fez com o cálice, depois da ceia, dizendo: “Este cálice é a nova Aliança no meu sangue; isto fazei, sempre que o beberdes, para memória de mim”.26Portanto, sempre que comerdes este pão e beberdes este cálice, estais a anunciar (kataggéllete) a morte do Senhor até que Ele venha (áchris hoû élthê)» (1 Cor 11,23-26).

26,26Enquanto comiam, tendo RECEBIDO  (labôn) Jesus o pão (árton) e tendo bendito (eulogêsas), partiu-o (éklasen) e, tendo-o dado (dídômi) aos discípulos, disse: “RECEBEI  (lábete) e comei; isto é o meu corpo”. 27E tendo RECEBIDO  (labôn) um cálice, e tendo dado graças (eucharistêsas), deu-lho (édoken), dizendo: “Bebei dele todos;  28 isto é o meu sangue da aliança, que é derramado por muitos para remissão dos pecados”. 29Digo-vos a vós: “desde agora não beberei deste fruto da videira até (héôs) àquele dia em que beberei convosco o vinho novo no Reino do meu Pai”» (Mt 26,26-29).

O verbo «receber» (lambánô) qualifica a relação de Jesus em relação ao Pai, de quem recebeu tudo o que tem e é: «Este é o mandamento que recebi de meu Pai» (Jo 10,18; cf. Ap 2,28). O receber de Jesus em relação ao Pai está em relação com o «dar» do Pai a Jesus. O Pai deu ao Filho «tudo» (Jo 3,35; 13,3; 17,7; Mt 11,27), «ter a vida em si mesmo» (Jo 5,26), «as palavras» (Jo 17,8), o «julgamento» (Jo 5,22.27), «as obras» e «a obra» (Jo 5,36; 17,4), os homens (Jo 6,37.39; 10,29; 17,2.6.9-11-12.24; 18,9), a «glória» (Jo 17,22.24) … A identidade da pessoa do Pai constitui-se em dar tudo ao Filho, assim como a identidade do Filho se constitui em receber tudo do Pai. O Espírito, por sua vez, é aquele que recebe o que é do Filho, e que o Filho recebeu do Pai. E o que «recebe», o Espírito «anuncia» (Jo 16,13.14.15) [3]. A Eucaristia começa com um imenso movimento de recepção.

O homem bíblico deve viver de mãos abertas (kaph), mãos que recebem e dão. Deus governa o mundo com as mãos abertas, dando: «Ele governa o mundo com a palma da sua mão» (Ecli 18,3), que tem sempre posta sobre nós (Sl 139,5). O Talmud, que é a sabedoria hebraica condensada em cinco milhões de palavras, refere exemplarmente que o punho cerrado representa a sabedoria do imbecil, que pensa que detém o mundo nas malhas da sua rede. E refere depois que, quando a mão inicia o movimento de se abrir, é como as pétalas de uma flor que se abre à vida. E acrescenta: é assim que floresce a inteligência. E, quando a mão se abre completamente, é a mão do sábio, que não retém nada, mas conhece o valor do encontro e do dom. E, cruzando agora as duas mãos abertas, ficamos com a imagem do «pássaro, livre, que voa» [4].

Processo inverso ao da filosofia, desde Zenão a Platão, Descartes, Fichte e Nietzsche, que apresentam o conhecimento como a captura ou compreensão que o sujeito faz do objecto. A verdade (a-lêtheia) é assim o desvelamento ou desocultação a que o sujeito submete o objecto, para dele se apoderar, representando-o e reproduzindo-o na mente, «adequação entre a coisa e a mente» (adequatio rei et intellectus), como referem Aristóteles e Tomás de Aquino. O último Heidegger, o Heidegger de depois de Sein und Zeit  (1926), o Heidegger de Beiträge zur Philosophie (Vom Ereignis),  escrito entre 1936 e 1938, mas publicado postumamente, em 1989[5], considera que esta concepção de verdade é a matriz da violência do ocidente, e diz as coisas de outra maneira: não é o sujeito que captura e desoculta o objecto, mas é o objecto que sai do seu esconderijo e se oferece ao homem como dom, como evento (Ereignis). Por isso, a função do sujeito já não é capturar e dominar com o que há de «prender» no compreender [6], mas acolher com espanto e reconhecimento. A Bíblia e a teologia estão claramente do lado do último Heidegger. Mas vão muito mais longe: não se trata de objectos que se entregam ao homem; trata-se de um Tu, o Tu de Deus, que, por amor, vem até ao homem e a ele se entrega por amor [7], debruçando-se sobre ele e abaixando-se até ao ponto de lhe lavar os pés e a alma [8], de cuidar dele, de o alimentar, de lhe afagar o rosto, de o ensinar a andar:

«11,3Fui Eu que ensinei a andar Efraim,
que os ergui nos meus braços,
mas não conheceram que era Eu que cuidava deles!
4Com vínculos humanos (’adam) Eu os atraía.
Com laços de amor,
Eu era para eles como os que erguem (merîmîm: part. de rûm) uma criancinha de peito (‘ûl) contra a sua face (lehêhem: de  le),
e me debruçava (natah) sobre ela para a alimentar» (Os 11,3-4).

Mãos abertas para Receber. Para Acolher. Para Acariciar. Para Dar. Para Repartir. Para Condividir.

Receber é, portanto, um grande verbo bíblico, que traduz a maneira de ser de Deus e do homem. É paradigmático que a Bíblia apresente o pecado como a atitude de o ser humano não querer mais viver de mãos abertas, recebendo-se e recebendo tudo de Deus, que dá tudo ao homem (Gn 2), e queira passar a viver de mãos fechadas, fechado na sua autonomia, manifestada naquela atitude de estender a mão para apanhar, possuir e comer um fruto de uma árvore, por conta própria e a seu bel-prazer (Gn 3,6).

 

3.2. BÊNÇÃO/BENDIZER/DIZER BEM/QUERER BEM/FAZER BEM

3.2.1. Nós bendizemos

Apresentamos também, neste apartado, apenas alguns textos seleccionados e significativos, para se poder ver o termo «bênção» ou o verbo «bendizer» no seu contexto:

«10,16O cálice da BÊNÇÃO  (tò potêrion tês eulogías) que BENDIZEMOS  (eulogoûmen) não é comunhão no sangue de Cristo? O pão que partimos (kláô) não é comunhão no corpo de Cristo?» (1 Cor 10,16).

«26,26Enquanto comiam, tendo recebido (labôn) Jesus o pão (árton) e tendo BENDITO  (eulogêsas), partiu-o (éklasen) e, tendo-o dado (dídômi) aos discípulos, disse: “recebei (lábete) e comei; isto é o meu corpo”. 27E tendo recebido (labôn) um cálice, e tendo dado graças (eucharistêsas), deu-lho (édoken), dizendo: “Bebei dele todos; 28 isto é o meu sangue da aliança, que é derramado por muitos para remissão dos pecados”. 29Digo-vos a vós: “desde agora não beberei deste fruto da videira até (héôs) àquele dia em que beberei convosco o vinho novo no Reino do meu Pai”» (Mt 26,26-29).

«24,30E aconteceu que, tendo-se reclinado à mesa (kataklithênai: aor. inf. pass. de kataklínô) com eles, recebeu (labôn: part. aor2 de lambánô) o pão,  BENDISSE  (eulógêsen: aor. de eulogéô), e partiu (klásas: part. aor. de kláô) e dava-lhes (epedídou: imperf. de epidídômi) (Lc 24,30).

É sabido que o primeiro texto apresentado (1 Cor 10,16) é considerado a mais antiga evocação da Eucaristia, que, então, se chamaria eulogía, «bênção».

3.2.2. Deus bendiz

Deus que bendiz ou abençoa é uma das constantes da inteira Escritura. Com a sua bênção permanente (Sl 139,5; Ecli 18,3), Deus enche-nos de bem e de bondade. Vejamos apenas uma pequena, mas bela amostra das bênçãos de Deus nas Escrituras:

«6,24Deus te BENDIGA e te guarde,
25ilumine YHWH o seu rosto sobre ti e te faça graça (hanan),
26te faça ver YHWH o seu rosto e te conceda a paz!
27Porão assim o meu nome sobre os filhos de Israel e Eu os BENDIREI» (Nm 6,24-27).
 
«48,15… “Que o Deus diante de quem caminharam os meus pais, Abraão e Isaac, que o Deus que foi o meu Pastor desde que eu nasci até hoje,
16que o Anjo que me salvou de todo o mal BENDIGA estas crianças (…),
que elas cresçam e se multipliquem sobre a terra!”» (Gn 48,15-16).
 
«3,26Para vós, antes de mais, Deus ressuscitou o seu Servo e enviou-o para vos BENDIZER  (eulogéô) (Act 3,26)».
 

3.2.3. Outros bendizeres

Apresentamos ainda, neste último apartado dedicado ao verbo «bendizer», um entrançado de pequenas fórmulas que atravessam a Escritura e a liturgia Eucarística:

«41,14BENDITO seja YHWH, Deus de Israel, desde agora e para sempre!» (Sl 41,14; cf. 72,18; 89,53; 106,48), servindo de separador aos cinco livros dos Salmos.

«1,68BENDITO seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e redimiu o seu povo» (Lc 1,68) (Zacarias).

«1,3BENDITO  (eulogêtós) o Deus e Pai do Senhor nosso Jesus Cristo,

que nos BENDISSE (eulogêsas) com todas as BÊNÇÃOS (eulogía) espirituais em Cristo» (Ef 1,3) (Paulo).

«6,28BENDIZEI os que vos maldizem» (Lc 6,28).

«BENDITO sejais, Senhor, Deus do Universo, pelo pão que recebemos da vossa BONDADE… (Oferta dos dons).

«ABENÇOE-VOS (BENDIGA-VOS)  Deus todo-poderoso, Pai… (Bênção final).

É sabida a importância da Bênção bíblica (berakah), que é sempre unitiva – ao contrário da Maldição (‘alah), que divide –, e une num círculo inquebrável Deus e o Homem, o Homem e Deus, e os Homens entre si, estendendo-se a sua influência benfazeja à inteira criação. Partindo de Deus, então é Deus que une a si e entre si a humanidade bendita. Bendizer Deus, por parte do homem, implica uma verdadeira ruptura «epistemológica»: a bênção reconduz as coisas criadas ao seu estatuto de dom e retira ao homem o poder sobre elas e entrega-o a Deus, ficando assim o homem constituído em puro beneficiário em relação às coisas [9]. Numa perspectiva bíblica, as coisas não são objecto de bênção, mas motivo de bênção [10]Barak é o grande verbo hebraico que traduz a força da bênção bíblica, unitiva e circular. E é debarak e da berakah hebraica que se desdobram os verbos eulogéô eeucharistéô, em que assenta a nossa Eucaristia [11], e fazem dela um círculo unitivo de bênção e de amor.

 

3.3. DAR GRAÇAS / AGRADECER  (1 Cor 11,23-26)

Para contextualizar a locução «dar graças» (eucharistéô), apresentamos o texto muito significativo de 1 Cor 11,23-26):

«11,23 (…) O Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue (paredídeto), recebeu (élaben) o pão (árton),  24e DANDO GRAÇAS (eucharistêsas), partiu-o (éklasen) e disse: “Isto é o meu corpo, que é para vós; isto fazei para memória de mim”. 25Do mesmo modo fez com o cálice, depois da ceia, dizendo: “Este cálice é a nova Aliança no meu sangue; isto fazei, sempre que o beberdes, para memória de mim”.26Portanto, sempre que comerdes este pão e beberdes este cálice, estais a anunciar (kataggéllete) a morte do Senhor até que Ele venha (áchris hoû élthê)» (1 Cor 11,23-26).

Já sabemos que os termos eulogía e eucharistía, ambos derivados do hebraico barak/berakah, são, no NT, usados indiferentemente como sinónimos (basta ver como são usados indistintamente nos textos da instituição da Eucaristia e da chamada «multiplicação dos pães»). Na tradição litúrgico-eclesial, acabou, no entanto, por prevalecer o termo eucharistía para indicar o rito por ecelência da celebração cristã [12].

 

3.4. PARTIR / FRACÇÃO DO PÃO  (Act 2,42; Lc 24,35)

Mais uma vez, para contextualizar e sublinhar esta atitude, oferecemos uma pequeníssima, mas significativa selecção de textos, com o intuito de mostrar bem a dimensão intensamente fraterna da Eucaristia:

«2,42Eram perseverantes no ensino dos Apóstolos e na comunhão, na FRACÇÃO DO PÃO (klásis toû ártou) e na oração» (Act 2,42).

«24,30E aconteceu que, tendo-se reclinado à mesa (kataklithênai: aor. inf. pass. de kataklínô) com eles, recebeu (labôn: part. aor2 de lambánô) o pão, bendisse (eulógêsen: aor. de eulogéô), e PARTIU  (klásas: part. aor. de kláô) e dava-lhes (epedídou: imperf. De  epidídômi). 31Foram abertos (diênoíchthêsan: aor. pass. de dianoígô) então os seus olhos e reconheceram-no (epégnôsan: aor2 de epignôskô), mas ele desapareceu da vista deles. […]  35 E eles explicavam (exêgoûnto: imperf. de exêgéomai) as coisas acontecidas no caminho (tà en tê hodô) e como foi reconhecido (egnôsthê: aor. pass. de ginôsko) por eles NO PARTIR DO PÃO» (en tê klásei toû ártou) (Lc 24,30-35).

Na verdade, não se trata de «partir o pão» para vincar uma simples dimensão ou sentimento sócio-caritativo. Trata-se, antes, de afirmar que nenhum de nós é dono, mas simples servo, pertencendo a Deus a propriedade de tudo, com base no espantoso texto de Lv 25,23: «Toda a terra é minha, e vós sois, para mim, estrangeiros (gerîm) e hóspedes (tôshabîm)». Partir o pão entre nós é então uma exigente afirmação teológica e ontológica da soberania boa de Deus e da nossa fraternidade recebida[13].

3.4.1. Hospedados na casa de Deus: «Secção dos pães» (Mc 6,30-8,26)

O episódio a seguir referido ilustra e esclarece a afirmação teológica que acabámos de fazer no apartado anterior acerca da soberania boa de Deus e da nossa condição de hóspedes e de irmãos:

«6,30E reúnem-se os apóstolos junto de JESUS e contam-lhe todas as coisas que tinham feito e ensinado.  31Ele diz-lhes: “Vinde vós, à parte, para um lugar deserto, e descansai um pouco”. Eram, na verdade, muitos os que vinham e partiam, e nem sequer para comer tinham tempo.  32E partiram numa barca para um lugar deserto, à parte. 33Viram-nos, porém, partir, e sabendo, muitos, a pé, de todas as cidades, correram e chegaram antes deles.  34E tendo saído da barca, viu uma grande multidão e TEVE MISERICÓRDIA (esplagchnístê) deles, porque eram como ovelhas sem pastor (cf. Is 53,6).

E COMEÇOU A ENSINAR-LHES (êrxato didáskein) muitas coisas.  35E tendo a hora adiantado muito, aproximaram-se d’Ele os discípulos d’Ele e diziam: “O lugar é deserto e a hora adiantada.  36MANDA-OS EMBORA, para que, partindo para os campos e aldeias à volta, COMPREM de comer PARA SI MESMOS  (heautoîs) ”. 37Então Ele, respondendo, disse-lhes: “DAI-LHES vós de comer”. Dizem-lhe: “Partindo, compraremos duzentos denários de pães (ártous) para lhes dar de comer?” 38Ele diz-lhes. “Quantos pães (ártous) tendes? Ide ver”. E tendo sabido, dizem: “Cinco, e dois peixes”. 39E ordenou-lhes que fizessem reclinar (anaklínô) a todos, em grupos, sobre a erva verde (klôròs chórtos). 40E sentaram-se em grupos de cem e de cinquenta.  41E recebendo (labôn) os cinco pães (ártous) e os dois peixes, levantou os olhos (anablépsas) para o céu, bendisse (eulógêsen) e PARTIU  (katéklasen) os pães (ártous) e dava (edídou) aos discípulos d’Ele para que os pusessem diante deles, e os dois peixes repartiu para todos.  42E todos comeram e foram cheios,  43e recolheram doze cestas (kóphinoi)[14] cheias de pedaços de pão (klásmata) e dos peixes.  44Os que tinham comido os pães (ártous) eram cinco mil homens (ándres)» (Mc 6,30-44).

O episódio que acabámos de referir, retirado do Evangelho de Marcos, é conhecido como a «primeira “multiplicação dos pães”», realizada, neste caso, em mundo judaico. Mas vê-se bem que o título de «multiplicação» é inadequado, pois o que está aqui em causa não é, na verdade, uma multiplicação, mas uma divisão ou condivisão [15].

Neste episódio, salta à vista o comportamento compassivo, acolhedor, inclusivo e de partilha de Jesus em confronto com o comportamento insensível, não-acolhedor, exclusivista, frio, mercantilista, consumista, egoísta e egocêntrico destes discípulos de Jesus, que propõem a Jesus que mande as pessoas embora, para que cada um compre de comer para si mesmo (Mc 6,36). O diagrama a seguir mostra os dois comportamentos em confronto:

Jesus Discípulos
Misericórdia Acolher

Ensinar

Dar

Condividir

Insensibilidade Excluir

Mandar embora

Comprar

Cada um para si

A Escritura mostra que o perigo espreita sempre que se quebra o círculo da fraternidade, e alguém passa a viver, a comprar, a acumular para si mesmo, ou a querer salvar-se a si mesmo (heautô) (Ez 34,2; Lc 12,21; 23,35.37.39; Rm 14,7; 2 Cor 5,15)[16]:

«34,2Filho do Homem, profetiza contra os pastores de Israel. Profetiza e diz-lhes: “Contra os pastores, assim diz o Senhor YHWH: Ai (hôy) dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos (ro‘îm ’ôtam TM; poiménes heautoús LXX) ”» (Ez 34,2; cf. 34,8.10).

«12,21Assim acontece àquele que entesoura (ho têsaurízôn) para si mesmo (heautô), e não é rico para Deus» (Lc 12,21).

«23,35Também os chefes faziam pouco dele, dizendo: “Salvou outros; que se salve a si mesmo (heautón)» (Lc 23,35).

«23,36Também os soldados faziam pouco dele, e, aproximando-se, ofereciam-lhe azeite,  37e diziam: se tu és o Rei dos judeus, salva-te a ti mesmo (seautón)”» (Lc 23,36-37).

«23,39Um dos malfeitores suspensos blasfemava, dizendo-lhe: “Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo (seautón) e a nós”» (Lc 23,39).

«147Nenhum de nós para si mesmo (heautô) vive e nenhum para si mesmo (heautô) morre;  8se vivemos, é para o Senhor (tô Kyríô) que vivemos; se morremos, para o Senhor (tô Kyríô) morremos» (Rm 14,7).

«5,15E por todos (Cristo) morreu, para que os vivos não vivam para si mesmos (heautoîs), mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou» (2 Cor 5,15).

Sempre neste sentido, o inédito da Cruz é «obsceno», no sentido etimológico, fica fora da cena do nosso imaginário. Diz muito bem Silvano Fausti: «Um sistema de violência acaba sempre por repousar sobre uma alternativa: matar ou ser morto. Nós escolhemos preventivamente a primeira: cada um de nós faz o mal que pode, como profissão principal, de maneira a ser bem sucedido: o ladrão ou o banqueiro, o comerciante ou o operário, o médico ou o barbeiro, o patrão ou o criado, o padre ou o assaltante, o benfeitor ou o delinquente. Cada um, com os meios que tem, pensa primeiro em si» [17]. Na verdade, se cada um é inimigo do outro por definição, e se, para cada um, prioritária é a salvaguarda da ameaça do outro, as possibilidades do eu são vencer ou sucumbir, e, em caso extremo, matar ou ser morto [18]».

O que estes malfeitores, que somos nós, não sabemos, e, por causa deste nosso não saber, fazemos o mal, é que existe um Pai, a quem compete cuidar dos seus filhos. E se temos um Pai que cuida de nós, não nos compete ser inimigos, mas irmãos. E se somos filhos e irmãos, também não compete a cada um prover-se e salvar-se a si mesmo, pois é o nosso Pai que nos alimenta, nos veste e nos salva (Mt 6,26-34).

Aí está outra vez à vista o inédito da Cruz: Jesus não se salva a si mesmo, porque salvar-se a si mesmo é mau. Na verdade, é para se salvarem a si mesmos que os homens se odeiam e fazem guerra. Ora, Jesus quer salvar-nos a nós. E, para nos salvar a nós, perde-se a si mesmo. Exactamente o contrário do que fazemos nós, que perdemos os outros pensando que assim nos salvamos a nós mesmos [19].

 

3.5. DAR

A atitude das mãos abertas em relação a Deus, para tudo receber dele, deve agora manter-se em direcção aos nossos irmãos, sublinhando a atitude de dar. Eis também, a título ilustrativo, um breve repositório de textos:

«26,26Enquanto comiam, tendo recebido (labôn) Jesus o pão (árton) e tendo bendito (eulogêsas), partiu-o (éklasen) e, tendo-o DADO  (dídômi) aos discípulos, disse: “recebei (lábete) e comei; isto é o meu corpo”.27E tendo recebido (labôn) um cálice, e tendo dado graças (eucharistêsas),  DEU-lho (édoken), dizendo: “Bebei dele todos;  28 isto é o meu sangue da aliança, que é derramado por muitos para remissão dos pecados”. 29Digo-vos a vós: “desde agora não beberei deste fruto da videira até (héôs) àquele dia em que beberei convosco o vinho novo no Reino do meu Pai”» (Mt 26,26-29).

«24,30E aconteceu que, tendo-se reclinado à mesa (kataklithênai: aor. inf. pass. de kataklínô) com eles, recebeu (labôn: part. aor2 de lambánô) o pão, bendisse (eulógêsen: aor. de eulogéô), e partiu (klásas: part. aor. de kláô) e DAVA-lhes (epedídou: imperf. de epidídômi)» (Lc 24,30).

«16,20nutriste o teu povo com um alimento de ANJOS, / DESTE-lhe o PÃO do CÉU, / com mil sabores:/ 21manifestava a tua DOÇURA (glykýtês). // 26Assim os teus FILHOS QUERIDOS aprenderam, Senhor, / que NÃO É A PRODUÇÃO DE FRUTOS que alimenta os homens, / mas a tua palavra que a todos sustenta» (Sb 16,20-21.26).

Textos sublimes. Mostram, sobretudo o último, que não são as coisas que contam, mas a bondade, a doçura e a intencionalidade de Deus que as habita e as faz ser [20], e que os nossos gestos devem realizar no quotidiano essas maravilhas que celebramos ritualmente na Eucaristia. Note-se ainda, no texto de Lc 24,30, a tradução da vida toda de Jesus como aquele que dá sempre – continuando, portanto, a dar ainda hoje –, atitude expressa naquele imperfeito de duração (Dava-lhes) [21].

 

3.6. COMEMORAR / FAZER EM MEMÓRIA DE MIM

Seleccionámos um único texto, para nos ensinar esta importante atitude eucarística, que passa muitas vezes despercebida:

«11,23Eu recebi (parélabon) do Senhor o que também vos transmiti (parédôka): que o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue (paredídeto), recebeu (élaben) o pão (árton),  24e dando graças (eucharistêsas), partiu-o (éklasen) e disse: “Isto é o meu corpo, que é para vós; isto fazei para MEMÓRIA DE MIM” (toûto poieîte eis tên emên anámnêsin). 25Do mesmo modo fez com o cálice, depois da ceia, dizendo: “Este cálice é a nova Aliança no meu sangue; isto fazei, sempre que o beberdes, para MEMÓRIA DE MIM” (toûto poieîte… eis tên emên anámnêsin). 26Portanto, sempre que comerdes este pão e beberdes este cálice, estais a anunciar (kataggéllete) a morte do Senhor até que Ele venha (áchris hoû élthê)» (1 Cor 11,23-26).

Trata-se de «fazer memória» de uma pessoa concreta. Não consiste em qualquer procedimento mental ou psicológico tipicamente cartesiano ou do pensamento moderno, nem sequer da muito falada «reactualização», de acordo com a escola do mito ciclicamente encenado pelo rito, «a escola mítico-ritual» (The Myth and Ritual School), de A. Bentzen, S. H. Hooke e S. Mowinckel [22]. Trata-se do nosso envolvimento pessoal na proclamação da morte de Cristo com a nossa vida, e com estilos de vida concretos, que resultam da compreensão da nossa identidade de cristãos em plena comunhão com Cristo que dá a sua vida para salvar a nossa [23]. «Fazer memória» de Jesus e da sua morte na Cruz não quer dizer recordar o seu sofrimento, porque o sofrimento, em si mesmo, não redime, e, como ensina a experiência, pode mesmo fechar-nos na incompreensão; também não se trata de recordar a coragem com que enfrentou a paixão e a morte injustas (também os heróis gregos souberam enfrentar com dignidade a sua sorte adversa); trata-se, antes, de contemplar com a inteligência e o coração o milagre do amor que, naquela Cruz, se despregou [24].

 

3.7. ANUNCIAR

Voltamos ao grande texto de 1 Cor 11,23-26, para inculcar esta fundamental atitude Eucarística, também bastante negligenciada:

«11,23Eu recebi (parélabon) do Senhor o que também vos transmiti (parédôka): que o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue (paredídeto), recebeu (élaben) o pão (árton),   24e dando graças (eucharistêsas), partiu-o (éklasen) e disse: “Isto é o meu corpo, que é para vós; isto fazei para memória de mim” (toûto poieîte eis tên emên anámnêsin). 25Do mesmo modo fez com o cálice, depois da ceia, dizendo: “Este cálice é a nova Aliança no meu sangue; isto fazei, sempre que o beberdes, para memória de mim” (toûto poieîte… eis tên emên anámnêsin). 26Portanto, sempre que comerdes este pão e beberdes este cálice,  ESTAIS A ANUNCIAR  (kataggéllete) a morte do Senhor até que Ele venha (áchris hoû élthê)» (1 Cor 11,23-26).

A sintaxe e o encadeado das palavras mostra que a ênfase é colocada na «morte do Senhor», mas apresenta também a forma verbalkataggéllete como um presente contínuo, com o significado de «vós estais a anunciar». Esta forma de dizer, não só retoma da anterior atitude a nossa identificação com Cristo que dá a sua vida por nós, mediante estilos de vida concretos, como dá um passo em frente, reclamando de nós, como requer em muitas outras passagens o uso do verbo kataggéllô, o anúncio concreto do Evangelho (1 Cor 9,14), pregar a palavra de Deus (Act 13,5), pregar Cristo (Act 4,2; Fl 1,17-18). Este kataggéllô, além de reclamar a nossa radical identificação com Cristo que dá a sua vida por nós, convida-nos ainda a subir ao púlpito para proclamar o Evangelho de Cristo, alto e bom som [25]. Anunciar a morte de Jesus não tem qualquer sentido fúnebre, não é anunciar o sofrimento dorido ou a coragem do herói, tão-pouco a resignação ou, no pólo oposto, qualquer aspecto belicoso – do tipo in hoc signo vinces, de constantiniana memória, ou dos estandantes dos cruzados [26], ou qualquer outra manifestação de heroicidade por alguém e contra alguém, como vemos nos modernos kamikaze  –, mas sim a soberana novidade da dádiva da vida.

 

3.8. ESPERAR / ATÉ QUE ELE VENHA

Ainda o mesmo texto de 1 Cor 11,23-26 para vincar uma nova atitude da esperança cristã, também, por sinal, bastante esquecida:

«11,23Eu recebi (parélabon) do Senhor o que também vos transmiti (parédôka): que o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue (paredídeto), recebeu (élaben) o pão (árton),   24e dando graças (eucharistêsas), partiu-o (éklasen) e disse: “Isto é o meu corpo, que é para vós; isto fazei para memória de mim”. 25Do mesmo modo fez com o cálice, depois da ceia, dizendo: “Este cálice é a nova Aliança no meu sangue; isto fazei, sempre que o beberdes, para memória de mim”.26Portanto, sempre que comerdes este pão e beberdes este cálice, estais a anunciar (kataggéllô) a morte do Senhor ATÉ QUE Ele venha (áchris hoû élthê)» (1 Cor 11,23-26).

Este «até que» desenha claramente a grande atitude da esperança cristã, que deve informar todos os gestos do nosso quotidiano, mesmo os mais humildes, como os textos a seguir referidos documentam [27]:

«26,29ATÉ QUE  (héôs) venha o Reino de Deus» (Mt 26,29; Mc 14,25; Lc 22,16-18);

«13,33O Reino de Deus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e introduziu em sessenta quilos de farinha “ATÉ QUE” (héôs) tudo fique levedado» (Mt 13,33; Lc 13,21);

«15,4Qual o homem entre vós que tendo cem ovelhas e tendo perdido delas uma só, não deixa as noventa e nove no deserto e vai atrás da que perdeu  ATÉ  (héôs) a encontrar?» (Lc 15,4);

«15,8Ou qual a mulher que tendo dez dracmas, se perder uma só, não acende uma luz e varre a casa e procura atentamente  ATÉ  (héôs) a encontrar?» (Lc 15,8).

«10,8ESPERARÁS sete dias  ATÉ  (‘ad TM / héôs LXX) eu ir ter contigo para te fazer ver o que deves fazer» (1 Sm 10,8).

A esperança bíblica e cristã traduz-se numa fortíssima atitude eucarística, que torna o nosso rosto tenso para receber Alguém (apekdechómethaapò + ek + déchomai) (Rm 8,25), no sentido de quem vive de (ek) receber e de se receber (déchomai) de Alguém (1 Cor 1,7)[28], saindo de si (apó) para se orientar completamente para o Outro (Sl 130,5-6):

«130,5Eu espero (qiwwitî) YHWH, / nele espera (qiwwetah) a minha alma (naphshî), / e na sua palavra confio (hôhaltî). / 6A minha alma para o Senhor, / mais do que as sentinelas para a manhã, / as sentinelas para a manhã» (Sl 130,5-6).

Esta intensa prece individual assenta na forma  piel  (intensiva) do verbo  qawah  (2 vezes) – «esperar em» – e na forma  hiphil  (causativa) do verbo  yahal  – «esperança e confiança em nós provocada» por Deus, tensão nova e segura, caminho novo e seguro, aberto por Deus e trilhado por nós com a confiança que brota do amor [29].

A mesma atitude é expressa com apokaradokía:   apò  +  kára  +  dokía  (Rm 8,19; Fl 1,20)[30], termo cunhado por Paulo, e que traduz um rosto tenso para Deus, à espera de Deus. Tanta é a força da espera esperante que nos move, que é como se o nosso rosto (kára), de tão tendido (dokía) pela atitude da espera, quase se desligasse do pescoço (apó).

No mundo grego, esperança é elpís, e tem o significado de «previsão», «lícita expectativa», assente nos nossos calculismos e exercícios racionais [31]. Ao contrário, a esperança bíblica e cristã é sem medida, tem a ver com o nunca antes visto, aponta para além das leis da natureza, está em luta aberta contra as evidências. Trata-se de «esperar contra a esperança» (par’ elpída ep’ elpídi = contra a esperança na esperança)» (Rm 4,18) [32]. É assim que Paulo define a atitude de Abraão. No mundo hebraico, esperança é tiqwah [33], e deriva de qaw, que pode significar «fio», «fita métrica», «cordel para medir». Percebe-se que tem a ver com o «fio» que se estende para medir, até chegar à medida ainda sem medida e sem solução à vista, mas que tem solução recebida de Deus. É como o «fio», a «corda», o «arame» estendido entre a dor e a consolação esperada, entre a humanidade e Deus, fio tenso e seguro entre duas mãos, a de Deus e a nossa. A esperança bíblica e cristã consiste na dupla atitude de estarmos sempre à espera de Alguém, e de sabermos que Alguém espera por nós.

 

4. CÂNON, ANÁFORA, PREFÁCIO, ORAÇÃO EUCARÍSTICA

O termo «cânon», do hebraico nekonah [34], que significa «cana», «unidade de medida», é o mais antigo e venerando em uso no Ocidente, desde S. Gregório Magno (535-604) até ao II Concílio do Vaticano. Com o recurso a este termo, a tradição quis dizer que o louvor ou a bênção, que se segue à oração universal, não é apenas uma oração entre outras, mas a oração normativa e paradigmática, a oração por excelência [35]. Abre com: «Corações ao alto!» e «Demos Graças ao Senhor, nosso Deus»! Termina com a doxologia epiclética: «Por Cristo, com Cristo, em Cristo, / a vós, Deus Pai, todo-poderoso, / na unidade do Espírito Santo, / toda a honra e toda a glória, / agora e para sempre».

O termo «anáfora» impôs-se sobretudo nas Igrejas do Oriente, e implica um movimento ascensional, sair do «eu», até à alteridade divina, num puro movimento de louvor e reconhecimento [36]. Em tudo semelhante é o termo «prefácio», que remete para o latim  preafari  [= proclamar], que põe em evidência o aspecto público e solene do louvor que o presidente da assembleia formula oficialmente em nome de toda a assembleia celebrante [37].

A locução «oração eucarística» impôs-se sobretudo a partir do II Concílio do Vaticano [38], e traduz todos os significados já apresentados nos verbos analisados em 5.

Apraz-me terminar recorrendo a S. Paulo e à Anáfora III: «Na noite em que Ele ia ser entregue…» (1 Cor 11,23): assim começa a mais bela melodia que conheço!

Dá-nos, Senhor, um coração novo,
capaz de conjugar em cada dia
os verbos fundamentais da Eucaristia:
RECEBER, BENDIZER e AGRADECER,
PARTILHAR e DAR,
COMEMORAR, ANUNCIAR e ESPERAR.
 
Dá-nos, Senhor, um coração sensível e fraterno,
capaz de escutar
e de recomeçar.
 
Mantém-nos reunidos, Senhor,
à volta do pão e da palavra.
E ajuda-nos a discernir
os rumos a seguir
nos caminhos sinuosos deste tempo,
por Ti semeado e por Ti redimido.
 
Ensina-nos, Senhor,
a saber colher
o Teu amor
semeado e redentor.
 
Única fonte de sentido
que temos para oferecer
a este mundo
de que és o único Salvador. 

 

D. António Couto


[1] G. DEIANA, Levitico. Nuova versione, introduzione e commento, Milão, Paoline, 2005, p. 244-245 e 254; J. ELIAS, The Haggadah. Passover Haggadah / with translation and a new commentary based on Talmudic, Midrashic, and Rabbinic Sources, Nova Iorque, Mesorah Publications, 3.ª ed., 1980, p. 58.

[2] J. ELIAS, The Haggadah, p. 58.

[3] G. FERRARO, Il Paraclito, Cristo, il Padre nel quarto Vangelo, Cidade do Vaticano, Editrice Vaticana, 1996, p. 137-138.164; S. A. PANIMOLLE,Dio Padre nel Nuovo Testamento, in S. A. PANIMOLLE (ed.), Abbà-Padre(Dizionario di Spiritualità Biblico Patristica [= DSBP], 1), Roma, Borla, 1992, p. 132-133; C.-J. PINTO DE OLIVEIRA, Le verbe Didónai comme expression des rapports du Père et du Fils dans le IVe Évangile, in Revue des Sciences Philosophiques et Théologiques, 49, 1965, p. 81-104.

[4] M.-A. OUAKNIN, Les dix commandements, Paris, Seuil, 1999, p. 250-251.

[5]  M. HEIDEGGER, Beiträge zur Philosophie (Vom Ereignis), Frankfurt am Main, Klostermann, 1989. Veja-se a recente tradução italiana Contributi alla Filosofia (dall’Evento), Milão, Adelphi Edizioni, 2007.

[6] Expressão usada por E. LEVINAS, Ética e infinito. Diálogos com Philippe Nemo, Lisboa, Edições 70, 2000, p. 53.

[7] C. DI SANTE, Parole di luce. Segnavia dello Spirito, Villa Verucchio, Pazzini, 2005, p. 119-126.

[8] H. URS VON BALTHASAR, L’amour seul est digne de foi, Aubier, Montaigne, 1966, p. 130-131.

[9] C. DI SANTE, La Preghiera di Israele. Alle origini della liturgia cristiana, Casale Monferrato, Marietti, 1985, p. 44-45.

[10] C. DI SANTE, L’eucaristia terra di benedizione. Saggio di Antropologia Biblica, Bolonha, EDB, 1987, p. 13.

[11] C. DI SANTE, La preghiera eucaristica erede e interprete della berakah, in A. N. TERRIN (ed.), Scriptura crescit cum orante. Bibbia e liturgia – II, Pádua, Messagero, 1993, p. 131-150; C. DI SANTE,L’eucaristia terra di benedizione.

[12] C. DI SANTE, L’eucaristia terra di benedizione, p. 11.

[13] C. DI SANTE, L’eucaristia terra di benedizione, p. 27-29 e 176-202; C. DI SANTE, Parola e Terra. Per una teologia dell’ebraismo, Génova, Marietti, 1990, p. 48-58.

[14] De notar as doze cestas (kóphinoi) dos judeus (6,43; 8,19) em confronto com os sete cestos (spyrídes) dos pagãos (8,8.20). Diferença de tamanho e diferente simbologia numérica.

[15] Ver, a propósito, a inteligente reflexão de C. DI SANTE, L’Eucaristia terra di benedizione, p. 190-202; C. DI SANTE, Eucaristia. L’amore estremo, Villa Verucchio, Pazzini, 2005, p. 110-112; C. DI SANTE,Risponsabilità. L’io-per-l’altro, Roma – Fossano, Lavoro – Esperienze, 1996, p. 154-157; G. PERINI, Le domande di Gesù nel Vangelo di Marco. Approccio pragmatico: ricorrenze, uso e funzioni, Roma – Milão, Pontificio Seminario Lombardo – Glossa, 1998, p. 75.

[16] A. SERRA, La fuga e il ritorno del figlio prodigo (Lc 15,11-32). Parabola del peccato e della conversione d’Israele?, in R. FABRIS (ed.), La Parola di Dio cresceva (At 12,24), p. 238.

[17] S. FAUSTI, L’Idiozia. Con postilla sul giubileo, Milão, Àncora, 1999, p. 53.

[18] C. DI SANTE, La passione di Gesù, 136.

[19] S. FAUSTI, L’Idiozia, p. 57-58.

[20] A. WÉNIN, Pas seulement de pain… Violence et alliance dans la Bible, Paris, Cerf, 1998, p. 220-221.

[21] Ch. PERROT, Emmaüs ou la rencontre du Seigneur (Lc 24,13-35), in M. BENZERATH, A. SCHMID, J. GUILLET (eds.), La Pâque du Christ Mystère de Salut. Mélanges offerts au P. F.-X. Durrwel pour son 70eanniversaire avec un témoignage du jubilaire, Paris, Cerf, 1982, p. 164.

[22] A. C. THISELTON, The First Epistle to the Corinthians. A Commentary on the Greek Text, Grand Rapids – Cambridge – Carlisle, Eerdmans – Paternoster, 2000, p. 878-879, com outras referências.

[23] A. C. THISELTON, The First Epistle to the Corinthians, p. 880-882.

[24] C. DI SANTE, Eucaristia. L’amore estremo, p. 76.

[25] A. C. THISELTON, The First Epistle to the Corinthians, p. 886-887.

[26] G. BARBAGLIO, Il pensare dell’apostolo Paolo, Bolonha, EDB, 2004, p. 118.

[27] P. GRELOT, L’institution du «Repas du Seigneur». Pour une lecture des textes parallèles, in Esprit et Vie, 34-35-36, 1996, p. 478.

[28] B. MAGGIONI, Il Dio di Paolo. Il vangelo della grazia e della libertà, Milão, Paoline, 2.ª ed. actualizada e ampliada, 2008, p. 113.

[29] E. S. GERSTENBERGER, Psalms, Part 2, and Lamentations [«The Forms of the Old Testament Literature», Vol. XV], Grand Rapids – Cambrigde, Eerdmans, 2001, p. 356-357.

[30] O termo apokaradokía, de apo + kara + dokéô [= fora de + cara (rosto) + esperar], não aparece no grego antes do cristianismo, e Paulo é o único a usá-lo no NT (Rm 8,19; Fl 1,20), e mostra o gesto de quem alonga o pescoço para ver o que vai suceder e traduz bem as criaturas como pessoas. S. LÉGASSE, L’épître de Paul aux Romains, Paris, Cerf, 2002, p. 538, nota 24; D. MOO, The Epistle to the Romans, «The New International Commentary on the New Testament», Grand Rapids, Eerdmans, 1996, p. 513; J. A. FITZMYER, Lettera ai Romani. Commentario critico-teologico, Casale Monferrato, Piemme, 1999, p. 603-604.

[31] D. GAROTA, Tra caparra e compimento, in R. FABRIS, D. GAROTA, M. GUZZI, C. MILITELLO, M. TENACE, Salvati nella Speranza. Commento e guida alla lettura dell’Enciclica Spe Salvi di Benedetto XVI, Milão, Paoline, 2008, p. 142.

[32] D. GAROTA, Tra caparra e compimento, p. 142.

[33] D. GAROTA, Tra caparra e compimento, p. 142.

[34] «…Não falastes canonicamente (nekonah) de mim, como fez o meu    servo Job» (Jb 42,7).

[35] C. DI SANTE, L’Eucaristia terra di benedizione, p. 67-68; C. DI SANTE, Eucaristia. L’Amore estremo, p. 52-53.

[36] C. DI SANTE, Eucaristia. L’Amore estremo, p. 53-54.

[37] C. DI SANTE, Eucaristia. L’Amore estremo, p. 54.

[38] C. DI SANTE, Eucaristia. L’Amore estremo, p. 54-60.

 

 

 

 

 

PÃO PARTILHADO É PÃO ABENÇOADO!

 

Pão partilhado é pão abençoado!

Homilia na Solenidade do Corpo de Deus

1. Experiência humana

Sem dúvida que, de entre as diversas mercearias da nossa cozinha, o alimento mais popular entre nós é o pão. Um alimento descoberto há 6000 mil anos na Mesopotâmia e que, mais tarde, durante a civilização egípcia, começou a ser fermentado e consumido tal como nos dias de hoje. Daqui surgiram depois as primeiras padarias, criadas pelos hebreus na cidade de Jerusalém, e, com a chegada do Império Romano, este alimento difundiu-se por toda a Europa, graças à criação de escolas especializadas neste fabrico.

Contudo, só passados apenas 4000 anos de fabricação deste alimento, chegou alguém capaz de nos indicar o modo correcto de consumir este alimento, como escutávamos no evangelho de hoje. Ora, e se é verdade que a sabedoria popular nos ensina que “pão comido é pão esquecido”, Jesus, porém, opta por uma outra lógica: “pão partilhado é pão abençoado!” (isto é, aprovado por Deus).

2. Liturgia da Palavra/Reflexão Teológica

Neste sentido, o excerto da Primeira Carta aos Coríntios, que escutávamos na segunda leitura, apresenta-nos a narração mais antiga da instituição da eucaristia: o momento em que Jesus partilhou o pão e o vinho, pedindo aos seus discípulos que repetissem aquele gesto, fazendo assim o memorial da sua Paixão.

De facto, quando estamos reunidos à volta da mesma mesa (eucarística), partilhamos a mesma identidade e comemos sempre o mesmo pão, encontrando aí o fundamento da nossa unidade e vida fraterna. [1] E como foi belo este momento de unidade em que, simultaneamente em todo o mundo, fizemos uma adoração eucarística sincronizada com o Papa Francisco, contemplando Jesus, o verdadeiro Pão do Céu, porque acreditamos na sua presença real na hóstia consagrada.

Aliás, todas as nossas vidas encaixam nesta metáfora do pão, pois elas também são constantemente semeadas, regadas, crescidas, maturadas, ceifadas, amassadas e cozidas na trama do quotidiano. Mas se todas as vidas são pão, nem todas são eucaristia, ou seja: oferta radical de si aos outros, serviço e partilha. [2] E porquê? Porque “a eucaristia não se cinge ao mero acto celebrativo. E o gesto do lava-pés, evocado em Quinta-Feira Santa, revela o seu sentido missionário.” [3]

[A propósito, achei pertinente o belo testemunho da actual Ministra Assunção Cristas, que também esteve presente no nosso evento Átrio dos Gentios, e que, num recente programa televisivo, admitiu a necessidade de participar na eucaristia dominical para aí receber um pouco de tranquilidade e sentido na sua vida. [4] ]

3. Desafios Pastorais

O mundo espera dos cristãos esse fermento do amor, da partilha e da fé que marca a diferença em tantos ambientes hostis. Ao vivermos o Ano da Fé, não foi inadvertidamente que pedi a constituição de Grupos de Fé e a celebração paroquial ou interparoquial do Dia da Fé.

Trata-se de re-descobrir, em comum, o tesouro da fé e programar iniciativas, nunca de mera índole festivo, mas sempre suscitadoras de compromissos concretos, que matem a fome de alimento, justiça, liberdade, dignidade e paz de tanta gente.

Como nos adverte o cartaz do Ano Pastoral, espalhado pelas igrejas da Arquidiocese, entrar na Porta da Fé é, paradoxalmente, sair para o mundo, não para o condenar, mas para o purificar!

Para terminar, gostaria de partilhar um texto daquele que foi um autêntico mártir da Eucaristia, Bispo D. Oscar Romero: “Como é bonita a missa, sobretudo quando é celebrada numa catedral cheia como a nossa, aos domingos! Ou quando é celebrada humildemente nas capelas das povoações com pessoas cheias de fé, que sabem que Cristo, o rei da Glória, o sacerdote eterno, acolhe tudo o que Lhe trazemos da semana: penas, fracassos, esperanças, projectos, alegrias, tristezas e dores. Irmãos, quantas coisas cada um de vós leva para a sua missa dominical! O eterno Sacerdote acolhe-as nas suas mãos e, através do homem sacerdote que celebra, eleva-as ao Pai. É o fruto do trabalho de toda esta gente. Unida ao meu sacrifício presente neste altar, essa gente torna-se divina. Quando sai da Catedral continua a trabalhar, a lutar, a sofrer, mas sempre unida ao eterno Sacerdote que permanece presente na Eucaristia para que O saibam encontrar no próximo domingo.” [5]

Com base neste belo testemunho eucarístico, há aqui uma grande lição a reter: que, na eucaristia, também coloquemos sobre o altar o pão da nossa vida, tantas vezes cicatrizado pelas feridas da nossa pouca fé, para ser de novo amassado e revitalizado pelas mãos de Deus! E, uma vez alimentados pela sagrada comunhão, ficamos fortalecidos para contagiar o mundo com o fermento do amor, através do exercício da caridade.

Por isso, peço-vos apenas que não vos esqueçais deste slogan: “pão partilhado é, sem dúvida, um pão abençoado!”

+ Jorge Ortiga, A.P.

2 de Junho de 2013, Sé Catedral de Braga.

 

 


[1] Cf. Igreja Viva (Suplemento do Jornal «Diário do Minho», 30 de Maio de 2013), A Igreja alimenta-se da Palavra – Solenidade do Corpo de Deus, 6.

[2] Cf. José Tolentino Mendonça, Pai-Nosso que estais na Terra, 106-107.

[3] D. Jorge Ortiga, A ortopraxis eucarística. Homilia na Solenidade do Corpo de Deus – 2012.

[4] Cf. Programa “Alta Definição” (SIC), 2 de Março de 2013.

[5] Oscar Romero, A doce violência do amor, 44-45.

Solenidade da Santíssima Trindade – Ano C

 

Tema da Solenidade da Santíssima Trindade

A Solenidade  que hoje celebrámos  não é um convite  a decifrar  o mistério  que se esconde por detrás de “um Deus em três pessoas”; mas é um convite a contemplar o Deus que é amor, que é família, que é comunidade e que criou os homens para os fazer comungar nesse mistério de amor.

primeira leitura sugere-nos a contemplação do Deus criador. A sua bondade e o seu amor estão inscritos e manifestam-se aos homens na beleza e na harmonia das obras criadas (Jesus Cristo é “sabedoria” de Deus e o grande revelador do amor do Pai).

segunda leitura convida-nos a contemplar o Deus que nos ama e que, por isso, nos “justifica”,  de  forma  gratuita  e  incondicional.  É  através  do  Filho  que  os  dons  de Deus/Pai se derramam sobre nós e nos oferecem a vida em plenitude.

O  Evangelho  convoca-nos,  outra  vez,  para  contemplar  o  amor  do  Pai,  que  se manifesta na doação e na entrega do Filho e que continua a acompanhar a nossa caminhada histórica  através  do Espírito.  A meta  final  desta  “história  de amor”  é a nossa inserção plena na comunhão com o Deus/amor, com o Deus/família, com o Deus/comunidade.

 

LEITURA I

Prov 8,22-31

Eis o que diz a Sabedoria de Deus:
«O Senhor me criou como primícias da sua actividade,
antes das suas obras mais antigas.
Desde a eternidade fui formada,
desde o princípio, antes das origens da terra.
Antes de existirem os abismos e de brotarem as fontes das águas,
já eu tinha sido concebida.
Antes de se implantarem as montanhas e as colinas,
já eu tinha nascido;
ainda o Senhor não tinha feito a terra e os campos,
nem os primeiros elementos do mundo.
Quando Ele consolidava os céus,
eu estava presente;
Quando traçava sobre o abismo a linha do horizonte,
quando condensava as nuvens nas alturas,
quando fortalecia as fontes dos abismos,
quando impunha ao mar os seus limites
para que as águas não ultrapassassem o seu termo,
quando lançava os fundamentos da terra,
eu estava a seu lado como arquitecto,
cheia de júbilo, dia após dia,
deleitando-me continuamente na sua presença.
Deleitava-me sobre a face da terra
e as minhas delícias eram estar com os filhos dos homens».
 
 
 AMBIENTE

O  Livro  dos  Provérbios  apresenta  uma  colecção  de  “ditos”,  de  “sentenças”,  de “máximas”, de “provérbios” (“mashal”), onde se cristaliza o resultado da reflexão e da experiência (“sabedoria”) dos “sábios” antigos (israelitas e alguns não israelitas), empenhados em definir as regras para viver bem, para ter êxito, para ser feliz. Alguns dos materiais aí apresentados podem ser do séc. X a. C.; outros, no entanto, são bem mais recentes.

O texto que nos é hoje proposto faz parte de um bloco de “instruções” e “advertências” que  vai de 1,8  a 9,6.  Trata-se  da  parte  mais  recente  do  “Livro  dos Provérbios” (segundo os especialistas, não pode ser anterior ao séc.  IV ou III a. C.).

O capítulo  8 do “Livro  dos Provérbios”  (do qual é retirado  o texto  que hoje nos é proposto) apresenta-nos um discurso posto na boca da própria “sabedoria”, como se ela fosse  uma  pessoa: trata-se  de  um  artifício  literário,  através  do  qual  o  autor pretende dar força e intensidade dramática  ao convite que ele lança no sentido de acolher e amar a “sabedoria”. Na primeira parte desse discurso (vers. 1-11), o autor apresenta o “púlpito” de onde a “sabedoria” vai discursar (o cume das montanhas, a encruzilhada dos caminhos, as entradas das cidades, os umbrais das casas), os destinatários da mensagem (todos os homens) e apela à escuta das palavras que ela vai pronunciar; na segunda parte (vers. 12-21), o autor apresenta as “credenciais” da “sabedoria”  (ela possui  a ciência,  a reflexão,  o conselho,  a equidade,  a força) e o prémio reservado àqueles que a acolhem; na terceira parte (vers. 8,22-31) – que é a que nos interessa directamente – o autor reflecte sobre a origem da sabedoria e a sua função no plano de Deus.

MENSAGEM

Em primeiro lugar, diz-se que a “sabedoria” tem origem em Deus. O autor do texto põe na boca da “sabedoria” a forma hebraica “qânâny” (“gerou-me”) para expressar a responsabilidade de Deus na origem da “sabedoria” (vers. 22).

Afirma também que ela é a primeira das obras de Deus. Antes de serem lançadas as estruturas do cosmos, a “sabedoria” já existia (vers. 24-29); mais, ela estava lá, tendo um papel interveniente  na criação:  no vers. 30, a “sabedoria”  é apresentada  como “arquitecto” (“amon”), isto é, como assistente activo de Deus na obra criadora (embora certas  versões antigas  leiam  como  “amun”  – “criança”  – o que  sugere  a ideia  da “sabedoria” como uma “criança” feliz que brinca e se deleita no meio da obra criada). Em terceiro lugar, a “sabedoria” afirma que o seu interesse e deleite é estar “junto dos filhos dos homens” (vers. 31): ela dirige-se aos homens e o seu objectivo é “ser para os homens”. Ela desempenha, portanto, um papel em favor dos homens.

Qual é esse papel? A perícopa está dominada por três palavras, que aparecem no princípio, no meio  e no  fim:  “Jahwéh”  (vers.  22),  “sabedoria”  (“eu”  – vers.  30)  e “homens” (vers. 31). Esta “coluna vertebral” revela, desde já, o objectivo do autor do texto: ao dizer que a “sabedoria” tem origem em Jahwéh, está em íntima relação com Deus e se destina aos homens, está a sugerir-se que ela tem a capacidade de pôr os homens em relação e contacto com Deus. Através dessa realidade criada que a “sabedoria” viu nascer, ela espevita a inteligência dos homens, leva-os a Deus, atrai- os para Deus. A “sabedoria”, presente desde sempre na criação, revela aos homens a grandeza e o amor do Deus criador.

A tradição judaica acabará por identificar esta “sabedoria” com a Torah (cf. Ba 3,38-4,1; Pirkê Rabbí Eliezer, III, 2). Por outro lado, os autores neo-testamentários, conhecedores dos livros sapienciais,  atribuirão  a Jesus algumas das características que este texto atribui à “sabedoria”: Paulo chama a Jesus “sabedoria” e “sabedoria de Deus” (cf. 1 Cor 1,24.30); considera também que Jesus, como a “sabedoria” de Prov 8, existe antes de todas as coisas e desempenhou um papel privilegiado na criação do mundo (cf. Col 1,16-17); por sua vez, o “prólogo” do Quarto Evangelho atribui ao “Lógos”/Jesus os traços da “sabedoria” criadora de Prov 8 (diz que Jesus é anterior à criação – cf. Jo 1,1) e que Ele deu existência a todas as obras criadas – cf. Jo 1,3).

Os Padres da Igreja verão nesta “sabedoria”, pré-criada e anterior à restante obra de Deus,traços de Jesus Cristo ou do Espírito Santo.

ACTUALIZAÇÃO

Ter em conta, na reflexão, os seguintes desenvolvimentos:

♦  A referência ao Deus que tudo criou para nós com sabedoria faz-nos pensar num Pai providente e cuidadoso, que tem um projecto bem definido para os homens e para o mundo. Contemplar  a criação é descobrir, na beleza e na harmonia das obras criadas, esse Pai cheio de bondade e de amor. Somos capazes de nos sentirmos “provocados” pela criação de forma que, através dela, descubramos  o amor e a bondade de Deus?

♦  Olhando para a obra de Deus, aprendemos que o homem não é um concorrente de Deus, nem Deus um adversário do homem. Ao homem compete reconhecer o poder e a grandeza de Deus e entregar-se,  confiante, nas mãos desse Pai que tudo criou com cuidado e que tudo nos entrega com amor. Entregamo-nos  nas mãos d’Ele, não como adversários, mas como crianças que confiam incondicionalmente no seu pai?

♦O desenvolvimento desordenado e a exploração descontrolada dos recursos da natureza põem em causa a harmonia desse “mundo bom” que Deus criou e que nos confiou. Temos o direito de pôr em causa, por egoísmo, a obra de Deus?

♦  A contemplação da obra criada leva ao espanto e ao louvor. Somos capazes de nos extasiarmos diante das coisas que Deus nos oferece e de deixarmos que a nossa admiração se derrame em louvor e agradecimento?

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 8

Refrão: Como sois grande em toda a terra, Senhor, nosso Deus!

Quando contemplo os céus, obra das vossas mãos,
a lua e as estrelas que lá colocastes,
que é o homem para que Vos lembreis dele,
o filho do homem para dele Vos ocupardes?
 
Fizestes dele quase um ser divino,
de honra e glória o coroastes;
destes-lhes poder sobre a obra das vossas mãos,
tudo submetestes a seus pés:
 
Ovelhas e bois, todos os rebanhos,
e até os animais selvagens,
as aves do céu e os peixes do mar,
tudo o que se move nos oceanos.
 
  

LEITURA II

Rom 5,1-5

Irmãos:
Tendo sido justificados pela fé,
estamos em paz com Deus,
por Nosso Senhor Jesus Cristo,
pelo qual temos acesso, na fé,
a esta graça em que permanecemos e nos gloriamos,
apoiados na esperança da glória de Deus.
Mais ainda, gloriamo-nos nas nossas tribulações,
porque sabemos que a tribulação produz a constância,
a constância a virtude sólida,
a virtude sólida a esperança.
Ora a esperança não engana,
porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações
pelo Espírito Santo que nos foi dado.
 
   

AMBIENTE

Quando Paulo escreve aos romanos, está a terminar a sua terceira viagem missionária e prepara-se para partir para Jerusalém. Tinha terminado a sua missão no oriente (cf. Rom 15,19-20) e queria levar o Evangelho ao ocidente. Sobretudo, Paulo aproveita a carta para contactar a comunidade de Roma e apresentar aos romanos e a todos os crentes os principais problemas que o ocupavam (entre os quais sobressaía a questão da  unidade –um problema bem  presente  na  comunidade  de  Roma,  afectada  por alguma   dificuldade de  relacionamento  entre  judeo-cristãos  e  pagano-cristãos). Estamos no ano 57 ou 58.

Paulo aproveita, então, para sublinhar que o Evangelho é a força que congrega e que salva todo o crente, sem distinção de judeu, grego ou romano. Depois de notar que todos os homens vivem mergulhados no pecado (cf. Rom 1,18-3,20), Paulo acentua que é a “justiça de Deus” que dá vida a todos sem distinção (cf. Rom 3,1-5,11). Neste texto, que a segunda leitura de hoje nos propõe, Paulo refere-se à acção de Deus, por Cristo e pelo Espírito, no sentido de “justificar” todo o homem.

 

MENSAGEM

Paulo parte da ideia de que todos os crentes – judeus, gregos e romanos – foram justificados pela fé.  Que significa isto?

Na  linguagem  bíblica,  a justiça  é,  mais  do  que  um  conceito  jurídico,  um  conceito relacional. Define a fidelidade a si próprio, à sua maneira de ser e aos compromissos assumidos no âmbito de uma relação. Ora, se Jahwéh Se manifestou na história do seu Povo como o Deus da bondade, da misericórdia e do amor, dizer que Deus é justo não significa dizer que Ele aplica os mecanismos legais quando o homem infringe as regras;  significa, sim, que a bondade,  a misericórdia,  o amor, próprios  do “ser” de Deus, se manifestam em todas as circunstâncias, mesmo quando o homem não foi correcto no seu proceder. Paulo, ao falar do homem justificado, está a falar do homem pecador que, por exclusiva iniciativa do amor e da misericórdia de Deus, recebe um veredicto  de graça  que o salva  do pecado  e lhe dá, de modo  totalmente  gratuito, acesso  à  salvação.  Ao  homem  é  pedido  somente que acolha,  com  humildade  e confiança, uma graça que não depende dos seus méritos e que se entregue completamente  nas mãos de Deus. Este homem, objecto da graça de Deus, é uma nova criatura (cf. Gal 6,15): é o homem ressuscitado para a vida nova (cf. Rom 6,3-11),  que vive do Espírito (cf. Rom 8,9.14), que é filho de Deus e co-herdeiro com Cristo  (cf. Rom 8,17; Gal 4,6-7).

Quais os frutos que resultam deste acesso à salvação que é um dom de Deus? Em primeiro lugar,  a paz  (vers. 1). Esta paz não deve ser entendida em sentido psicológico (tranquilidade, serenidade), mas no sentido teológico semita de relação positiva com Deus e, portanto, de plenitude de bens, já que Deus é a fonte de todo o bem.

Em  segundo  lugar,  a esperança  (vers.  2-4).

Trata-se  desse  dom  que  nos  permite superarar dificuldades e a dureza da caminhada, apontando a um futuro glorioso de vida em plenitude. Não se trata de alimentar um optimismo fácil e irresponsável, que permita  a evasão  do presente;  trata-se  de encontrar um sentido  novo  para  a vida presente, na certeza de que as forças da morte não terão a última palavra e que as forças da vida triunfarão.

Em  terceiro  lugar,   o  amor  de  Deus  ao  homem   (vers.   5-8).

O  cristão  é, fundamentalmente,  alguém a quem Deus ama. Como prova desse amor que age em nós através do Espírito, está Jesus de Nazaré a quem Deus “entregou à morte por nós quando ainda éramos pecadores”.

Tudo aquilo que enche a vida do crente, que lhe dá sentido, é um dom de Deus Pai que, através de Jesus, demonstra o seu amor e que, pelo Espírito, derrama continuamente esse amor sobre nós.

 ACTUALIZAÇÃO

Para a reflexão da Palavra, considerar as seguintes coordenadas:
 

♦  Na Solenidade da Santíssima Trindade, somos convidados a contemplar o amor de um Deus que nunca desistiu dos homens e que sempre soube encontrar formas de vir ao nosso encontro, de fazer caminho connosco. Apesar de os homens insistirem, tantas vezes, no egoísmo, no orgulho, na auto-suficiência,  no pecado, Deus  continua  a amar  e a fazer-nos  propostas  de  vida.  Trata-se  de  um  amor gratuito e incondicional, que se traduz em dons não merecidos, mas que, uma vez acolhidos, nos conduzem à felicidade plena.

♦  A vinda de Jesus Cristo ao encontro dos homens é a expressão plena do amor de Deus e o sinal de que Deus não nos abandonou  nem esqueceu,  mas quis até partilhar  connosco  a precariedade  e a fragilidade  da nossa existência  para nos mostrar como nos tornarmos “filhos de Deus” e herdeiros da vida em plenitude.

♦  A  presença  do  Espírito  acentua  no  nosso  tempo  –  o tempo  da  Igreja  – essa realidade de um Deus que continua presente e actuante, derramando o seu amor ao  longo  do  caminho  que  dia  a  dia  vamos  percorrendo  e  impelindo-nos  à renovação, à transformação, até chegarmos à vida plena do Homem Novo.

♦  Está em moda uma certa atitude de indiferença face a Deus, ao seu amor e às suas  propostas.  Em  geral,  os  homens  de  hoje  preocupam-se  mais  com  os resultados  da  última  jornada  do  campeonato  de  futebol,  ou  com  as  últimas peripécias da “telenovela das nove” do que com Deus ou com o seu amor. Não será tempo de redescobrirmos o Deus que nos ama, de reconhecermos o seu empenho em conduzir-nos rumo à felicidade plena e de aceitarmos essa proposta de caminho que Ele nos faz?

 

ALELUIA

cf. Ap 1,8

Aleluia. Aleluia.

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo,
ao Deus que é, que era e que há-de vir.
 
 

EVANGELHO

Jo 16,12-15

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Tenho ainda muitas coisas para vos dizer,
mas não as podeis compreender agora.
Quando vier o Espírito da verdade,
Ele vos guiará para a verdade plena;
porque não falará de Si mesmo,
mas dirá tudo o que tiver ouvido
e vos anunciará o que está para vir.
Ele Me glorificará,
porque receberá do que é meu
e vo-lo anunciará.
Tudo o que o Pai tem é meu.
Por isso vos disse
que Ele receberá do que é meu
e vo-lo anunciará».
 
 
AMBIENTE
Estamos no contexto da última ceia e do discurso de despedida que antecede a “hora” de Jesus.
Depois  de  constituir  a  comunidade  do  amor  e  do  serviço  (cf.  Jo  13,1-17)  e  de apresentar o mandamento fundamental que deve dar corpo à vida dessa comunidade (cf. Jo 15,9-17), Jesus vai definir a missão da comunidade  no mundo: testemunhar acerca de Jesus, com a ajuda do Espírito (cf. Jo 15,26-27).
Jesus  avisa,  no entanto,  que  o caminho  do testemunho  deparará  com  a oposição decididada religião estabelecida e dos poderes de morte que dominam o mundo (cf. Jo 16,1-4a); mas os discípulos contarão com o Espírito: Ele ajudá-los-á e dar-lhes-á segurança  no  meio da perseguição  (cf.  Jo  16,8-11).  De  resto,  a comunidade  em marcha pela história encontrar-se-á muitas vezes diante de circunstâncias históricas novas,  diante  das  quais  terá  de  tomar decisões  práticas:  também  aí  se  verá  a presença do Espírito, que ajudará a responder aos novos desafios e a interpretar as circunstâncias à luz da mensagem de Jesus (cf. Jo 16,12-15).
MENSAGEM
O tema fundamental  desta leitura tem, portanto, a ver com a ajuda do Espírito aos discípulos em caminhada pelo mundo.
Jesus  começa  por dizer  aos discípulos  que há muitas  outras  coisas  que eles  não podem compreender de momento (vers. 12). Será o “Espírito da verdade” que guiará os  discípulos  para  a  verdade,  que  comunicará  tudo  o  que  ouvir  a  Jesus  e  que interpretará o que está para vir (vers. 13). Isto significa que Jesus não revelou tudo o que havia para revelar ou que a sua proposta de salvação/libertação ficou incompleta?
De forma nenhuma. As palavras de Jesus acerca da acção do Espírito referem-se ao tempo da existência cristã no mundo, ao tempo que vai desde a morte de Jesus até à “parusia”. Como será possível aos discípulos, no tempo da Igreja, continuar a captar, na fé, a Palavra  de Jesus e a guiar a vida por ela? A resposta  de Jesus é: “pelo Espírito da verdade, que fará com que a minha proposta continue a ecoar todos os dias  na  vida  da  comunidade  e no  coração  de  cada  crente; além  disso,  o Espírito ensinar-vos-á  a entender  a nova ordem que se segue à cruz e à ressurreição  e a discernir, a partir das circunstâncias concretas diante das quais a vida vos vai colocar, como proceder para continuar fiel às minhas propostas”. O Espírito não apresentará uma doutrina nova, mas fará com que a Palavra de Jesus seja sempre a referência da comunidade em caminhada pelo mundo e que essa comunidade saiba aplicar a cada circunstância nova que a vida apresentar, a proposta de Jesus.
Aonde  irá  o  Espírito  buscar  essa  verdade  que  vai  transmitir  continuamente  aosdiscípulos? A resposta é: ao próprio Jesus (“receberá do que é meu e vo-lo anunciará” – vers. 14). Assim, Jesus continuará em comunhão, em sintonia com os discípulos, comunicando-lhes a sua vida e o seu amor. Tal é a função do Espírito: realizar a comunhão entre Jesus e os discípulos em marcha pela história.
A última expressão deste texto (vers. 15) sublinha a comunhão existente entre o Pai e o Filho. Essa comunhão atesta a unidade entre o plano salvador do Pai, proposto nas palavras de Jesus e tornado realidade na vida da Igreja, por acção do Espírito.
 
 
ACTUALIZAÇÃO
 
Considerar os seguintes desenvolvimentos:
 

♦  O Espírito  aparece,  aqui,  como  presença  divina  na  caminhada  da comunidade cristã, como essa realidade que potencia a fidelidade dinâmica dos crentes às propostas que o Pai, através de Jesus, fez aos homens. A Igreja de que fazemos parte tem sabido estar atenta, na sua caminhada histórica, às interpelações do Espírito? Ela tem procurado, com a ajuda do Espírito, captar a Palavra eterna de Jesus e deixar-se guiar por ela? Tem sabido, com a ajuda do Espírito, continuar em  comunhão  com  Jesus?  Tem-se  esforçado,  com  a  ajuda do Espírito,  por responder às interpelações  da história e por actualizar, face aos novos desafios que o mundo lhe coloca, a proposta de Jesus?

♦  Sobretudo, somos convidados a contemplar o mistério de um Deus que é amor e que, através  do  plano  de  salvação/libertação  do  Pai,  tornado  realidade  viva  e humana em Jesus, e continuado pelo Espírito presente na caminhada dos crentes, nos conduz para a vida plena do amor e da felicidade total – a vida do Homem Novo, a vida da comunhão e do amor em plenitude.

♦  A celebração da Solenidade da Trindade não pode ser a tentativa de compreender e decifrar essa estranha charada de “um em três”. Mas deve ser, sobretudo, a contemplação de um Deus que é amor e que é, portanto, comunidade. Dizer que há três pessoas em Deus, como há três pessoas numa família – pai, mãe e filho – é afirmar três deuses e é negar a fé; inversamente, dizer que o Pai, o Filho e o Espírito são três formas de apresentar o mesmo Deus, como três fotografias do mesmo rosto, é negar a distinção das três pessoas e é, também, negar a fé. A natureza divina de um Deus amor, de um Deus família, de um Deus comunidade, expressa-se  na nossa  linguagem  imperfeita  das  três  pessoas.  O Deus família torna-se trindade de pessoas distintas, porém unidas. Chegados aqui, temos de parar, porque a nossa linguagem finita e humana não consegue “dizer” o mistério de Deus.

♦  As nossas comunidades  cristãs são, realmente,  a expressão  desse Deus que é amor  e que  é  comunidade  –  onde  a  unidade  significa  amor  verdadeiro,  que respeita a identidade e a especificidade do outro, numa experiência verdadeira de amor, de partilha, de família, de comunidade?

Dehonianos

TRINDADE:  

DEUS DÁ-SE A CONHECER

 

1. Na Triadologia do Novo Testamento, preparada pelo Antigo Testamento, Deus, enquanto dádiva suprema fundante, é o Pai. Mas a dádiva suprema do Pai, infinita riqueza, constitui o Filho, infinita pobreza, que tudo recebe. Mas, ao receber tudo, infinita recepção, o Filho volta a dar tudo numa infinita doação sem defesa e sem limites. E esta comunhão-comunicação-vida-amor de si a si, circular, vertiginosa, tranquila e imperecível, constitui o Espírito Santo, a Pessoa-Dom incriado (segundo a bela expressão de João Paulo II), o Dom que vem de si mesmo a si mesmo, Dom de si a si, o Dom absolutamente um com ele mesmo, o Dom idêntico ao Ser.

2. Esta feliz definição, se bem compreendida e explorada, pode trazer importantes consequências práticas. A nossa experiência ensina-nos como nós somos sensíveis ao Dom, como o nosso coração se abre diante do Dom. O Dom tem uma força própria. Não é uma força exterior que se imponha desde fora. É uma força interior, persuasiva, suave e calorosa, que move o coração desde dentro, quebrando toda a dureza e resistência. O Dom é uma terceira realidade entre mim e o meu amigo. O meu amigo quer dar-se a mim por amor. Mas não pode deixar de ser ele, para passar a ser eu. Eu quero dar-me ao meu amigo por amor, mas não posso deixar de ser eu, para passar a ser ele. Aliás, se esta fusão pudesse acontecer, punha termo ao amor existente entre mim e o meu amigo. O Dom provém da alteridade e garante a alteridade. Provém da intencionalidade da união entre mim e o meu amigo, mas garante também a nossa alteridade. O Dom é o meu amigo dando-se a si mesmo a mim por amor e sou eu recebendo o meu amigo por amor, princípio e termo da doação. Em Deus, o Pai dá-se ao Filho por amor – princípio da doação –, mas não perde a sua dimensão paterna, tornando-se Filho; do mesmo modo que o Filho, acolhendo o dom da paternidade por amor – termo da doação –, não anula a sua determinação filial, tornando-se Pai. Uma acção requer sempre a outra para se completar, estando as duas pessoas reciprocamente implicadas. Entre mim e o meu amigo, o Dom é um objecto, mas quanto mais intensamente é Dom, isto é, quanto mais significa a nossa doação íntima e pessoal, menos é um objecto materialmente determinado. Por isso eu gasto tanto tempo até encontrar o Presente que quero oferecer ao meu amigo, um objecto que signifique a nossa intimidade. Em Deus, entre o Pai e o Filho, o Dom é o Espírito, Pessoa divina subsistente, distinto do Pai e do Filho, dos quais procede, mas distinto também do acto da doação, de que é o efeito e a significação. Se ele fosse o acto da doação, não constituiria uma pessoa subsistente, pois não existiria como tal; seria a soma de duas pessoas, não uma terceira.

3. O Espírito, Pessoa-Dom incriado, é o protagonista da missão e de toda a vida eclesial. É, porém, um protagonista silencioso como o Dom é silencioso. Silencioso, mas eficaz. A sua acção calorosa processa-se, não com palavras sensíveis que afectam os órgãos da audição (Romanos 8,26), mas na interioridade da inteligência da fé num «gemido sem palavras» (stenagmòs alálêtos) (Romanos 8,26), avivando as brasas do desejo da Palavra primeira e criadora no coração de cada homem, debaixo de qualquer céu. É que a acção calorosa do Espírito-Dom não se limita a certos países, línguas, povos, etnias, religiões, e nem sequer tem um alcance limitado como é limitado o alcance daquele que usa as cordas vocais (ou mesmo os meios de comunicação social) para se fazer ouvir. Ele está para além de todas essas barreiras, pois actua directamente na inteligência e no coração de cada homem. E em termos de inteligência e de coração, em termos de humanidade e intimidade, são iguais o chinês, o português e o inglês, o católico, o hinduísta e o muçulmano…

 4. A grande teologia bíblica está atravessada por este Mistério (mystêrion) do Amor de Deus – que é Deus vindo ao mesmo tempo de si mesmo e a si mesmo –, Mistério escondido eternamente em Deus (Romanos 16,25; Efésios 3,9; Colossenses 1,26), mas já presente e actuante na história dos homens desde a Criação (João 1,3; Colossenses 1,16) e agora dado a conhecer (gnôrízô) em Cristo (Romanos 16,25-26; Efésios 1,9; 3,3.10; Colossenses 1,27), tornando-se, portanto, Mistério conhecido (!), Revelação divina gratuita – doação do Dom e dicção do Dito –, totalmente entregue aos homens, para a viverem totalmente. Este «para nós» do Mistério do Amor de Deus é o Propósito (próthesis) eterno divino (Romanos 8,28; Efésios 1,11), a Vontade (thélêma) eterna divina (Gálatas 1,4; Efésios 1,5.9.11) – em Deus, pensamento, expressão, comunicação, efeito, Alfa e Omega, são simultâneos e coeternos – de elevar a nossa humanidade a viver por graça ao nível da sua divindade (2 Pedro 1,4; 1 João 3,2). Se, na grande teologia bíblica, o homem confessa que Deus se revela, confessa então que Deus é o acto de se revelar. E, então, o Mistério de Deus é a sua revelação, e a sua revelação é o seu Mistério. Nesse sentido, Deus vem a si mesmo como vem ao mundo. E quando Deus se comunica e se manifesta ao mundo, trata-se verdadeiramente de uma comunicação de si a si e de uma manifestação de si a si. Donde: comunicação-manifestação de Deus ao mundo = comunicação-manifestação de Deus a si mesmo.

5. No centro deste Mistério do Amor de Deus em acção na história dos homens está a Missão do Filho de Deus com o Espírito Santo, que é o Mistério de Cristo (Efésios 3,4), que é Cristo em nós (Colossenses 1,27) e nós em Cristo (Romanos 8,28-30). Assumindo a nossa condição humana por puro Dom de Amor total, concebido e nascido na sua/ nossa humanidade por Amor, com o nome «Jesus», não da carne e do sangue, mas do Espírito Santo (Mateus 1,18; Lucas 1,34-35; cf. João 3,6), tendo recebido na sua / nossa humanidade a plenitude do Espírito Santo no Baptismo do Jordão (Lucas 4,1; cf. João 1,32-33), e tendo-o recebido de novo, na sua / nossa humanidade Crucificada, Ressuscitada e Glorificada (Actos 2,32-33; 1 Coríntios 15,45.49) na Morte / Ressurreição que é o Baptismo consumado (Lucas 12,49-50), Ele pode agora, enquanto Homem verdadeiro divinizado, tornado na sua / nossa Humanidade «Espírito vivificante» (pneûma zôopoioûn) (1 Coríntios 15,45), dar o Espírito Santo aos outros homens seus irmãos, vivos e mortos (João 19,30 e 34; 20,22; Actos 2,32-33; 1 Coríntios 15,49).

6. No decurso da sua vida terrena ainda não podia dar o Espírito, embora o possuísse em plenitude. Anota cuidadosamente o Evangelista que «não havia ainda Espírito, porque Jesus ainda não fora glorificado (João 7,39). Na verdade, na Economia divina, «Economia da carne», como dizem os Padres, porque a carne decaiu, a carne devia levantar-se, e onde a carne tinha sido vencida, a carne devia vencer (S.to Ireneu). Foi por isso necessário que o Verbo Deus  assumisse a condição do Adão antigo «numa carne semelhante à do pecado» (Romanos 8,3), «feito pecado por causa de nós» (2 Coríntios 5,21), «tornado maldição por causa de nós» (Gálatas 3,13), sujeito, enfim, à morte. Sem esta, não se verificava a assunção completa da nossa condição (Hebreus 2,9.14a.17). Assumiu, portanto, as consequências do nosso pecado, sem se tornar, no entanto, cúmplice do pecado (Hebreus 4,15; 1 Pedro 2,22). Impunha-se que fosse sem pecado, para poder enfrentar a morte, não como quem lhe é naturalmente devedor, mas num acto de pura generosidade. Não bastava ser sem pecado. Ao ser sem pecado era necessário juntar uma atitude de puro amor subversivo (Hebreus 2,10.14b.18). No decurso da sua vida terrena, nem a sua união com Deus, nem a sua união com os homens, tinham atingido a sua perfeição: enquanto homem terreno, Jesus não estava perfeitamente unido a Deus na glória: era necessária uma transformação radical da sua humanidade; mas tão-pouco a sua solidariedade com os homens estava completa. É só após ter efectuado esta assimilação total, que a «carne do Verbo Deus» opera agora aquela que é a máxima operação divina: dar o Espírito Santo, vivificar-nos com o contacto do seu corpo pneumatóforo. De facto, é só no fim da sua vida terrena, no extremo da sua incarnação levada até ao extremo – que comporta a sua morte e a sua ressurreição, a glorificação da sua humanidade –, que podemos proclamar a identidade (de ideîn) de Jesus como Filho Deus, obra do Espírito em nós. Por isso, só quando Jesus desaparecer na Glória, o Espírito pode vir para nós. Todas as palavras relativas ao Paráclito, o atestam à sua maneira. Todas falam do envio do Espírito Santo Paráclito no futuro (João 14,16 e 26; 15,26; 16,13-15). O contexto da quarta referência é particularmente elucidativo: «se eu não for, o Paráclito não virá para vós; mas se eu for, eu enviá-lo-ei para vós» (João 16,7). A razão não está em que Jesus, que está corporalmente presente, deva desaparecer para que a sua «espiritualidade» possa ser tornada presente, mas em que uma exegese do Verbo feito carne, na sua totalidade, «na verdade toda» (en tê alêtheía pásê) (Jo 16,13), não pode realizar-se senão a partir do momento em que Ele é proferido até ao fim, o que comporta a sua morte e ressurreição.

7. O Espírito Santo é assim a Dádiva de Deus (hê dôreà toû theoû) (Actos 2,38; 8,20; 10,45; 11,17; Hebreus 6,4; cf. Lucas 11,9.13) que vem a nós sempre da única Fonte inexaurível que é a Humanidade Crucificada, Ressuscitada e Glorificada do Senhor. É só aí e daí, mediante adesão sacramental ao seu Corpo pneumatóforo – «quem adere (kolláô) ao Senhor torna-se com Ele único Espírito» (1 Coríntios 6,17) –, que recebemos a nossa verdadeira identidade, a filiação divina (hyiothesía) (Romanos 8,15-16; Gálatas 4,5), e ousamos rezar «Abba, Pai!» (Gálatas 4,4-6; Romanos 8,15.26-27) e proclamar «Senhor é Jesus!» (1 Coríntios 12,3; Filipenses 2,11). É verdade que «o Espírito sopra onde quer» (João 3,8), em qualquer povo, debaixo de qualquer céu, avivando as brasas do desejo inscrito na nossa carne humana, mas vem a nós somente através da Humanidade Crucificada, Ressuscitada e Glorificada do Senhor Jesus, e é para lá que remete e reconduz sempre, desvendando e saciando o nosso desejo do Filho. O Espírito Santo não Se revela – «não falará de si mesmo» (João 16,13) –, mas revela sempre na Humanidade Crucificada, Ressuscitada e Glorificada do Senhor Jesus o Filho de Deus. E só o Filho de Deus, concebido e nascido na sua / nossa Humanidade – Jesus –, Crucificado, Ressuscitado e Glorificado na sua / nossa Humanidade, dador do Espírito Santo e por Ele revelado, pode revelar o Pai. Tudo vem do Pai, mediante o Filho, no Espírito; tudo volta ao Pai, mediante o Filho, no Espírito.

8. O Espírito Santo Deus, Dádiva total do Pai e do Filho, Divina Comunhão (2 Coríntios 13,13; Filipenses 2,1), e que brota para nós da única Fonte sacramental da Humanidade Crucificada, Ressuscitada e Glorificada do Senhor, está operante na nossa humanidade e na nossa história. Vindo (João 15,26; 16,7.8.13), Ensinando (João 14,26; 1 João 2,20.27) e Recordando (João 14,26), Conduzindo (João 16,13), Recebendo (João 16,14.15) e Anunciando (João 16,13.14.15), Testemunhando (João 15,26), Dando (1 Coríntios 12,7 e 8) e Edificando (1 Coríntios 14,3.4.5.12.26), Vivificando (João 6,63; Romanos 8,10; 2 Coríntios 3,6), Ele (ekeînos) é o verdadeiro protagonista da mesma Missão Filial Baptismal do Senhor que a Igreja Fiel Baptizada e Confirmada deve prosseguir, para dela viver e para dela fazer viver, como ficou documentado de forma paradigmática na vida das comunidades cristãs nascentes, tal como atestam as Cartas de S. Paulo e o inteiro Livro dos Actos dos Apóstolos.

9. Vindo, Recebendo, Ensinando, Recordando, Conduzindo, Testemunhando, Dando, Edificando. O Espírito Paráclito recebe (lambánô) do que é de Jesus (João 16,14 e 15), do mesmo modo que Jesus recebeu do Pai (João 10,18; Apocalipse 2,28), que lhe deu tudo o que tem e é. Do mesmo modo, o ensinamento (didachê) do Espírito Paráclito é o mesmo que Jesus fez e que recebeu do Pai, mas vem depois do de Jesus (João 14,26), e processa-se, ao contrário do de Jesus, não com palavras sensíveis que tocam os órgãos da audição de um público determinado, mas na interioridade da inteligência da fé, avivando as brasas do desejo da Palavra primeira e criadora no coração de cada homem, debaixo de qualquer céu. Este ensinamento interior do Espírito é comparado à unção de óleo (chrísma) que penetra lentamente, como diz o Apóstolo: «Vós recebestes a unção (chrísma) que vem do Santo e todos conheceis (oídate)» (1 João 2,20); ou então: «a unção (chrísma) dele vos ensina (didáskei) acerca de todas as coisas» (1 João 2,27). Cumpre-se assim a profecia de Jeremias 31,31-34 (38,31-34 LXX) que refere que «todos me conhecerão (eidêsousin)» com uma ciência que não resulta da instrução, mas que é incutida por Deus no coração. Do mesmo modo, a acção de recordar (hypomimnêskô) (João 14,26) não tem nada de comum com a memória banal de um acontecimento ordinário, mas implica uma compreensão nova dos factos e palavras de Jesus e de todo o Antigo Testamento. Jesus tinha dito que reconstruiria o Templo? Na verdade, ele falava do seu próprio corpo (João 2,22). Jesus tinha entrado em Jerusalém montado num jumento? Na verdade, realizava a profecia de Zacarias 9,9 (João 12,16). Nos dois casos, é dito que os discípulos «se recordaram» (mimnêskomai). O Espírito dá-lhes a inteligência da vida e da paixão de Jesus e de todo o Antigo Testamento. Nesta acção de recordar, o passado é reclamado, não para suscitar em nós o orgulho pela obra feita, mas para salientar o excesso do dom, deixando-nos em estado de recitação que provoca em nós a decisão de nos empenharmos no presente para respondermos agora ao dom que sempre nos precede. É assim que o Espírito actua na memória viva da Igreja: provocando a recitação da criação e avivando o desejo da filiação.

10. «Ó abismo de riqueza e sabedoria e conhecimento de Deus! Como são insondáveis os seus juízos e impenetráveis os seus caminhos! (…) Porque d’Ele, por Ele e para Ele são todas as coisas. A Ele a glória pelos séculos, ámen!» (Romanos 11,33 e 36).

D. António Couto

O Canto na Liturgia

Antífona de Entrada

Bendita seja a Santíssima Trindade – F. Valente (BML 115-116)

Bendito seja Deus Pai – C. Silva (OC, p. 49| CEC II, p. 161| NCT 209)

Bendito seja Deus Pai – M. Carneiro (PDA, p. 31-33| RBP, p. 197-199)

Pai, Filho, Espírito Santo – A. Cartageno (CEC II, p. 162)

 

Salmo Responsorial

Como sois grande em toda a terra, Senhor, nosso Deus! (Sl 8) – M. Luís

 

Aclamação ao Evangelho

Aleluia – A. Cartageno (XXXIV ENPL, p. 73)

 

Antífona da Comunhão

Porque somos filhos de Deus – A. Cartageno (XXXIV ENPL, p. 74| EVR, p. 28)

Porque somos filhos de Deus – M. Carneiro (PDA, p. 40-42| RBP, p. 200-202)

Porque somos filhos de Deus – P. Miranda

Recebestes um Espírito – C. Silva (OC, p. 23| CEC II, p. 163)

 

Outros cânticos para a Solenidade da Santíssima Trindade

Aleluia! Glória a Deus – Az. Oliveira (NRMS 107| IC, p. 386)

Ao Senhor do Universo – F. Silva (NRMS 8-II| IC, p. 353| NCT 281)

Com os benditos anjos – M. Faria (NRMS 11-12 [II]| IC, p. 354)

Com a bênção do Pai – J. Santos (NRMS 38| IC, p. 353)

Glória ao Pai que nos criou – C. Silva (OC, p. 128)

Glória a Ti, Jesus Cristo – C. Silva (OC, p. 127)

Nos esplendores da luz – Az. Oliveira (NRMS 146)

Santíssima Trindade – F. Santos (BML 152)

Ao Deus do Universo – J. Santos (NRMS 1-II)

Solenidade de Pentecostes – Tempo Pascal – Ano C

Tema da Solenidade de Pentecostes – Missa do Dia

O tema deste domingo é, evidentemente, o Espírito Santo. Dom de Deus a todos os crentes, o Espírito dá vida, renova, transforma, constrói comunidade e faz nascer o Homem Novo.

O Evangelho apresenta-nos a comunidade cristã, reunida à volta de Jesus ressuscitado. Para João, esta comunidade passa a ser uma comunidade viva, recriada, nova, a partir do dom do Espírito. É o Espírito que permite aos crentes superar o medo e as limitações e dar testemunho no mundo desse amor que Jesus viveu até às últimas consequências.

Na primeira leitura, Lucas sugere que o Espírito é a lei nova que orienta a caminhada dos crentes. É Ele que cria a nova comunidade do Povo de Deus, que faz com que os homens sejam capazes de ultrapassar as suas diferenças e comunicar, que une numa mesma comunidade de amor, povos de todas as raças e culturas.

Na segunda leitura, Paulo avisa que o Espírito é a fonte de onde brota a vida da comunidade cristã. É Ele que concede os dons que enriquecem a comunidade e que fomenta a unidade de todos os membros; por isso, esses dons não podem ser usados para benefício pessoal, mas devem ser postos ao serviço de todos.

 

LEITURA I – Act 2,1-11

Leitura dos Actos dos Apóstolos

Quando chegou o dia de Pentecostes,
os Apóstolos estavam todos reunidos no mesmo lugar.
Subitamente, fez-se ouvir, vindo do Céu,
um rumor semelhante a forte rajada de vento,
que encheu toda a casa onde se encontravam.
Viram então aparecer uma espécie de línguas de fogo,
que se iam dividindo,
e poisou uma sobre cada um deles.
Todos ficaram cheios do Espírito Santo
e começaram a falar outras línguas,
conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem.
Residiam em Jerusalém judeus piedosos,
procedentes de todas as nações que há debaixo do céu.
Ao ouvir aquele ruído, a multidão reuniu-se
e ficou muito admirada,
pois cada qual os ouvia falar na sua própria língua.
Atónitos e maravilhados, diziam:
«Não são todos galileus os que estão a falar?
Então, como é que os ouve cada um de nós
falar na sua própria língua?
Partos, medos, elamitas,
habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia,
do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília,
do Egipto e das regiões da Líbia, vizinha de Cirene,
colonos de Roma, tanto judeus como prosélitos,
cretenses e árabes,
ouvimo-los proclamar nas nossas línguas
as maravilhas de Deus».

 

AMBIENTE

Já vimos, no comentário aos textos dos domingos anteriores, que o livro dos “Actos” não pretende ser uma reportagem jornalística de acontecimentos históricos, mas sim ajudar os cristãos – desiludidos porque o “Reino” não chega – a redescobrir o seu papel e a tomar consciência do compromisso que assumiram, no dia do seu Baptismo.

No que diz respeito ao texto que nos é proposto e que descreve os acontecimentos do dia do Pentecostes, não existem dúvidas de que é uma construção artificial, criada por Lucas com uma clara intenção teológica. Para apresentar a sua catequese, Lucas recorre às imagens, aos símbolos, à linguagem poética das metáforas. Resta-nos descodificar os símbolos para chegarmos à interpelação essencial que a catequese primitiva, pela palavra de Lucas, nos deixa. Uma interpretação literal deste relato seria, portanto, uma boa forma de passarmos ao lado do essencial da mensagem; far-nos-ia reparar na roupagem exterior, no folclore, e ignorar o fundamental. Ora, o interesse fundamental do autor é apresentar a Igreja como a comunidade que nasce de Jesus, que é assistida pelo Espírito e que é chamada a testemunhar aos homens o projecto libertador do Pai.

MENSAGEM

Antes de mais, Lucas coloca a experiência do Espírito no dia de Pentecostes. O Pentecostes era uma festa judaica, celebrada cinquenta dias após a Páscoa. Originariamente, era uma festa agrícola, na qual se agradecia a Deus a colheita da cevada e do trigo; mas, no séc. I, tornou-se a festa histórica que celebrava a aliança, o dom da Lei no Sinai e a constituição do Povo de Deus. Ao situar neste dia o dom do Espírito, Lucas sugere que o Espírito é a lei da nova aliança (pois é Ele que, no tempo da Igreja, dinamiza a vida dos crentes) e que, por Ele, se constitui a nova comunidade do Povo de Deus – a comunidade messiânica, que viverá da lei inscrita, pelo Espírito, no coração de cada discípulo (cf. Ez 36,26-28).

Vem depois a narrativa da manifestação do Espírito (Act 2,2-4). O Espírito é apresentado como “a força de Deus”, através de dois símbolos: o vento de tempestade e o fogo. São os símbolos da revelação de Deus no Sinai, quando Deus deu ao Povo a Lei e constituiu Israel como Povo de Deus (cf. Ex 19,16.18; Dt 4,36). Estes símbolos evocam a força irresistível de Deus, que vem ao encontro do homem, comunica com o homem e que, dando ao homem o Espírito, constitui a comunidade de Deus.

O Espírito (força de Deus) é apresentado em forma de língua de fogo. A língua não é somente a expressão da identidade cultural de um grupo humano, mas é também a maneira de comunicar, de estabelecer laços duradouros entre as pessoas, de criar comunidade. “Falar outras línguas” é criar relações, é a possibilidade de superar o gueto, o egoísmo, a divisão, o racismo, a marginalização… Aqui, temos o reverso de Babel (cf. Gn 11,1-9): lá, os homens escolheram o orgulho, a ambição desmedida que conduziu à separação e ao desentendimento; aqui, regressa-se à unidade, à relação, à construção de uma comunidade capaz do diálogo, do entendimento, da comunicação. É o surgimento de uma humanidade unida, não pela força, mas pela partilha da mesma experiência interior, fonte de liberdade, de comunhão, de amor. A comunidade messiânica é a comunidade onde a acção de Deus (pelo Espírito) modifica profundamente as relações humanas, levando à partilha, à relação, ao amor.

É neste enquadramento que devemos entender os efeitos da manifestação do Espírito (cf. Act 2,5-13): todos “os ouviam proclamar na sua própria língua as maravilhas de Deus”. O elenco dos povos convocados e unidos pelo Espírito atinge representantes de todo o mundo antigo, desde a Mesopotâmia, passando por Canaan, pela Ásia Menor, pelo norte de África, até Roma: a todos deve chegar a proposta libertadora de Jesus, que faz de todos os povos uma comunidade de amor e de partilha. A comunidade de Jesus é assim capacitada pelo Espírito para criar a nova humanidade, a anti-Babel. A possibilidade de ouvir na própria língua “as maravilhas de Deus” outra coisa não é do que a comunicação do Evangelho, que irá gerar uma comunidade universal. Sem deixarem a sua cultura, as suas diferenças, todos os povos escutarão a proposta de Jesus e terão a possibilidade de integrar a comunidade da salvação, onde se fala a mesma língua e onde todos poderão experimentar esse amor e essa comunhão que tornam povos tão diferentes, irmãos. O essencial passa a ser a experiência do amor que, no respeito pela liberdade e pelas diferenças, deve unir todas as nações da terra.

O Pentecostes dos “Actos” é, podemos dizê-lo, a página programática da Igreja e anuncia aquilo que será o resultado da acção das “testemunhas” de Jesus: a humanidade nova, a anti-Babel, nascida da acção do Espírito, onde todos serão capazes de comunicar e de se relacionar como irmãos, porque o Espírito reside no coração de todos como lei suprema, como fonte de amor e de liberdade.

 

ACTUALIZAÇÃO

Para a reflexão, considerar as seguintes indicações:

  • Temos, neste texto, os elementos essenciais que definem a Igreja: uma comunidade de irmãos reunidos por causa de Jesus, animada pelo Espírito do Senhor ressuscitado e que testemunha na história o projecto libertador de Jesus. Desse testemunho resulta a comunidade universal da salvação, que vive no amor e na partilha, apesar das diferenças culturais e étnicas. A Igreja de que fazemos parte é uma comunidade de irmãos que se amam, apesar das diferenças? Está reunida por causa de Jesus e à volta de Jesus? Tem consciência de que o Espírito está presente e que a anima? Testemunha, de forma efectiva e coerente, a proposta libertadora que Jesus deixou?
  • Nunca será demais realçar o papel do Espírito na tomada de consciência da identidade e da missão da Igreja… Antes do Pentecostes, tínhamos apenas um grupo fechado dentro de quatro paredes, incapaz de superar o medo e de arriscar, sem a iniciativa nem a coragem do testemunho; depois do Pentecostes, temos uma comunidade unida, que ultrapassa as suas limitações humanas e se assume como comunidade de amor e de liberdade. Temos consciência de que é o Espírito que nos renova, que nos orienta e que nos anima? Damos suficiente espaço à acção do Espírito, em nós e nas nossas comunidades?
  • Para se tornar cristão, ninguém deve ser espoliado da própria cultura: nem os africanos, nem os europeus, nem os sul-americanos, nem os negros, nem os brancos; mas todos são convidados, com as suas diferenças, a acolher esse projecto libertador de Deus, que faz os homens deixarem de viver de costas voltadas, para viverem no amor. A Igreja de que fazemos parte é esse espaço de liberdade e de fraternidade? Nela todos encontram lugar e são acolhidos com amor e com respeito – mesmo os de outras raças, mesmo aqueles de quem não gostamos, mesmo aqueles que não fazem parte do nosso círculo, mesmo aqueles que a sociedade marginaliza e afasta?

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 103 (104)

Refrão: Mandai, Senhor, o vosso Espírito e renovai a terra.

Bendiz, ó minha alma, o Senhor.
Senhor, meu Deus, como sois grande!
Como são grandes, Senhor, as vossas obras!
A terra está cheia das vossas criaturas.

Se lhes tirais o alento, morrem
e voltam ao pó donde vieram.
Se mandais o vosso espírito, retomam a vida
e renovais a face da terra.

Glória a Deus para sempre!
Rejubile o Senhor nas suas obras.
Grato Lhe seja o meu canto
e eu terei alegria no Senhor.

 

LEITURA II – 1 Cor 12,3b-7.12-13

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios

Irmãos:
Ninguém pode dizer: «Jesus é o Senhor»,
a não ser pela acção do Espírito Santo.
De facto, há diversidade de dons espirituais,
mas o Espírito é o mesmo.
Há diversidade de ministérios,
mas o Senhor é o mesmo.
Há diversas operações,
mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos.
Em cada um se manifestam os dons do Espírito
para o bem comum.
Assim como o corpo é um só e tem muitos membros,
e todos os membros, apesar de numerosos,
constituem um só corpo,
assim também sucede com Cristo.
Na verdade, todos nós
– judeus e gregos, escravos e homens livres –
fomos baptizados num só Espírito,
para constituirmos um só Corpo.
E a todos nos foi dado a beber um único Espírito.

 

AMBIENTE

A comunidade cristã de Corinto era viva e fervorosa, mas não era uma comunidade exemplar no que diz respeito à vivência do amor e da fraternidade: os partidos, as divisões, as contendas e rivalidades, perturbavam a comunhão e constituíam um contra-testemunho. As questões à volta dos “carismas” (dons especiais concedidos pelo Espírito a determinadas pessoas ou grupos para proveito de todos) faziam-se sentir com especial acuidade: os detentores desses dons carismáticos consideravam-se os “escolhidos” de Deus, apresentavam-se como “iluminados” e assumiam com frequência atitudes de autoritarismo e de prepotência que não favorecia a fraternidade e a liberdade; por outro lado, os que não tinham sido dotados destes dons eram desprezados e desclassificados, considerados quase como “cristãos de segunda”, sem vez nem voz na comunidade.

Paulo não pode ignorar esta situação. Na Primeira Carta aos Coríntios, ele corrige, admoesta, dá conselhos, mostra a incoerência destes comportamentos, incompatíveis com o Evangelho. No texto que nos é proposto, Paulo aborda a questão dos “carismas”.

MENSAGEM

Em primeiro lugar, Paulo acha que é preciso saber ajuizar da validade dos dons carismáticos, para que não se fale em “carismas” a propósito de comportamentos que pretendem apenas garantir os privilégios de certas figuras. Segundo Paulo, o verdadeiro “carisma” é o que leva a confessar que “Jesus é o Senhor” (pois não pode haver oposição entre Cristo e o Espírito) e que é útil para o bem da comunidade.

De resto, é preciso que os membros da comunidade tenham consciência de que, apesar da diversidade de dons espirituais, é o mesmo Espírito que actua em todos; que apesar da diversidade de funções, é o mesmo Senhor Jesus que está presente em todos; que apesar da diversidade de acções, é o mesmo Deus que age em todos. Não há, portanto, “cristãos de primeira” e “cristãos de segunda”. O que é importante é que os dons do Espírito resultem no bem de todos e sejam usados – não para melhorar a própria posição ou o próprio “ego” – mas para o bem de toda a comunidade.

Paulo conclui o seu raciocínio comparando a comunidade cristã a um “corpo” com muitos membros. Apesar da diversidade de membros e de funções, o “corpo” é um só. Em todos os membros circula a mesma vida, pois todos foram baptizados num só Espírito e “beberam” um único Espírito.

O Espírito é, pois, apresentado como Aquele que alimenta e que dá vida ao “corpo de Cristo”; dessa forma, Ele fomenta a coesão, dinamiza a fraternidade e é o responsável pela unidade desses diversos membros que formam a comunidade.

 

ACTUALIZAÇÃO

Para reflectir e actualizar a Palavra, considerar os seguintes elementos: 

  • Temos todos consciência de que somos membros de um único “corpo” – o corpo de Cristo – e é o mesmo Espírito que nos alimenta, embora desempenhemos funções diversas (não mais dignas ou mais importantes, mas diversas). No entanto, encontramos, com alguma frequência, cristãos com uma consciência viva da sua superioridade e da sua situação “à parte” na comunidade (seja em razão da função que desempenham, seja em razão das suas “qualidades” humanas), que gostam de mandar e de se fazerem notar. Às vezes, vêem-se atitudes de prepotência e de autoritarismo por parte daqueles que se consideram depositários de dons especiais; às vezes, a Igreja continua a dar a impressão – mesmo após o Vaticano II – de ser uma pirâmide no topo da qual há uma elite que preside e toma as decisões e em cuja base está o rebanho silencioso, cuja função é obedecer. Isto faz algum sentido, à luz da doutrina que Paulo expõe?
  • Os “dons” que recebemos não podem gerar conflitos e divisões, mas devem servir para o bem comum e para reforçar a vivência comunitária. As nossas comunidades são espaços de partilha fraterna, ou são campos de batalha onde se digladiam interesses próprios, atitudes egoístas, tentativas de afirmação pessoal?
  • É preciso ter consciência da presença do Espírito: é Ele que alimenta, que dá vida, que anima, que distribui os dons conforme as necessidades; é Ele que conduz as comunidades na sua marcha pela história. Ele foi distribuído a todos os crentes e reside na totalidade da comunidade. Temos consciência da presença do Espírito e procuramos ouvir a sua voz e perceber as suas indicações? Temos consciência de que, pelo facto de desempenharmos esta ou aquela função, não somos as únicas vozes autorizadas a falar em nome do Espírito?

 

 

SEQUÊNCIA DO PENTECOSTES

Vinde, ó santo Espírito,
vinde, Amor ardente,
acendei na terra
vossa luz fulgente.

Vinde, Pai dos pobres:
na dor e aflições,
vinde encher de gozo
nossos corações.

Benfeitor supremo
em todo o momento,
habitando em nós
sois o nosso alento.

Descanso na luta
e na paz encanto,
no calor sois brisa,
conforto no pranto.

Luz de santidade,
que no Céu ardeis,
abrasai as almas
dos vossos fiéis.

Sem a vossa força
e favor clemente,
nada há no homem
que seja inocente.

Lavai nossas manchas,
a aridez regai,
sarai os enfermos
e a todos salvai.

Abrandai durezas
para os caminhantes,
animai os tristes,
guiai os errantes.

Vossos sete dons
concedei à alma
do que em Vós confia:

Virtude na vida,
amparo na morte,
no Céu alegria.

 

 

ALELUIA

Aleluia. Aleluia.

Vinde, Espírito Santo,
enchei os corações dos vossos fiéis
e acendei neles o fogo do vosso amor.

 

EVANGELHO – Jo 20,19-23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana,
estando fechadas as portas da casa
onde os discípulos se encontravam,
com medo dos judeus,
veio Jesus, colocou Se no meio deles e disse lhes:
«A paz esteja convosco».
Dito isto, mostrou lhes as mãos e o lado.
Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
Jesus disse lhes de novo:
«A paz esteja convosco.
Assim como o Pai Me enviou,
também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou sobre eles e disse lhes:
«Recebei o Espírito Santo:
àqueles a quem perdoardes os pecados ser lhes ão perdoados;
e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».

 

AMBIENTE

Este texto (lido já no segundo domingo da Páscoa) situa-nos no cenáculo, no próprio dia da ressurreição. Apresenta-nos a comunidade da nova aliança, nascida da acção criadora e vivificadora do messias. No entanto, esta comunidade ainda não se encontrou com Cristo ressuscitado e ainda não tomou consciência das implicações da ressurreição. É uma comunidade fechada, insegura, com medo… Necessita de fazer a experiência do Espírito; só depois, estará preparada para assumir a sua missão no mundo e dar testemunho do projecto libertador de Jesus.

Nos “Actos”, Lucas narra a descida do Espírito sobre os discípulos no dia do Pentecostes, cinquenta dias após a Páscoa (sem dúvida por razões teológicas e para fazer coincidir a descida do Espírito com a festa judaica do Pentecostes, a festa do dom da Lei e da constituição do Povo de Deus); mas João situa no anoitecer do dia de Páscoa a recepção do Espírito pelos discípulos.

MENSAGEM

João começa por pôr em relevo a situação da comunidade. O “anoitecer”, as “portas fechadas”, o “medo” (vers. 19a): é o quadro que reproduz a situação de uma comunidade desamparada no meio de um ambiente hostil e, portanto, desorientada e insegura. É uma comunidade que perdeu as suas referências e a sua identidade e que não sabe, agora, a que se agarrar.

Entretanto, Jesus aparece “no meio deles” (vers. 19b). João indica desta forma que os discípulos, fazendo a experiência do encontro com Jesus ressuscitado, redescobriram o seu centro, o seu ponto de referência, a coordenada fundamental à volta do qual a comunidade se constrói e toma consciência da sua identidade. A comunidade cristã só existe de forma consistente se está centrada em Jesus ressuscitado.

Jesus começa por saudá-los, desejando-lhes “a paz” (“shalom”, em hebraico). A “paz” é um dom messiânico; mas, neste contexto, significa sobretudo a transmissão da serenidade, da tranquilidade, da confiança, que permitirão aos discípulos superar o medo e a insegurança: a partir de agora, nem o sofrimento, nem a morte, nem a hostilidade do mundo poderão derrotar os discípulos, porque Jesus ressuscitado está “no meio deles”.

Em seguida, Jesus “mostrou-lhes as mãos e o lado”. São os “sinais” que evocam a entrega de Jesus, o amor total expresso na cruz. É nesses “sinais” (na entrega da vida, no amor oferecido até à última gota de sangue) que os discípulos reconhecem Jesus. O facto de esses “sinais” permanecerem no ressuscitado indica que Jesus será, de forma permanente, o Messias cujo amor se derramará sobre os discípulos e cuja entrega alimentará a comunidade.

Vem depois a comunicação do Espírito. O gesto de Jesus de soprar sobre os discípulos reproduz o gesto de Deus ao comunicar a vida ao homem de argila (João utiliza, aqui, precisamente o mesmo verbo do texto grego de Gn 2,7). Com o “sopro” de Deus de Gn 2,7, o homem tornou-se um “ser vivente”; com este “sopro”, Jesus transmite aos discípulos a vida nova e faz nascer o Homem Novo. Agora, os discípulos possuem a vida em plenitude e estão capacitados – como Jesus – para fazerem da sua vida um dom de amor aos homens. Animados pelo Espírito, eles formam a comunidade da nova aliança e são chamados a testemunhar – com gestos e com palavras – o amor de Jesus.

Finalmente, Jesus explicita qual a missão dos discípulos (ver. 23): a eliminação do pecado. As palavras de Jesus não significam que os discípulos possam ou não – conforme os seus interesses ou a sua disposição – perdoar os pecados. Significam apenas que os discípulos são chamados a testemunhar no mundo essa vida que o Pai quer oferecer a todos os homens. Quem aceitar essa proposta será integrado na comunidade de Jesus; quem não a aceitar continuará a percorrer caminhos de egoísmo e de morte, isto é, de pecado. A comunidade, animada pelo Espírito, será a mediadora desta oferta de salvação.

 

ACTUALIZAÇÃO

Para a reflexão, considerar as seguintes coordenadas:

  • A comunidade cristã só existe de forma consistente, se está centrada em Jesus. Jesus é a sua identidade e a sua razão de ser. É n’Ele que superamos os nossos medos, as nossas incertezas, as nossas limitações, para partirmos à aventura de testemunhar a vida nova do Homem Novo. As nossas comunidades são, antes de mais, comunidades que se organizam e estruturam à volta de Jesus? Jesus é o nosso modelo de referência? É com Ele que nos identificamos, ou é num qualquer ídolo de pés de barro que procuramos a nossa identidade? Se Ele é o centro, a referência fundamental, têm algum sentido as discussões acerca de coisas não essenciais, que às vezes dividem os crentes? 
  • Identificar-se como cristão significa dar testemunho diante do mundo dos “sinais” que definem Jesus: a vida dada, o amor partilhado. É esse o testemunho que damos? Os homens do nosso tempo, olhando para cada cristão ou para cada comunidade cristã, podem dizer que encontram e reconhecem os “sinais” do amor de Jesus?
  • As comunidades construídas à volta de Jesus são animadas pelo Espírito. O Espírito é esse sopro de vida que transforma o barro inerte numa imagem de Deus, que transforma o egoísmo em amor partilhado, que transforma o orgulho em serviço simples e humilde… É Ele que nos faz vencer os medos, superar as cobardias e fracassos, derrotar o cepticismo e a desilusão, reencontrar a orientação, readquirir a audácia profética, testemunhar o amor, sonhar com um mundo novo. É preciso ter consciência da presença contínua do Espírito em nós e nas nossas comunidades e estar atentos aos seus apelos, às suas indicações, aos seus questionamentos.

 

Dehonianos

 

 

 

O ESPÍRITO SANTO E NÓS

1. O Evangelho da Solenidade deste Dia Grande de Pentecostes (João 20,19-23) mostra-nos os discípulos de Jesus fechados num certo lugar, por medo dos judeus. O Ressuscitado, vida nova e modo novo de estar presente, que nada nem ninguém pode reter ou impedir, nem as portas fechadas daquele lugar fechado, Vem e fica de pé no MEIO deles, o lugar da Presidência, e por duas vezes os saúda: «A paz convosco!». Mostra-lhes as mãos e o lado, sinais que identificam o Ressuscitado com o Crucificado, e vincula os seus discípulos à sua missão: «Como o Pai me enviou (apéstalken: perf. de apostéllô), também Eu vos mando ir (pémpô)». O envio d’Ele está no tempo perfeito (é para sempre): a sua missão começou e continua. Não terminou nem termina. Ele continua em missão. A nossa missão está no presente. O presente da nossa missão aparece, portanto, vinculado e agrafado à missão de Jesus, e não faz sentido sem ela e sem Ele. Nós implicados e imbricados n’Ele e na missão d’Ele, sabendo nós que Ele está connosco todos os dias (cf. Mateus 28,20). «Como o Pai me enviou, também Eu vos mando ir». Este como define o estilo da nossa missão de acordo com o estilo e a missão de Jesus. É-nos dito ainda que os discípulos ficaram cheios de alegria (o medo foi dissipado) ao verem (idóntes: part. aorde horáô) o Senhor. Tal como o Outro Discípulo, também eles vêm com um olhar histórico (tempo aoristo) a identidade do Senhor. O sopro de Jesus sobre eles é o sopro criador (emphysáô), com o Espírito, para a missão frágil-forte do Perdão, Jubileu Divino do Espírito. Este sopro, este alento, só aparece neste lugar em todo o Novo Testamento! Mas não é difícil construir uma bela ponte para Génesis 2,7, para o sopro ou alento (naphah TM /emphysáô LXX) criador de Deus no rosto do homem.

2. O texto luminoso do Livro dos Actos dos Apóstolos 2,1-11 mostra-nos todos reunidos no Cenáculo e varridos ou recriados pelo vento impetuoso do Espírito, que varre as teias de aranha que ainda nos tolhem, e pelo seu fogo que nos purifica. O Espírito senta-se (kathízô) – bela e significativa expressão! – sobre nós, novo Mestre que orienta e guia a nossa vida. Verificação: eis-nos a falar outras línguas, dádiva do Espírito! Milagre: cessam incompreensões, divisões, invejas, ciúmes, ódios e indiferenças, e nasce um mundo novo de comunhão e comunicação plenas, pois todos nos entendemos tão bem como se se tratasse da nossa língua materna, da palavra antes das palavras, divina e humana lalação. Chame-se-lhe confiança, intimidade, ternura. Impõe-se, nesta bela comunidade, uma atitude de vigilância permanente, pois será sempre grande a tentação de querer levar o Espírito à letra! E aí está a advertência vinda dos Coríntios, cujo falar em línguas ninguém entende (1 Coríntios 14,2), sendo preciso o recurso a intérpretes (1 Coríntios 14,28). Todos consideraríamos um absurdo a existência de um intérprete entre a mãe e o seu bebé para traduzir aquela lalação que os dois tão bem entendem!

3. É esta divina lalação (alálêtos) (Romanos 8,26) – única vez no Novo Testamento –, do Espírito que nos ensina a compreender que «Jesus é Senhor» (1 Coríntios 12,3) e que Deus é Pai (ʼAbbaʼ) (Gálatas 4,6; Romanos 8,15). Anote-se também a importante afirmação de que «a cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito comum» (1 Coríntios 12,7) e «não para proveito próprio» (1 Coríntios 10,33), sendo que o que define o proveito comum é a edificação, não de si mesmo, mas dos outros (1 Coríntios 10,23-24).

4. A tradição situa no Cenáculo as duas cenas acima descritas. É a sala da Ceia Primeira, do último serão de Jesus com os seus discípulos, da Aparição do Senhor aos seus Apóstolos, da eleição de Matias, da descida do Espírito Santo no Pentecostes, enfim, o primeiro lugar de encontro da primeira comunidade cristã reunida em oração com Maria (Actos 1,13-14), a primeira sede da Igreja nascente, a mãe de todas as Igrejas, a primeira domus-ecclesia [«casa-igreja»] do mundo, situada uns duzentos metros a sul da muralha de Jerusalém, em local muito próximo da Porta de Sião. O actual edifício remonta ao trabalho dos Padres Franciscanos no século XIV, e sucedeu a outras construções sucessivamente edificadas e destruídas, desde a basílica de Santa Sião [Hagía Sion], do século IV. Sintomaticamente, por se encontrar no quarteirão sul de Jerusalém, o primitivo Cenáculo resistiu à destruição romana da guerra de 70, pois os romanos atacaram e destruíram a cidade a partir da parte norte, mais facilmente expugnável.

5. Associada às cenas acima identificadas, a sala superior do Cenáculo [15,30 metros por 9,40 metros] assemelha-se ao Sinai com os fenómenos então lá registados. Veja-se, a propósito, a bela descrição que deles faz Fílon de Alexandria (± 20 a.C.-50 d.C.): «Deus não tinha boca ou língua, mas, com um prodígio, fez que um rombo se produzisse no ar, que um sopro se articulasse em palavras pondo o ar em movimento. Este transformou-se em fogo que tinha forma de chamas […], e uma voz ressoava do meio no fogo e descia do céu, e esta voz articulava-se no idioma próprio dos ouvintes». Mas também Babel é evocada em contraponto: em Génesis 11,7, «ninguém compreendia mais a língua do seu próximo», mas em Actos 2,6, «cada um compreendia na sua própria língua materna».

6. O Espírito Santo é também enviado em missão. E é Aquele que recebe o que é do Filho (João 16,14 e 15), e que o Filho recebeu do Pai. O Filho é a transparência do Pai. O Espírito Santo é a transparência do Filho. O ensinamento do Espírito Santo é o mesmo que Jesus fez e que recebeu do Pai, mas vem depois do de Jesus (João 14,26), e processa-se, ao contrário do de Jesus, não com palavras sensíveis que tocam os órgãos da audição de um público determinado, mas na interioridade da inteligência e do coração de cada ser humano. Este ensinamento interior do Espírito Santo é comparado à unção de óleo (chrísma) que penetra lentamente, como diz o Apóstolo: «Vós recebestes a unção (chrísma) que vem do Santo e todos conheceis (oídate)» (1 João 2,20); ou então: «a unção (chrísma) dele vos ensina (didáskei) acerca de todas as coisas» (1 João 2,27). É a unção que lentamente penetra em nós, ocupa o nosso interior, suaviza as nossas asperezas, cura as nossas dores e faz nascer entre nós comunidade e comunhão.

7. Ensinamento novo. Não exterior, com sons e palavras, mas directamente nas pregas da inteligência e do coração. É assim que a linguagem nova do Espírito afecta ao mesmo tempo o português e o chinês, o inglês e o russo, o católico, o muçulmano e o hebreu. É como quando, em vez de se porem a falar cada um a sua língua incompreensível para o outro, o português e o chinês entregassem uma flor um ao outro! É assim que fala o Espírito, é assim que age o Espírito, Pessoa-Dom, fonte de dons (1 Coríntios 12,3-13).

8. O Salmo 104 põe-nos a contemplar hoje as obras maravilhosas de Deus, cheias do seu alento, que são a alegria de Deus (Salmo 104,31), e a alegria de Deus é a nossa alegria (Salmo 104,34). De notar que a temática de Deus que se alegra é muito rara na Escritura. Aparece hoje no meio deste mundo novo e maravilhoso. Tema, portanto, para recuperar, pois é também a fonte da nossa alegria!

9. Nós somos do tempo da missão do Espírito. Note-se a fortíssima vinculação: «O Espírito Santo e nós» (Actos 15,28).

10. Deus habitando em nós (João 14,24). Deus connosco (Apocalipse 21). Cidade nova, Consolação nova, Bênção nova, Paz nova, não com a medida do mundo, mas de Deus (João 14,27; Salmo 67).

 
 
O medo não habita a nossa casa
O medo transforma a nossa casa em fortaleza
Tranca portas e janelas
Esconde-se debaixo da mesa.
 
Mas vem Jesus e senta-nos à mesa
Começa a contar histórias e estrelas
Leva-nos até ao colo de Abraão, até à Criação,
Sopra sobre nós um vento novo,
Rasga uma estrada direitinha ao coração:
Chama-se Perdão, Espírito, Amor, Nova Criação.
 
Varrido para o canto da casa pelo vento,
Rapidamente todo o medo arde.
Ardem também bolsas, portas e paredes,
E surge um lume novo a arder dentro de nós
Mas esse não nos queima nem o podemos apagar.
 
Estamos lá tantos à roda desse vento, desse fogo,
Com esse vento, com esse fogo dentro,
Portugueses, russos, gregos e chineses,
Começamos a falar e tão bem nos entendemos,
Que custa a crer que tenhamos passaportes diferentes.
 
E afinal não temos.
Vendo melhor, maternais mãos invisíveis nos embalam,
Nos sustentam.
Sentimos que estamos a nascer de novo,
Percebemos que somos irmãos,
Filhos renascidos deste vento, deste lume.
E não é verdade que falamos,
Mas que alguém dentro de nós fala por nós,
Chama por Deus,
Como um menino pelo Pai.

 

D. António Couto

 

 

O Canto na Liturgia

Antífona de Entrada

O amor de Deus foi derramado – F. Santos

O amor de Deus foi derramado – F. Santos

O amor de Deus foi derramado – F. Valente

O amor de Deus foi derramado – M. Carneiro

O amor de Deus foi derramado – M. Carvalho

Pelo Espírito Santo – Az. Oliveira

Pelo Espírito Santo – Az. Oliveira

 

Salmos Responsoriais

Na forma longa

Depois da Leitura I (Gn 11,1-9)

           Feliz o povo que o Senhor escolheu para sua herança. (Sl 32) – M. Luís

Depois da Leitura II (Ex 19,3-8.16-20):

           Digno de louvor e de glória para sempre. (Dan 3) – F. Santos

Depois da Leitura III (Ez 37,1-14):

           Cantai ao Senhor porque é eterno o seu amor. (Sl 106) – M. Luís

Depois da Leitura IV (Jl 3,1-5):

           Enviai, Senhor, o vosso Espírito e renovai a face da terra. (Sl 103) – M. Luís

Na forma breve

           Enviai, Senhor, o vosso Espírito e renovai a face da terra. (Sl 103) – M. Luís

           Mandai, Senhor, o vosso Espírito e renovai a terra. (SL 103) – M. Luís

Aclamação ao Evangelho

           Aleluia | Vinde, Espírito Santo – F. Santos

 

Antífona da Comunhão

 No último dia da festa – F. Silva

Quando chegou o dia de Pentecostes – F. Lapa

 Se alguém tem sede – M. Carneiro

________________ 

 

MISSA DO DIA

Antífona de Entrada

O Espírito do Senhor – F. Santos

O Espírito do Senhor – F. Santos

O Espírito do Senhor – M. Simões

O Espírito do Senhor – M. Simões

O Espírito do Senhor – J. Santos

O Espírito do Senhor – Az. Oliveira

O Espírito do Senhor – M. Luís

O Espírito do Senhor – V. Pereira/J. Ribeiro

O Espírito do Senhor – A. Morais

O amor de Deus foi derramado – F. Santos

O amor de Deus foi derramado – F. Santos

O amor de Deus foi derramado – F. Valente (Libellus 3)

O amor de Deus foi derramado – M. Carneiro

O amor de Deus foi derramado – M. Carvalho

Pelo Espírito Santo – Az. Oliveira

Pelo Espírito Santo – Az. Oliveira

 

Salmo Responsorial

Enviai, Senhor, o vosso Espírito e renovai a face da terra. (Sl 103) – F. Santos

Mandai, Senhor o vosso Espírito e renovai a terra. (Sl 103) – M. Luís

 

Sequência

Vinde, ó Espírito Santo – F. Santos

Vinde, ó Santo Espírito – M. Faria

Veni Sancte Spiritus – C. Silva

 

Aclamação ao Evangelho

Aleluia | Vinde, Espírito Santo – F. Santos

Antífona da Comunhão

Todos foram cheios do Espírito Santo – M. Faria

Todos ficaram cheios do Espírito Santo – M. Carneiro

Todos ficaram cheios do Espírito Santo – S. Marques

Todos ficaram cheios do Espírito Santo – M. Luís

 

Outros cânticos para o Domingo de Pentecostes

Abri os corações – J. Santos

Confirmai, Senhor, o que em nós operou – M. Simões

Da vossa santa morada – F. Santos

Derramarei sobre vós água pura – M. Simões

Divino Espírito Santo – M. Faria

Enchei-vos do Espírito Santo – Az. Oliveira

Enviai sobre nós, Senhor – A. Mendes

Enviai, Senhor, o vosso Espírito – Az. Oliveira

Enviai, Senhor, o vosso Espírito – C. Silva

Enviai, Senhor, o vosso Espírito – V. Pereira/J. Ribeiro

Espírito Criador – F. Santos

Espírito Santo de Deus – M. Luís

Espírito Santo, Consolador – Az. Oliveira

Nós somos a Igreja – A. Cartageno

O Espírito de Deus enche o universo – M. Simões

Ó Espirito Santo – M. Simões

O Pai vos enviará o Espírito Santo – F. Silva

Somos testemunhas do mundo novo – J. Santos

Vamos proclamar pelo mundo inteiro – F. Silva

Vem, ó Espírito Santo – J. Santos

Veni, Creator Spiritus – C. Silva

Vinde, Espírito Divino – J. Santos

Vinde, Espírito Divino – M. Borda

Vinde, Espírito Divino – M. Luís

Vinde, Espírito Santo – M. Luís

Vinde, Espírito Divino – mel. Madeira/harm. M. Simões

Vinde, Espírito Santo e confirmai-nos – M. Carneiro

Vinde, único Amor verdadeiro – A. Cartageno

Pe. Nuno Queirós

Solenidade da Ascensão do Senhor – Ano C

Solenidade da Ascensão do Senhor

A Solenidade da Ascensão de Jesus que hoje celebramos sugere que, no final de um caminho percorrido no amor e na doação, está a vida definitiva, em comunhão com Deus. Sugere, também, que Jesus nos deixou o testemunho e que somos agora nós, seus seguidores, que devemos continuar a realizar o projecto libertador de Deus para os homens e para o mundo.

O Evangelho apresenta-nos as palavras de despedida de Jesus que definem a missão dos discípulos no mundo. Faz, também, referência à alegria dos discípulos: essa alegria resulta do reconhecimento da presença no mundo do projecto salvador de Deus e resulta do facto de a ascensão de Jesus ter acrescentado à vida dos crentes um novo sentido.

Na primeira leitura, repete-se a mensagem essencial desta festa: Jesus, depois de ter apresentado ao mundo o projecto do Pai, entrou na vida definitiva da comunhão com Deus – a mesma vida que espera todos os que percorrem o mesmo caminho de Jesus. Quanto aos discípulos: eles não podem ficar a olhar para o céu, numa passividade alienante, mas têm de ir para o meio dos homens continuar o projecto de Jesus.

A segunda leitura convida os discípulos a terem consciência da esperança a que foram chamados (a vida plena de comunhão com Deus). Devem caminhar ao encontro dessa esperança de mãos dadas com os irmãos – membros do mesmo “corpo” – e em comunhão com Cristo, a “cabeça” desse “corpo”. Cristo reside nesse “corpo”.

 

LEITURA I

Actos 1,1-11

No meu primeiro livro, ó Teófilo,
narrei todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar,
desde o princípio até ao dia em que foi elevado ao Céu,
depois de ter dado, pelo Espírito Santo,
as suas instruções aos Apóstolos que escolhera.
Foi também a eles que, depois da sua paixão,
Se apresentou vivo com muitas provas,
aparecendo-lhes durante quarenta dias
e falando-lhes do reino de Deus.
Um dia em que estava com eles à mesa,
mandou-lhes que não se afastassem de Jerusalém,
mas que esperassem a promessa do Pai,
«da Qual – disse Ele – Me ouvistes falar.
Na verdade, João baptizou com água;
vós, porém, sereis baptizados no Espírito Santo,
dentro de poucos dias».
Aqueles que se tinham reunido começaram a perguntar:
«Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel?»
Ele respondeu-lhes:
«Não vos compete saber os tempos ou os momentos
que o Pai determinou com a sua autoridade;
mas recebereis a força do Espírito Santo,
que descerá sobre vós,
e sereis minhas testemunhas
em Jerusalém e em toda a Judeia e na Samaria
e até aos confins da terra».
Dito isto, elevou-Se à vista deles
e uma nuvem escondeu-O a seus olhos.
E estando de olhar fito no Céu, enquanto Jesus Se afastava,
apresentaram-se-lhes dois homens vestidos de branco,
que disseram:
«Homens da Galileia, porque estais a olhar para o Céu?
Esse Jesus, que do meio de vós foi elevado para o Céu,
virá do mesmo modo que O vistes ir para o Céu».
 
 
AMBIENTE
 

O livro dos “Actos dos Apóstolos” dirige-se a comunidades que vivem num certo contexto de crise. Estamos na década de 80, cerca de cinquenta anos após a morte de Jesus. Passou já a fase da expectativa pela vinda iminente do Cristo glorioso para instaurar o “Reino” e há uma certa desilusão. As questões doutrinais trazem alguma confusão; a monotonia favorece uma vida cristã pouco comprometida e as comunidades instalam-se na mediocridade; falta o entusiasmo e o empenho… O quadro geral é o de um certo sentimento de frustração, porque o mundo continua igual e a esperada intervenção vitoriosa de Deus continua adiada. Quando vai concretizar- se, de forma plena e inequívoca, o projecto salvador de Deus?

É neste ambiente que podemos inserir o texto que hoje nos é proposto como primeira leitura. Nele, o catequista Lucas avisa que o projecto de salvação e libertação que Jesus veio apresentar passou (após a ida de Jesus para junto do Pai) para as mãos da Igreja, animada pelo Espírito. A construção do “Reino” é uma tarefa que não está terminada, mas que é preciso concretizar na história e exige o empenho contínuo de todos os crentes. Os cristãos são convidados a redescobrir o seu papel, no sentido de testemunhar o projecto de Deus, na fidelidade ao “caminho” que Jesus percorreu.

 

MENSAGEM

O nosso texto começa com um prólogo (vers. 1-2) que relaciona os “Actos” com o 3º Evangelho – quer na referência ao mesmo Teófilo a quem o Evangelho era dedicado, quer na alusão a Jesus, aos seus ensinamentos e à sua acção no mundo (tema central do 3º Evangelho). Neste prólogo são, também, apresentados os protagonistas do livro – o Espírito Santo e os apóstolos, ambos vinculados com Jesus.

Depois da apresentação inicial, vem o tema da despedida de Jesus (vers. 3-8). O autor começa por fazer referência aos “quarenta dias” que mediaram entre a ressurreição e a ascensão, durante os quais Jesus falou aos discípulos “a respeito do Reino de Deus” (o que parece estar em contradição com o Evangelho, onde a ressurreição e a ascensão são apresentadas no próprio dia da Páscoa – cf. Lc 24). O número quarenta é, certamente, um número simbólico: é o número que define o tempo necessário para que um discípulo possa aprender e repetir as lições do mestre. Aqui define, portanto, o tempo simbólico de iniciação ao ensinamento do Ressuscitado.

As palavras de despedida de Jesus (vers. 4-8) sublinham dois aspectos: a vinda do Espírito e o testemunho que os discípulos vão ser chamados a dar “até aos confins do mundo”. Temos aqui resumida a experiência missionária da comunidade de Lucas: o Espírito irá derramar-se sobre a comunidade crente e dará a força para testemunhar Jesus em todo o mundo, desde Jerusalém a Roma. Na realidade, trata-se do programa que Lucas vai apresentar ao longo do livro, posto na boca de Jesus  ressuscitado. O autor quer mostrar com a sua obra que o testemunho e a pregação da Igreja estão entroncados no próprio Jesus e são impulsionados pelo Espírito.

O último tema é o da ascensão (vers. 9-11). Evidentemente, esta passagem necessita de ser interpretada para que, através da roupagem dos símbolos, a mensagem apareça com toda a claridade.

Temos, em primeiro lugar, a elevação de Jesus ao céu (vers. 9a). Não estamos a falar de uma pessoa que, literalmente, descola da terra e começa a elevar-se; estamos a falar de um sentido teológico (não é o “repórter”, mas sim o “teólogo” a falar): a ascensão é uma forma de expressar simbolicamente que a exaltação de Jesus é total e atinge dimensões supra-terrenas; é a forma literária de descrever o culminar de uma vida vivida para Deus, que agora reentra na glória da comunhão com o Pai.

Temos, depois, a nuvem (vers. 9b) que subtrai Jesus aos olhos dos discípulos. Pairando a meio caminho entre o céu e a terra, a nuvem é, no Antigo Testamento, um símbolo privilegiado para exprimir a presença do divino (cf. Ex 13,21.22; 14,19.24; 24,15b-18; 40,34-38). Ao mesmo tempo, a nuvem, simultaneamente, esconde e manifesta: sugere o mistério do Deus escondido e presente, cujo rosto o Povo não pode ver, mas cuja presença adivinha nos acidentes da caminhada. Céu e terra, presença e ausência, sombra e luz, divino e humano, são dimensões aqui sugeridas a propósito de Cristo ressuscitado, elevado à glória do Pai, mas que continua a caminhar com os discípulos.

Temos, ainda, os discípulos a olhar para o céu (vers. 10a). Significa a expectativa dessa comunidade que espera ansiosamente a segunda vinda de Cristo, a fim de levar ao seu termo o projecto de libertação do homem e do mundo.

Temos, finalmente, os dois homens vestidos de branco (vers. 10b). O branco sugere o mundo de Deus – o que indica que o seu testemunho vem de Deus. Eles convidam os discípulos a continuar no mundo, animados pelo Espírito, a obra libertadora de Jesus; agora, é a comunidade dos discípulos que tem de continuar, na história, a obra de Jesus, embora com a esperança posta na segunda e definitiva vinda do Senhor.

O sentido fundamental da ascensão não é que fiquemos a admirar a elevação de Jesus; mas é convidar-nos a seguir o caminho de Jesus, olhando para o futuro e entregando-nos à realização do seu projecto de salvação no meio do mundo.

 
 

ACTUALIZAÇÃO

Ter em conta, para a reflexão e actualização, os seguintes elementos:

♦ A ressurreição/ascensão de Jesus garante-nos que uma vida vivida na fidelidade aos projectos do Pai é uma vida destinada à glorificação, à comunhão definitiva com Deus. Quem percorre o mesmo caminho de Jesus subirá, como Ele, à vida plena.

♦ A ascensão de Jesus recorda-nos, sobretudo, que Ele foi elevado para junto do Pai e nos encarregou de continuar a tornar realidade o seu projecto libertador no meio dos homens nossos irmãos. É essa a atitude que tem marcado a caminhada histórica da Igreja? Ela tem sido fiel à missão que Jesus, ao deixar este mundo, lhe confiou?

♦ O nosso testemunho tem transformado e libertado a realidade que nos rodeia?
Qual o real impacto desse testemunho na nossa família, no local onde desenvolvemos a nossa actividade profissional, na nossa comunidade cristã ou religiosa?

♦ Não é invulgar ouvirmos dizer que os seguidores de Jesus vivem a olhar para o céu e ignoram os dramas da terra. Estamos, efectivamente, atentos aos problemas e às angústias dos homens, ou vivemos de olhos postos no céu, num espiritualismo alienado? Sentimo-nos questionados pelas inquietações, pelas misérias, pelos sofrimentos, pelos sonhos, pelas esperanças que enchem o coração dos que nos rodeiam? Sentimo-nos solidários com todos os homens?

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 46 (47)

Refrão: Ergue-se Deus, o Senhor,
em júbilo e ao som de trombetas. [da trombeta].
 
 
Povos todos, batei palmas,
aclamai a Deus com brados de alegria,
porque o Senhor, o Altíssimo, é terrível,
o Rei soberano de toda a terra.
 
Deus subiu entre aclamações,
o Senhor subiu ao som da trombeta.
Cantai hinos a Deus, cantai,
cantai hinos ao nosso Rei, cantai.
 
Deus é Rei do universo:
cantai os hinos mais belos.
Deus reina sobre os povos,
Deus está sentado no seu trono sagrado.
 
 
 

LEITURA II

Ef 1,17-23

Irmãos:
O Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória,
vos conceda um espírito de sabedoria e de luz
para O conhecerdes plenamente
e ilumine os olhos do vosso coração,
para compreenderdes a esperança a que fostes chamados,
os tesouros de glória da sua herança entre os santos
e a incomensurável grandeza do seu poder
para nós os crentes.
Assim o mostra a eficácia da poderosa força
que exerceu em Cristo,
que Ele ressuscitou dos mortos
e colocou à sua direita nos Céus,
acima de todo o Principado, Poder, Virtude e Soberania,
acima de todo o nome que é pronunciado,
não só neste mundo,
mas também no mundo que há-de vir.
Tudo submeteu aos seus pés
e pô-l’O acima de todas as coisas
como Cabeça de toda a Igreja, que é o seu Corpo,
a plenitude d’Aquele que preenche tudo em todos.
 
 
AMBIENTE
 

A Carta aos Efésios é, provavelmente, um dos exemplares de uma “carta circular” enviada a várias igrejas da Ásia, numa altura em que Paulo está na prisão (em Roma?). O seu portador é um tal Tíquico. Estamos por volta dos anos 58/60. Alguns vêem nesta carta uma espécie de síntese da teologia paulina, numa altura em que a missão do apóstolo está praticamente terminada na Ásia.

Em concreto, o texto que nos é proposto aparece na primeira parte da carta e faz parte de uma acção de graças, na qual Paulo agradece a Deus pela fé dos Efésios e pela caridade que eles manifestam com todos os irmãos na fé.

 

MENSAGEM

À acção de graças, Paulo une uma fervorosa oração a Deus para que os destinatários da carta conheçam “a esperança a que foram chamados” (vers. 18). A prova de que o Pai tem poder para realizar essa “esperança” (isto é, conferir aos crentes a vida eterna como herança) é o que ele fez com Jesus Cristo: ressuscitou-O e sentou-O à sua direita (vers. 20), exaltou-O e deu-Lhe soberania sobre todos os poderes angélicos (Paulo está preocupado com a perigosa tendência de alguns cristãos em dar uma importância exagerada aos anjos, colocando-os, até, acima de Cristo – cf. Col 1,6). Essa soberania estende-se, inclusive, à Igreja – o “corpo” do qual Cristo é a “cabeça”. O mais significativo deste texto é, precisamente, este último desenvolvimento. A ideia de que a comunidade cristã é um “corpo” – o “corpo de Cristo” – formado por muitos membros, já havia aparecido nas grandes cartas, acentuando-se sobretudo a relação dos vários membros do “corpo” entre si (cf. 1 Cor 6,12-20;10,16-17;12,12-27; Rom 12,3-8); mas nas cartas do cativeiro, Paulo retoma a noção de “corpo de Cristo” para reflectir, sobretudo, sobre a relação que existe entre a comunidade e Cristo.

Neste texto, em concreto, há dois conceitos muito significativos para definir o quadro da relação entre Cristo e a Igreja: o de “cabeça” e o de “plenitude” (em grego, “pleroma”).

Dizer que Cristo é a “cabeça” da Igreja significa, antes de mais, que os dois formam uma comunidade indissolúvel e que há entre os dois uma comunhão total de vida e de destino; significa, também, que Cristo é o centro à volta do qual o “corpo” se articula, a partir do qual e em direcção ao qual o “corpo” cresce, se orienta e constrói, a origem e o fim desse “corpo”; significa, ainda, que a Igreja/“corpo” está submetida à obediência a Cristo/“cabeça”: só de Cristo a Igreja depende e só a Ele deve obediência.

Dizer que a Igreja é a “plenitude” (“pleroma”) de Cristo significa dizer que nela reside a “plenitude”, a “totalidade” de Cristo. Ela é o receptáculo, a habitação onde Cristo Se torna presente no mundo; é através desse “corpo” onde reside que Cristo continua todos os dias a realizar o seu projecto de salvação em favor dos homens. Presente nesse “corpo”, Cristo enche o mundo e atrai a Si o universo inteiro, até que o próprio Cristo “seja tudo em todos” (vers. 23).

 
 

ACTUALIZAÇÃO

Ter em conta, na reflexão, as seguintes linhas:

♦ Na nossa peregrinação pelo mundo, convém termos sempre presente “a esperança a que fomos chamados”. A ressurreição de Cristo é a garantia da nossa própria ressurreição. Formamos com Ele um “corpo”, destinados à vida plena. Esta perspectiva tem de dar-nos a força de enfrentar a história e de avançar – apesar das dificuldades – nesse caminho do amor e da entrega total que Cristo percorreu.

♦ Dizer que fazemos parte do “corpo de Cristo” significa que devemos viver numa comunhão total com Ele e que nessa comunhão recebemos, a cada instante, a vida que nos alimenta. Significa, também, viver em comunhão, em solidariedade total com todos os nossos irmãos, membros do mesmo corpo, alimentados pela mesma vida.

♦ Dizer que a Igreja é o “pleroma” de Cristo significa que temos a obrigação de testemunhar Cristo, de torná-l’O presente no mundo, de levar à plenitude o projecto de libertação que Ele começou em favor dos homens. Essa tarefa só estará acabada quando, pelo testemunho e pela acção dos crentes, Cristo for “um em todos”.

LEITURA II

Heb 9,24-28; 10,19-23

(pode ser escolhida em alternativa à anterior)

ALELUIA

Mt 28,19a.20b

Aleluia. Aleluia.

Ide e ensinai todos os povos, diz o Senhor:
Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos.

EVANGELHO

Lc 24,46-53

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Está escrito que o Messias havia de sofrer
e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia
e que havia de ser pregado em seu nome
o arrependimento e o perdão dos pecados
a todas as nações, começando por Jerusalém.
Vós sois testemunhas disso.
Eu vos enviarei Aquele que foi prometido por meu Pai.
Por isso, permanecei na cidade,
até que sejais revestidos com a força do alto».
Depois Jesus levou os discípulos até junto de Betânia
e, erguendo as mãos, abençoou-os.
Enquanto os abençoava,
afastou-Se deles e foi elevado ao Céu.
Eles prostraram-se diante de Jesus,
e depois voltaram para Jerusalém com grande alegria.
E estavam continuamente no templo, bendizendo a Deus.
 
 
AMBIENTE
 

O Evangelho de hoje situa-nos no dia de Páscoa. Cristo já se manifestou aos discípulos de Emaús (cf. Lc 24,13-35) e aos onze, reunidos no cenáculo (cf. Lc 24,36-43). No texto que nos é proposto, apresentam-se as últimas instruções de Jesus (cf. Lc 24,44-49) e a ascensão (cf. Lc 24,50-53).

Ao contrário dos “Actos”, ressurreição, aparições de Jesus ressuscitado aos discípulos e ascensão são colocados – aqui – no mesmo dia, o que parece mais correcto do ponto de vista teológico: ressurreição e ascensão não se podem diferenciar; são apenas formas humanas de falar da passagem da morte à vida definitiva junto de Deus.

 

MENSAGEM

O nosso texto está dividido em duas partes: despedida dos discípulos (vers. 46-49) e ascensão (vers. 50-53).

Na primeira parte temos, portanto, as palavras de despedida de Jesus. Os discípulos que fizeram a experiência do encontro pessoal com Jesus ressuscitado são agora convocados para a missão: Jesus envia-os como testemunhas, a pregar a conversão (“metanoia” – a transformação radical da vida, da mentalidade, dos valores) e o perdão dos pecados (ou seja, o anúncio de que Deus ama todos os homens e os convida a deixar o egoísmo, o orgulho e a auto-suficiência para iniciarem uma vida de Homens Novos). Para esta tarefa ingente, os discípulos contam com a ajuda e a assistência do Espírito. Temos também, aqui, todos os elementos daquilo que será a futura missão da Igreja. O testemunho apostólico terá como tema central a morte e ressurreição de Jesus, o Messias libertador anunciado pelas escrituras (vers. 44.46). Desde Jerusalém, esta proposta deve ser anunciada a todas as nações. Este “percurso” será explicitado no livro dos “Actos”.

Na segunda parte, Lucas descreve a ascensão, situada em Betânia. Há duas indicações de Lucas que importa realçar. A primeira é a bênção que Jesus dá aos discípulos antes de ir para junto do Pai: essa bênção sugere um dom que vem de Deus e que afecta positivamente toda a vida e toda a acção dos discípulos, capacitados para a missão pela força de Deus. A segunda é a alegria dos discípulos: a alegria é o grande sinal messiânico e escatológico; indica que o mundo novo já começou, pois o projecto salvador e libertador de Deus está em marcha.

 
 
ACTUALIZAÇÃO

 

Para a reflexão, considerar as seguintes indicações:

♦ A ressurreição/ascensão de Jesus convida-nos a ver a vida com outros olhos – os olhos da esperança. Diz-nos que o sofrimento, a perseguição, o ódio, a morte, não são a última palavra para definir o quadro do nosso caminho; diz-nos que no final de um caminho percorrido na doação, na entrega, no amor vivido até às últimas consequências, está a vida definitiva, a vida de comunhão com Deus. Esta esperança permite-nos enfrentar o medo, os nossos limites humanos, o fanatismo, o egoísmo dos fazedores de pecado e permite-nos olhar com serenidade para esse qualquer coisa de novo que nos espera, para esse futuro de vida plena que é o nosso destino final.

♦ A ascensão de Jesus e, sobretudo, as palavras finais de Jesus, que convocam os discípulos para a missão, sugerem a nossa responsabilidade na construção desse mundo novo onde habita a justiça e a paz; sugerem que a proposta libertadora que Jesus fez a todos os homens está agora nas nossas mãos e que é nossa responsabilidade torná-la realidade; sugerem que nós, os seguidores de Jesus, temos de construir, com o esforço de todos os dias, o novo céu e a nova terra. Sentimos, de facto, esta responsabilidade? Preocupamo-nos em tornar realidade no mundo os gestos libertadores de Cristo? Procuramos construir, no dia a dia, esse mundo novo de justiça, de fraternidade, de liberdade e de paz?

♦ A alegria que brilha nos olhos e nos corações desses discípulos que testemunham a entrada definitiva de Jesus na vida de Deus tem de ser uma realidade que transparece na nossa vida. Os seguidores de Jesus, iluminados pela fé, têm de testemunhar, com a sua alegria, a certeza de que os espera, no final do caminho, a vida em plenitude; e têm de testemunhar, com a sua alegria, a certeza de que o projecto salvador e libertador de Deus está a actuar no mundo, está a transformar os corações e as mentes, está a fazer nascer, dia a dia, o Homem Novo.

Dehonianos

 
 

O MILAGRE DE UM OLHAR CHEIO DE JESUS

 

 

1. Lucas 24,46-53: estupendo texto que encerra o Evangelho de Lucas e que hoje, Solenidade da Ascensão do Senhor, é solenemente proclamado para nós.

2. É a terceira vez que, neste Capítulo 24 do Evangelho de Lucas, o Evangelista volta à temática da necessidade do sofrimento de Jesus em ordem à Sua Ressurreição dos mortos (Lucas 24,7.26.46-47). Todavia, nesta terceira vez, é acrescentado um dado novo de extrema importância, sendo que os acontecimentos incluídos na necessidade divina são agora três e não dois: a Paixão, a Ressurreição e a Pregação (kêrygma) a todas as nações. Portanto, também a MISSÃO surge incluída na necessidade divina. Não está à margem dos acontecimentos de Jesus, mas completamente vinculada a eles e a Ele. É, por isso, «no Seu Nome», isto é, assente na Sua autoridade, e não em qualquer outra, que esta Pregação deve ser feita, e o seu conteúdo é a Conversão e o Perdão. Conversão teológica, isto é, que o Crucificado é Revelação gloriosa de Deus, e não ignomínia e derrota! Perdão: significa que o Amor de Deus é maior que o nosso pecado! Este Anúncio é para ser feito a «todas as nações», a todos os corações: âmbito mais amplo e intenso possível!

3. Mas esta MISSÃO é para levar por diante com a humildade e persistência do testemunho quotidiano e com a roupa nova (endýô) e a dinâmica (dýnamis) do Espírito (Lucas 24,49). Nas novas coordenadas do Espírito, os Acontecimentos de Jesus, de per si circunscritos no espaço e no tempo, alargam-se a todos os tempos e lugares, e insinuam-se no subtilíssimo segredo de cada coração humano.

4. Imensa fraternidade em ascendente movimento filial, como uma seara nova e verdejante aondular ao vento suavíssimo do Espírito, elevando-se da nossa terra do Alto visitada e semeada, ternamente por Deus olhada, agraciada, abençoada. Bênção desde o início do Evangelho de Lucas até agora diferida, dada a mudez do sacerdote Zacarias (Lucas 1,22). Jesus, novo, terno e eterno sacerdote elevando-se para o céu, mas ficando mais presente do que nunca em cada coração, abençoa agora os seus discípulos (Lucas 24,50-519. Nova e mais intensa forma de presença. Não é um passo atrás, mas em frente. Por isso, uma nova e «grande Alegria» (só aqui e em 2,10) nos impele, deixando-nos no tempo novo e jovem da MISSÃO!

5. O Livro dos Actos retoma esta lição. Dois homens vestidos de branco (cor celeste), que já antes tinham reorientado o olhar perdido e triste das mulheres (Lucas 24,4-7), reorientam agora também o nosso olhar preso ao céu, dizendo: «Homens Galileus, por que estais de pé, perscrutando (emblépontes) o céu? Este JESUS que foi arrebatado (analêmphtheís) diante de vós para o céu, assim VIRÁ (eleúsetai) do modo (trópos) que O vistes (etheásthe) IR para o céu”» (Act 1,9-11).

6. Importante agrafo da Ascensão com a Vinda do Senhor. Tanto Ver. Não é mais possível Ver a Ascensão sem Ver a Vinda. Guardemos este Olhar cheio de Jesus e olhemos agora para esta terra árida e cinzenta, para tantos corações tristes e perdidos. Nascerá um mundo muito mais belo, novos corações pulsarão nas pessoas. Corações iluminados (Efésios 1,18). Um Olhar cheio de Jesus faz Ver Jesus, faz Vir Jesus! Verificação: leia-se com atenção o primeiro acto dos Actos dos Apóstolos: o Olhar cheio de Jesus de Pedro e de João faz saltar de alegria o coxo de nascença (Actos 3,1-10).

D. António Couto

O Canto na Liturgia

Antífona de Entrada

Homens da Galileia – F. Valente  

Homens da Galileia – P. Miranda

Homens da Galileia – M. Carneiro

Homens da Galileia – M. Luís

Homens da Galileia – A. Frade

Salmo Responsorial

Por entre aclamações e ao som da trombeta, ergue-se Deus, o Senhor 

Por entre aclamações, ergue-se Deus o Senhor 

Ergue-se Deus, o Senhor, em júbilo e ao som da trombeta 

Deus sobe por entre aclamações, o Senhor, ao som da trombeta

Antífona da Comunhão

Eu estou sempre convosco – F. Lapa

Eu estou sempre convosco – A. Cartageno

Eu estou sempre convosco – C. Silva

Eu estou sempre convosco – M. Carneiro

Eu estou sempre convosco – Az. Oliveira

Ide por todo o mundo – J. Santos

 

Outros cânticos para a Solenidade da Ascensão do Senhor

Aclamai Jesus Cristo – F. Silva

Da terra aos Céus se eleva – J. Santos

Levantai, ó portas, os vossos umbrais – A. Cartageno

Louvai, louvai o Senhor, povos de toda a terra – F. Silva

Louvai o Senhor – F. Santos

Louvai o Senhor – A. Cartageno

O Espírito que procede do Pai – M. Luís

O Pai vos enviará o Espírito Santo – F. Silva

Ó Rei da glória – M. Carvalho

Porque ele está connosco – F. Santos

Povos, batei palmas – C. Silva

Povos todos, vinde com júbilo – M. Luís

Recebereis a força do Espírito Santo – J. Santos

Recebereis a força do Espírito Santo – Az. Oliveira

Reinos da terra, cantai a Deus – F. Silva

Domingo VI do Tempo Pascal – Ano C

 
 
 

Tema do 6º Domingo da Páscoa

 
 
Na liturgia deste domingo sobressai a promessa de Jesus de acompanhar de forma permanente a caminhada da sua comunidade em marcha pela história: não estamos sozinhos; Jesus ressuscitado vai sempre ao nosso lado.
 
No Evangelho, Jesus diz aos discípulos como se hão-de manter em comunhão com Ele e reafirma a sua presença e a sua assistência através do “paráclito” – o Espírito Santo.
 
primeira leitura apresenta-nos a Igreja de Jesus a confrontar-se com os desafios dos  novos  tempos.  Animados  pelo  Espírito,  os  crentes  aprendem  a  discernir  o essencial do acessório e actualizam a proposta central do Evangelho, de forma que a mensagem libertadora de Jesus possa ser acolhida por todos os povos.
 
Na segunda leitura, apresenta-se mais uma vez a meta final da caminhada da Igreja: a “Jerusalém messiânica”, essa cidade nova da comunhão com Deus, da vida plena, da felicidade total.
 
 

LEITURA I

Actos 15,1-2.22-29

Naqueles dias,
alguns homens que desceram da Judeia
ensinavam aos irmãos de Antioquia:
«Se não receberdes a circuncisão,
segundo a Lei de Moisés,
não podereis salvar-vos».
Isto provocou muita agitação e uma discussão intensa
que Paulo e Barnabé tiveram com eles.
Então decidiram que Paulo e Barnabé e mais alguns discípulos
subissem a Jerusalém
para tratarem dessa questão com os Apóstolos e os anciãos.
Os Apóstolos e os anciãos, de acordo com toda a Igreja,
decidiram escolher alguns irmãos
e mandá-los a Antioquia com Barnabé e Paulo.
Eram Judas, a quem chamavam Barsabás,
e Silas, homens de autoridade entre os irmãos.
Mandaram por eles esta carta:
«Os Apóstolos e os anciãos, irmãos vossos,
saúdam os irmãos de origem pagã
residentes em Antioquia, na Síria e na Cilícia.
Tendo sabido que, sem nossa autorização,
alguns dos nossos vos foram inquietar,
perturbando as vossas almas com as suas palavras,
resolvemos, de comum acordo,
escolher delegados para vo-los enviarmos
juntamente com os nossos queridos Barnabé e Paulo,
homens que expuseram a sua vida
pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Por isso vos mandamos Judas e Silas,
que vos transmitirão de viva voz as nossas decisões.
O Espírito Santo e nós
decidimos não vos impor mais nenhuma obrigação,
além destas que são indispensáveis:
abster-se da carne imolada aos ídolos,
do sangue, das carnes sufocadas e das relações imorais.
Procedereis bem, evitando tudo isso. Adeus».
 
 
AMBIENTE
A entrada maciça de crentes gentios na comunidade cristã (sobretudo após a primeira viagem missionária  de Paulo e Barnabé)  vai trazer a lume uma questão  essencial: deve impor-se aos crentes de origem pagã a prática da Lei de Moisés? Não se trata, aqui, de um problema acidental ou secundário, de uma medida disciplinar ou de puros costumes, mas de algo tão fundamental como saber se a salvação vem através da circuncisão e da observância da “Torah” judaica, ou única e exclusivamente por Cristo. Dito de outra forma: Jesus Cristo é o único Senhor e salvador, ou são precisas outras coisas além d’Ele para chegar a Deus e para receber d’Ele a graça da salvação?
A comunidade cristã de Antioquia (onde o problema se põe com especial acuidade) não tem a certeza sobre o caminho a seguir. Paulo e Barnabé acham que Cristo basta; mas  os  “judaizantes” –  cristãos  de  origem  judaica,  que  conservam  as  práticas tradicionais do judaísmo – defendem que os ritos prescritos pela “Torah” também são necessários para a salvação. Decide-se, então, enviar uma delegação a Jerusalém, a fim de consultar os Apóstolos e os anciãos acerca da questão. Estamos por volta do ano 49.
MENSAGEM
Este  texto  começa  por  pôr  a questão  e por  apresentar  os  passos  dados  para  a solucionar: Paulo, Barnabé e alguns outros (também Tito, de acordo com Gal 2,1) são enviados a Jerusalém para consultar os Apóstolos e os anciãos (vers. 1-2). A questão é de tal importância que se organiza a reunião dos dirigentes e animadores das comunidades, conhecida como “concílio apostólico” ou “concílio de Jerusalém”. Essa assembleia  vai, pois, discutir o que é essencial na proposta cristã (e que devia ser incluído no núcleo fundamental da pregação) e o que é acessório (e que podia ser dispensado, não constituindo uma verdade fundamental da fé cristã).
O texto que nos é proposto hoje interrompe aqui a descrição dos acontecimentos. No entanto, sabemos (pela descrição dos “Actos”) que nessa “assembleia eclesial” vão enfrentar-se  várias opiniões.  Pedro  reconhece  a igualdade  fundamental  de todos – judeus e pagãos – diante da proposta de salvação, que a Lei é um jugo que não deve ser  imposto  aos  pagãos  e que  é “pela graça  do  Senhor  Jesus”  que  se  chega  à salvação (cf. Act 15,7-12); mas Tiago (representante da ala “judaizante), sem se opor à perspectiva de Pedro, procura salvar o possível das tradições judaicas e propõe que sejam mantidas algumas tradições particularmente caras aos judeus (cf. Act 15,13-21). Na realidade, há acordo quanto ao essencial. Embora o texto de Lucas não seja totalmente explícito, percebe-se a decisão final: não se pode impor aos gentios a lei judaica; só Cristo basta. Assim dá-se luz verde à missão entre os pagãos. É a decisão mais importante da Igreja nascente: o cristianismo cortou o cordão umbilical com o judaísmo e pode, agora, ser uma proposta universal de salvação, aberta a todos os homens, de todas as raças e culturas.
O  nosso  texto  retoma  a questão  neste  ponto.  Nos  vers.  22-29  da  leitura  de  hoje apresenta-se o “comunicado final” da “assembleia de Jerusalém”: a práxis judaica não pode ser imposta, pois não é essencial para a salvação… No entanto, pede-se a abstenção de alguns costumes particularmente repugnantes para os judeus.
 
 

ACTUALIZAÇÃO

Considerar, para a reflexão, as seguintes linhas:
 
♦  A  questão  de  cumprir  ou  não  os  ritos  da  Lei  de  Moisés  é  uma  questão ultrapassada, que hoje não preocupa nenhum cristão; mas este episódio vale, sobretudo, pelo seu valor exemplar. Faz-nos pensar, por exemplo, em rituais ultrapassados, em práticas de piedade vazias e estéreis, em fórmulas obsoletas, que exprimiram num certo contexto, mas já não exprimem o essencial da proposta cristã.  Faz-nos  pensar  na  imposição  de  esquemas  culturais  –  ocidentais,  por exemplo – que muitas vezes não têm nada a ver com a forma de expressão de certas  culturas…  O essencial  do  cristianismo  não  pode  ser  vivido  sem  o concretizar em formas determinadas, humanas e, por isso, condicionadas e finitas. Mas  é  necessário  distinguir  o  essencial  do acessório;  o  essencial  deve  ser preservado e o acessório deve ser constantemente actualizado. Quais são os ritos e  as  práticas  decididamente  obsoletos,  que  impedem  o  homem  de  hoje  de redescobrir o núcleo central da mensagem cristã? Será que hoje não estamos a impedir,  como outrora,  o  nascimento  de  Cristo  para  o  mundo,  mantendo-nos presos a esquemas e modos de pensar e de viver que têm pouco a ver com a realidade do mundo que nos rodeia?
 
♦  É necessário ter presente que o essencial é Cristo e a sua proposta de salvação. Essa é que é a proposta revolucionária que temos para apresentar ao mundo. O resto são questões cuja importância não nos deve distrair do essencial.
 
♦  Devemos também ter consciência da presença do Espírito na caminhada da Igreja de Jesus. No entanto, é preciso escutá-l’O, estar atento às interpelações que Ele lança, saber ler as suas indicações nos sinais dos tempos e nas questões que o mundo nos apresenta… Estamos verdadeiramente atentos aos apelos do Espírito?
 
♦  É preciso aprender com a forma como os Apóstolos responderam aos desafios dos tempos: com audácia,  com imaginação,  com liberdade,  com desprendimento  e, acima de tudo, com a escuta do Espírito.  É assim que a Igreja de Jesus deve enfrentar hoje os desafios do mundo.
 
 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 66 (67)

Refrão: Louvado sejais, Senhor, pelos povos de toda a terra.
 
Deus Se compadeça de nós e nos dê a sua bênção,
resplandeça sobre nós a luz do seu rosto.
Na terra se conhecerão os vossos caminhos
e entre os povos a vossa salvação. 
 
Alegrem-se e exultem as nações,
porque julgais os povos com justiça e
governais as nações sobre a terra.
 
Os povos Vos louvem, ó Deus,
todos os povos Vos louvem.
Deus nos dê a sua bênção
e chegue o seu louvor aos confins da terra.
 
 
 

LEITURA II

Ap 21,10-14.22-23

Um Anjo transportou-me em espírito
ao cimo de uma alta montanha
e mostrou-me a cidade santa de Jerusalém,
que descia do Céu, da presença de Deus,
resplandecente da glória de Deus.
O seu esplendor era como o de uma pedra preciosíssima,
como uma pedra de jaspe cristalino.
Tinha uma grande e alta muralha,
com doze portas e, junto delas, doze Anjos;
tinha também nomes gravados,
os nomes das doze tribos dos filhos de Israel:
três portas a nascente, três portas ao norte,
três portas ao sul e três portas a poente.
A muralha da cidade tinha na base doze reforços salientes
e neles doze nomes: os doze Apóstolos do Cordeiro.
Na cidade não vi nenhum templo,
porque o seu templo é o Senhor Deus omnipotente e o Cordeiro.
A cidade não precisa da luz do sol nem da lua,
porque a glória de Deus a ilumina
e a sua lâmpada é o Cordeiro.
 
 
AMBIENTE
Continuamos a ler a parte final do livro do “Apocalipse”. Nela, João apresenta-nos o resultado da intervenção definitiva de Deus no mundo: depois da vitória de Deus sobre as forças que oprimem o homem e o privam da vida plena, nascerá a comunidade nova e santa, a criação definitiva de Deus, o novo céu e a nova terra.
A  liturgia  do  passado  domingo  apresentou-nos  um  primeiro  quadro  dessa  nova realidade; hoje, a mesma realidade é descrita através de um segundo quadro – o da “Jerusalém messiânica”.
MENSAGEM
É, ainda, a imagem da “nova Jerusalém que desce do céu” que nos é apresentada. Já vimos na passada semana que falar de Jerusalém é falar do lugar onde irá irromper a salvação definitiva, o lugar do encontro definitivo entre Deus e o seu Povo.
Na  apresentação  desta  “nova  Jerusalém”,  domina  o  número  “doze”:  na  base  da muralha há  doze  reforços  salientes  e  neles  os  doze  nomes  dos  Apóstolos  do “cordeiro”; a cidade tem, igualmente, doze portas (três a nascente, três ao norte, três ao sul e três a poente), nas quais estão gravados os nomes das doze tribos de Israel; há, ainda, doze anjos junto das portas. O número “doze” indica a totalidade do Povo de Deus (doze tribos + doze Apóstolos): ela está fundada sobre os doze Apóstolos – testemunhas do “cordeiro” – mas integra a totalidade do Povo de Deus do Antigo e do Novo  Testamento,  conduzido  à  vida  plena  pela  acção  salvadora  e  libertadora  de Cristo. As portas, viradas para os quatro pontos cardeais, indicam que todos os povos (vindos do norte, do sul, de este e do oeste) podem entrar e encontrar lugar nesse lugar de felicidade plena.
Num desenvolvimento que a leitura de hoje não conservou (vers. 15-17), apresentam-se  as dimensões  dessa  “cidade”:  144  côvados  (12  vezes  doze),  formando  um quadrado  perfeito. Trata-se  de  mostrar  que  a  cidade  (perfeita,  harmoniosa)  está traçada segundo o modelo bíblico do “santo dos santos” (cf. 1 Re 6,19-20): a cidade inteira aparece, assim, como um Templo dedicado a Deus, onde Deus reside de forma permanente no meio do seu Povo.
É por isso que a última  parte  deste  texto  (vers.  22-23)  diz que a cidade  não tem Templo: nesse lugar de vida plena, o homem não terá necessidade  de mediações, pois viverá sempre na presença de Deus e encontrará Deus face a face. Diz-se ainda que toda a cidade estará banhada de luz: a luz indica a presença divina (cf. Is 2,5; 24,23; 60,19): Deus e o “cordeiro” serão a luz que ilumina esta comunidade de vida plena.
Após a intervenção definitiva de Deus na história nascerá, então, essa nova “cidade” construída sobre o testemunho dos apóstolos; cidade de portas abertas, ela acolherá todos os homens que aderirem ao “cordeiro”; nela, eles encontrarão Deus e viverão na sua presença, recebendo a vida em plenitude.
 
 
 

ACTUALIZAÇÃO

Ter em conta as seguintes indicações para reflexão:

♦  Já o dissemos a propósito da segunda leitura do passado domingo: o profeta João garante-nos que as limitações impostas pela nossa finitude, as perseguições que temos de enfrentar por causa da verdade e da justiça, os sofrimentos que resultam dos nossos limites, não são a última palavra; espera-nos, para além desta terra, a vida plena, face a face com Deus. Esta certeza tem de dar um sentido novo à nossa caminhada e alimentar a nossa esperança.

♦  A Igreja em marcha pela história não é, ainda, essa comunidade  messiânica da vida plena de que fala esta leitura; mas tem de apontar nesse sentido e procurar ser,  apesar  do pecado e  das  limitações  dos  homens,  um  anúncio  e  uma prefiguração dessa comunidade escatológica da salvação, que dá testemunho da utopia e que acende no mundo a luz de Deus. A humanidade necessita desse testemunho.

♦ Ainda que esta realidade de vida plena, de felicidade total, só aconteça na “nova Jerusalém”, ela tem de começar a ser construída desde já nesta terra. Deve ser essa  a  tarefa que  nos  motiva,  que  nos  empenha  e  que  nos  compromete:  a construção de um mundo de justiça, de amor e de paz, que seja cada vez mais um reflexo do mundo futuro que nos espera.

ALELUIA

Jo 14,23

Aleluia. Aleluia.

Se alguém Me ama, guardará a minha palavra.
Meu Pai o amará e faremos nele a nossa morada.
 
 
 
 

EVANGELHO 

Jo 14,23-29

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Quem Me ama guardará a minha palavra
e meu Pai o amará;
Nós viremos a ele
e faremos nele a nossa morada.
Quem Me não ama não guarda a minha palavra.
Ora a palavra que ouvis não é minha,
mas do Pai que Me enviou.
Disse-vos estas coisas, estando ainda convosco.
Mas o Paráclito, o Espírito Santo,
que o Pai enviará em meu nome,
vos ensinará todas as coisas
e vos recordará tudo o que Eu vos disse.
Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz.
Não vo-la dou como a dá o mundo.
Não se perturbe nem se intimide o vosso coração.
Ouvistes o que Eu vos disse:
Vou partir, mas voltarei para junto de vós.
Se Me amásseis,
ficaríeis contentes por Eu ir para o Pai,
porque o Pai é maior do que Eu.
Disse-vo-lo agora, antes de acontecer,
para que, quando acontecer, acrediteis».
 
 
AMBIENTE
Continuamos no contexto da “ceia de despedida”. Jesus, que acaba de fundar a sua comunidade, dando-lhe por estatuto o mandamento do amor (cf. Jo 13,1-17;13,33-35), vai  agora  explicar como é que  essa  comunidade  manterá,  após  a sua  partida,  a relação com Ele e com o Pai.
Nos versículos anteriores ao texto que nos é proposto, Jesus apresentou-Se como “o caminho” (cf. Jo 14,6) e convidou os discípulos a percorrer esse mesmo “caminho” (cf. Jo 14,4-5). O que é que isso significa? Jesus, enquanto esteve no mundo, percorreu um  “caminho”  – o da  entrega  ao homem,  o do  serviço,  o do  amor  total;  é nesse “caminho  que  o homem”  – o Homem  Novo que  Jesus  veio  criar  – se  realiza.  A comunidade de Jesus tem, portanto, que percorrer esse “caminho”. A metáfora do “caminho” expressa o dinamismo da vida que é progressão; percorrê-lo, é alcançar a plena maturidade do Homem Novo, do homem que desenvolveu todas as suas potencialidades, do homem recriado para a vida definitiva. O final desse “caminho” é o amor radical, a solidariedade total com o homem. Nesse “caminho”, encontra-se o Pai. Os discípulos, no entanto, estão inquietos e desconcertados. Será possível percorrer esse “caminho” se Jesus não caminhar ao lado deles? Como é que eles manterão a comunhão com Jesus e como receberão dele a força para doar, dia a dia, a própria vida?

 

 

MENSAGEM
Para seguir esse “caminho”  é preciso  amar Jesus e guardar  a sua Palavra  (cf. Jo 14,23). Quem ama Jesus e O escuta, identifica-se com Ele, isto é, vive como Ele, na entrega da própria vida em favor do homem… Ora, viver nesta dinâmica é estar continuamente em comunhão com Jesus e com o Pai. O Pai e Jesus, que são um, estabelecerão a sua morada no discípulo; viverão juntos, na intimidade de uma nova família (vers. 23-24).
Para que os discípulos  possam  continuar  a percorrer  esse “caminho”  no tempo da Igreja, o Pai enviará o “paráclito”, isto é, o Espírito Santo (vers. 25-26). A palavra “paráclito” pode traduzir-se como “advogado”, “auxiliador”, “consolador”, “intercessor”. A função do “paráclito” é “ensinar” e “recordar” tudo o que Jesus propôs. Trata-se, portanto, de uma presença dinâmica, que auxiliará os discípulos trazendo-lhes continuamente à memória os ensinamentos de Jesus e ajudando-os a ler as propostas de  Jesus  à luz  dos  novos  desafios  que  o mundo  lhes  colocar.
Assim,  os  crentes poderão continuar a percorrer, na história, o “caminho” de Jesus, numa fidelidade dinâmica às suas propostas. O Espírito garante, dessa forma, que o crente possa continuar a percorrer esse “caminho” de amor e de entrega, unido a Jesus e ao Pai. A comunidade cristã e cada homem tornam-se a morada de Deus: na acção dos crentes revela-se o Deus libertador, que reside na comunidade e no coração de cada crente e que tem um projecto de salvação para o homem.
A última parte do texto que nos é proposto contém a promessa da “paz” (vers. 27). Desejar a “paz” (“shalom”) era a saudação habitual à chegada e à partida. No entanto, neste contexto, a saudação não é uma despedida trivial (“não vo-la dou como a dá o mundo”), pois Jesus não vai estar ausente. O que Jesus pretende é inculcar nos discípulos apreensivos a serenidade e evitar-lhes o temor. São palavras destinadas a tranquilizar os discípulos e a assegurar-lhes que os acontecimentos que se aproximam não porão fim à relação entre Jesus e a sua comunidade. As últimas palavras referidas por este texto (vers. 28-29) sublinham que a ausência de Jesus não é definitiva, nem sequer prolongada. De resto, os discípulos devem alegrar-se, pois a morte não é uma tragédia sem sentido, mas a manifestação suprema do amor de Jesus pelo Pai e pelos homens.
 
 

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão deste texto pode contemplar as seguintes linhas:
 
♦  Falar do “caminho” de Jesus é falar de uma vida gasta em favor dos irmãos, numa doação total e radical, até à morte. Os discípulos são convidados a percorrer, com Jesus, esse mesmo “caminho”. Paradoxalmente, dessa entrega (dessa morte para si mesmo) nasce o Homem Novo, o homem na plenitude das suas possibilidades, o homem que desenvolveu até ao extremo todas as suas potencialidades. É esse “caminho” que eu tenho vindo a percorrer? A minha vida tem sido doação, entrega, dom, amor até ao extremo? Tenho procurado despir-me do egoísmo e do orgulho que impedem o Homem Novo de aparecer?
 
♦  A comunhão do crente com o Pai e com Jesus não resulta de momentos mágicos nos quais, através da recitação de certas fórmulas, a vida de Deus bombardeia e inunda incondicionalmente o crente; mas a intimidade e a comunhão com Jesus e com  o Pai estabelece-se  percorrendo  o caminho  do amor  e da entrega,  numa doação total aos irmãos. Quem quiser encontrar-se com Jesus e com o Pai, tem de sair do egoísmo e aprender a fazer da sua vida um dom aos homens.
 
♦  É impressionante essa pedagogia de um Deus – o nosso Deus – que nos deixa ser os construtores da  nossa  própria  história,  mas  não  nos  abandona.  De  forma discreta, respeitando  a  nossa liberdade,  Ele  encontrou  formas  de  continuar connosco, de nos animar, de nos ajudar a responder aos desafios, de nos recordar que só nos realizaremos plenamente na fidelidade ao “caminho” de Jesus.
 
♦  O cristão tem de estar, no entanto, atento à voz do Espírito, sensível aos apelos do Espírito; tem de procurar detectar os novos caminhos que o Espírito propõe; tem de estar na disposição de se deixar questionar e de refazer a sua vida, sempre que o Espírito  lhe dá a entender  que ela está a afastar-se  do “caminho”  de Jesus. Estamos  sempre  atentos  aos sinais  do Espírito  e disponíveis para enfrentar  os seus desafios?
 
 
Dehonianos
 
 
 
 
 
 
 

O ESPÍRITO SANTO E NÓS

 
 
 
 
 

1. Amor correspondido, Palavra guardada, Habitação habitada Circunlocução: círculo ardente de Amor entre o Pai e o Filho e o Espírito Santo: Trindade Pessoal, mas Consubstancial: Vida, Amor, Comunhão, Comunicação, Circunlocução. O Amor fontal do Pai enviou o Filho Jesus em missão, pura transparência do Amor do Pai entre nós. A identidade da Pessoa do Pai constitui-se em dar tudo ao Filho Jesus, assim como a identidade da Pessoa do Filho Jesus se constitui em receber tudo do Pai.

2. O Espírito, também enviado em missão, é Aquele que recebe o que é do Filho (João 16,14.15), e que o Filho recebeu do Pai. A única diferença é que o Filho Jesus já foi enviado [«o Pai que me enviou»: João 5,23.37; 6,44; 8,16.18; 12,49; 14,24; «Aquele que me enviou»: João 4,34; 5,24.30; 6,38.30.40; 7,16.28.33; 8,26.29; 9,4; 12,44-45; 13,20; 15,21; 16,5], enquanto que o envio do Espírito é anunciado, mas deve ainda realizar-se (João 14,16.26; 15,26; 16,13-15). Também as funções de ensinar e de recordar, a cargo do Espírito, aparecem enunciadas no futuro. O ensinamento do Espírito é o mesmo que Jesus fez e que recebeu do Pai, mas vem depois do de Jesus (João 14,26), e processa-se, ao contrário do de Jesus, não com palavras sensíveis que tocam os órgãos da audição de um público determinado, mas na interioridade da inteligência e do coração de cada ser humano. Este ensinamento interior do Espírito é comparado à unção de óleo (chrísma) que penetra lentamente, como diz o Apóstolo: «Vós recebestes a unção (chrísma) que vem do Santo e todos conheceis (oídate)» (1 João 2,20); ou então: «a unção (chrísma) dele vos ensina (didáskei) acerca de todas as coisas» (1 João 2,27).

3. Ensinamento novo. Não exterior, com sons e palavras, mas directamente nas pregas da inteligência e do coração. É assim que a linguagem nova do Espírito afecta ao mesmo tempo o português e o chinês, o inglês e o russo, o católico, o muçulmano e o hebreu. É como quando, em vez de se porem a falar cada um a sua língua para o outro incompreensível, o português e o chinês entregam um ao outro uma flor! É assim que fala o Espírito, é assim que age o Espírito.

4. Nós somos do tempo da missão do Espírito. Note-se a fortíssima vinculação: «O Espírito Santo e nós» (Actos 15,28).

5. Deus habitando em nós (João 14,24). Deus connosco (Apocalipse 21). Cidade nova, Consolação nova, Bênção nova, Paz nova, não com a medida do mundo, mas de Deus (João 14,27; Salmo 67(66)).

 António Couto

 

Domingo V do Tempo Pascal – Ano C

 

TEMA DO 5º DOMINGO DO TEMPO PASCAL

O tema fundamental da liturgia deste domingo é o do amor: o que identifica os seguidores de Jesus é a capacidade de amar até ao dom total da vida.

No Evangelho, Jesus despede-Se dos seus discípulos e deixa-lhes em testamento o mandamento  novo”: “amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei”. É nessa entrega radical da vida que se cumpre a vocação cristã e que se dá testemunho no mundo do amor materno e paterno de Deus.

Na primeira leitura apresenta-se a vida dessas comunidades cristãs chamadas a viver  no amor. No meio das vicissitudes e das crises, são comunidades fraternas, onde os irmãos se ajudam, se fortalecem uns aos outros nas dificuldades, se amam e dão testemunho do amor de Deus. É esse projecto que motiva Paulo e Barnabé e é essa proposta  que eles levam,  com a generosidade  de quem ama, aos confins  da Ásia Menor.

segunda leitura apresenta-nos a meta final para onde caminhamos: o novo céu e a nova terra, a realização  da utopia, o rosto final dessa comunidade  de chamados  a viver no amor.

 
 
 
LEITURA I
 
Actos 14,21b-27
 
Naqueles dias,
Paulo e Barnabé voltaram a Listra, a Icónio e a Antioquia.
Iam fortalecendo as almas dos discípulos
e exortavam-nos a permanecerem firmes na fé,
«porque – diziam eles – temos de sofrer muitas tribulações
para entrarmos no reino de Deus».
Estabeleceram anciãos em cada Igreja,
depois de terem feito orações acompanhadas de jejum,
e encomendaram-nos ao Senhor, em quem tinham acreditado.
Atravessaram então a Pisídia e chegaram à Panfília;
depois, anunciaram a palavra em Perga e desceram até Atalia.
De lá embarcaram para Antioquia,
de onde tinham partido, confiados na graça de Deus,
para a obra que acabavam de realizar.
À chegada, convocaram a Igreja,
contaram tudo o que Deus fizera com eles
e como abrira aos gentios a porta da fé.
 
AMBIENTE
Vimos, no passado domingo, como o entusiasmo missionário da comunidade cristã de Antioquia da Síria lançou Paulo e Barnabé  para a missão  e como a Boa Nova de Jesus alcançou, assim, a ilha de Chipre e as costas da Ásia Menor…
A leitura de hoje apresenta-nos  a conclusão  dessa primeira  viagem  missionária  de Paulo e de Barnabé: depois de chegarem a Derbe, voltaram para trás, visitaram as comunidades  entretanto fundadas  (Listra,  Icónio,  Antioquia  da  Pisídia  e  Perge)  e embarcaram  de  regresso  à  cidade de  onde  tinham  partido  para  a  missão.  Estes sucessos desenrolam-se entre os anos 46 e 49.
MENSAGEM
No texto que nos é proposto, transparecem os traços fundamentais que marcaram a vida e a experiência dos primeiros grupos cristãos: o entusiasmo dos primeiros missionários, que permite afrontar e vencer os perigos e as incomodidades para levar a todos os homens a boa notícia dessa libertação que Cristo veio propor; as palavras de consolação que fortalecem a fé e ajudam a enfrentar as perseguições (vers. 22a); o apoio mútuo (vers. 23b); a oração (vers. 23b.c).
Sobretudo, este texto acentua a ideia de que a missão não foi uma obra puramente humana, mas foi uma obra de Deus. No início da aventura missionária já se havia sugerido  que  o envio  de Paulo  e Barnabé  não  era  apenas  iniciativa  da  Igreja  de Antioquia, mas uma acção do Espírito (cf. Act 13,2-3); foi esse mesmo Espírito que acompanhou e guiou os missionários a cada passo da sua viagem. E aqui repete-se que o autêntico actor da conversão dos pagãos é Deus e não os homens (cf. vers. 27). Verdadeira  novidade  no  contexto  da  missão  é  a  instituição  de dirigentes  ou responsáveis (“anciãos” – em grego, “presbíteros”), que aparecem aqui pela primeira vez fora da Igreja de Jerusalém. Correspondem, provavelmente, aos “conselhos de anciãos” que estavam à frente das comunidades judaicas. Os “Actos” não explicitam as funções exactas destes dirigentes e animadores das Igrejas; mas o discurso de despedida que Paulo faz aos anciãos de Éfeso parece confiar-lhes o cuidado de administrarem, de vigiarem e de defenderem a comunidade face aos perigos internos e externos (cf. Act 20,28-31).  Em todo o caso, convém recordar que os ministérios eram algo subordinado dentro da organização e da vida da primitiva comunidade; não eram valores absolutos em si mesmo, mas só existiam e só tinham sentido em função da comunidade.
 

 

ACTUALIZAÇÃO

Para reflectir, partilhar e actualizar este texto, considerar as seguintes linhas:

♦  Como  é que vivem as nossas comunidades cristãs? Notamos nelas o mesmo empenho missionário dos inícios? Há partilha fraterna e preocupação em ir ao encontro dos mais débeis, em apoiá-los e ajudá-los a superar as crises e as angústias?  São comunidades  que se fortalecem  com uma vida de oração e de diálogo com Deus?

♦  Temos consciência de que por detrás do nosso trabalho e do nosso testemunho está Deus? Temos consciência de que o anúncio do Evangelho não é uma obra nossa, na qual expomos as nossas  ideias e a nossa ideologia,  mas é obra de Deus? Temos consciência de que não nos pregamos a nós próprios, mas a Cristo libertador?

♦ Para aqueles que têm responsabilidades de direcção ou de animação das comunidades: a missão que lhes foi confiada não é um privilégio, mas um serviço que está subordinado  à construção  da própria  comunidade.  A comunidade  não existe  para  servir  quem  preside; quem  preside  é  que  existe  em  função  da comunidade e do serviço comunitário.

  
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 144
 
Refrão:  Bendito seja o vosso nome,
Senhor, nosso Deus.
 
O Senhor é clemente e compassivo,
paciente e cheio de bondade.
O Senhor é bom para com todos
e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas.
 
Graças Vos dêem, senhor, todas as criaturas
e bendigam-Vos os vossos fiéis.
Proclamem a glória do vosso reino
e anunciem os vossos feitos gloriosos.
 
Para darem a conhecer aos homens o vosso poder,
a glória e o esplendor do vosso reino.
O vosso reino é um reino eterno,
o vosso domínio estende-se por todas as gerações.
 
 LEITURA II
 
Ap 21,1-5a
 
Eu, João, vi um novo céu e uma nova terra,
porque o primeiro céu e a primeira terra tinham desaparecido
e o mar já não existia.
Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém,
que descia do Céu, da presença de Deus,
bela como noiva adornada para o seu esposo.
Do trono ouvi uma voz forte que dizia:
«Eis a morada de Deus com os homens.
Deus habitará com os homens:
eles serão o seu povo
e o próprio Deus, no meio deles, será o seu Deus.
Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos;
nunca mais haverá morte nem luto, nem gemidos nem dor,
porque o mundo antigo desapareceu».
Disse então Aquele que estava sentado no trono:
«Vou renovar todas as coisas».
 
AMBIENTE
Depois de descrever o confronto entre Deus e as forças do mal e a vitória final de Deus, o autor do “Apocalipse” apresenta o ponto de chegada da história humana: a “nova  terra  e  o  novo  céu”; aí,  os  que  se  mantiveram  fiéis  ao  “cordeiro”  (Jesus) encontrarão a vida em plenitude. É o culminar da caminhada da humanidade, a meta última da nossa história.
Esse mundo novo é, simbolicamente,  apresentado em dois quadros (cf. Ap 21,1-8 e 21,9-22,5).A leitura que hoje nos é proposta apresenta-nos o primeiro desses quadros (o outro ficará para o próximo domingo). É o quadro do novo céu e da nova terra – um quadro que apresenta a última fase da obra regeneradora de Deus e que aparece já em Is 65,17 e em 66,22. Também se encontra esta imagem abundantemente representada  na literatura apocalíptica (cf. Henoch, 45,4-5; 91,16; 4 Esd 7,75), bem como em certos textos do Novo Testamento (cf. Mt 19,28; 2 Pe 3,13).
MENSAGEM
Neste primeiro quadro, o profeta João chama a essa nova realidade nascida da vitória de Deus a “Jerusalém que desce do céu”. Jerusalém é, no universo religioso e cultural do povo bíblico, a cidade santa por excelência, o lugar onde Deus reside, o espaço onde vai irromper e onde se manifestará em definitivo a salvação de Deus. A “nova Jerusalém” é, portanto, o lugar da salvação definitiva, o lugar do encontro definitivo entre Deus e o seu Povo.
No  contexto  da teologia  do Livro  do Apocalipse,  esta  cidade  nova,  onde  encontra guarida o Povo vitorioso dos “santos”, designa a Igreja, vista como comunidade escatológica, transformada e renovada pela acção salvadora e libertadora de Deus na história. Dizer que ela “desce do céu” significa dizer que se trata de uma realidade que vem de Deus e tem origem divina; ela é uma absoluta criação da graça de Deus, dom definitivo de Deus ao seu Povo.
Esta nova realidade instaura, consequentemente, uma nova ordem de coisas e exige que tudo o que é velho seja transformado. O mar, símbolo e resíduo do caos primitivo e  das  potências  hostis a  Deus,  desaparecerá;  a  velha  terra,  cenário  da  conduta pecadora do homem, vai ser transformada e recriada (vers. 1).A partir daí, tudo será novo, definitivo, acabado, perfeito.
Quando esta realidade irromper, celebrar-se-á o casamento definitivo entre Deus e a humanidade  transformada  (a  “noiva  adornada  para  o  esposo”).  Na  linguagem profética, o casamento é um símbolo privilegiado da aliança. Realiza-se, assim, o ideal da aliança (cf. Jer 31,33-38; Ez 37,27): Deus e o seu Povo consumam a sua história de intimidade e de comunhão; Deus passará a residir de forma permanente e estável no meio do seu Povo, como o noivo que se junta à sua amada e com ela partilha a vida e o amor. A longa história de amor entre Deus e o seu Povo será uma história de amor com um final feliz. Serão definitivamente banidos do horizonte do homem a dor, as lágrimas, o sofrimento e a morte e restarão a alegria, a harmonia e a felicidade sem fim.
 
 
ACTUALIZAÇÃO
 

Para a reflexão desta Palavra, considerar os seguintes dados:

♦ O testemunho profético de João garante-nos que não estamos destinados ao fracasso, mas sim à vida plena, ao encontro com Deus, à felicidade sem fim. Esta esperança tem de iluminar a nossa caminhada e dar-nos a coragem de enfrentar os dramas e as crises que dia a dia se nos apresentam.

♦ A Igreja de que fazemos parte tem de procurar ser um anúncio dessa comunidade escatológica, uma “noiva” bela e que caminha com amor ao encontro de Deus, o amado. Isto significa que o egoísmo, as divisões, os conflitos, as lutas pelo poder, têm de ser banidos da nossa experiência eclesial: eles são chagas que desfeiam o rosto da Igreja e a impedem de dar testemunho do mundo novo que nos espera.

♦  É verdade que a instauração plena do “novo céu e da nova terra” só acontecerá quando  o mal for vencido  em definitivo;  mas essa nova realidade  pode e deve começar  desde já: a ressurreição  de Cristo convoca-nos  para a renovação  das nossas vidas, da nossa comunidade cristã ou religiosa, da sociedade e das suas estruturas, do mundo em que vivemos (e que geme num violento esforço de libertação).

 

ALELUIA 

Jo 13,34
  
Aleluia. Aleluia.
 
Dou-vos um mandamento novo, diz o Senhor:
amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei.
 
 
 
EVANGELHO 
 
Jo 13,31-33a.34-35
 
Quando Judas saiu do cenáculo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Agora foi glorificado o Filho do homem
e Deus glorificado n’Ele.
Se Deus foi glorificado n’Ele,
Deus também O glorificará em Si mesmo
e glorificá-l’O-á sem demora.
Meus filhos, é por pouco tempo que ainda estou convosco. 
Dou-vos um mandamento novo:
que vos ameis uns aos outros.
Como Eu vos amei,
amai-vos também uns aos outros.
Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos:
se vos amardes uns aos outros».
 
AMBIENTE
Estamos na fase final da caminhada histórica do “Messias”. Aproxima-se a “Hora”, o momento em que vai nascer – a partir do testemunho do amor total cumprido na cruz – o Homem Novo e a nova comunidade.
O contexto em que este trecho nos coloca é o de uma ceia, na qual Jesus Se despede dos discípulos e lhes deixa as últimas recomendações. Jesus acabou de lavar os pés aos discípulos (cf. Jo 13,1-20) e de anunciar à comunidade desconcertada a traição de um do grupo (cf. Jo 13,21-30); nesses quadros, está presente o seu amor (que se faz serviço simples e humilde no episódio da lavagem dos pés e que se faz amor que não julga, que não condena,  que não limita a liberdade  e que se dirige até ao inimigo mortal, na referência a Judas, o traidor). Em seguida, Jesus vai dirigir aos discípulos palavras de despedida; essas suas palavras – resumo coerente de uma vida feita de amor e partilha – soam a testamento final. Trata-se de um momento muito solene; é a altura em que não há tempo nem disposição para “conversa fiada”: aproxima-se o fim e é preciso  recordar aos discípulos  aquilo  que é mesmo  fundamental  na proposta cristã.
MENSAGEM
O texto divide-se em duas partes. Na primeira parte (vers. 31-32), Jesus interpreta a saída  de Judas,  que  acabou  de  deixar  a sala  onde  o grupo  está  reunido,  para  ir entregar  o  “mestre” aos  seus  inimigos.  A  morte  é,  portanto,  uma  realidade  bem próxima… Jesus explica, na sequência, que a sua morte na cruz será a manifestação da sua glória e da glória do Pai. O termo “doxa” aqui utilizado traduz o hebraico “kabod” que pode entender-se como “riqueza”, “esplendor”. A “riqueza”, o “esplendor” do Pai e de Jesus manifesta-se, portanto, no amor que se dá até ao extremo, até ao dom total. É que a “glória” do Pai e de Jesus não se manifesta no triunfo espectacular ou  na  violência  que  aniquila  os  maus,  mas  manifesta-se  na  vida  dada,  no amor oferecido  até  ao  extremo.  A entrega  de  Jesus  na  cruz  vai  manifestar  a todos  os homens a lógica de Deus e mostrar a todos como Deus é: amor radical, que se faz dom até às últimas consequências.
Na segunda parte (vers. 33a.34-35) temos, então, a apresentação  do “mandamento novo”. Começa com a expressão “meus filhos” (vers. 33a) – o que nos coloca num quadro de solene emoção e nos leva ao “testamento” de um pai que, à beira da morte, transmite aos seus filhos a sua sabedoria de vida e aquilo que é verdadeiramente fundamental.
Qual  é,  portanto,  a   última  palavra  de  Jesus  aos  seus,  o  seu  ensinamento fundamental?
“Amai-vos uns aos outros. Como Eu vos amei, vós deveis também amar-vos uns aos outros”. O verbo “agapaô” (“amar”) aqui utilizado define, em João, o amor que faz dom de si, o amor até ao extremo, o amor que não guarda nada para si mas é entrega total e absoluta. O ponto de referência no amor é o próprio Jesus (“como Eu vos amei”); as duas  cenas  precedentes  (lavagem dos  pés  aos  discípulos  e despedida  de  Judas) definem  a qualidade  desse  amor  que  Jesus pede  aos  seus:  “amar”  consiste  em acolher, em pôr-se ao serviço dos outros, em dar-lhes dignidade e liberdade pelo amor (lavagem dos pés), e isso sem limites nem discriminação alguma, respeitando absolutamente a liberdade do outro (episódio de Judas). Jesus é a norma, não com palavras, mas com actos; mas agora traduz em palavras os seus actos precedentes, para que os discípulos tenham uma referência.
O amor (igual ao de Jesus) que os discípulos manifestam  entre si será visível para todos  os homens  (vers.  35).  Esse  será  o distintivo  da  comunidade  de  Jesus.  Os discípulos de Jesus não são os depositários de uma doutrina ou de uma ideologia, ou os observantes de leis, ou os fiéis cumpridores de ritos; mas são aqueles que, pelo amor que partilham, vão ser um sinal vivo do Deus que ama. Pelo amor, eles serão no mundo sinal do Pai.
 
 
ACTUALIZAÇÃO
 
Considerar, na reflexão da Palavra, as seguintes linhas:
 

♦  A proposta  cristã  resume-se  no  amor.  É o amor  que  nos  distingue,  que  nos identifica; quem não aceita o amor, não pode ter qualquer pretensão de integrar a comunidade de Jesus. O que é que está no centro da nossa experiência cristã? A nossa religião é a religião do amor, ou é a religião das leis, das exigências, dos ritos externos? Com que força nos impomos no mundo – a força do amor, ou a força da autoridade prepotente e dos privilégios?

 

♦  Falar de amor hoje pode ser equívoco… A palavra “amor” é, tantas vezes, usada para definir comportamentos egoístas, interesseiros, que usam o outro, que fazem mal, que limitam horizontes, que roubam a liberdade… Mas o amor de que Jesus fala  é o amor  que acolhe,  que  se  faz  serviço,  que  respeita  a dignidade  e a liberdade do outro, que não discrimina nem marginaliza, que se faz dom total (até à morte) para que o outro tenha mais vida. É este o amor que vivemos e que partilhamos?

 

♦  Por um lado, a comunidade de Jesus tem de testemunhar, com gestos concretos, o amor de Deus; por outro, ela tem de demonstrar que a utopia é possível e que os homens podem ser irmãos. É esse o nosso testemunho de comunidade cristã ou religiosa?  Nos  nossos comportamentos  e atitudes  uns  para  com  os  outros,  os homens descobrem  a presença do amor de Deus no mundo? Amamos mais do que  os  outros  e  interessamo-nos  mais  do  que  eles  pelos  pobres  e  pelos  que sofrem?

Dehonianos

 
 
 
 

 A COISA MAIS DIVINA QUE HÁ NO MUNDO

1. No tempo de Jesus, o panorama do judaísmo palestinense era dominado por duas escolas: a escola conservadora e rigorista de Shamai e a escola liberal de Hillel.

2. Conta-se que, um dia, um homem se terá apresentado na escola de Shamai, e fez ao mestre um estranho pedido: «quero que, enquanto eu me mantiver apenas com um pé no chão, tu me expliques toda a Lei». Diz-se que Shamai se limitou a pegar na sua vara de mestre e a correr o homem pela porta fora, pois era óbvio que o homem fazia um pedido impossível de cumprir, tal era a vastidão da Lei. Mas o homem não desanimou e dirigiu-se à escola de Hillel, a quem formulou o mesmo pedido. E Hillel terá respondido de pronto: «Nada mais fácil: “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti!”».

3. A esta sentença de Hillel, na sua formulação negativa, deu-se o nome de «regra de ouro». Em boa verdade, ela já aparece no Livro de Tobias 4,15. É, todavia, fácil de verificar, que esta sentença é de fácil cumprimento. Dado que o seu teor é negativo, para a cumprir, basta a alguém cruzar os braços e nada fazer. Procedendo assim, nada fará de inconveniente a ninguém, cumprindo assim escrupulosamente a sentença.

4. Tentando talvez evitar a inacção acoitada na formulação negativa anterior, os Evangelhos apresentam desta máxima uma formulação positiva: «Faz aos outros o que queres que te façam ti!» (Mateus 7,12; Lucas 6,31). Levando a sério esta formulação, já não é suficiente jogar à defesa e nada fazer, mas é requerido o fazer. Seja como for, as duas formulações apresentadas, quer a negativa quer a positiva, padecem do mesmo vício: sou eu o centro, é à minha volta que tudo roda, e o que eu faço ou deixo de fazer é com o objectivo claro de que me seja retribuído outro tanto!

5. O tom positivo da referida «regra de ouro» recebe ainda outra bem conhecida formulação: «Ama o teu próximo como a ti mesmo!», que atravessa a inteira Escritura: Levítico 19,18; Mateus 22,39; Romanos 13,9; Gálatas 5,14; Tiago 2,8. Mas também esta formulação é perigosa: primeiro, porque eu continuo o ser o centro, a medida do amor aos outros; segundo, porque, se alguém não se ama a si mesmo (e são, infelizmente, cada vez mais os casos!), como poderá cumprir devidamente esta máxima?

6. É aqui que cai, como uma lâmina, a força do Evangelho de Jesus, proclamado, por graça, neste Domingo V da Páscoa: «Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei!» (João 13,34). Aqui, a medida não sou eu. Aqui, a medida é Jesus. Aqui, a medida é sem medida! Aqui, o amor não é interesseiro. Aqui, o amor é puro, radical, incondicional, assimétrico, sem retorno. Aqui, o amor é até ao fim!

7. Passa também neste Domingo o Dia da Mãe. Sobre esta terra dorida, anestesiada e indiferente, uma Mãe verdadeira ainda é o ícone mais belo deste amor imenso e sem pauta nem medida, que não é meu, nem é teu, nem é nosso. É de Deus. Nós sabemos isso. Mas uma Mãe sabe isso melhor. É por isso que é fácil, neste Dia da Mãe, cair pelo rosto de cada Mãe uma lágrima de tristeza ou de alegria! Melhor assim, Mulher e Mãe: sentirás a mão carinhosa de Deus a afagar o teu rosto e a enxugar essa lágrima, de acordo com a lição da Leitura de hoje do Livro do Apocalipse 21,4!

 António Couto

Domingo IV do Tempo Pascal – Ano C

Tema do 4º Domingo do Tempo Pascal

 

O 4º Domingo do Tempo Pascal é considerado o “Domingo do Bom Pastor”, pois todos os anos a liturgia propõe um trecho do capítulo 10 do Evangelho segundo João, no qual Jesus é apresentado como Bom Pastor. É, portanto, este o tema central que a Palavra de Deus hoje nos propõe.

O Evangelho apresenta Cristo como o Bom Pastor, cuja missão é trazer a vida plena às ovelhas do seu rebanho; as ovelhas, por sua vez, são convidadas a escutar o Pastor, a acolher a sua proposta e a segui-l’O. É dessa forma que encontrarão a vida em plenitude.

A primeira leitura propõe-nos duas atitudes diferentes diante da proposta que o Pastor (Cristo) nos apresenta. De um lado, estão essas “ovelhas” cheias de auto-suficiência, satisfeitas e comodamente instaladas nas suas certezas; de outro, estão outras ovelhas, permanentemente atentas à voz do Pastor, que estão dispostas a arriscar segui-l’O até às pastagens da vida abundante. É esta última atitude que nos é proposta.

A segunda leitura apresenta a meta final do rebanho que seguiu Jesus, o Bom Pastor: a vida total, de felicidade sem fim.

LEITURA I – Act 13,14.43-52

Leitura dos Actos dos Apóstolos

Naqueles dias,
Paulo e Barnabé seguiram de Perga até Antioquia da Pisídia.
A um sábado, entraram na sinagoga e sentaram-se.
Terminada a reunião da sinagoga,
muitos judeus e prosélitos piedosos
seguiram Paulo e Barnabé,
que nas suas conversas com eles
os exortavam a perseverar na graça de Deus.
No sábado seguinte,
reuniu-se quase toda a cidade para ouvir a palavra do Senhor.
Ao verem a multidão, os judeus encheram-se de inveja
e responderam com blasfémias.
Corajosamente, Paulo e Barnabé declararam:
«Era a vós
que devia ser anunciada primeiro a palavra de Deus.
Uma vez, porém, que a rejeitais
e não vos julgais dignos da vida eterna,
voltamo-nos para os gentios,
pois assim nos mandou o Senhor:
‘Fiz de ti a luz das nações,
para levares a salvação até aos confins da terra’».
Ao ouvirem estas palavras,
os gentios encheram-se de alegria
e glorificavam a palavra do Senhor.
Todos os que estavam destinados à vida eterna
abraçaram a fé
e a palavra do Senhor divulgava-se por toda a região.
Mas os judeus,
instigando algumas senhoras piedosas mais distintas
e os homens principais da cidade,
desencadearam uma perseguição contra Paulo e Barnabé
e expulsaram-nos do seu território.
Estes, sacudindo contra eles o pó dos seus pés,
seguiram para Icónio.
Entretanto, os discípulos
estavam cheios de alegria e do Espírito Santo.

AMBIENTE

A partir do capítulo 13, os “Actos dos Apóstolos” apresentam o “caminho” da Igreja no mundo greco-romano. O protagonista humano desta nova etapa será Paulo (embora sempre animado e conduzido pelo Espírito do Senhor ressuscitado).

Tudo começa quando a comunidade cristã de Antioquia da Síria, ansiosa por fazer a Boa Nova de Jesus chegar a todos os povos, envia Barnabé e Paulo a evangelizar. Entre 13,1 e 15,35, o autor dos “Actos” descreve o “envio” dos missionários, a viagem, a evangelização de Chipre e da Ásia Menor (Perga, Antioquia da Pisídia, Icónio, Listra, Derbe) e os problemas colocados à jovem Igreja pela entrada maciça de gentios.

Este texto, em concreto, situa-nos na cidade de Antioquia da Pisídia, no interior da Ásia Menor. Nos versículos anteriores, o autor dos “Actos” pôs na boca de Paulo um longo discurso, que resume a catequese primitiva sobre Jesus e que enquadra no plano de Deus a proposta de salvação que Jesus veio trazer (cf. Act 13,16-41). Qual será a resposta ao anúncio, quer por parte dos judeus, quer por parte dos pagãos que escutaram a mensagem?

MENSAGEM

A questão central gira, portanto, à volta da reacção de judeus e pagãos ao anúncio de salvação apresentado por Paulo e Barnabé.

O texto põe em confronto duas atitudes diversas diante da proposta cristã: a daqueles que pensavam ter o monopólio de Deus e da verdade, mas que estavam instalados nas suas certezas, no seu orgulho, na sua auto-suficiência, nas suas leis definidas e comodamente arrumadas e não estavam, realmente, dispostos a “embarcar” na aventura do seguimento de Cristo (judeus); e a daqueles que, no desafio do Evangelho, descobriram a vida verdadeira, aceitaram questionar-se, quiseram arriscar e responderam com alegria e entusiasmo à proposta libertadora que Deus lhes fez por intermédio dos missionários (pagãos).

A Boa Nova de Jesus é, portanto, uma proposta que é dirigida a todos os homens, de todas as raças e nações; não se trata de uma proposta fechada, exclusivista, destinada a um grupo de eleitos, mas de uma proposta universal, que se destina a todos os homens, sem excepção. O que é decisivo não é ter nascido neste ou naquele ambiente, mas é a capacidade de se deixar desafiar pela proposta de Jesus, de acolher com simplicidade, alegria e entusiasmo essa proposta e de partir, todos os dias, para esse caminho onde o nosso Deus nos propõe encontrar a vida nova, a vida verdadeira, a vida total.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão e a actualização da Palavra podem partir das seguintes linhas:

• Os judeus de que se fala nesta leitura representam aqueles que se acomodaram a uma religião “morninha”, segura, feita de hábitos, de leis, de devoções, de ritos externos, de fórmulas fixas, mas que não põe verdadeiramente em causa o coração e a consciência, nem tem um impacto real na vida de todos os dias. É a religião dos “certinhos” e acomodados, dos que têm medo da novidade de Deus (que mexe com os esquemas feitos e, constantemente, põe tudo em causa, obriga a arriscar e a converter-se).

• Os pagãos de que se fala nesta leitura representam aqueles que, tendo tantas vezes uma história pessoal complicada e uma caminhada de fé nem sempre exemplar, estão abertos à novidade de Deus e se deixam questionar por Ele. Eles não têm medo de se desinstalar, de arriscar partir para uma vida nova e mais exigente, de procurar novos caminhos, de seguir Jesus no seu percurso de amor e de entrega – ainda que seja um caminho de cruz e de perseguição.

• Onde é que eu me situo? Na atitude de quem nasceu cristão sem ter feito muito para isso e que vive a sua religião sem riscos, sem exigências de radicalidade e de autenticidade, ou na atitude de quem se deixa continuamente desafiar, se deixa questionar por Deus, aceita viver numa dinâmica contínua de conversão e sente que a sua caminhada em direcção à vida nova nunca está acabada?

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 99 (100)

Refrão: Nós somos o povo do Senhor; Ele é o nosso alimento.

Aclamai o Senhor, terra inteira,
servi o Senhor com alegria,
vinde a Ele com cânticos de júbilo.

Sabei que o Senhor é Deus,
Ele nos fez, a Ele pertencemos,
somos o seu povo, as ovelhas do seu rebanho.

O Senhor é bom,
eterna é a sua misericórdia,
a sua fidelidade estende-se de geração em geração.

LEITURA II – Ap 7,9.14b-17

Leitura do Livro do Apocalipse

Eu, João, vi uma multidão imensa,
que ninguém podia contar,
de todas as nações, tribos, povos e línguas.
Estavam de pé, diante do trono e na presença do Cordeiro,
vestidos com túnicas brancas e de palmas na mão.
Um dos Anciãos tomou a palavra para me dizer:
«Estes são os que vieram da grande tribulação,
os que lavaram as túnicas
e as branquearam no sangue do Cordeiro.
Por isso estão diante do trono de Deus,
servindo-O dia e noite no seu templo.
Aquele que está sentado no trono
abrigá-los-á na sua tenda.
Nunca mais terão fome nem sede,
nem o sol ou o vento ardente cairão sobre eles.
O Cordeiro, que está no meio do trono, será o seu pastor
e os conduzirá às fontes da água viva.
E Deus enxugará todas as lágrimas dos seus olhos».

AMBIENTE

A liturgia do passado domingo apresentava-nos “o cordeiro” (Jesus), o Senhor da história, que Se preparava para abrir e ler o livro dos sete selos – o livro onde, simbolicamente, estava escrita a história humana.

De acordo com o autor do “Apocalipse”, a abertura dos selos desse livro vai expor a realidade do mundo: na caminhada histórica dos homens, está presente Cristo vitorioso continuamente em combate contra tudo o que escraviza e destrói o homem (1º selo – o cavaleiro branco); mas está também presente a guerra e o sangue (2º selo – o cavaleiro vermelho), a fome e a miséria (3º selo – o cavaleiro negro), a morte, a doença, a decomposição (4º selo – o cavaleiro esverdeado). No fundo deste quadro, jazem os mártires que sofrem perseguições por causa da sua fé e que, dia a dia, clamam a Deus por justiça (5º selo); por isso, prepara-se o “grande dia da ira”, que anuncia a intervenção de Deus na história para destruir o mal (6º selo). A revelação final apresenta o combate definitivo, em que as forças de Deus derrotarão as forças do mal (7º selo).

O texto de hoje situa-nos no contexto do 6º selo (o anúncio do “dia do Senhor”). Aos mártires que clamam por justiça, o autor do “Apocalipse” descreve o que vai resultar da intervenção de Deus: a libertação definitiva, a vida em plenitude.

MENSAGEM

O texto que nos é proposto apresenta-nos uma multidão imensa, inumerável, universal, pois pertence a todas as nações. Os que a compõem estão de pé, em sinal de vitória, pois participam da ressurreição de Cristo; levam túnicas brancas, o que indica que pertencem à esfera de Deus (o branco é a cor de Deus); aclamam com palmas (alusão à festa das tendas, uma festa celebrada no final das colheitas, marcada pela alegria e pelo louvor. Recorda o êxodo – quando os israelitas viveram em “tendas” – e, por influência de Zac 14,16, assume claras ressonâncias escatológicas. Na liturgia dessa festa, a multidão entrava em cortejo no recinto do Templo, agitando palmas e cantando) e louvam Deus e o “cordeiro”.

Quem são estes? São os que “vieram da grande tribulação e que branquearam as vestes no sangue do cordeiro”, isto é, que suportaram a perseguição mais feroz e alcançaram a redenção pela entrega de Jesus (vers. 14).

Que fazem eles? Estão diante de Deus tributando-Lhe o culto, dia e noite. Esse culto não é o somatório de um conjunto de ritos mas, antes de mais, a permanente e gozosa presença diante de Deus e do “cordeiro”.

A “Festa das Tendas” fazia alusão à marcha do Povo de Deus pelo deserto, desde a terra da escravidão até à terra da liberdade. A referência a esta festa neste contexto significa que se cumpre, agora, o novo e definitivo êxodo: depois da intervenção final de Deus na história, a multidão dos que aderiram ao “cordeiro” e acolheram a sua proposta de salvação, alcançaram a libertação definitiva, foram acolhidos na “tenda” de Deus; aí, não os alcançará mais a morte, o sofrimento, as lágrimas… Cristo ressuscitado, sentado no trono, é o pastor deste novo Povo, e que o conduz para “as fontes de águas vivas” – isto é, em direcção à plenitude dos bens definitivos, onde brota a fonte da vida plena.

Em conclusão: aos “santos” que gritam por justiça, anuncia-se uma mensagem de esperança. O quadro antecipa o tempo escatológico: da acção de Deus, da sua definitiva intervenção na história, resultará a libertação definitiva do Povo de Deus; nascerá a comunidade escatológica, a comunidade dos libertados, que estarão para sempre em comunhão com Deus e que gozarão em plenitude a vida definitiva.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão pode fazer-se a partir dos seguintes elementos:

• Em cada dia que passamos neste mundo, fazemos a experiência da alegria e da esperança, mas também da dor, da incompreensão, do medo, do sofrimento, do desespero… Com frequência, é o pessimismo que nos agarra, que nos limita, que nos escraviza e que nos impede de saborear o dom da vida. O autor do “Apocalipse” deixa-nos uma mensagem de esperança e diz-nos que não estamos condenados ao fracasso, mas sim à vida plena, à libertação definitiva, à felicidade total.

• O que é preciso para aí chegar? Apenas acolher o dom da salvação que nos é feito pelo nosso Deus. Se aceitarmos a proposta de Jesus e seguirmos atrás d’Ele no caminho do amor, da entrega, do dom da vida, se virmos n’Ele o pastor que nos conduz às fontes de água viva, chegaremos indubitavelmente à vida definitiva, à comunhão com Deus, à felicidade plena.

• A resposta positiva à oferta de salvação que Deus nos faz introduz em nós um novo dinamismo; esse dinamismo fortalece a nossa coragem e permite-nos continuar a lutar, desde já, pela concretização do novo céu e da nova terra.

ALELUIA – Jo 10,14

Aleluia. Aleluia.

Eu sou o bom pastor, diz o Senhor:
conheço as minhas ovelhas e elas conhecem-Me.

EVANGELHO – Jo 10,27-30

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, disse Jesus:
«As minhas ovelhas escutam a minha voz.
Eu conheço as minhas ovelhas e elas seguem-Me.
Eu dou-lhes a vida eterna e nunca hão-de perecer
e ninguém as arrebatará da minha mão.
Meu Pai, que Mas deu, é maior do que todos
e ninguém pode arrebatar nada da mão do Pai.
Eu e o Pai somos um só».

AMBIENTE

O capítulo 10 do 4º Evangelho é dedicado à catequese do Bom Pastor. O autor utiliza esta imagem para apresentar uma catequese sobre a missão de Jesus: a obra do “Messias” consiste em conduzir o homem às pastagens verdejantes e às fontes cristalinas de onde brota a vida em plenitude.

A imagem do Bom Pastor não foi inventada pelo autor do 4º Evangelho. Literariamente falando, este discurso simbólico está construído com materiais provenientes do Antigo Testamento. Em especial, este discurso tem presente Ez 34 onde se encontra a chave para compreender a metáfora do pastor e do rebanho. Falando aos exilados na Babilónia, Ezequiel constata que os líderes de Israel foram, ao longo da história, falsos pastores que conduziram o Povo por caminhos de morte e de desgraça; mas – diz Ezequiel – o próprio Deus vai, agora, assumir a condução do seu Povo; Ele porá à frente do seu Povo um Bom Pastor (Messias), que o livrará da escravidão e o conduzirá à vida.

A catequese que o 4º Evangelho nos oferece do Bom Pastor sugere que a promessa de Deus afirmada por Ezequiel se cumpre em Jesus.

MENSAGEM

O texto que nos é proposto acentua, sobretudo, a relação estabelecida entre o Pastor (Cristo) e as ovelhas (os seus discípulos).

A missão desse Pastor (Cristo) é dar vida às ovelhas. Ao longo do Evangelho, João descreve, precisamente, a acção de Jesus como uma recriação e revivificação do homem, no sentido de fazer nascer o Homem Novo (cfr. Jo 3,3.5-6), o homem da vida em plenitude, o homem total, o homem que, seguindo Jesus, se torna “filho de Deus” (cf. Jo 1,12) e que é capaz de oferecer a vida por amor. Os que aceitam a proposta de vida que Jesus lhes faz não se perderão nunca (“nunca hão-de perecer e ninguém as arrebatará da minha mão” – Jo 10,28), pois a qualidade de vida que Jesus lhes comunica supera a própria morte (cf. Jo 3,16;8,51). O próprio Jesus está disposto a defender os seus até dar a própria vida por eles (cf. Jo 10,11), a fim de que nada nem ninguém (os dirigentes, os que estão interessados em perpetuar mecanismos de egoísmo, de injustiça, de escravidão) possa privar os discípulos dessa vida plena.

As ovelhas (os discípulos), por sua vez, têm de escutar a voz do Pastor e segui-l’O (cf. Jo 10,27). Isto significa que fazer parte do rebanho de Jesus é aderir a Ele, escutar as suas propostas, comprometer-se com Ele e, como Ele, entregar-se sem reservas numa vida de amor e de doação ao Pai e aos homens.

O texto termina com uma referência à identificação plena entre o projecto do Pai e o projecto de Jesus: para ambos, o objectivo é fazer nascer uma nova humanidade. Em Jesus está presente e manifesta-se o plano salvador do Pai de dar vida eterna (vida plena) ao homem; através da acção de Jesus, a obra criadora de Deus atinge o seu ponto culminante.

ACTUALIZAÇÃO

Considerar, na actualização da Palavra, os seguintes elementos:

• Na nossa cultura urbana, a imagem do pastor é uma parábola de outras eras, que pouco diz à nossa sensibilidade; em contrapartida, conhecemos bem a figura do líder, do presidente, do chefe: não raras vezes, é alguém que se impõe, que manipula, que arrasta, que exige… Mas o Evangelho que hoje nos é proposto convida-nos a descobrir a figura bíblica do Pastor: uma figura que evoca doação, simplicidade, serviço, dedicação total, amor gratuito. É alguém que é capaz de dar a própria vida para defender das garras das feras as ovelhas que lhe foram confiadas.

• Para os cristãos, o Pastor é Cristo: só Ele nos conduz para as “pastagens verdadeiras”, onde encontramos vida em plenitude. Nas nossas comunidades cristãs, temos pessoas que presidem e que animam. Podemos aceitar, sem problemas, que eles receberam essa missão de Cristo e da Igreja, apesar dos seus limites e imperfeições; mas convém igualmente ter presente que o nosso único Pastor, aquele que somos convidados a escutar e a seguir sem condições, é Cristo.

• As “ovelhas” do rebanho de Jesus têm de “escutar a voz” do Pastor e segui-l’O… Isso significa, concretamente, percorrer o mesmo caminho de Jesus, numa entrega total aos projectos de Deus e numa doação total, de amor e de serviço aos irmãos.

• Como distinguimos a “voz” de Jesus, o nosso Pastor, de outros apelos, de propostas enganadoras, de “cantos de sereia” que não conduzem à vida plena? Através de um confronto permanente com a sua Palavra, através da participação nos sacramentos onde se nos comunica a vida que o Pastor nos oferece e num permanente diálogo íntimo com Ele.

Dehonianos

TANTA DEDICAÇÃO

1. O selêucida Antíoco IV Epifânio tinha profanado o Templo de Jerusalém em 167 a.C., introduzindo lá cultos pagãos. Contra esta helenização e paganização do judaísmo lutaram os Macabeus, e, em 164 a.C., Judas Macabeu procede à purificação do Templo e à sua Dedicação ao Deus Vivo. Este acontecimento deve ser celebrado todos os anos, durante oito dias, com a Festa da Dedicação, a partir de 25 do mês de Kisleu, que, no ano em curso de 2013, corresponde ao nosso dia 28 de Novembro.

2. É no ambiente desta Festa anual da Dedicação do Templo que se situa a perícope do Evangelho de João 10,27-30 (veja-se João 10,22), proclamada neste Domingo IV da Páscoa, também Domingo do Bom Pastor e 50.º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, sob o tema, proposto ainda por Bento XVI: «As Vocações, sinal da esperança fundada na fé». Nesta mensagem, Bento XVI evoca a radiomensagem de Paulo VI, de 11 de Abril de 1964, que deu início a este Dia Mundial de Oração pelas Vocações, e refere que as Vocações são um indicador seguro da vitalidade da fé e do amor de cada comunidade paroquial e diocesana, bem como o testemunho da saúde moral e espiritual das famílias cristãs, num mundo carente de mãos sacerdotais.

3. A Festa da Dedicação, em hebraico hanûkkah, celebra-se durante oito dias, e tem como símbolo o candelabro de oito braços. Relata o Talmud que, quando os judeus fiéis entraram no Templo profanado pelos pagãos helenistas, encontraram uma única âmbula de azeite puro (kasher) de oliveira para reacender o candelabro de sete braços, em hebraico menôrah, que é um dos símbolos de Israel, e que deve arder diante do Deus Vivo. Todavia, uma âmbula de azeite duraria apenas um dia, e eram precisos oito dias para preparar novo azeite puro. Pois bem, o azeite daquela única âmbula durou milagrosamente oito dias! Daí que, na Festa da Dedicação, se acenda um candelabro de oito braços, chamado hanûkkiah. Mas acende-se apenas uma luz por dia, depois do pôr-do-sol, aumentando progressivamente até estarem acesas as oito luzes. Além disso, e ao contrário das luzes damenôrah e do Sábado, que alumiam o interior do Santuário e da casa de família respectivamente, as Luzes do candelabro da Dedicação, refere o ritual, devem ser vistas cá fora: devem alumiar o ambiente social, político, comercial e cultural. E também ao contrário das luzes damenôrah e do Sábado, não se acendem todas de uma vez, mas progressivamente uma por dia, porque, quando as condições são adversas (paganismo helenista e escuro), não basta acender uma luz e mantê-la; é preciso aumentar constantemente a luz…

4. Como este simbolismo é importante para os dias de hoje! Está escuro cá dentro e lá fora, o mundo parece descontruir-se, o paganismo é galopante! Mais do que nunca, é preciso, portanto, não apenas manter a luz, mas aumentá-la progressivamente. E está em maravilhosa sintonia com a mensagem de Bento XVI para este 50.º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, salientando a importância da fé e da esperança.

5. O resto é a força e a beleza da imagem do Bom e Belo Pastor, que dá a Vida Eterna às suas ovelhas, que as segura pela mão, que as conhece, enquanto elas escutam a voz do Bom Pastor e o seguem. Maravilhosa Comunhão.

6. Maravilhosa Comunhão também entre este Bom e Belo Pastor, que é o Filho, e o Pai. Texto denso, imenso e intenso, de grande alcance trinitário: «Eu e o Pai uma Realidade somos». Deixem-me pôr aqui o texto grego: egô kaì ho patêr hén esmen. O verbo está no plural: somos. Junta «Eu» e «o Pai», duas Pessoas. O predicativo, porém, não está na forma masculina, mas na forma neutra: uma Realidade (hén). Donde: o Filho e o Pai não são uma só Pessoa, mas são uma única Realidade (não coisa!, como se vê em algumas pobres traduções), uma única Substância (ousía), como diziam bem os Padres gregos. Um único e mesmo Amor que corre entre o Pai e o Filho, entre o filho e o Pai, circularmente, sem parar. Este Dom de Amor circular permanente e imperecível, constitui o Espírito Santo, distinto do Pai e do Filho, dos quais procede, mas distinto também do acto da doação, de que é o efeito e a significação. Se fosse o acto da doação não constituiria uma pessoa subsistente, pois não existiria como tal: seria a soma de duas pessoas, não uma terceira. Seria Ó música insondável do Amor de Deus, ó admirável comunhão de três Pessoas iguais, mas distintas, ó Vida Plena e Verdadeira a nós acessível por graça! Basta, para tanto, conhecer, escutar e seguir o Bom Pastor.

7. O Livro dos Actos dos Apóstolos (Act 13,14-32) continua a mostrar como o Evangelho vai ao encontro de toda a humanidade. Extraordinária abertura ao extrangeiro dos Evangelizadores Novo Testamento, que trilham os caminhos de Deus, já apontados no Antigo Testamento. Diz Deus: «Bendito seja o Egipto, meu povo, a Assíria, obra das minhas mãos, e Israel, minha herança» (Isaías 19,25).

8. Este universalismo continua a ler-se no Apocalipse (7,9-17) com aquela imensa Assembleia de louvor ao nosso Deus e ao Cordeiro. Os membros desta Assembleia provêm de todas as nações, raças, culturas, línguas, racionalidades.

9. Mas no paladar fica ainda e sempre o sabor do Salmo 23: «O Senhor é o meu Pastor: nada me falta…».

António Couto

 

O Canto na Liturgia

Antífona de Entrada

 

A terra está cheia – F. Lapa

A bondade do Senhor – A. Cartageno

A bondade do Senhor – M. Carneiro

A bondade do Senhor – J. Geada

Salmo Responsorials

 

Nós somos o povo de Deus, somos as ovelhas do seu rebanho (sl 99) – M. Luís

Nós somos o povo do Senhor; é ele o nosso alimento (sl 99) – M. Luís          

Nós somos o povo do Senhor; é ele o nosso alimento (sl 99) – Nuno Costa 

Antífona da Comunhão

 

Ressuscitou o Bom Pastor – F. Lapa

Ressuscitou o Bom Pastor – J. Santos

Ressuscitou o Bom Pastor – M. Luís

Ressuscitou o Bom Pastor – F. Santos

Ressuscitou o Bom Pastor – M. Carneiro

Eu sou o Bom Pastor – C. Silva

Outros cânticos de Comunhão para o Domingo IV da Páscoa

 

O Cordeiro de Deus é o nosso pastor – Az. Oliveira

O Cordeiro de Deus é o nosso pastor – C. Silva

O Senhor é meu pastor – F. Santos

Deus é bom pastor – M. Luís

Eu vim para que tenham vida – F. Silva

Nós somos o povo de Deus – F. de Freitas

Domingo III do Tempo Pascal – Ano C

Tema do 3º Domingo do Tempo Pascal

A liturgia deste 3º Domingo do Tempo Pascal recorda-nos que a comunidade cristã tem por missão testemunhar e concretizar o projecto libertador que Jesus iniciou; e que Jesus, vivo e ressuscitado, acompanhará sempre a sua Igreja em missão, vivificando-a com a sua presença e orientando-a com a sua Palavra.

A primeira leitura apresenta-nos o testemunho que a comunidade de Jerusalém dá de Jesus ressuscitado. Embora o mundo se oponha ao projecto libertador de Jesus testemunhado pelos discípulos, o cristão deve antes obedecer a Deus do que aos homens.

A segunda leitura apresenta Jesus, o “cordeiro” imolado que venceu a morte e que trouxe aos homens a libertação definitiva; em contexto litúrgico, o autor põe a criação inteira a manifestar diante do “cordeiro” vitorioso a sua alegria e o seu louvor.

O Evangelho apresenta os discípulos em missão, continuando o projecto libertador de Jesus; mas avisa que a acção dos discípulos só será coroada de êxito se eles souberem reconhecer o Ressuscitado junto deles e se deixarem guiar pela sua Palavra.

LEITURA I – Actos 5,27b-32.40b-41

Leitura dos Actos dos Apóstolos

Naqueles dias,
o sumo sacerdote falou aos Apóstolos, dizendo:
«Já vos proibimos formalmente
de ensinar em nome de Jesus;
e vós encheis Jerusalém com a vossa doutrina
e quereis fazer recair sobre nós o sangue desse homem».
Pedro e os Apóstolos responderam:
«Deve obedecer-se antes a Deus que aos homens.
O Deus dos nossos pais ressuscitou Jesus,
a quem vós destes a morte, suspendendo-O no madeiro.
Deus exaltou-O pelo seu poder, como Chefe e Salvador,
a fim de conceder a Israel
o arrependimento e o perdão dos pecados.
E nós somos testemunhas destes factos,
nós e o Espírito Santo
que Deus tem concedido àqueles que Lhe obedecem».
Então os judeus mandaram açoitar os Apóstolos,
intimando-os a não falarem no nome de Jesus,
e depois soltaram-nos.
Os Apóstolos saíram da presença do Sinédrio cheios de alegria,
por terem merecido serem ultrajados
por causa do nome de Jesus.

AMBIENTE

Entre 2,1 e 8,3, o Livro dos Actos apresenta o testemunho da Igreja de Jerusalém acerca de Jesus. Os comentadores costumam chamar aos capítulos 3-5 a “secção do nome”, pois eles incidem no anúncio do “nome” de Jesus (cf. Act 3,6.16;4,7.10.12.30;5,28.41), isto é, do próprio Jesus (o “nome” era uma apelação com que os judeus designavam o próprio Deus; designar Jesus dessa forma equivalia a dizer que Ele era “o Senhor”). Esse anúncio, feito em condições de extrema dificuldade (por causa da oposição dos líderes judeus), é, sobretudo, obra dos apóstolos.

No texto que nos é proposto, apresenta-se o testemunho de Pedro e dos outros apóstolos acerca de Jesus. Presos e miraculosamente libertados (cf. Act 5,17-19), os apóstolos voltaram ao Templo para dar testemunho de Cristo ressuscitado (cf. Act 5,20-25). De novo presos, conduzidos à presença da suprema autoridade religiosa da nação (o Sinédrio) e formalmente proibidos de dar testemunho de Jesus, os apóstolos responderam apresentando um resumo do kerigma primitivo.

MENSAGEM

A questão principal gira à volta do confronto entre o cristianismo nascente e as autoridades judaicas. A frase de Pedro “deve obedecer-se antes a Deus do que aos homens” (vers. 29) deve ser vista como o tema central; define a atitude que os cristãos são convidados a assumir diante da oposição do mundo.

Quanto ao resumo doutrinal dos vers. 30-32, ele não apresenta grandes novidades doutrinais em relação a outras formulações do kerigma primitivo acerca de Jesus (apresentado de forma mais desenvolvida em Act 2,17-36, 3,13-26 e 10,36-43): morte na cruz, ressurreição, exaltação à direita de Deus, a sua apresentação como salvador e o testemunho dos apóstolos por acção do Espírito. Neste contexto, apenas se acentua – mais do que noutras formulações – a responsabilidade do Sinédrio no escândalo da cruz e a contraposição entre a acção de Deus e a acção das autoridades judaicas em relação a Jesus.

De resto, a oposição humana põe em relevo a realidade sobre-humana da mensagem, a sua força que não pode ser detida e o dinamismo dessa comunidade animada pelo Espírito. Se Jesus encontrou oponentes e morreu na cruz, é natural que os apóstolos, fiéis a Jesus e ao seu projecto, se defrontem com a oposição desses mesmos que mataram Jesus. No entanto, os verdadeiros seguidores do projecto de Jesus – animados pelo Espírito – estão mais preocupados com a fidelidade ao “caminho” de Jesus do que às ordens ou interesses dos homens – mesmo que sejam os que mandam no mundo.

ACTUALIZAÇÃO

Para reflectir e actualizar a Palavra, considerar os seguintes dados:

• A proposta de Jesus é uma proposta libertadora, que não se compadece nem pactua com esquemas egoístas, injustos, opressores. É uma mensagem questionante, transformadora, revolucionária, que põe em causa tudo o que gera injustiça, morte, opressão; por isso, é uma proposta que é rejeitada e combatida por aqueles que dominam o mundo e que oprimem os débeis e os pobres. Isto explica bem porque é que o testemunho sobre Jesus (se é coerente e verdadeiro) não é um caminho fácil de glória, de aplausos, de honras, de popularidade, mas um caminho de cruz. Não temos, portanto, que nos admirar se a mensagem que propomos e o testemunho que damos não encontram eco entre os que dominam o mundo; temos é de nos questionar e de nos inquietar se não somos importunados por aqueles que oprimem e que escravizam os irmãos: isso quererá dizer que o nosso testemunho não é coerente com a proposta de Jesus.

• Qual a nossa atitude, em concreto, diante daqueles que “assassinam” a proposta de Jesus e que constroem um mundo de onde a lógica de Deus está ausente: é de medo, de fraqueza, de submissão, ou de denúncia firme, corajosa e desassombrada? Para nós, o que é mais importante: obedecer a Deus ou aos homens?

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 29 (30)

Refrão: Louvar-vos-ei, Senhor, porque me salvastes.

Eu Vos glorifico, Senhor, porque me salvastes
e não deixastes que de mim se regozijassem os inimigos.
Tirastes a minha alma da mansão dos mortos,
vivificastes-me para não descer à cova.

Cantai salmos ao Senhor, vós os seus fiéis,
e dai graças ao seu nome santo.
A sua ira dura apenas um momento
e a sua benevolência a vida inteira.
Ao cair da noite vêm as lágrimas
e ao amanhecer volta a alegria.

Ouvi, Senhor, e tende compaixão de mim,
Senhor, sede Vós o meu auxílio.
Vós convertestes em júbilo o meu pranto:
Senhor meu Deus, eu Vos louvarei eternamente.

LEITURA II – Ap 5,11-14

Leitura do Livro do Apocalipse

Eu, João, na visão que tive,
ouvi a voz de muitos Anjos,
que estavam em volta do trono, dos Seres Vivos e dos Anciãos.
Eram miríades de miríades e milhares de milhares,
que diziam em voz alta:
«Digno é o Cordeiro que foi imolado
de receber o poder e a riqueza, a sabedoria e a força,
a honra, a glória e o louvor».
E ouvi todas as criaturas
que há no céu, na terra, debaixo da terra e no mar,
e o universo inteiro, exclamarem:
«Àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro
o louvor e a honra, a glória e o poder
pelos séculos dos séculos».
Os quatro Seres Vivos diziam: «Ámen!»;
e os Anciãos prostraram-se em adoração.

AMBIENTE

A segunda parte do Livro do Apocalipse (cap. 4-22) apresenta-nos aquilo que poderíamos chamar “uma leitura profética da história”: o autor vai apresentar a história humana numa perspectiva de esperança, demonstrando aos cristãos perseguidos pelo império que não há nada a temer pois a vitória final será de Deus e dos que se mantiverem fiéis aos projectos de Deus.

O texto que nos é proposto faz parte da visão inicial, onde o “profeta” João nos apresenta as personagens centrais que vão intervir na história humana: Deus, transcendente e omnipotente, sentado no seu trono, rodeado pelo Povo de Deus e por toda a criação (cf. Ap 4,1-11); depois, o “livro” onde, simbolicamente, está o desígnio de Deus acerca da humanidade (cf. Ap 5,1-4); finalmente, é-nos apresentado “o cordeiro” (Jesus), aquele que detém a totalidade do poder (“sete cornos”) e do conhecimento (“sete olhos”); só ele é digno de ler o livro (ou seja, de revelar, de proclamar, de concretizar para os homens o projecto divino de salvação).

MENSAGEM

A personagem fundamental deste pequeno extracto que nos é proposto como segunda leitura é “o cordeiro”. É um símbolo usado pelo autor do Livro do Apocalipse para falar de Jesus.

O símbolo do “cordeiro” é um símbolo com uma grande densidade teológica, que concentra e evoca três figuras: a do “servo de Jahwéh” – figura de imolação – que, qual manso cordeiro é levado ao matadouro (Is 53,6-7; cf. Jr 11,19; Act 8,26-38); a do “cordeiro pascal” – figura de libertação – cujo sangue foi sinal eficaz de vitória sobre a escravidão (Ex 12,12-13.27;24,8; cf. Jo 1,29; 1 Cor 5,7; 1 Pe 1,18-19); e a do “cordeiro apocalíptico” – figura de poder real – vencedor da morte (esta imagem é característica da literatura apocalíptica, onde aparece um cordeiro vencedor, guia do rebanho, dotado de poder e de autoridade real – cf. 1º livro de Henoc, 89,41-46; 90,6-10.37; Testamento de José, 19,8; Testamento de Benjamim, 3,8; Targum de Jerusalém sobre Ex 1,5). O autor do Apocalipse apresenta, portanto, de uma maneira original e sintética, a plenitude do mistério de imolação, de libertação e de vitória régia, que corresponde a Cristo morto, ressuscitado e glorificado.

O “cordeiro” (Cristo) é entronizado: ele assumiu a realeza e sentou-se no próprio trono de Deus. Aí, recebe todo o poder e glória divina. A entronização régia de Cristo, ponto culminante da aventura divino-humana de Jesus, desencadeia uma verdadeira torrente de louvores: dos viventes, dos anciãos (vers. 5-8) e dos anjos (vers. 11-12). E todas as criaturas (vers. 13), a partir dos lugares mais esconsos da terra, juntam a sua voz ao louvor. O Templo onde ressoam estas incessantes aclamações alargou as suas fronteiras e tem, agora, as dimensões do mundo. É uma liturgia cósmica, na qual a criação inteira celebra o Cristo imolado, ressuscitado, vencedor e faz dele o centro do “cosmos”.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão desta leitura pode prolongar-se a partir das seguintes linhas:

• A mensagem final do Livro do Apocalipse pode resumir-se na frase: “não tenhais medo, pois a vossa libertação está a chegar”. É uma mensagem “eterna”, que revigora a nossa fé, que renova a nossa esperança e que fortalece a nossa capacidade de enfrentar a injustiça, o egoísmo, o sofrimento e o pecado. Diante deste “cordeiro” vencedor, que nos trouxe a libertação, os cristãos vêem renovada a sua confiança nesse Deus salvador e libertador em quem acreditam.

• Esta “liturgia” celebra Cristo, aquele que venceu a morte, que ressuscitou, que nos apresentou o plano libertador de Deus em nosso favor e que, hoje, continua a dar sentido aos nossos dramas e aos nossos sofrimentos, a iluminar a história humana com a luz de Deus. Ele é, de facto (como esta liturgia no-lo apresenta), o centro, a referência fundamental à volta do qual tudo se constrói? Temos consciência desta centralidade de Cristo na nossa experiência de fé? Manifestamos a nossa gratidão, unindo a nossa voz ao louvor da criação inteira?

ALELUIA

Aleluia. Aleluia.

Ressuscitou Jesus Cristo, que criou o universo
e Se compadeceu do género humano.

EVANGELHO – Jo 21,1-19

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
Jesus manifestou-Se outra vez aos seus discípulos,
junto do mar de Tiberíades.
Manifestou-Se deste modo:
Estavam juntos Simão Pedro e Tomé, chamado Dídimo,
Natanael, que era de Caná da Galileia,
os filhos de Zebedeu e mais dois discípulos de Jesus.
Disse-lhes Simão Pedro: «Vou pescar».
Eles responderam-lhe: «Nós vamos contigo».
Saíram de casa e subiram para o barco,
mas naquela noite não apanharam nada.
Ao romper da manhã, Jesus apresentou-Se na margem,
mas os discípulos não sabiam que era Ele.
Disse-lhes Jesus:
«Rapazes, tendes alguma coisa de comer?»
Eles responderam: «Não».
Disse-lhes Jesus:
«Lançai a rede para a direita do barco e encontrareis».
Eles lançaram a rede
e já mal a podiam arrastar por causa da abundância de peixes.
O discípulo predilecto de Jesus disse a Pedro:
«É o Senhor».
Simão Pedro, quando ouviu dizer que era o Senhor,
vestiu a túnica que tinha tirado e lançou-se ao mar.
Os outros discípulos,
que estavam apenas a uns duzentos côvados da margem,
vieram no barco, puxando a rede com os peixes.
Quando saltaram em terra,
viram brasas acesas com peixe em cima, e pão.
Disse-lhes Jesus:
«Trazei alguns dos peixes que apanhastes agora».
Simão Pedro subiu ao barco
e puxou a rede para terra,
cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes;
e, apesar de serem tantos, não se rompeu a rede.
Disse-lhes Jesus: «Vinde comer».
Nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar-Lhe:
«Quem és Tu?»,
porque bem sabiam que era o Senhor.
Jesus aproximou-Se, tomou o pão e deu-lho,
fazendo o mesmo com os peixes.
Esta foi a terceira vez
que Jesus Se manifestou aos seus discípulos,
depois de ter ressuscitado dos mortos.
Depois de comerem,
Jesus perguntou a Simão Pedro:
«Simão, filho de João, tu amas-Me mais do que estes?»
Ele respondeu-Lhe:
«Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo».
Disse-lhe Jesus: «Apascenta os meus cordeiros».
Voltou a perguntar-lhe segunda vez:
«Simão, filho de João, tu amas-Me?»
Ele respondeu-Lhe:
«Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo».
Disse-lhe Jesus: «Apascenta as minhas ovelhas».
Perguntou-lhe pela terceira vez:
«Simão, filho de João, tu amas-Me?»
Pedro entristeceu-se
por Jesus lhe ter perguntado pela terceira vez se O amava
e respondeu-Lhe:
«Senhor, Tu sabes tudo, bem sabes que Te amo».
Disse-lhe Jesus:
«Apascenta as minhas ovelhas.
Em verdade, em verdade te digo:
Quando eras mais novo,
tu mesmo te cingias e andavas por onde querias;
mas quando fores mais velho,
estenderás a mão e outro te cingirá
e te levará para onde não queres».
Jesus disse isto para indicar o género de morte
com que Pedro havia de dar glória a Deus.
Dito isto, acrescentou: «Segue-Me».

AMBIENTE

O último capítulo do Evangelho segundo João não faz parte da obra original (a obra original terminava com a conclusão de 20,30-31); é um texto acrescentado posteriormente, que apresenta diferenças de linguagem, de estilo e mesmo de teologia, em relação aos outros vinte capítulos. A sua origem não é clara; no entanto, a existência de alguns traços literários tipicamente joânicos poderia fazer-nos pensar num complemento redigido pelos discípulos do evangelista.

Neste capítulo, já não se referem notícias sobre a vida, a morte ou a ressurreição de Jesus. Os protagonistas são, agora, um grupo de discípulos, dedicados à actividade missionária. O autor descreve a relação que esta “comunidade em missão” tem com Jesus, reflecte sobre o lugar de Jesus na actividade missionária da Igreja e assinala quais as condições para que a missão dê frutos.

MENSAGEM

O texto está claramente dividido em duas partes.

A primeira parte (vers. 1-14) é uma parábola sobre a missão da comunidade. Utiliza a linguagem simbólica e tem carácter de “signo”.

Começa por apresentar os discípulos: são sete. Representam a totalidade (“sete”) da Igreja, empenhada na missão e aberta a todas as nações e a todos os povos.

Esta comunidade é apresentada a pescar: sob a imagem da pesca, os evangelhos sinópticos representam a missão que Jesus confia aos discípulos (cf. Mc 1,17; Mt 4,19; Lc 5,10): libertar todos os homens que vivem mergulhados no mar do sofrimento e da escravidão. Pedro preside à missão: é ele que toma a iniciativa; os outros seguem-no incondicionalmente. Aqui faz-se referência ao lugar proeminente que Pedro ocupava na animação da Igreja primitiva.

A pesca é feita durante a noite. A noite é o tempo das trevas, da escuridão: significa a ausência de Jesus (“enquanto é de dia, temos de trabalhar, realizando as obras daquele que Me enviou: aproxima-se a noite, quando ninguém pode trabalhar; enquanto Eu estou no mundo, sou a luz do mundo” – Jo 9,4-5). O resultado da acção dos discípulos (de noite, sem Jesus) é um fracasso rotundo (“sem Mim, nada podeis fazer” – Jo 15,5).

A chegada da manhã (da luz) coincide com a presença de Jesus (Ele é a luz do mundo). Jesus não está com eles no barco, mas sim em terra: Ele não acompanha os discípulos na pesca; a sua acção no mundo exerce-se por meio dos discípulos.

Concentrados no seu esforço inútil, os discípulos nem reconhecem Jesus quando Ele Se apresenta. O grupo está desorientado e decepcionado pelo fracasso, posto em evidência pela pergunta de Jesus (“tendes alguma coisa de comer?”). Mas Jesus dá-lhes indicações e as redes enchem-se de peixes: o fruto deve-se à docilidade com que os discípulos seguem as indicações de Jesus. Acentua-se que o êxito da missão não se deve ao esforço humano, mas sim à presença viva e à Palavra do Senhor ressuscitado.

O surpreendente resultado da pesca faz com que um discípulo o reconheça. Este discípulo – o discípulo amado – é aquele que está sempre próximo de Jesus, em sintonia com Jesus e que faz, de forma intensa, a experiência do amor de Jesus: só quem faz essa experiência é capaz de ler os sinais que identificam Jesus e perceber a sua presença por detrás da vida que brota da acção da comunidade em missão.

Os pães com que Jesus acolhe os discípulos em terra são um sinal do amor, do serviço, da solicitude de Jesus pela sua comunidade em missão no mundo: deve haver aqui uma alusão à Eucaristia, ao pão que Jesus oferece, à vida com que Ele continua a alimentar a comunidade em missão.

O número dos peixes apanhados na rede (153) é de difícil explicação. É um número triangular, que resulta da soma dos números um a dezassete. O número dezassete não é um número bíblico… Mas o dez e o sete são: ambos simbolizam a plenitude e a universalidade. Outra explicação é dada por S. Jerónimo… Segundo ele, os naturalistas antigos distinguiam 153 espécies de peixes: assim, o número faria alusão à totalidade da humanidade, reunida na mesma Igreja. Em qualquer caso, significa totalidade e universalidade.

Na segunda parte do texto (vers. 15-19), Pedro confessa por três vezes o seu amor a Jesus (durante a paixão, o mesmo discípulo negou Jesus por três vezes, recusando dessa forma “embarcar” com o “mestre” na aventura do amor que se faz dom). Pedro – recordemo-lo – foi o discípulo que, na última ceia, recusou que Jesus lhe lavasse os pés porque, para ele, o Messias devia ser um rei poderoso, dominador, e não um rei de serviço e de dom da vida. Nessa altura, ao raciocinar em termos de superioridade e de autoridade, Pedro mostrou que ainda não percebera que a lei suprema da comunidade de Jesus é o amor total, o amor que se faz serviço e que vai até à entrega da vida. Jesus disse claramente a Pedro que quem tem uma mentalidade de domínio e de autoridade não tem lugar na comunidade cristã (cf. Jo 13,6-9).

A tríplice confissão de amor pedida a Pedro por Jesus corresponde, portanto, a um convite a que ele mude definitivamente a mentalidade. Pedro é convidado a perceber que, na comunidade de Jesus, o valor fundamental é o amor; não existe verdadeira adesão a Jesus, se não se estiver disposto a seguir esse caminho de amor e de entrega da vida que Jesus percorreu. Só assim Pedro poderá “seguir” Jesus (cf. Jo 21,19).

Ao mesmo tempo, Jesus confia a Pedro a missão de presidir à comunidade e de a animar; mas convida-o também a perceber onde é que reside, na comunidade cristã, a verdadeira fonte da autoridade: só quem ama muito e aceita a lógica do serviço e da doação da vida poderá presidir à comunidade de Jesus.

ACTUALIZAÇÃO

Considerar, para reflexão e actualização, as seguintes indicações:

• A mensagem fundamental que brota deste texto convida-nos a constatar a centralidade de Cristo, vivo e ressuscitado, na missão que nos foi confiada. Podemos esforçar-nos imenso e dedicar todas as horas do dia ao esforço de mudar o mundo; mas se Cristo não estiver presente, se não escutarmos a sua voz, se não ouvirmos as suas propostas, se não estivermos atentos à Palavra que Ele continuamente nos dirige, os nossos esforços não farão qualquer sentido e não terão qualquer êxito duradouro. É preciso ter a consciência nítida de que o êxito da missão cristã não depende do esforço humano, mas da presença viva do Senhor Jesus.

• É preciso ter, também, a consciência da solicitude e do amor do Senhor que, continuamente, acompanha os nossos esforços, os anima, os orienta e que connosco reparte o pão da vida. Quando o cansaço, o sofrimento, o desânimo tomarem posse de nós, Ele lá estará, dando-nos o alimento que nos fortalece. É necessário ter consciência da sua constante presença, amorosa e vivificadora ao nosso lado e celebrá-la na Eucaristia.

• A figura do “discípulo amado”, que reconhece o Senhor nos sinais de vitalidade que brotam da missão comunitária, convida-nos a ser sensíveis aos sinais de esperança e de vida nova que acontecem à nossa volta e a ler neles a presença salvadora e vivificadora do Ressuscitado. Ele está presente, vivo e ressuscitado, em qualquer lado onde houver amor, partilha, doação que geram vida nova.

• O diálogo final de Jesus com Pedro chama a atenção para uma dimensão essencial do discipulado: “seguir” o “mestre” é amá-l’O muito e, portanto, ser capaz de, como Ele, percorrer o caminho do amor total e da doação da vida.

• Na comunidade cristã, o essencial não é a exibição da autoridade, mas o amor que se faz serviço, ao jeito de Jesus. As vestes de púrpura, os tronos, os privilégios, as dignidades, os sinais de poder favorecem e tornam mais visível o essencial (o amor que se faz serviço), ou afastam e assustam os pobres e os débeis?

Dehonianos

 

A AMIZADE E O AMOR

 

1. É-nos dada hoje a graça de ouvir a riquíssima página do Evangelho de João 21,1-19. A oposição luz – trevas atravessa de lés a lés o inteiro texto do IV Evangelho. A Luz verdadeira que vem a este mundo para iluminar todos os homens é Jesus (João 1,9). Sem esta Luz que é Jesus, andamos às escuras, na noite, na dor, no fracasso, na incompreensão. É assim, narrativamente – e, portanto, exemplarmente, para nós, leitores –, com Nicodemos, que anda de noite (João 3,2), com Judas, o homem da noite que tudo faz anoitecer à sua volta  (João 13,30; 18,3), com os sete dicípulos da cena de hoje que trabalharam toda a noite, sem sucesso (João 21,3).

2. Aí está, então, o Evangelho de hoje a acontecer. Jesus aparece de madrugada na praia, no limiar do dia e da alegria, aqui perto, a cem metros de nós. Com os olhos embotados pela doença do escuro – há tanto tempo temos as portas fechadas –, não O reconhecemos à primeira. Mas ouvimos a Sua voz carregada de amor e de verdade, que nos desvenda («Filhinhos [paidía], não tendes nada para comer, pois não?») (João 21,5) e nos aponta rumos verdadeiros: «Lançai a rede para a direita da barca, e encontrareis» (João 21,6). Extraordinária esta locução: «Filhinhos!». Tinha-os tratado assim na hora da separação (João 13,33), em que encontramos a mesma locução de afeto e carinhosa dependência «Filhinhos», expressa com teknía. Sim, afeto e carinhosa dependência. A experiência vai fazendo ver aos Discípulos que devem o seu sucesso, não ao seu próprio esforço, mas à Palavra de Jesus. Tantas vezes partiram para a pesca, e nada apanharam. Mas à Palavra de Jesus, eis que as redes se enchem. Ei-lo agora sobre a praia. Bem o vemos, mas não o reconhecemos à primeira. É preciso ver e ler os Sinais. «É o Senhor», diz para Pedro o discípulo, aquele que Jesus amava (João 21,7). E Pedro correu na direção de Jesus. Os outros seis vieram depois também, arrastando a barca carregada de peixes.

3. E sobre a praia já se encontra aceso o lume novo e a refeição nova, cuidadosamente preparada por Jesus (João 21,9). Agora Pedro está no lugar certo, com Jesus, e aquece-se no lume vivo, que é Jesus. Belo e exemplar contraponto: pouco antes, narrativamente falando, Pedro estava com os guardas, que andavam na noite, e aquecia-se a outro lume, aceso na noite, pelos guardas (João 18,18). Tinha rompido a sua intimidade com Jesus. Mas agora arrasta a rede cheia com 153 grandes peixes. E o narrador refere, chamando a nossa atenção, que, embora fossem muitos, a rede não se rompeu (João 21,11). «Romper» traduz o verbo grego schízô, donde vem etimologicamente «cisma», divisão. É, portanto, de comunhão e de unidade que se trata, e não de «cismas», dissensões, divisões. O número 153 ajuda a ler esta «comunhão», se quisermos ver nesse número a gematria, ou tradução em números, da locução hebraica qahal ha’ahabah [= «comunidade do amor»], excelente maneira de dizer a realidade nova e bela da Igreja.

4. E é sobre o amor o diálogo que se segue entre Jesus e Pedro: «Pedro, amas-me (verbo agapáô) mais…?», pergunta Jesus por três vezes. E por três vezes Pedro responde que sim, que é seu amigo (verbo philéô) ouvindo de Jesus, também por três vezes a nova missão de «Pastor» que lhe é confiada: «Apascenta as minhas ovelhas» (João 21,15-17). O verbo com que Jesus interroga Pedro acerca do amor é, nas duas primeiras vezes, agapáô, amor puro e gratuito, sem fronteiras, que não cabe em nenhum grupo de amigos. Mas o verbo com que Pedro responde a Jesus é philéô, que qualifica a amizade que é apanágio de um grupo de amigos. Na sua admirável condescendência, quando pergunta pela terceira vez, Jesus desce ao nível de Pedro, usando o verbo philéô, para que Pedro acerte com a resposta. Sim, Jesus desce ao nível de Pedro, não para ficar aí, no patamar de Pedro, mas para elevar Pedro a um novo patamar de amor. Entenda-se bem que as ovelhas nunca deixam de ser pertença de Jesus Ressuscitado. E a afirmação por três vezes do amor de Pedro a Jesus recompõe a intimidade rompida por Pedro com aquelas três negações um pouco antes narradas (João 18,17-27). Note-se ainda que o último colóquio havido entre Pedro e Jesus tinha tido lugar, significativamente, na hora da separação (João 13,36-38), em que Pedro jura dar a vida por Jesus, se necessário for, e Jesus responde a Pedro que sim, que o há de seguir mais tarde, mas que, entretanto, ainda o irá negar por três vezes. Na verdade, o dizer de Jesus para Pedro : «Seguir-me-ás mais tarde» (João 13,36) cumpre-se agora em João 21,18, quando Jesus se refere à juventude de Pedro, em que ele andava por onde queria, contrapondo-a à sua velhice, em que outro o conduzirá para onde ele não quer. O narrador informa o leitor de que Jesus disse o que disse para indicar com que espécie de morte Pedro daria glória a Deus. E Jesus acresentou logo: «Segue-me!», deixando Pedro no seu próprio caminho, que conduz à Cruz (João 21,19 e 22).

5. Senhor, ensina a tua Igreja de hoje outra vez a ver e a ler os Sinais da Tua presença na madrugada e na praia, novo limiar de luz e de esperança que orienta a nossa vida toda para Ti, referência fundamental do amor e da comunhão que deve unir como uma rede a Tua Igreja. Precede-nos e preside-nos sempre. Não nos deixes perdidos no nevoeiro e na confusão, na noite e no frio, a orientar-nos por outro farol, a aquecer-nos a outro lume. Faz que reconheçamos sempre a Tua voz de Único Verdadeiro Pastor, e ampara os pastores que incumbiste de apascentar as tuas ovelhas.

6. A lição do Livro dos Actos dos Apóstolos (5,27-32.40-41) mostra-nos os Apóstolos como testemunhas do Ressuscitdo. Cheios do Espírito Santo, intrépidos, sem medo, e com alegria grande, enchem Jerusalém com o nome de Jesus. Extraordinária provocação para nós, que temos tanta cidade e tantos corações à nossa espera.

7. Jesus é a testemunha fiel (Apocalipse 1,5), porque diz o que ouviu dizer ao Pai (João 7,16-17; 8,26.38.40; 14,24; 17,8) e faz o que viu fazer ao Pai (João 5,19; 17,4). Por isso, todas as criaturas o aclamam, como refere a lição de hoje do Livro do Apocalipse (5,11-14).

8. O Salmo 30 é uma bela e sentida Ação de Graças a um Deus que liberta o orante da tristeza, da doença, do luto e da morte, e o faz exultar de alegria, saúde, vida, dança e música de festa. O Deus aqui louvado é um Deus que muda as nossas situações difíceis e, por vezes, aparentemente sem saída, em amplas avenidas floridas. É por isso que, como diz o próprio título «Cântico para a Dedicação do Templo», este Salmo anda ligado à Festa da Hanûkkah ou da Dedicação do Templo, quando Judas Macabeu entrou no Templo de Jerusalém em 164 a.C. e o fez purificar depois de um período de ocupação pelos selêucidas.

 

É claro que Pedro era amigo de Jesus,

E sabia bem que também Jesus era amigo dele.

Por isso, vincando a sua amizade por Jesus,

No coração daquela Ceia cheia de intimidade e de traição,

Pedro declara que a sua amizade por Jesus é sem engano,

De tal modo que está até disposto a dar a sua vida por Jesus.

 

Mas, pouco depois, naquele átrio alumiado pela lua-cheia,

E aquecido pelo lume dos guardas,

Pedro nega ter andado com Jesus,

Nega ter alguma coisa a ver com Jesus,

Nega mesmo conhecer Jesus.

 

E, de facto, bem vistas as coisas, parece que Pedro não conhecia bem Jesus.

Pedro estava disposto a dar a vida por Jesus, pois era seu amigo,

E pensava que também Jesus podia dar a sua vida por ele, pois era seu amigo.

Mas Pedro não conseguia perceber por que é Jesus ia dar a sua vida por todos,

Inimigos incluídos.

 

Sim, Jesus é aquele que dá a sua vida por amor, para sempre e para todos,

E é o único Mestre que ensina a viver desta maneira.

 

Ensina-nos, Senhor, a amar como Tu,

A viver como Tu,

A dar a vida como Tu.

 António Couto

O Canto na Liturgia

Antífona de Entrada

 

Aclamai a Deus – F. Santos

Aclamai a Deus – F. Valente

Aclamai o Senhor terra inteira – J. Santos

Aclame o Senhor terra inteira – J. Morais

 Aclamai a Deus – M. Carneiro

Salmo Responsorial

 

           Eu Vos glorifico, Senhor, porque me salvastes (sl 29) – F. Santos (BML 41| NCT 152);
                 M. Luís (SRML, p. 70-71); Az. Oliveira (SRAO A, p. 70-71; ou SRAO B, p. 70-71;
                  ou SRAO C, p. 70-71)

           Eu Vos louvarei, Senhor, porque me salvastes (sl 29) – Az. Oliveira (SRAO B, p. 130-131;
                 ou SRAO C, p. 124-125); M. Carneiro (RBP, p. 134-135| RBP, p. 220-221| SRMC A,
                 p. 54-55| SRMC B, p. 56-57| SRMC C, p. 56-57; ou p. 68-69); F. Santos

           Louvar-Vos-ei, Senhor, porque me salvastes (sl 29) – Az. Oliveira

Antífona da Comunhão

 

Disse Jesus aos seus discípulos – A. Cartageno        

O Senhor saciou o seu povo – F. Valente

Outros cânticos para o Domingo III da Páscoa – ano C

 

Vinde, comei do meu Pão – T. Sousa

Vinde, comei do meu Pão – M. Valença

Vinde comer do meu Pão – C. Silva

Os discípulos conheceram – C. Silva

Os discípulos exultaram – J. Santos

Os discípulos reconheceram – M. Carneiro

Os discípulos reconheceram – F. Silva

Reconhecei neste Pão – M. Luís

Anunciai com voz de júbilo – Az. Oliveira

Entrai na alegria – F. Valente

Domingo II do Tempo Pascal – Ano C

 

 

TEMA DO 2º DOMINGO DO TEMPO PASCAL

A liturgia deste domingo põe em relevo o papel da comunidade cristã como espaço privilegiado de encontro com Jesus ressuscitado.

O Evangelho sublinha a ideia de que Jesus vivo e ressuscitado é o centro da comunidade cristã; é à volta d’Ele que a comunidade se estrutura e é d’Ele que ela recebe a vida que a anima e que lhe permite enfrentar as dificuldades e as perseguições. Por outro lado, é na vida da comunidade (na sua liturgia, no seu amor, no seu testemunho) que os homens encontram as provas de que Jesus está vivo.

A segunda leitura insiste no motivo da centralidade de Jesus como referência fundamental da comunidade cristã: apresenta-O a caminhar lado a lado com a sua Igreja nos caminhos da história e sugere que é n’Ele que a comunidade encontra a força para caminhar e para vencer as forças que se opõem à vida nova de Deus.

A primeira leitura sugere que a comunidade cristã continua no mundo a missão salvadora e libertadora de Jesus; e quando ela é capaz de o fazer, está a dar testemunho desse Cristo vivo que continua a apresentar uma proposta de redenção para os homens.

LEITURA I – Actos 5,12-16

Leitura dos Actos dos Apóstolos

Pelas mãos dos Apóstolos
realizavam-se muitos milagres e prodígios entre o povo.
Unidos pelos mesmos sentimentos,
reuniam-se todos no Pórtico de Salomão;
nenhum dos outros se atrevia a juntar-se a eles,
mas o povo enaltecia-os.
Cada vez mais gente aderia ao Senhor pela fé,
uma multidão de homens e mulheres,
de tal maneira que traziam os doentes para as ruas
e colocavam-nos em enxergas e em catres,
para que, à passagem de Pedro,
ao menos a sua sombra cobrisse alguns deles.
Das cidades vizinhas de Jerusalém,
a multidão também acorria,
trazendo enfermos e atormentados por espíritos impuros
e todos eram curados.

AMBIENTE

O livro dos Actos dos Apóstolos apresenta o “caminho” que a Igreja de Jesus percorreu, desde Jerusalém até Roma, o coração do império. No entanto, foi de Jerusalém, o lugar onde irrompeu a salvação – isto é, onde Jesus sofreu, morreu, ressuscitou e subiu ao céu –, que tudo partiu. Foi aí que nasceu a primeira comunidade cristã e que essa comunidade, pela primeira vez, se assumiu como testemunha de Jesus diante do mundo.

O texto que nos é proposto é um dos três sumários que aparecem na primeira parte dos “Actos”; esses sumários apresentam temas comuns e afinidades de estrutura que convidam a considerá-los conjuntamente. No conjunto, esses sumários pretendem apresentar as várias facetas do testemunho dado pela Igreja de Jerusalém. O primeiro aparece em 2,42-47 e é dedicado ao tema da unidade e ao impacto que o estilo cristão de vida provocou no povo da cidade; o segundo aparece em 4,32-37 e é dedicado ao tema da partilha dos bens; o terceiro (a primeira leitura de hoje) apresenta o testemunho da Igreja através da actividade miraculosa dos apóstolos.

MENSAGEM

A primeira frase desta leitura apresenta o tema: “pelas mãos dos apóstolos realizavam-se muitos milagres e prodígios entre o povo”.

A descrição da acção dos apóstolos e da reacção do povo é, neste contexto, muito parecida com certos relatos de curas e certos resumos da actividade taumatúrgica de Jesus que encontramos nos evangelhos sinópticos. Isso diz-nos, desde logo, duas coisas: que não se trata de uma reportagem fotográfica de acontecimentos, mas de um resumo teológico; e que Lucas vê uma continuidade entre a missão de Jesus e a missão da comunidade cristã (a mesma actividade salvadora e libertadora de Jesus em favor dos pobres e dos oprimidos é continuada agora no mundo pela sua Igreja).

Um desenvolvimento especialmente interessante é a atribuição à “sombra” de Pedro de virtudes curativas (cf. Act 5,15b). Isso nunca foi dito acerca de Cristo… Significa que Pedro tinha mais poder do que Cristo? Não. Significa, provavelmente, que nada é impossível àquele que se coloca na órbita de Cristo e recebe d’Ele a força para testemunhar.

Devemos ter presente, para entender a mensagem, o cenário de fundo deste texto: os apóstolos são as testemunhas de Jesus ressuscitado e do seu projecto libertador para o mundo; os gestos realizados servem para dar testemunho da ressurreição, isto é, dessa vida nova que em Cristo começou e que, através dos seguidores de Cristo ressuscitado, deve chegar a todos os homens.

ACTUALIZAÇÃO

Para reflexão e actualização, considerar as seguintes linhas:

• A comunidade cristã tem de ser, fundamentalmente, uma comunidade que testemunha Cristo ressuscitado. Se formarmos uma família de irmãos “unidos pelos mesmos sentimentos”, solidários uns com os outros, capazes de partilhar, estaremos a anunciar esse mundo novo que Jesus propôs e a interpelar os nossos conterrâneos. É isso que acontece habitualmente com o testemunho das nossas comunidades? O que nos falta para sermos – como a comunidade primitiva – uma comunidade que testemunha Jesus ressuscitado?

• Os milagres não são, fundamentalmente, acontecimentos espantosos que subvertem as leis da natureza; mas são sinais que mostram a presença libertadora e salvadora de Deus e que anunciam essa vida plena que Deus quer dar a todos os homens. Não são, portanto, coisas reservadas a certos feiticeiros ou super-heróis, mas são coisas que eu posso fazer todos os dias: sempre que os meus gestos falam de amor, de partilha, de reconciliação, eu estou a realizar um “milagre” que leva aos irmãos a vida nova de Deus, estou a anunciar e a fazer acontecer a ressurreição. Tenho consciência disto e procuro, com gestos concretos, anunciar que Jesus ressuscitou e continua a querer salvar os homens? Os meus gestos são “sinais” de Deus?

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 117 (118)

Refrão: Aclamai o Senhor, porque Ele é bom:
o seu amor é para sempre.

Diga a casa de Israel:
é eterna a sua misericórdia.
Diga a casa de Aarão:
é eterna a sua misericórdia.
Digam os que temem o Senhor:
é eterna a sua misericórdia.

A pedra que os construtores rejeitaram
tornou-se pedra angular.
Tudo isto veio do Senhor:
é admirável aos nossos olhos.
Este é o dia que o Senhor fez:
exultemos e cantemos de alegria.

Senhor, salvai os vossos servos,
Senhor, dai-nos a vitória.
Bendito o que vem em nome do Senhor,
da casa do Senhor nós vos bendizemos.
O Senhor é Deus
e fez brilhar sobre nós a sua luz.

LEITURA II – Ap 1,9-11a.12-13.17-19

Leitura do Livro do Apocalipse

Eu, João, vosso irmão e companheiro
nas tribulações, na realeza e na perseverança em Jesus,
estava na ilha de Patmos,
por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus.
No dia do Senhor fui movido pelo Espírito
e ouvi atrás de mim uma voz forte,
semelhante à da trombeta, que dizia:
«Escreve num livro o que vês
e envia-o às sete Igrejas».
Voltei-me para ver quem era a voz que me falava;
ao voltar-me, vi sete candelabros de ouro
e, no meio dos candelabros,
alguém semelhante a um filho do homem,
vestido com uma longa túnica
e cingido no peito com um cinto de ouro.
Quando o vi, caí a seus pés como morto.
Mas ele poisou a mão direita sobre mim e disse-me:
«Não temas.
Eu sou o Primeiro e o Último, o que vive.
Estive morto, mas eis-Me vivo pelos séculos dos séculos
e tenho as chaves da morte e da morada dos mortos.
Escreve, pois, as coisas que viste,
tanto as presentes como as que hão-de acontecer depois destas».

AMBIENTE

Estamos nos finais do reinado de Domiciano (à volta do ano 95); os cristãos eram perseguidos de forma violenta e organizada e parecia que todos os poderes do mundo se voltavam contra os seguidores de Cristo. Muitos cristãos, cheios de medo, abandonavam o Evangelho e passavam para o lado do império. Na comunidade dizia-se: “Jesus é o Senhor”; mas lá fora, quem mandava mesmo como senhor todo-poderoso era o Imperador de Roma.
É neste contexto de perseguição, de medo e de martírio que vai ser escrito o Apocalipse. O objectivo do autor é apresentar aos crentes um convite à conversão (primeira parte – Ap 1-3) e uma leitura profética da história que os ajude a enfrentar a tempestade com esperança e a acreditar na vitória final de Deus e dos crentes (segunda parte – Ap 4-22).

O texto da primeira leitura de hoje pertence à primeira parte do livro. Nele, apresenta-se – recorrendo à linguagem simbólica, pois é através dos símbolos que melhor se expressa a realidade do mistério – o “Filho do Homem”: é Ele o Senhor da história e Aquele através de quem Deus revela aos homens o seu projecto.

MENSAGEM

Esse “Filho do Homem” é Cristo ressuscitado. Para o descrever em pormenor, o autor (um tal João, exilado na ilha de Patmos por causa do Evangelho) vai recorrer a símbolos herdados do mundo vétero-testamentário que sublinham, antes de mais, a divindade de Jesus.

O texto que hoje a liturgia nos propõe não apresenta a descrição original completa (faltam os versículos 14-16). Nos versículos que nos são propostos, este “Filho do Homem” é apresentado como o Senhor que preside à sua Igreja (no vers. 12, os sete candelabros representam a totalidade da Igreja de Jesus; recordar que o sete é o número que indica plenitude, totalidade) e que caminha no meio dela e com ela (vers. 13a); Ele está revestido de dignidade sacerdotal (a longa túnica, distintivo da dignidade sacerdotal revela que Ele é, agora, o verdadeiro intermediário entre Deus e os homens – vers. 13b) e possui dignidade real (o cinto de ouro, porque n’Ele reside a realeza e a autoridade sobre a história, o mundo e a Igreja – vers. 13c). Sobretudo, Ele é o Cristo do mistério pascal: esteve morto, voltou à vida e é agora o Senhor da vida que derrotou a morte (vers. 18). A história começa e acaba n’Ele (vers. 17b). Por isso, os cristãos nada terão a temer.

A João, Cristo ressuscitado confia a missão profética de testemunhar. O facto de João cair por terra como morto e o facto de o Senhor o reanimar com um gesto (vers. 17) fazem-nos pensar em vários relatos de vocação profética do Antigo Testamento. O “profeta” João é, pois, enviado às igrejas; a sua missão é anunciar uma mensagem de esperança que permita enfrentar o medo e a perseguição. Sobretudo, é chamado a anunciar a todos os cristãos que Jesus ressuscitado está vivo, que caminha no meio da sua Igreja e que, com Ele, nenhum mal nos acontecerá pois é Ele que preside à história.

ACTUALIZAÇÃO

Reflectir a partir das seguintes coordenadas:

• Há muitas coisas e interesses que hoje são erigidos em deuses, que recebem a nossa adoração, que nos desviam do essencial e que acabam por nos destruir e escravizar. Que coisas são essas? É Jesus, vivo e ressuscitado que está no centro das nossas vidas e das nossas comunidades?

• O medo aliena, escraviza, impede-nos de construir de forma positiva… Temos consciência de que nada temos a temer porque Cristo, o Senhor da história, caminha connosco?

• Os homens de hoje, apesar de todas as descobertas e conquistas, têm, muitas vezes, uma perspectiva pessimista que lhes envenena o coração e a existência. Se a esperança está em crise, nós, testemunhas do ressuscitado, temos uma proposta de novidade e de salvação a apresentar ao mundo. Sentimo-nos profetas, enviados – como João – a anunciar uma mensagem de esperança, a dar testemunho de Jesus ressuscitado e a dizer que esse mundo novo já está a fazer-se?

ALELUIA – Jo 20,19

Aleluia. Aleluia.

Disse o Senhor a Tomé:
«Porque Me viste, acreditaste;
felizes os que acreditam sem terem visto».

EVANGELHO – Jo 20,19-31

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana,
estando fechadas as portas da casa
onde os discípulos se encontravam,
com medo dos judeus,
veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes:
«A paz esteja convosco».
Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado.
Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
Jesus disse-lhes de novo:
«A paz esteja convosco.
Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes:
«Recebei o Espírito Santo:
àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhe-ão perdoados;
e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».
Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo,
não estava com eles quando veio Jesus.
Disseram-lhe os outros discípulos:
«Vimos o Senhor».
Mas ele respondeu-lhes:
«Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos,
se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão na seu lado,
não acreditarei».
Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa
e Tomé com eles.
Veio Jesus, estando as portas fechadas,
apresentou-Se no meio deles e disse:
«A paz esteja convosco».
Depois disse a Tomé:
«Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos;
aproxima a tua mão e mete-a no meu lado;
e não sejas incrédulo, mas crente».
Tomé respondeu-Lhe:
«Meu Senhor e meu Deus!»
Disse-lhe Jesus:
«Porque Me viste acreditaste:
felizes os que acreditam sem terem visto».
Muitos outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos,
que não estão escritos neste livro.
Estes, porém, foram escritos
para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus,
e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome.

AMBIENTE

Continuamos na segunda parte do Quarto Evangelho, onde nos é apresentada a comunidade da Nova Aliança. A indicação de que estamos no “primeiro dia da semana” faz, outra vez, referência ao tempo novo, a esse tempo que se segue à morte/ressurreição de Jesus, ao tempo da nova criação.

A comunidade criada a partir da acção de Jesus está reunida no cenáculo, em Jerusalém. Está desamparada e insegura, cercada por um ambiente hostil. O medo vem do facto de não terem, ainda, feito a experiência de Cristo ressuscitado.

MENSAGEM

O texto que nos é proposto divide-se em duas partes bem distintas.

Na primeira parte (cf. Jo 20,19-23), descreve-se uma “aparição” de Jesus aos discípulos. Depois de sugerir a situação de insegurança e fragilidade que dominava a comunidade (o “anoitecer”, “as portas fechadas”, o “medo”), o autor deste texto apresenta Jesus “no centro” da comunidade (vers. 19b). Ao aparecer “no meio deles”, Jesus assume-Se como ponto de referência, factor de unidade, a videira à volta da qual se enxertam os ramos. A comunidade está reunida à volta d’Ele, pois Ele é o centro onde todos vão beber a vida.
A esta comunidade fechada, com medo, mergulhada nas trevas de um mundo hostil, Jesus transmite duplamente a paz (vers. 19 e 21: é o “shalom” hebraico, no sentido de harmonia, serenidade, tranquilidade, confiança). Assegura-se, assim, aos discípulos que Jesus venceu aquilo que os assustava: a morte, a opressão, a hostilidade do “mundo”.

Depois (vers. 20a), Jesus revela a sua “identidade”: nas mãos e no lado trespassado, estão os sinais do seu amor e da sua entrega. É nesses sinais de amor e doação que a comunidade reconhece Jesus vivo e presente no seu meio. A permanência desses “sinais” indica a permanência do amor de Jesus: Ele será sempre o Messias que ama, e do qual brotarão a água e o sangue que constituem e alimentam a comunidade.

Em seguida (vers. 22), Jesus “soprou sobre eles”. O verbo aqui utilizado é o mesmo do texto grego de Gn 2,7 (quando se diz que Deus soprou sobre o homem de argila, infundindo-lhe a vida de Deus). Com o “sopro” de Gn 2,7, o homem tornou-se um ser vivente; com este “sopro”, Jesus transmite aos discípulos a vida nova que fará deles homens novos. Agora, os discípulos possuem o Espírito, a vida de Deus, para poderem – como Jesus – dar-se generosamente aos outros. É este Espírito que constitui e anima a comunidade.

As palavras de Jesus à comunidade contêm ainda uma referência à missão (vers. 23). Os discípulos são enviados a prolongar o oferecimento de vida que o Pai apresenta à humanidade em Jesus. Quem aceitar essa proposta de vida, será integrado na comunidade; quem a rejeitar, ficará à margem da comunidade de Jesus.

Na segunda parte (cf. Jo 20,24-29), apresenta-se uma catequese sobre a fé. Como é que se chega à fé em Cristo ressuscitado? João responde: podemos fazer a experiência da fé em Jesus vivo e ressuscitado na comunidade dos crentes, que é o lugar natural onde se manifesta e irradia o amor de Jesus. Tomé representa aqueles que vivem fechados em si próprios (está fora) e que não faz caso do testemunho da comunidade nem percebe os sinais de vida nova que nela se manifestam. Em lugar de se integrar e participar da mesma experiência, pretende obter uma demonstração particular de Deus.

Tomé acaba, no entanto, por fazer a experiência de Cristo vivo no interior da comunidade. Porquê? Porque, no “dia do Senhor”, volta a estar com a sua comunidade. É uma alusão clara ao domingo, ao dia em que a comunidade é convocada para celebrar a Eucaristia: é no encontro com o amor fraterno, com o perdão dos irmãos, com a Palavra proclamada, com o pão de Jesus partilhado, que se descobre Jesus ressuscitado.
A experiência de Tomé não é exclusiva das primeiras testemunhas; mas todos os cristãos de todos os tempos podem fazer esta mesma experiência.

ACTUALIZAÇÃO

Ter em conta os seguintes desenvolvimentos:

• A comunidade cristã gira em torno de Jesus, constrói-se à volta de Jesus e é d’Ele que recebe vida, amor e paz. Sem Jesus, estaremos secos e estéreis, incapazes de encontrar a vida em plenitude; sem Ele, seremos um rebanho de gente assustada, incapaz de enfrentar o mundo e de ter uma atitude construtiva e transformadora; sem Ele, estaremos divididos, em conflito e não seremos uma comunidade de irmãos… Na nossa comunidade, Cristo é verdadeiramente o centro? É para Ele que tudo tende e é d’Ele que tudo parte?

• A comunidade tem de ser o lugar onde fazemos, verdadeiramente, a experiência de Jesus ressuscitado. É nos gestos de amor, de partilha, de serviço, de encontro, de fraternidade, que encontramos Jesus vivo, a transformar e a renovar o mundo. É isso que a nossa comunidade testemunha? Quem procura Cristo encontra-O em nós?

• Não é em experiências pessoais, íntimas, fechadas, egoístas que encontramos Jesus ressuscitado; mas encontramo-l’O no diálogo comunitário, na Palavra partilhada, no pão repartido, no amor que une os irmãos em comunidade de vida. O que é que significa, para mim, a Eucaristia?

Dehonianos

TOMÉ, CHAMADO «GÉMEO»

1. Em 30 de abril do ano 2000, o Papa São João Paulo II consagrou o Domingo II da Páscoa como «Domingo da Divina Misericórdia». Compreende-se que, nesse mesmo dia, tenha canonizado a religiosa e mística polaca Santa Faustina Kowalska (1905-1938), primeira canonização do novo milénio, que, nos seu Diário, registava o pedido que lhe fazia Jesus de a Igreja vir a instituir solenemente o primeiro Domingo depois da Páscoa (como então se dizia) como Festa da Divina Misericórdia.

2. Novos percursos se abrem, e é aqui que se inicia o Evangelho do Domingo II da Páscoa (João 20,19-31), Os discípulos estão num lugar, com as portas fechadas, por medo dos judeus. O Ressuscitado, vida nova e modo novo de estar presente, que nada nem ninguém pode reter, vem e fica no MEIO deles, o lugar da Presidência, e saúda-os: «A paz convosco!». Mostra-lhes as mãos e o lado, sinais que identificam o Ressuscitado com o Crucificado, e agrafa-os à sua missão: «Como o Pai me enviou (apéstalken: perf. de apostéllô), também Eu vos mando ir (pémpô)». O envio d’Ele está no tempo perfeito (é para sempre): está sempre em missão; o nosso está no presente, e passa. O presente da nossa missão aparece, portanto, agrafado à missão de Jesus, e não faz sentido sem ela e sem Ele. Nós implicados e imbricados n’Ele e na missão d’Ele, sabendo nós que Ele está connosco todos os dias (cf. Mateus 28,20). É-nos dito que os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem (idóntes: part. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo) o Senhor. Tal como o Outro Discípulo (cf. João 20,8), também eles veem com um olhar histórico (tempo aoristo) a identidade do Senhor. O sopro de Jesus sobre eles é o sopro criador (emphysáô), com o Espírito, para a missão frágil-forte do Perdão. Este sopro só aparece aqui em todo o Novo Testamento! Mas não é difícil construir uma bela ponte para Génesis 2,7, para o sopro ou alento (napah TM /emphysáô LXX) criador de Deus no rosto do homem.

3. A identidade do Senhor Ressuscitado está para além do rosto. Por isso, vê-lo não implica necessariamente reconhecê-lo, como sucede em não poucas páginas dos Evangelhos. A identidade do Ressuscitado não é do domínio da fotografia. Vem de dentro. Reside na sua vida a nós dada por amor até ao fim, aponta para a Cruz. Por isso, Jesus mostra as mãos e o lado, sinais abertos para entrar no sacrário da sua intimidade, dádiva infinita que rebenta as paredes dos nossos olhos embotados e do nosso coração empedernido. Entenda-se também que a missão que nos é confiada é mostrar Jesus. Está bom de ver que não basta exibir as capas do catecismo que mostram um Jesus de olhos azuis e cabelo louro encaracolado. Só o podemos mostrar com a nossa vida dele recebida, e igualmente dada e comprometida.

4. O narrador informa-nos logo a seguir que, afinal, Tomé (Toma’), chamado Gémeo (Dídymos), não estava com eles quando veio Jesus.Dídymos é, na verdade, a tradução literal, em grego, do aramaicoToma’ [= «Gémeo»]. Mas os outros diziam-lhe repetidamente (élegon: imperf. de légô), imperfeito de duração, com a mesma linguagem da Madalena, mas no plural: «Vimos (heôrákamen: perf. de horáô) o Senhor!» (João 20,25). Portanto, também eles são testemunhas, pois viram e continuam a ver o Senhor, de acordo com o tempo perfeito do verbo grego. Mas Tomé quer tudo controlado e verificado, ponto por ponto, e refere: «Se eu não vir (ídô: conj. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo) nas suas mãos a marca dos cravos, e não meter o meu dedo na marca dos cravos e não meter a minha mão no seu lado, não acreditarei» (João 20,25).

5. Novo desarme: oito dias depois, estavam outra vez os discípulos com as portas fechadas (mas o medo já não é mencionado), e Toméestava com eles. Veio Jesus, ficou no MEIO, saudou-os com a paz, e dirigiu-se logo a Tomé desta maneira: «Traz o teu dedo aqui e vê (íde: imper. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo) as minhas mãos, e traz a tua mão e mete-a no meu lado, e não sejas incrédulo, mas crente!» (João 20,27). Aí está Tomé adivinhado, desvendado e desarmado. Também ele podia ter pensado: «E como é que ele sabia que eu queria fazer aquilo?». Tomé cai aqui, adivinhado e antecipado, precedido por Aquele que nos precede sempre. Não quer tirar mais provas. Diz de imediato: «Meu Senhor e meu Deus!» (João 20,28), uma das mais belas profissões de fé de toda a Escritura. E Jesus diz para ele: «Porque me viste e continuas a ver (heôrakás me), tempo perfeito de horáô, acreditaste e continuas a acreditar (pepísteukas), tempo perfeito de pisteúô; felizes (makárioi) os que, não tendo visto (idóntes: part. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo), acreditaram (pisteúsantes: part. aor. de pisteúô)!» (João 20,29), tempo aoristo. Esta felicitação é para nós.

6. Notável o percurso dos Discípulos. Fechados e com medo, viram Jesus entrar e ficar no MEIO deles, sem que as portas e as paredes constituíssem obstáculo. Trocaram o medo pela alegria, e também eles começaram a ver de forma continuada o Senhor e a dizê-lo repetidamente. Notável e exemplar para nós o percurso de Tomé, chamado Gémeo: não estava com a comunidade, tão-pouco aceitou o seu testemunho; queria provas. Mas quando veio Jesus e o adivinhou, precedendo-o e presidindo-o, entregou-se completamente! Tomé, chamado Gémeo! Irmão gémeo! Irmão gémeo de quem? Meu e teu, assim pretende o narrador. De vez em quando, também nós não estamos com a comunidade. Como Tomé, chamado Gémeo. Por vezes, também duvidamos e queremos provas. Como Tomé, chamado Gémeo. Salta à vista que também devemos estar com a comunidade. Como Tomé, chamado Gémeo. E professar convictamente a nossa fé no Ressuscitado que nos preside (no MEIO) e nos precede sempre. Como Tomé, chamado Gémeo.

7 A lição do Livro dos Actos dos Apóstolos (4,32-35, mas ver também 2,42-47 e 5,12-16) deste Domingo II da Páscoa é outra vez soberba. Trata-se de uma visita guiada ao Cenáculo, a primeira Catedral da Igreja nascente, mas com ramificações em todas as casas, em todos os corações, bem assente em quatro colunas: o ensino dos Apóstolos (1), a comunhão fraterna (2), a fracção do pão (3) e a oração (4). Com a boca cheia de louvor, os olhos de graça, as mãos de paz e de pão, as entranhas de misericórdia, a comunidade bela crescia, crescia, crescia. Não admira. Era tão jovem, leve e bela, que as pessoas lutavam por entrar nela!

8. E o Autor do Livro do Apocalipse desenha também diante de nós, na lição de hoje (Apocalipse 1,9-19), a figura sublime do Filho do Homem, O que Vive (ho zôn) (Apocalipse 1,18), porque venceu a morte para sempre, e nos protege sempre, pondo sobre nós a sua mão direita (Apocalipse 1,17). Excelente visualização da Divina Misericórdia, milagre aos nossos olhos, amor e bondade sem medida com que o bom Deus enche os nossos dias, as nossas mãos, o nosso coração, as nossas entranhas, os nossos passos. É assim que, como refere São Máximo Confessor (580-662), «a Páscoa gera a fé e a fé gera o amor». E A misericórdia é a chama divina com que devemos acender e purificar o nosso coração.

9. Cantemos, por isso, o Salmo 118, que é o último canto do chamado «Pequeno Hallel Pascal» (113-118), mas que era seguramente cantado noutras festividades de Israel, nomeadamente na Festa das Tendas, tendo em conta o seu teor processional, e até a sua distribuição por coros. Este Salmo levanta-se do meio da alegria própria da Festa («Este é o dia que o Senhor fez,/ nele nos alegremos e exultemos!»: v. 24), e eleva ao Deus sempre fiel uma grande Acção de Graças por todas as maravilhas que Ele tem realizado em favor do seu povo. Sim, toda a nossa energia e toda a melodia que nos habita é o próprio Senhor, conforme o belíssimo v. 14: «Minha força e meu canto YAH!», que soa assim em hebraico: ‘azzî wezimrat YAH. Além do nosso Salmo, a expressão densa e impressiva encontra-se ainda em Êxodo 15,2 e Isaías 12,2. YAH está por YHWH. O refrão que vamos cantar aparece a abrir e a fechar este grande Salmo, e constitui como que o envelope onde guardamos a bela melodia que cantamos. Soa assim: «Louvai o Senhor porque Ele é bom,/ porque para sempre é o seu amor!» (vv. 1 e 29).

 

Senhor Jesus,

Há tanta gente que Te procura à pressa e Te quer ver.

Mas quando dizem que Te querem ver,

Não é para Te conhecer.

É o teu rosto, a cor dos teus olhos e cabelos,

A tez da tua pele, a tua forma de vestir que os atrai e contagia.

Querem ver-te como se fosse numa fotografia.

 

Mas Tu, Senhor Jesus Ressuscitado,

Quando Te dás a conhecer a nós,

Não mostras o rosto,

Uma fotografia,

O cartão de cidadão.

Se fosse assim,

Mal seria que os teus amigos Te não reconhecessem.

 

E o facto é que,

Quando surges no meio deles,

Não Te reconhecem.

E em vez do rosto,

São, afinal, as mãos e o lado que apresentas.

Entenda-se: é a tua maneira de viver que nos queres fazer ver.

Na verdade, a tua identidade é dar a vida,

É dar a mão e o coração.

É essa a tua lição, a tua paixão, a tua ressurreição.

 

Senhor, dá-nos sempre desse pão!

António Couto

 

 

O Canto na Liturgia

Antífona de Entrada

           Entrai na alegria – F. Valente
           Exultai de alegria – F. Silva
           Exultai de alegria – M. Carneiro
           Eis o dia que o Senhor fez – J. Santos

Salmo Responsorial

                 Aclamai o Senhor porque Ele é bom: o seu amor é para sempre

Antífona de Comunhão

           Aproxima a tua mão – F. Santos
           Não sejas incrédulo mas fiel – M. Carneiro
           Porque me vês, acreditas – Az. Oliveira 

           A paz esteja convosco – M. Luís

Por ser a oitava da Páscoa, nada deve obstar – havendo necessidade – a que se possam fazer, em vez das antífonas de entrada próprias deste Domingo e indicadas neste espaço, uma das antífonas da Missa do Dia de Páscoa:

           O Senhor ressuscitou verdadeiramente – A. Cartageno
           O Senhor ressuscitou verdadeiramente – M. Faria
           O Senhor ressuscitou verdadeiramente – F. Santos
           O Senhor ressuscitou verdadeiramente – F. Santos
           O Senhor ressuscitou verdadeiramente – F. Santos
           O Senhor ressuscitou verdadeiramente – M. Carneiro
           O Senhor ressuscitou – M. Luís
           O Senhor ressuscitou – V. Pereira/J. Ribeiro

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