Domingo XXVIII do Tempo Comum – Ano A

Tema do 28º Domingo do Tempo Comum

 

 

A liturgia do 28º Domingo do Tempo Comum utiliza a imagem do “banquete” para descrever esse mundo de felicidade, de amor e de alegria sem fim que Deus quer oferecer a todos os seus filhos.

Na primeira leitura, Isaías anuncia o “banquete” que um dia Deus, na sua própria casa, vai oferecer a todos os Povos. Acolher o convite de Deus e participar nesse “banquete” é aceitar viver em comunhão com Deus. Dessa comunhão resultará, para o homem, a felicidade total, a vida em abundância.

O Evangelho sugere que é preciso “agarrar” o convite de Deus. Os interesses e as conquistas deste mundo não podem distrair-nos dos desafios de Deus. A opção que fizemos no dia do nosso baptismo não é “conversa fiada”; mas é um compromisso sério, que deve ser vivido de forma coerente.

Na segunda leitura, Paulo apresenta-nos um exemplo concreto de uma comunidade que aceitou o convite do Senhor e vive na dinâmica do Reino: a comunidade cristã de Filipos. É uma comunidade generosa e solidária, verdadeiramente empenhada na vivência do amor e em testemunhar o Evangelho diante de todos os homens. A comunidade de Filipos constitui, verdadeiramente, um exemplo que as comunidades do Reino devem ter presente.

 

 

LEITURA I – Is 25,6-10a

Leitura do Livro de Isaías

Sobre este monte,
o Senhor do Universo há-de preparar para todos os povos
um banquete de manjares suculentos,
um banquete de vinhos deliciosos:
comida de boa gordura, vinhos puríssimos.
Sobre este monte,
há-de tirar o véu que cobria todos os povos,
o pano que envolvia todas as nações;
destruirá a morte para sempre.
O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces
e fará desaparecer da terra inteira
o opróbrio que pesa sobre o seu povo.
Porque o Senhor falou.
Dir-se-á naquele dia:
«Eis o nosso Deus, de quem esperávamos a salvação;
é o Senhor, em quem pusemos a nossa confiança.
Alegremo-nos e rejubilemos, porque nos salvou.
A mão do Senhor pousará sobre este monte».

AMBIENTE

É extremamente difícil situar, no tempo e no momento histórico, o texto que a primeira leitura deste domingo nos apresenta.

Para uns, o oráculo pertence à fase final da vida do profeta Isaías (no final do séc. VIII a.C.) quando, desiludido com a política e com os reis de Judá, o profeta começou a sonhar com um tempo novo de felicidade e de paz sem fim para o Povo de Deus.

Para outros, contudo, este texto não pertenceria ao primeiro Isaías (o autor dos capítulos 1-39 do Livro de Isaías), apesar de aparecer integrado no seu livro. Seria um texto de uma época posterior ao profeta… A referência à superação da morte, das lágrimas e da vergonha, poderia sugerir que a composição deste texto se situaria num momento histórico posterior ao Exílio na Babilónia, quando Judá já teria reconquistado a liberdade.

Em qualquer caso, o texto constrói-se à volta da imagem do “banquete”. O “banquete” é, no ambiente sócio-cultural do mundo bíblico, o momento da partilha, da comunhão, da constituição de uma comunidade de mesa, do estabelecimento de laços familiares entre os convivas.

Para além de acontecimento social, o “banquete” tem também, frequentemente, uma dimensão religiosa. Os “banquetes sagrados” celebram e potenciam a comunhão do crente com Deus, o estabelecimento de laços familiares entre Deus e os fiéis. É por isso que, na perspectiva dos catequistas que redigiram as tradições sobre a Aliança do Sinai, o compromisso entre Jahwéh e Israel tinha de ser selado com uma refeição entre Deus e os representantes do Povo (cf. Ex 24,1-2. 9-11).

Neste campo são também particularmente significativos os “sacrifícios de comunhão” (“zebâh shelamim”) celebrados no Templo de Jerusalém. Neste tipo de celebração religiosa, o crente trazia ao Templo um animal destinado a Deus. Depois de imolado o animal, a sua gordura era queimada sobre o altar, ao passo que a carne era repartida pelo oferente e pelos sacerdotes. O oferente e a sua família deviam comer a sua parte no espaço sagrado do santuário. Dessa forma, sentavam-se à mesa com Deus, celebravam a sua pertença ao círculo familiar de Deus e renovavam com Deus os laços de paz, de harmonia, de comunhão (cfr. Lv 3).
É este ambiente que o nosso texto supõe.

MENSAGEM

O profeta anuncia que Deus, num futuro sem data marcada, vai oferecer “um banquete”; e, para esse “banquete”, Jahwéh vai convidar “todos os povos”. Trata-se, portanto, de uma iniciativa de Deus no sentido de estabelecer laços “de família” com a humanidade inteira.

O cenário do “banquete” é “este monte” (vers. 6) – evidentemente, o monte do Templo, em Jerusalém, a “casa de Jahwéh”, o lugar onde Deus reside no meio do seu Povo, o lugar onde Israel presta culto a Jahwéh e celebra os sacrifícios de comunhão. Aceitar o convite de Deus para o “banquete” significará, portanto, participar no culto a Jahwéh, ser acolhido na casa de Jahwéh, entrar no “espaço íntimo” e familiar de Deus e sentar-se com Ele à mesa.

Nesse “banquete” serão servidos “manjares suculentos”, “comida de boa gordura”, “vinhos deliciosos” e “puríssimos” (vers. 6). As expressões sublinham a abundância de vida – e de vida com qualidade – com que Deus vai cumular os seus convidados.

Para os que aceitarem o convite para o “banquete”, iniciar-se-á uma nova era, de comunhão íntima com Deus e de vida sem fim. O profeta sugere a comunhão total entre Deus e os homens que então se iniciará, com a indicação de que será removido “o véu que cobria todos os povos, o pano que envolvia todas as nações” (vers. 7) e que impedia o contacto total com o mundo de Deus. Por outro lado, o profeta sugere o início da nova era de paz e de felicidade sem fim, dizendo que Deus vai destruir a morte para sempre, vai enxugar “as lágrimas de todas as faces” e vai eliminar “o opróbrio que pesa sobre o seu Povo” (vers.8).

O “banquete” termina com um cântico de acção de graças que evoca, provavelmente, uma fórmula usada na aclamação de um novo rei (vers. 9). Significa que, com o “banquete” que o Messias vai oferecer, se iniciará o reinado de Deus sobre toda a terra.

O profeta está, sem dúvida, a descrever os tempos messiânicos. Na perspectiva do profeta, serão tempos de comunhão total de Deus com o homem e do homem com Deus. Dessa intimidade entre Deus e o homem resultará, para o homem, a felicidade total, a vida verdadeira e plena.

A partir daqui, a ideia de um “banquete messiânico” tornou-se corrente no judaísmo.

ACTUALIZAÇÃO

Na reflexão, considerar os seguintes elementos:

  • A imagem do “banquete” para o qual Deus convida “todos os povos” aponta para essa realidade de comunhão, de festa, de amor, de felicidade que Deus, insistentemente nos oferece. Nunca será de mais recordar isto: Deus tem um projecto de vida, que quer oferecer a todos os homens, sem excepção. Não somos “filhos de um deus menor”, pobre humanidade abandonada à sua sorte, perdida num universo hostil e condenada ao nada; somos pessoas a quem Deus ama, a quem Ele convida para integrar a sua família e a quem Ele oferece a vida plena e definitiva. A consciência desta realidade deve iluminar a nossa existência e encher de serenidade, de esperança e de confiança a nossa caminhada nesta terra. A nossa finitude, as nossas limitações, os nossos medos e misérias não são a última palavra da nossa existência; mas caminhamos todos ao encontro da festa definitiva que Deus prepara para todos os que aceitam o seu dom.
  • Ao homem basta-lhe aceitar o convite de Deus para ter acesso a essa festa de vida eterna. Aceitar o convite de Deus significa renunciar ao egoísmo, ao orgulho e à auto-suficiência e conduzir a existência de acordo com os valores de Deus; aceitar o convite de Deus implica dar prioridade ao amor, testemunhar os valores do Reino e construir, já aqui, uma nova terra de justiça, de solidariedade, de partilha, de amor. No dia do nosso Baptismo, aceitamos o convite de Deus e comprometemo-nos com Ele… A nossa vida tem sido coerente com essa opção?

 

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 22 (23)

Refrão:   Habitarei para sempre na casa do Senhor.

O Senhor é meu pastor: nada me falta.
Leva-me a descansar em verdes prados,
conduz-me às águas refrescantes
e reconforta a minha alma.

Ele me guia por sendas direitas, por amor do seu nome.
Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos,
não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo:
o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.

Para mim preparais a mesa,
à vista dos meus adversários;
com óleo me perfumais a cabeça,
e o meu cálice transborda.

A bondade e a graça hão-de acompanhar-me
todos os dias da minha vida,
e habitarei na casa do Senhor
para todo o sempre.

 

 

LEITURA II – Filip 4,12-14.19-20

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses

Irmãos:
Sei viver na pobreza e sei viver na abundância.
Em todo o tempo e em todas as circunstâncias,
tenho aprendido a ter fartura e a passar fome,
a viver desafogadamente e a padecer necessidade.
Tudo posso n’Aquele que me conforta.
No entanto, fizestes bem em tomar parte na minha aflição.
O meu Deus proverá com abundância
a todas as vossas necessidades,
Segundo a sua riqueza e magnificência, em Cristo Jesus.
Glória a Deus, nosso Pai, pelos séculos dos séculos. Ámen.

AMBIENTE

Mais uma vez, a segunda leitura oferece-nos um excerto de uma carta de Paulo aos cristãos da cidade grega de Filipos.

Estamos nos anos 56/57. Paulo está na prisão (em Éfeso?) por causa do Evangelho. Nesse momento difícil da sua vida apostólica, Paulo recebeu ajuda económica e, mais importante do que isso, a presença solidária e o cuidado de Epafrodito, um membro da comunidade, enviado para ajudar Paulo e para lhe manifestar a solicitude dos seus “filhos” de Filipos.

O nosso texto é tirado do capítulo final da Carta aos Filipenses. Aí, num tom emocionado, Paulo agradece pelos dons recebidos e pela solidariedade que os cristãos de Filipos lhe manifestaram.

MENSAGEM

Paulo está manifestamente satisfeito pela ajuda recebida da comunidade cristã de Filipos. A alegria de Paulo resulta, não tanto da resolução das suas próprias necessidades materiais mas, sobretudo, do significado do gesto dos filipenses. O donativo enviado é sinal, não só da amizade que os cristãos da comunidade votam a Paulo, mas também da solidariedade dos filipenses com o anúncio do Evangelho de Jesus: dessa forma, os filipenses manifestaram o seu apoio ao ministério apostólico de Paulo e ao trabalho que o apóstolo desenvolve no sentido de fazer chegar a proposta libertadora de Jesus a todos os homens. E isso, evidentemente, alegra o coração de Paulo.

Por si, Paulo está acostumado às privações e à frugalidade. A sua vida e a sua missão não dependem de comodidades materiais: ele sabe “viver na pobreza” e sabe “viver na abundância”… Essa “liberdade interior” face aos bens brota de Cristo: é Cristo quem dá forças ao apóstolo para superar as privações, quem o anima nos momentos de dificuldades, quem lhe dá a coragem para enfrentar as necessidades que a vida apostólica impõe.

De resto, Paulo está certo de que a solidariedade e a solicitude que os membros da comunidade manifestaram beneficiará, em primeiro lugar, os próprios filipenses, pois Deus não deixará de lhes “pagar” generosamente o seu gesto.

ACTUALIZAÇÃO

Considerar, na reflexão, as seguintes linhas:

  • Antes de mais, o nosso texto apela a que os cristãos tenham o coração aberto à partilha e ao dom. Ser cristão implica a renúncia a uma vida de egoísmo e de fechamento em si próprio… Implica abrir o coração às necessidades dos irmãos carentes e desfavorecidos e uma partilha efectiva da vida e dos bens. Numa época em que os valores dominantes convidam continuamente ao egoísmo, à auto-suficiência, à preocupação exclusiva com os próprios interesses, o gesto dos filipenses constitui uma poderosa interpelação.
  • Por outro lado, também somos interpelados pelo sentido de despojamento de Paulo… Como Paulo, o apóstolo de Jesus deve saber “viver na pobreza” e deve saber “viver na abundância”; mas nunca pode colocar as comodidades materiais como prioridade ou como condição essencial para se empenhar na missão. O apóstolo de Jesus tem como prioridade o anúncio do Evangelho, em quaisquer circunstâncias e para além de todos os condicionalismos. Um “apóstolo” que se preocupa, antes de mais, com a sua comodidade ou com o seu bem-estar torna-se escravo das coisas materiais, passa a ser um “funcionário do Reino” com horário limitado e com trabalho limitado e rapidamente perde o sentido da sua entrega e do seu empenhamento.
  • A solicitude dos filipenses por Paulo é sinal da vontade que eles têm de colaborar na expansão do Reino. Todas as comunidades cristãs deviam sentir este apelo a participar – de forma mais directa ou menos directa – no testemunho de Evangelho de Jesus. Levar o Evangelho ao mundo não é uma missão que apenas diga respeito a um grupo “especial” dentro da Igreja; mas é uma missão que Jesus confiou a todos os discípulos, sem excepção. Todos os cristãos deviam sentir o imperativo de colaborar, na medida das suas possibilidades, no anúncio do Evangelho.
  • A solicitude dos filipenses por Paulo interpela também as comunidades cristãs acerca da forma como acolhem e tratam aqueles que se entregam a tempo inteiro à causa do Evangelho… A opção que eles fizeram de se entregarem totalmente ao serviço do Reino não os torna menos humanos; eles continuam a ser homens ou mulheres sensíveis às manifestações de afecto, de apreço, de amizade, de solicitude. A comunidade tem o dever de manifestar, em gestos concretos, a sua gratidão pelo trabalho desses irmãos e pelos dons que deles recebe.
  • Paulo refere-se, finalmente, à retribuição que Deus não deixará de dar a todos aqueles que mostram solicitude e amor com os apóstolos e que se empenham no anúncio do Evangelho. No entanto, Paulo está longe de sugerir uma lógica interesseira no nosso relacionamento com Deus… O cristão não age de determinada forma para daí tirar benefícios, mas porque o seu compromisso com Jesus lhe impõe determinado comportamento.

 

 

ALELUIA – cf. Ef 1,17-18

Aleluia. Aleluia.

Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo,
ilumine os olhos do nosso coração,
para sabermos a que esperança fomos chamados.

 

 

EVANGELHO – Mt 22,1-14

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus dirigiu-Se de novo
aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo
e, falando em parábolas, disse-lhes:
«O reino dos Céus pode comparar-se a um rei
que preparou um banquete nupcial para o seu filho.
Mandou os servos chamar os convidados para as bodas,
mas eles não quiseram vir.
Mandou ainda outros servos, ordenando-lhes:
‘Dizei aos convidados:
Preparei o meu banquete, os bois e os cevados foram abatidos,
tudo está pronto. Vinde às bodas’.
Mas eles, sem fazerem caso,
foram um para o seu campo e outro para o seu negócio;
os outros apoderaram-se dos servos,
trataram-nos mal e mataram-nos.
O rei ficou muito indignado e enviou os seus exércitos,
que acabaram com aqueles assassinos e incendiaram a cidade.
Disse então aos servos:
‘O banquete está pronto, mas os convidados não eram dignos.
Ide às encruzilhadas dos caminhos
e convidai para as bodas todos os que encontrardes’.
Então os servos, saindo pelos caminhos,
reuniram todos os que encontraram, maus e bons.
E a sala do banquete encheu-se de convidados.
O rei, quando entrou para ver os convidados,
viu um homem que não estava vestido com o traje nupcial.
E disse-lhe:
‘Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?’.
Mas ele ficou calado.
O rei disse então aos servos:
‘Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o às trevas exteriores;
aí haverá choro e ranger de dentes’.
Na verdade, muitos são os chamados,
mas poucos os escolhidos».

AMBIENTE

Continuamos em Jerusalém, nos dias que antecedem a Páscoa. Os dirigentes religiosos judeus aumentam a pressão sobre Jesus. Instalados nas suas certezas e seguranças, já decidiram que a proposta de Jesus não vem de Deus; por isso, rejeitam de forma absoluta o Reino que ele anuncia.

O texto que nos é hoje proposto faz parte de um bloco de três parábolas (cf. Mt 21,28-32. 33-43; 22,1-14), destinadas a ilustrar a recusa de Israel em aceitar o projecto que Deus oferece aos homens através de Jesus. Com elas, Jesus convida os seus opositores – os líderes religiosos judaicos – a reconhecerem que se fecharam num esquema de auto-suficiência, de orgulho, de arrogância, de preconceitos, que não os deixa abrir o coração e a vida aos dons de Deus. O nosso texto é a última dessas três parábolas.

A crítica do texto mostra que Mateus juntou aqui duas parábolas diferentes: a parábola dos convidados para o “banquete” (que é comum a Mateus e Lucas, embora as duas versões apresentem diferenças consideráveis – cf. Mt 22,1-10; Lc 14,15-24) e a parábola do convidado que se apresentou sem o traje adequado (que é exclusiva de Mateus – cf. Mt 22,11-14). Originalmente, as duas parábolas teriam ensinamentos diferentes; mas a temática comum do “banquete” aproximou-as e juntou-as.

As nossas duas parábolas situam-nos, portanto, no cenário de um “banquete”. Já dissemos (a propósito da primeira leitura deste domingo) que o “banquete” era, na cultura semita, o lugar do encontro, da comunhão, do estreitamento de laços familiares entre os convivas. Além disso, o “banquete” era também a cerimónia através da qual se confirmava o “status” das pessoas e o seu lugar dentro da escala social. Quem organizava um “banquete” – por exemplo, por ocasião do casamento de um filho – procurava fazer uma selecção cuidada dos convidados: a presença de gente “desclassificada” faria descer consideravelmente, aos olhos de toda a comunidade, o “status” da família; e, por outro lado, a presença à mesa de pessoas importantes realçava a importância e a honra da família.

MENSAGEM

A primeira parábola é a parábola dos convidados para o “banquete” (vers. 1-10). Apresenta-nos um rei que organizou um banquete para celebrar o casamento do seu filho. Convidou várias pessoas, mas os convidados recusaram-se a participar no “banquete”, apresentando as desculpas mais inverosímeis. Mateus chega a dizer (um dado que não aparece no relato de Lucas) que teriam até assassinado os emissários do rei… Trata-se de um quadro gravíssimo: recusar o convite era uma ofensa inqualificável; mas, como se isso não bastasse, esses convidados indignos manifestaram um desprezo inconcebível pelo rei, matando os seus servos. O rei enviou então as suas tropas que castigaram os assassinos (vers. 7. Esta referência não aparece no relato de Lucas… É uma provável interpretação da destruição de Jerusalém pelos exércitos romanos de Tito, no ano 70. Isso significa que a versão que Mateus nos dá da parábola é posterior a essa data).

O rei resolveu, apesar de tudo, manter a festa e mandou que fossem trazidos para o “banquete” todos aqueles fossem encontrados nas “encruzilhadas dos caminhos”. E esses desclassificados, esse “povo da terra”, que nunca se tinha sentado à mesa de um personagem importante (com tudo o que isso significava em termos de comunhão e de estabelecimento de laços de família e de amizade), celebrou a festa à mesa do rei.

O sentido da parábola é óbvio… Deus é o rei que convidou Israel para o “banquete” do encontro, da comunhão, da chegada dos tempos messiânicos (as bodas do “filho”). Os sacerdotes, os escribas, os doutores da Lei recusaram o convite e preferiram continuar agarrados aos seus esquemas, aos seus preconceitos, aos seus sistemas de auto-salvação. Então, Deus convidou para o “banquete” do Messias esses pecadores e desclassificados que, na perspectiva da teologia oficial, estavam arredados da comunhão com Deus e do Reino.

Esta parábola explicita bem o cenário em que o próprio Jesus se move… Ele aparece, com frequência, a participar em “banquetes” ao lado de gente duvidosa e desclassificada, ao ponto de os seus inimigos o acusarem de “comilão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e de pecadores” (Mt 11,19; Lc 7,34). Porque é que Jesus participa nesses “banquetes”, correndo o risco de adquirir uma fama tão desagradável? Porque no Antigo Testamento – como vimos na primeira leitura – os tempos messiânicos são descritos com a imagem de um “banquete” que Deus prepara para todos os povos. Ora, Jesus tem consciência de que, com Ele, esses tempos chegaram; e utiliza o cenário do “banquete” para expressar a realidade do Reino (a mesa da festa, do amor, da comunhão com Deus, para a qual todos os homens e mulheres, sem excepção, são convidados). Para Ele, o sentar-se à mesa com os pecadores é uma forma privilegiada de lhes dizer que Deus os acolhe com amor e que quer estabelecer com eles relações de comunhão e de familiaridade, sem excluir ninguém do seu convívio ou da sua comunidade.

Os líderes de Israel, no entanto, sempre reprovaram a Jesus esse contacto com os pecadores e os desclassificados… Para eles, os publicanos e as prostitutas, por exemplo, estavam definitivamente arredadas da comunidade da salvação. Sentá-los à mesa do “banquete” do Reino é algo de inaudito e que os líderes de Israel acham absolutamente inapropriado.

É muito provável que, originalmente, a parábola tivesse servido a Jesus para responder àqueles que o acusavam de ter convidado para o “banquete” do Reino todo o tipo de desclassificados e de pecadores. Jesus deixa claro que, na perspectiva de Deus, a questão não é se tal ou tal pessoa tem o direito de se sentar à mesa do Reino; mas a questão essencial é se se aceita ou não se aceita o convite de Deus. Na verdade, os líderes de Israel recusaram o desafio de Deus, enquanto que os pecadores e desclassificados o acolheram de braços abertos.

Mais tarde, a comunidade cristã irá fazer uma releitura um pouco diferente da parábola e utilizá-la para explicar porque é que os pagãos acolheram melhor do que os judeus a Boa Nova do Reino.

A segunda parábola é a parábola do convidado que se apresentou na festa sem o traje nupcial (vers. 11-14). O rei que organizou o “banquete” mandou, então, lançá-lo fora da sala onde se realizava a festa.

A parábola constitui uma advertência àqueles que aceitaram o convite de Deus para a festa do Reino, aderiram à proposta de Jesus e receberam o Baptismo. Mateus escreve no final do século I (anos 80), quando os cristãos já tinham esquecido o entusiasmo inicial e viviam instalados numa fé pouco exigente. Consideravam que já tinham feito uma opção definitiva e que já tinham assegurado a salvação. Mateus diz-lhes: cuidado, porque não chega entrar na sala do “banquete”; é preciso, além disso, vestir um estilo de vida que ponha em prática os ensinamentos de Jesus. Quem foi baptizado e aderiu ao “banquete” do Reino, mas recusou o traje do amor, da partilha, do serviço, da misericórdia, do dom da vida e continua vestido de egoísmo, de arrogância, de orgulho, de injustiça, não pode participar na festa do encontro e da comunhão com Deus. Deus chamou todos os homens e mulheres para participarem no “banquete”; mas só serão admitidos aqueles que responderem ao convite e mudarem completamente a sua vida.

ACTUALIZAÇÃO

Na reflexão, considerar as seguintes questões:

  • No nosso texto, a questão decisiva não é se Deus convida ou se não convida; mas é se se aceita ou se não se aceita o convite de Deus para o “banquete” do Reino. Os convidados que não aceitaram o convite representam aqueles que estão demasiado preocupados a dirigir uma empresa de sucesso, ou a escalar a vida a pulso, ou a conquistar os seus cinco minutos de fama, ou a impor aos outros os seus próprios esquemas e projectos, ou a explorar o bem estar que o dinheiro lhes conquistou e não têm tempo para os desafios de Deus. Vivemos obcecados com o imediato, o politicamente correcto, o palpável, o material, e prescindimos dos valores eternos, duradouros, exigentes, que exigem o dom da própria vida. A questão é: onde é que está a verdadeira felicidade? Nos valores do Reino, ou nesses valores efémeros que nos absorvem e nos dominam?
  • Os convidados que não aceitaram o convite representam também aqueles que estão instalados na sua auto-suficiência, nas suas certezas, seguranças e preconceitos e não têm o coração aberto e disponível para as propostas de Deus. Trata-se, muitas vezes, de pessoas sérias e boas, que se empenham seriamente na comunidade cristã e que desempenham papéis fundamentais na estruturação dos organismos paroquiais… Mas “nunca se enganam e raramente têm dúvidas”; sabem tudo sobre Deus, já construíram um deus à medida dos seus interesses, desejos e projectos e não se deixam questionar nem interpelar. Os seus corações estão, também, fechados à novidade de Deus.
  • Os convidados que aceitaram o convite representam todos aqueles que, apesar dos seus limites e do seu pecado, têm o coração disponível para Deus e para os desafios que Ele faz. Percebem os limites da sua miséria e finitude e estão permanentemente à espera que Deus lhes ofereça a salvação. São humildes, pobres, simples, confiam em Deus e na salvação que Ele quer oferecer a cada homem e a cada mulher e estão dispostos a acolher os desafios de Deus.
  • A parábola do homem que não vestiu o traje apropriado convida-nos a considerar que a salvação não é uma conquista, feita de uma vez por todas, mas um sim a Deus sempre renovado, e que implica um compromisso real, sério e exigente com os valores de Deus. Implica uma opção coerente, contínua, diária com a opção que eu fiz no Baptismo… Não é um compromisso de “meias tintas”, de tentativas falhadas, de “tanto se me dá como se me deu”; mas é um compromisso sério e coerente com essa vida nova que Jesus me apresentou.

Dehonianos

 

QUANDO O REI TE DIZ: «AMIGO!…»

1. No seguimento dos dois Domingos anteriores, também neste Domingo XXVIII do Tempo Comum, os chefes religiosos e civis continuam na mira de Jesus. Já quando ouviram as duas parábolas anteriores – a dos dois filhos (Mateus 21,28-32) e a dos vinhateiros homicidas (Mateus 21,33-43 –, perceberam bem que as palavras de Jesus se dirigiam a eles, e, parafraseando Jorge Luis Borges, perceberam também que as palavras de Jesus estavam carregadas como uma arma. O narrador informa-nos, de resto, no final, que «os chefes dos sacerdotes e os fariseus, ouvindo estas parábolas, perceberam que JESUS se referia a eles, e procuravam prendê-lo», e que só o não fizeram por «receio das multidões, que o tinham por profeta» (Mateus 21,45-46).

2. É importante, para o leitor, esta última informação do narrador, pois o texto de hoje, que segue imediatamente os anteriores, começa assim: «E, respondendo, JESUS disse-lhes novamente em parábolas» (Mateus 22,1). Ficamos então a saber que o novo dizer parabólico de Jesus serve de resposta aos pensamentos e planos violentos que as parábolas anteriores desencadearam nos chefes.

3. E segue a primeira, estupenda parábola, que parte da afirmação de semelhança do Reino dos Céus a um banquete nupcial que um Rei fez para o seu filho. «Reino dos Céus», usual em Mateus, é uma circunlocução para dizer «Reino de Deus». E a figura do Rei é muitas vezes usada no Antigo Testamento e no judaísmo para designar Deus. E o verbo «fazer» evoca imediatamente a criação. E o filho do Rei, para uma audiência cristã da parábola, designava de imediato Jesus. E o banquete nupcial feito pelo Rei é uma imagem fortíssima de festa e de alegria, tantas vezes anunciado pelos profetas (veja-se, por exemplo, a lição de hoje do profeta Isaías 25,6), e impacientemente aguardado pelos judeus piedosos. É seguro: ser convidado e poder participar num banquete assim era um sonho para qualquer judeu piedoso!

4. Primeira surpresa: quando o Rei enviou os seus servos a chamar os CONVIDADOS para o banquete, estes não queriam (êthelon: impf. dethélô) vir. O uso do imperfeito indica duração: nem hoje, nem amanhã, nem em dia nenhum. E o uso do verbo querer deixa claro que se trata de uma acção voluntária, e não de uma qualquer predisposição ou sentimento. Mais ainda: que a acção é deliberada, fica patente no facto de o Rei ter enviado outros servos para voltar a chamar os CONVIDADOS, e estes nem prestaram atenção, indo cada um à sua vida. E os restantes ainda maltrataram e mataram os servos do Rei.

5. Note-se ainda que foi o próprio Rei que preparou (hêtoímaka: perf. de hetoimázô) o banquete, empenhando-se pessoalmente nele (Mateus 22,4). O verbo preparar está colocado em lugares-chave em Mateus: veja-se 3,3: «Preparai o caminho do Senhor»; 25,34: «Vinde, benditos de meu Pai, recebei o Reino preparado para vós…; 26,17.19: preparar a Páscoa.

6. Este cuidado meticuloso posto pelo Rei na preparação do seu banquete para nós parece esbarrar depois na brutalidade com que se irou (ôrgísthê: aor. de orgízomai), enviou as suas tropas, matou aqueles homicidas e incendiou a sua cidade (Mateus 22,7). O sentido voa aqui em duas direcções: primeiro, o uso do aoristo em todos os verbos mostra que «a sua ira dura apenas um momento», como diz o Salmo 30,6; segundo, o castigo descrito retrata e interpreta os acontecimentos dramáticos bem conhecidos do ano 70.

7. Segunda surpresa: as sucessivas e gradativas recusas dos CONVIDADOS não desarmam o Rei, que DIZ (légei) agora aos seus servos (Mateus 22,8): IDE às encruzilhadas dos caminhos, e TODOS os que encontrardes, chamai-os para o banquete (Mateus 22,9). Os servos saíram, e reuniram TODOS os que encontraram, maus e bons (Mateus 22,10). Missão universal que brota do amor fontal de Deus Pai (Ad Gentes, n.º 2)… E foi assim, por nova, excessiva e a todos os títulos surpreendente iniciativa do Rei, que se encheu a sala do banquete. Note-se o novo DIZER do Rei no presente histórico, que marca um primeiro ponto alto no relato. Note-se ainda que o intervalo militar parece não ter esfriado a comida daquela mesa sempre posta!

8. Terceira surpresa: o Rei entra, vê um homem sem o traje nupcial, e expulsa-o da casa alumiada para as trevas cegas e as lágrimas vazias. Que o homem não tenha o traje nupcial é surpresa para o Rei, que não para nós. Para nós, a surpresa é que TODOS os outros, maus e bons, tenham o traje nupcial, uma vez que foram como que arrastados à pressa dos caminhos lamacentos do mundo! Para o Rei, é aquele um homem que causa surpresa! E chegamos ao segundo ponto alto do relato, marcado também pelo verbo DIZER no presente histórico. De facto, o Rei trata-o cordialmente, e DIZ-lhe (légei autô): «Amigo» (hetaîre), apelativo que só Mateus usa no Novo Testamento (20,13; 22,12; 26,50), e que apenas é usado quando se aborda alguém de forma cordial. A este amigo (hetaîros), o Rei concede, mediante esta última abordagem directa e cordial, uma última oportunidade de se dizer, isto é, de reconhecer o seu desarranjo e de mudar a sua vida.

9. Oportunidade desperdiçada, pois o homem não responde. Ficou calado e petrificado (Mateus 22,12). Note-se o mesmo tratamento de Jesus para Judas naquela noite escura, mas ainda à beirinha da Luz: «Amigo (hetaîre), para que estás aqui?» (Mateus 26,50). Judas também não respondeu.

10. É aqui que a parábola nos atinge a TODOS em cheio. Vistas bem as coisas, só o Rei fala nesta parábola. E se ouvirmos bem, DIZ-nos: «Amigo!…».

11. A razão daquele homem não usar o traje nupcial. Não o usa, porque não o quis receber. É um presente do Rei à entrada da sala do banquete. No nosso mundo ocidental, são os convidados que levam os presentes. No mundo oriental, quem convida é que oferece presentes aos convidados, entre os quais se conta o vestido da festa.

12. Nunca nos esqueçamos de que é de Deus toda a verdadeira iniciativa. Nunca nos esqueçamos de começar por receber.

13. Deixemos, entretanto, ressoar em nós a música sublime do Salmo 23, e deixemo-nos conduzir pela mão carinhosa e pela voz maternal e melodiosa do Bom e Belo Pastor. Sim, Ele recebe bem os seus hóspedes: faz-nos uma visita guiada pelos seus prados muito verdes, cheios de águas muito azuis, unge com óleo perfumado a nossa cabeça, estende no chão do seu céu a «pele de vaca» (shulhan), que é a sua mesa, serve-nos vinhos generosos…

António Couto

 

O Canto na Liturgia

 

Antífona de Entrada

Se tiverdes em conta as nossas faltas – F. Lapa

Quem poderá salvar-se (Se tiverdes em conta) – M. Carneiro

Tende compaixão de mim, Senhor – F. Lapa

 

Salmo Responsorial

Habitarei para sempre na casa do Senhor (sl 22) –  F. Santos

 

Antífona da Comunhão

Os ricos empobrecem – F. Valente

Os ricos empobrecem – C. Silva

Quando o Senhor se manifestar – J. A. Nunes

 

Outros cânticos para o Domingo XXVIII do Tempo Comum

Buscai o alimento – M. Luís

Felizes os convidados – M. Luís

Se tiverdes em conta os nossos pecados – A. Cartageno

Se tiverdes em conta os nossos pecados – Az. Oliveira

Se tiverdes em conta os nossos pecados – Az. Oliveira

Se tiverdes em conta os nossos pecados – C. Silva

Se tiverdes em conta os nossos pecados – F. Santos

Se tiverdes em conta os nossos pecados – F. Santos

Se tiverdes em conta os nossos pecados – J. Santos

Se tiverdes em conta os nossos pecados – J. P. Martins

Se tiverdes em conta os nossos pecados – M. Carneiro

Se cumprirdes os meus mandamentos – C. Silva

Tudo posso naquele que me conforta – C. Silva

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Domingo XXVII do Tempo Comum – Ano A

 

 

Tema do 27º Domingo do Tempo Comum

 

 

A liturgia do 27º Domingo do Tempo Comum utiliza a imagem da “vinha de Deus” para falar desse Povo que aceita o desafio do amor de Deus e que se coloca ao serviço de Deus. Desse Povo, Deus exige frutos de amor, de paz, de justiça, de bondade e de misericórdia.

Na primeira leitura, o profeta Isaías dá conta do amor e da solicitude de Deus pela sua “vinha”. Esse amor e essa solicitude não podem, no entanto, ter como contrapartida frutos de egoísmo e de injustiça… O Povo de Jahwéh tem de deixar-se transformar pelo amor sempre fiel de Deus e produzir os frutos bons que Deus aprecia – a justiça, o direito, o respeito pelos mandamentos, a fidelidade à Aliança.

No Evangelho, Jesus retoma a imagem da “vinha”. Critica fortemente os líderes judaicos que se apropriaram em benefício próprio da “vinha de Deus” e que se recusaram sempre a oferecer a Deus os frutos que Lhe eram devidos. Jesus anuncia que a “vinha” vai ser-lhes retirada e vai ser confiada a trabalhadores que produzam e que entreguem a Deus os frutos que Ele espera.

Na segunda leitura, Paulo exorta os cristãos da cidade grega de Filipos – e todos os que fazem parte da “vinha de Deus” – a viverem na alegria e na serenidade, respeitando o que é verdadeiro, nobre, justo e digno. São esses os frutos que Deus espera da sua “vinha”.

 

 

LEITURA I – Is 5,1-7

Leitura do Livro de Isaías

Vou cantar, em nome do meu amigo,
um cântico de amor à sua vinha.
O meu amigo possuía uma vinha numa fértil colina.
Lavrou-a e limpou-a das pedras,
plantou-a de cepas escolhidas.
No meio dela ergueu uma torre e escavou um lagar.
Esperava que viesse a dar uvas,
Mas ela só produziu agraços.
E agora, habitantes de Jerusalém, e vós, homens de Judá,
sede juízes entre mim e a minha vinha:
Que mais podia fazer à minha vinha que não tivesse feito?
Quando eu esperava que viesse a dar uvas,
porque é que apenas produziu agraços?
Agora vos direi o que vou fazer à minha vinha:
vou tirar-lhe a vedação e será devastada;
vou demolir-lhe o muro e será espezinhada.
Farei dela um terreno deserto:
não voltará a ser podada nem cavada,
e nela crescerão silvas e espinheiros;
e hei-de mandar às nuvens
que sobre ela não deixem cair chuva.
A vinha do Senhor do Universo é a casa de Israel,
e os homens de Judá são a plantação escolhida.
Ele esperava rectidão e só há sangue derramado;
esperava justiça e só há gritos de horror.

AMBIENTE

Isaías, filho de Amós, exerceu o seu ministério profético em Jerusalém, no reino de Judá, durante a segunda metade do séc. VIII a.C. (de acordo com os seus oráculos, o profeta foi chamado por Deus ao ministério profético por volta de 740-739 a.C.; e os seus oráculos vão até perto de 700 a.C.). A sua pregação abarca, portanto, um arco de tempo relativamente longo e abrange vários reinados.

Isaías – como os outros profetas – não fala de realidades abstractas e intangíveis. A sua pregação refere-se a acontecimentos concretos e toca a realidade da vida, dos problemas, das inquietações, das esperanças dos homens do seu tempo. Para perceber a sua mensagem temos, portanto, de situá-la na época e na realidade histórica que o profeta conhece e sobre a qual é chamado por Deus a pronunciar-se.

A primeira fase do ministério de Isaías desenrola-se durante o reinado de Jotam (740-734 a.C.). É uma época de relativa tranquilidade política, em que Judá se mantém afastado da cena internacional e das jogadas políticas das super-potências. Tudo parece correr bem, num clima de paz generalizada.

No entanto, o olhar crítico do profeta detecta uma realidade distinta. Internamente, a sociedade de Judá está marcada por grandes injustiças e arbitrariedades… Os poderosos exploram os mais débeis, os juízes deixam-se corromper, os latifundiários deixam-se dominar pela cobiça e inventam esquemas legais para se apropriar dos bens dos mais pobres, os governantes oprimem os súbditos, as senhoras finas de Jerusalém vivem no luxo e na futilidade, num desrespeito absoluto pelas necessidades e carências dos mais pobres.

Em termos religiosos, o culto floresce numa abundância inaudita de práticas de piedade e de abundantes e solenes manifestações religiosas; no entanto, todo esse fausto cultual é incoerente e mentiroso, pois não resulta de uma verdadeira adesão a Jahwéh, mas de uma tentativa de acalmar as consciências e de “comprar” Deus.
Para o profeta, Jerusalém deixou de ser a esposa fiel, para converter-se numa prostituta (cf. Is 1,21-26); ou, dito de outra forma, a “vinha” cuidada por Deus só produz frutos amargos e não os frutos bons (de justiça e de amor) pedidos a quem vive envolvido no ambiente da Aliança.
A mensagem de Isaías neste período encontra-se nos capítulos 1-5 do seu livro. O texto que hoje nos é proposto é um dos textos mais emblemáticos deste período.
O “cântico da vinha” poderia ser, inicialmente, um “cântico de vindima” ou um “cântico de trabalho”, que um poeta popular entoa diante do seu círculo de amigos ou de companheiros de trabalho. Mas, como acontece tantas vezes com as formas de expressão da cultura popular, rapidamente as palavras adquirem um duplo sentido e passam a evocar outra realidade.

Na cultura judaica, a “vinha” é um símbolo do amor (cf. Cant 1,6.14; 2,15; 8,12). O “cântico da vinha” passa então a ser, na boca do poeta popular, uma “cantiga de amor”, que descreve os esforços do jovem apaixonado para conquistar a sua amada.
Isaías vai utilizar esta “cantiga de amor” como recurso para transmitir a mensagem que Deus lhe confiou.

MENSAGEM

A canção que o profeta canta é bonita e o tema é sugestivo. O profeta/poeta brinca com as sonoridades e com o ritmo, alterna os sons doces das canções de amor com os sons ásperos das canções de trabalho. Os interlocutores do profeta/poeta estão atentos e fascinados e escutam com prazer a descrição das quase patéticas tentativas do poeta para conquistar a sua amada. Ouvem-no falar dos seus trabalhos para construir a sua vinha, dos seus cuidados com ela, das suas ilusões, dos seus sonhos; sorriem perante as alusões ao “lagar” (o lugar onde será feito o vinho do amor) e à torre (de onde o amado vigiará, para que ninguém entre na sua “vinha” e colha os frutos do seu amor). Aprovam quando ele, depois de tantos cuidados, fica à espera dos “frutos saborosos” do amor que cultivou. Ficam revoltados quando, depois de todo o empenho do amado, a “vinha” só lhe ofereceu frutos azedos. O auditório simpatiza com o poeta, identifica-se com ele, partilha a sua desilusão…

De repente, o poeta transforma o cântico em queixa e reclama justiça. Interpela directamente os seus interlocutores e exige deles um veredicto. Tem o público na mão: todos concordam que o profeta/poeta tem razão e que tem todo o direito em tirar a vedação que protegia a vinha, em não voltar a cuidar dela, em dar ordens às nuvens para que não a fecundem com a chuva…

Quando o seu público já pronunciou mentalmente um veredicto favorável ao profeta/poeta, este lança-lhe à cara a acusação que vinha preparando: “a vinha do Senhor do universo é a casa de Israel e os homens de Judá são a plantação escolhida. Ele esperava rectidão e só há sangue derramado; esperava justiça e só há gritos de horror” (vers. 7).

A imagem da “vinha” aplicada ao Povo de Deus encontra-se frequentemente na Bíblia (cf. Is 3,14; 27,2-5; Jer 2,21; 12,10; Ez 17,6; Os 10,1; Sal 80,9-17). Os profetas e catequistas de Israel viram na imagem da “vinha” um símbolo privilegiado para expressar essa história de amor que Deus quis escrever com o seu Povo, isto é, a Aliança.

Nesta “parábola”, Deus é o “vinhateiro” e Israel é a “vinha”. Foi Deus quem trouxe de longe (do Egipto) essas videiras escolhidas, que as plantou numa terra fértil (a terra de Canaan), que removeu dessa terra as pedras (os outros povos que aí habitavam) que podiam estorvar a fecundidade da “vinha”, que cuidou e, sobretudo, que amou a sua “vinha”.

Como é que Israel respondeu aos esforços de Deus? Que frutos produziu a “vinha” de Jahwéh? O profeta/poeta responde: Deus esperava que Israel vivesse no direito e na justiça (“mishpat” e “zedaqa”) cumprindo fielmente as exigências da Aliança; esperava uma vida de coerência com os mandamentos; esperava que Israel respeitasse os direitos dos mais débeis… Na realidade, o Povo actua em sentido exactamente contrário àquilo que Deus esperava: os poderosos cometem injustiças e arbitrariedades, os juízes são corruptos e não fazem justiça ao pobre, os grandes praticam violências e derramam o sangue do inocente, os órfãos e as viúvas vêem espezinhados os seus direitos sem que ninguém os defenda.

Na verdade, sugere o profeta, Deus não pode pactuar com este esquema e prepara-Se para abandonar essa “vinha” ingrata, essa amada infiel.

Atente-se nesta “lição” fundamental: o amor de Deus pretende criar no coração do seu Povo uma dinâmica que leve ao amor ao irmão. Deus ama-nos, para que nos deixemos transformar pelo amor e amemos os outros.

ACTUALIZAÇÃO

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

• A “parábola da vinha” é uma história de amor. Fala-nos do amor de um Deus que liberta o seu Povo da escravidão, que o conduz para a liberdade, que estabelece com ele laços de família, que lhe oferece indicações seguras para caminhar em direcção à justiça, à harmonia, à felicidade, que o protege nos caminhos da história… É preciso termos consciência de que esta história de amor não terminou e que o mesmo Deus continua a derramar sobre nós, todos os dias, o seu amor, a sua bondade, a sua misericórdia. Tenho consciência desse facto? Tenho o coração aberto aos seus dons? Encontro tempo e disponibilidade para Lhe agradecer e para O louvar?

• O encontro com o amor de Deus tem de significar uma efectiva transformação do nosso coração e tem de nos levar ao amor ao irmão. Quem trata os irmãos com arrogância, quem assume atitudes duras, agressivas e intolerantes, quem pratica a injustiça e espezinha os direitos dos mais débeis, quem é insensível aos dramas dos irmãos, certamente ainda não fez a experiência do amor de Deus. Às vezes encontramos nas nossas comunidades cristãs ou religiosas pessoas muito válidas do ponto de vista da organização e da animação, que se consideram a si próprias colunas da comunidade, que têm uma fé inabalável, mas que são insensíveis, amargas, agressivas, intolerantes… Será possível ser sinal de Deus e testemunhar o Deus que ama os homens, sem nos deixarmos conduzir pela tolerância, pela misericórdia, pela bondade, pela compreensão?

• O nosso texto identifica os “frutos bons” que Deus espera da sua “vinha” com o direito e a justiça e afirma que Deus não tolera uma “vinha” que produza “sangue derramado” e “gritos de horror”. Nos nossos dias, o “sangue derramado” das vítimas da violência, do terrorismo, das guerras religiosas, dos sistemas que geram morte e sofrimento continua a tingir a nossa história; os “gritos de horror” de tantos homens e mulheres privados dos direitos mais elementares, torturados, marginalizados, excluídos, impedidos de ter acesso a uma vida minimamente humana, continuam a escutar-se na Europa, na Ásia, na África, nas Américas… Qual o nosso papel, no meio de tudo isto? Podemos calar-nos, num silêncio cúmplice e alienado, diante do drama de tantos irmãos condenados à morte? O que podemos fazer para que a “vinha” de Deus produza outros frutos?

 

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 79 (80)

Refrão: A vinha do Senhor é a casa de Israel.

Arrancastes uma videira do Egipto,
expulsastes as nações para a transplantar.
Estendia até ao mar as suas vergônteas
e até ao rio os seus rebentos.

Porque lhe destruístes a vedação,
de modo que a vindime quem quer que passe pelo caminho?
Devastou-a o javali da selva
e serviu de pasto aos animais do campo.

Deus dos Exércitos, vinde de novo,
olhai dos céus e vede, visitai esta vinha.
Protegei a cepa que a vossa mão direita plantou,
o rebento que fortalecestes para Vós.

Não mais nos apartaremos de Vós:
fazei-nos viver e invocaremos o vosso nome.
Senhor, Deus dos Exércitos, fazei-nos voltar,
iluminai o vosso rosto e seremos salvos.

 

 

LEITURA II – Filip 4,6-9

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses

Irmãos:
Não vos inquieteis com coisa alguma.
Mas, em todas as circunstâncias,
apresentai os vossos pedidos diante de Deus,
com orações, súplicas e acções de graças.
E a paz de Deus, que está acima de toda a inteligência,
guardará os vossos corações
e os vossos pensamentos em Cristo Jesus.
Quanto ao resto, irmãos,
tudo o que é verdadeiro e nobre,
tudo o que é justo e puro,
tudo o que é amável e de boa reputação,
tudo o que é virtude e digno de louvor
é o que deveis ter no pensamento.
O que aprendestes, recebestes, ouvi
stes e vistes em mim
é o que deveis praticar.
E o Deus da paz estará convosco.

AMBIENTE

Continuamos a ler a carta enviada pelo apóstolo Paulo aos cristãos da cidade grega de Filipos. Quando escreve aos seus amigos filipenses, Paulo está na prisão (em Éfeso?), sem saber o que o futuro imediato lhe reserva. Entretanto, recebeu ajuda dos filipenses (uma soma em dinheiro e a visita de Epafrodito, um membro da comunidade, encarregado pelos filipenses de cuidar de Paulo e de prover às suas necessidades) e está sensibilizado pela bondade e pela preocupação que os filipenses manifestam para com a sua pessoa.

A Carta aos Filipenses é, sobretudo, uma carta dirigida a amigos muito queridos, na qual Paulo manifesta o seu apreço por essa comunidade que o ama, que o ajuda e que se preocupa com ele. Enviando de volta Epafrodito – que estivera gravemente doente – Paulo agradece, dá notícias, informa a comunidade sobre a sua própria sorte e exorta os filipenses à fidelidade ao Evangelho.

O texto que hoje nos é proposto pertence à parte final da carta. Apresenta um conjunto de recomendações, destinadas a recordar aos filipenses algumas obrigações que resultam do seu compromisso com Cristo e com o Evangelho.

MENSAGEM

Os primeiros dois versículos do nosso texto (vers. 6-7) fazem parte de uma passagem mais longa, na qual Paulo recomenda aos cristãos de Filipos que vivam na alegria (vers. 4-7). Esta “alegria” não tem nada a ver com gargalhadas histéricas ou com optimismos inconscientes; mas é a “alegria” que resulta de uma vida de comunhão com o Senhor, com tudo o que isso significa em termos de garantia de vida verdadeira e eterna. O cristão vive na alegria, pois a comunhão com Cristo garante-lhe o acesso próximo (“o Senhor está próximo”) à vida definitiva. Daí resulta a serenidade, a paz, a tranquilidade, que permitem ao crente enfrentar a vida sem medo e sentir-se seguro nos braços amorosos de Deus Pai (vers. 6a). Ao crente resta cultivar a comunhão com Deus, entregando-Lhe diariamente a sua vida “com orações, súplicas e acções de graças” (vers. 6b).

Depois (vers. 8), Paulo recomenda aos filipenses um conjunto de seis “qualidades” que eles devem cultivar e apreciar: a verdade, a nobreza, a justiça, a pureza, a amabilidade e a boa reputação. Tudo isto é “virtude”, tudo isto é digno de louvor. Há quem veja neste versículo a “magna carta do humanismo cristão”. Estes valores não são exclusivos do cristianismo: são valores sãos e louváveis, que constam também do ideal pagão (eram valores igualmente propostos pelos moralistas gregos da época). No entanto, a comunidade cristã deve estar aberta ao acolhimento de todos os verdadeiros valores humanos. Os cristãos devem ser, antes de mais, arautos e testemunhas dos verdadeiros valores humanos.

Finalmente, Paulo convida os filipenses a porem em prática estas recomendações segundo o exemplo que receberam do próprio Paulo (vers. 9). O cristão tem de viver os valores humanos em confronto constante com o Evangelho e na fidelidade ao Evangelho.

ACTUALIZAÇÃO

Considerar na reflexão e actualização, as seguintes linhas:

• As palavras de Paulo aos filipenses definem alguns dos elementos concretos que devem marcar a caminhada do Povo de Deus. Em primeiro lugar, Paulo convida os crentes a não viverem inquietos e preocupados. Os cristãos estão “enxertados” em Cristo e têm a garantia de com Ele ressuscitar para a vida definitiva. Eles sabem que as dificuldades, os dramas, as perseguições, as incompreensões são apenas acidentes de percurso, que não conseguirão arredá-los da vida verdadeira. Os cristãos não são pessoas fracassadas, alienadas, falhadas, mas pessoas com um objectivo final bem definido e bem sugestivo. O caminho de Cristo é um caminho de dom e de entrega da vida; mas não é um caminho de tristeza e de frustração. Porquê, então, a tristeza, a inquietação, o desânimo com que, tantas vezes, enfrentamos as vicissitudes e as dificuldades da nossa caminhada? Porque é que, tantas vezes, saímos das nossas celebrações eucarísticas cabisbaixos, intranquilos, de semblantes tristonhos e ar irritado? Os irmãos que nos rodeiam e que nos olham nos olhos recebem de nós um testemunho de paz, de serenidade, de tranquilidade?

• Em segundo lugar, Paulo convida os crentes a terem em conta, na sua vida, esses valores humanos que todos os homens apreciam e amam: a verdade, a justiça, a honradez, a amabilidade, a tolerância, a integridade… Um cristão tem de ser, antes de mais, uma pessoa íntegra, verdadeira, leal, honesta, responsável, coerente. Ouvimos, algumas vezes, dizer que “os que vão à igreja são piores do que os outros”. Em parte, a expressão serve, sobretudo, a muitos dos chamados “cristãos não praticantes” para justificar o facto de não irem à igreja; mas não traduzirá, algumas vezes, o mau testemunho que alguns cristãos dão quanto à vivência dos valores humanos? Quem contacta as recepções das nossas igrejas, encontra sempre simpatia, compreensão, amabilidade, verdade, coerência?

• A forma como Paulo propõe aos seus cristãos os mesmos valores que constavam das listas de valores dos moralistas gregos da sua época, deve convidar-nos a reflectir sobre a nossa relação com os valores do mundo que nos rodeia e sobre a forma como os aceitamos e integramos na nossa vida. Não podemos esconder-nos atrás da nossa muralha fortificada e rejeitar, em bloco, tudo aquilo que o mundo de hoje nos proporciona, como se fosse algo de mau e pecaminoso. O mundo em que vivemos tem valores muito bonitos e sugestivos, que nos ajudam a crescer de uma forma sã e equilibrada e a integrar uma realidade rica em desafios e esperanças. O que é necessário é saber discernir, de entre todos os valores que o mundo nos apresenta, aquilo que nos torna mais livres e mais felizes e aquilo que nos torna mais escravos e infelizes, aquilo que não belisca a nossa fé e aquilo que ameaça a essência do Evangelho…

 

 

ALELUIA – cf. Jo 15,16

Aleluia. Aleluia.

Eu Vos escolhi do mundo, para que vades e deis fruto,
e o vosso fruto permaneça, diz o Senhor.

 

 

EVANGELHO – Mt 21,33-43

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo:
«Ouvi outra parábola:
Havia um proprietário que plantou uma vinha,
cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar
e levantou uma torre;
depois, arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe.
Quando chegou a época das colheitas,
mandou os seus servos aos vinhateiros para receber os frutos.
Os vinhateiros, porém, lançando mão dos servos,
espancaram um, mataram outro, e a outro apedrejaram-no.
Tornou ele a mandar outros servos,
em maior número que
os primeiros.
E eles trataram-nos do mesmo modo.
Por fim, mandou-lhes o seu próprio filho, dizendo:
‘Respeitarão o meu filho’.
Mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si:
‘Este é o herdeiro;
matemo-lo e ficaremos com a sua herança’.
E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no.
Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?».
Eles responderam:
«Mandará matar sem piedade esses malvados
e arrendará a vinha a outros vinhateiros,
que lhe entreguem os frutos a seu tempo».
Disse-lhes Jesus: «Nunca lestes na Escritura:
‘A pedra que os construtores rejeitaram
tornou-se a pedra angular;
tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos’?
Por isso vos digo:
Ser-vos-á tirado o reino de Deus
e dado a um povo que produza os seus frutos».

AMBIENTE

Estamos em Jerusalém, pouco tempo após a entrada triunfal de Jesus na cidade (cf. Mt 21,1-11). De hora para hora, cresce a tensão entre Jesus e os seus adversários. Os líderes judaicos pressionam Jesus, num esquema que apresenta foros de processo organizado. Adivinha-se, no horizonte próximo de Jesus, a prisão, o julgamento, a condenação à morte. Jesus está plenamente consciente do destino que lhe está reservado, mas enfrenta os dirigentes e condena implacavelmente a sua recusa em acolher o Reino.

O texto que nos é proposto faz parte de um bloco de três parábolas (cf. Mt 21,28-32. 33-43; 22,1-14), destinadas a ilustrar a recusa de Israel em aceitar o projecto de salvação que Deus oferece aos homens através de Jesus. Com elas, Jesus convida os seus opositores – os líderes religiosos judaicos – a reconhecerem que se fecharam num esquema de auto-suficiência, de orgulho, de arrogância, de preconceitos, que não os deixa abrir o coração e a vida aos desafios de Deus. O nosso texto é a segunda dessas três parábolas.

A história que nos vai ser narrada compreende-se melhor à luz da situação sócio-económica da Galileia do tempo de Jesus… A terra estava, quase sempre, nas mãos de grandes latifundiários que viviam nas cidades. Esses latifundiários utilizavam vários sistemas para a exploração das suas terras; mas uma das formas preferidas de exploração da terra (precisamente porque, para o latifundiário não implicava muito trabalho) consistia em arrendar as várias parcelas do latifúndio, em troca de uma parte substancial dos produtos recolhidos. Os que arrendavam as terras eram, geralmente, camponeses que tinham perdido as suas próprias terras devido à pressão fiscal ou às más colheitas. Estes camponeses viviam numa situação periclitante: depois de descontados os gastos com a exploração, os impostos pagos e a parte que pertencia ao latifundiário, mal ficavam com o indispensável para se sustentar a si e à sua família. Em anos agrícolas maus, este esquema significava a miséria absoluta… Este quadro provocava conflitos sociais frequentes e o aparecimento de movimentos campesinos que lutavam contra os latifundiários ou contra a carga excessiva de impostos.

É neste cenário que Jesus vai colocar a parábola que hoje nos apresenta.

MENSAGEM

A parábola contada por Jesus coloca-nos no mesmo ponto de partida da parábola da “vinha” de Is 5,1-7: um “senhor” plantou uma “vinha”, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e levantou uma torre.

A partir daqui, no entanto, a parábola de Jesus afasta-se um pouco da parábola de Isaías… Na versão de Jesus, o proprietário não explorou directamente a “vinha”, mas confiou-a a uns “vinhateiros” que deviam dar-lhe, cada ano, uma determinada percentagem dos frutos produzidos. No entanto, quando os “servos” do “senhor” apareceram para recolher a parte que pertencia ao seu amo, foram maltratados e assassinados pelos “vinhateiros”; e o próprio filho do dono da “vinha”, enviado pelo pai para chamar os “vinhateiros” à responsabilidade e ao respeito pelos compromissos, foi assassinado.

A “vinha” de que Jesus aqui fala é Israel – o Povo de Deus. O dono da “vinha” é Deus. Os “vinhateiros” são os líderes religiosos judaicos – os encarregados de trabalhar a “vinha” e de fazer com que ela produzisse frutos. Os “servos” enviados pelo “senhor” são, evidentemente, os profetas que os líderes da nação, tantas vezes, perseguiram, apedrejaram e mataram. O “filho” morto “fora da vinha” é Jesus, assassinado fora dos muros de Jerusalém.

É um quadro de uma gravidade extrema. Os “vinhateiros” não só não entregaram ao “senhor” os frutos que lhe deviam, mas fecharam todos os caminhos de diálogo e recusaram todas as possibilidades de encontro e de entendimento com o “senhor”: maltrataram e apedrejaram os servos enviados pelo “senhor” e assassinaram-lhe o filho.

Diante deste quadro, Jesus interpela directamente os seus ouvintes: “quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?”

A comunidade cristã primitiva encontrou facilmente resposta para esta questão. Na perspectiva dos primeiros catequistas cristãos, a resposta de Deus à recusa de Israel foi dada em dois movimentos. Em primeiro lugar, Deus ressuscitou o “filho” que os “vinhateiros” mataram, glorificou-o e constituiu-o “pedra angular” de uma nova construção; em segundo lugar, Deus decidiu retirar a “vinha” das mãos desses “vinhateiros” maus e ingratos e confiá-la a outros “vinhateiros” – a um povo que fizesse a “vinha” produzir bons frutos e que entregasse ao “senhor” os frutos a que ele tem direito.

Entretanto, a Mateus não interessa tanto a questão do filho – ressuscitado, exaltado e colocado como pedra angular da nova construção – quanto a questão da entrega da “vinha” a um outro povo. Ao sublinhar este aspecto, Mateus tem em vista uma dupla finalidade…

Em primeiro lugar, ele explica dessa forma porque é que, na maioria das comunidades cristãs, os judeus – os primeiros trabalhadores da “vinha” de Deus – eram uma minoria: eles recusaram-se a oferecer frutos bons ao “senhor” da “vinha” e recusaram sempre as tentativas do “senhor” no sentido de uma aproximação e de um compromisso. Logicamente, o “senhor” escolheu outros “vinhateiros”. O que é decisivo, para a escolha de Deus, não é que os novos trabalhadores da “vinha” sejam judeus ou não judeus; o que é decisivo é que eles estejam dispostos a oferecer ao “senhor” os frutos que lhe são devidos e a acolher o “filho” que o “senhor” enviou ao seu encontro.
Em segundo lugar, Mateus exorta a sua comunidade a produzir frutos verdadeiros que agradem ao “senhor” da “vinha”. Estamos no final do séc. I (década de 80); passou já o entusiasmo inicial e os crentes da comunidade de Mateus instalaram-se num cristianismo fácil, sem exigência, descomprometido, instalado. O catequista Mateus aproveita a oportunidade para exortar os irmãos da comunidade a que despertem, a que saiam do comodismo, a que se empenhem, a que dêem frutos próprios do Reino, a que vivam com radicalidade as propostas de Jesus.

ACTUALIZAÇÃO

Na reflexão, ter em conta as seguintes questões:

• O problema fundamental posto por este texto é o da coerência com que vivemos o nosso compromisso com Deus e com o Reino. Deus não obriga ninguém a aceitar a sua proposta de salvação e a envolver-se com o Reino; mas uma vez que aceitamos trabalhar na sua “vinha”, temos de produzir frutos de amor, de serviço, de doação, de justiça, de paz, de tolerância, de partilha… O nosso Deus não está disposto a pactuar com situações dúbias, descaracterizadas, amorfas, incoerentes, mentirosas; mas exige coerência, verdade e compromisso. A parábola convida-nos, antes de mais, a não nos deixarmos cair em esquemas de comodismo, de instalação, de facilidade, de “deixa andar”, mas a levarmos a sério o nosso compromisso com Deus e com o Reino e a darmos frutos consequentes. O meu compromisso com o Reino é sincero e empenhado? Quais são os frutos que eu produzo? Quando se trata de fazer opções, ganha o meu comodismo e instalação, ou a minha vontade de servir a construção do Reino?

• O que é que é decisivo para definir a pertença de alguém ao Reino? É ter uma “tradição familiar” cristã? É o ter entrado, por um acto formal (Baptismo) na Igreja? É o ter feito votos de pobreza, castidade e obediência numa determinada congregação religiosa? É o cumprir determinados actos de piedade? É o participar nos ritos? Nada disso é decisivo. O que é decisivo é o “produzir frutos” de amor e de justiça, que pomos ao serviço de Deus e dos nossos irmãos. Como é que eu entendo e vivo a minha caminhada de fé?

• A parábola fala de trabalhadores da “vinha” de Deus que rejeitam o “filho” de forma absoluta e radical. É provável que nenhum de nós, por um acto de vontade consciente, se coloque numa atitude semelhante e rejeite Jesus. No entanto, prescindir dos valores de Jesus e deixar que sejam o egoísmo, o comodismo, o orgulho, a arrogância, o dinheiro, o poder, a fama, a condicionar as nossas opções é, na mesma, rejeitar Jesus, colocá-l’O à margem da nossa existência. Como é que, no dia a dia, acolhemos e inserimos na nossa vida os valores de Jesus? As propostas de Jesus são, para nós, valores consistentes, que procuramos integrar na nossa existência e que servem de alicerce à construção da nossa vida, ou são valores dos quais nos descartamos com facilidade, sob pressão de interesses egoístas e comodistas?

• As nossas comunidades cristãs e religiosas são constituídas por homens e mulheres que se comprometeram com o Reino e que trabalham na “vinha” do Senhor. Deviam, portanto, produzir frutos bons e testemunhar diante do mundo, em gestos de amor, de acolhimento, de compreensão, de misericórdia, de partilha, de serviço, a realidade do Reino que Jesus Cristo veio propor. É isso que acontece, ou limitamo-nos a ter muitos grupos paroquiais, a preparar organigramas impressionantes da dinâmica comunitária, a construir espaços físicos amplos e confortáveis, a recitar a liturgia das horas, a produzir liturgias solenes, faustosas, imponentes… e completamente desligadas da vida?

Dehonianos

 

 

 

PELOS FRUTOS OS CONHECEREIS

 

1. O soberbo cântico de Isaías 5,1-7 dá o tom e o aroma da vinha e do amor a este Domingo XXVII do Tempo Comum. O Senhor da vinha e do amor, que é Deus, tratou com infinito desvelo a sua vinha, que é o seu povo, o povo de Israel e de Judá, e somos nós, como se pode ver neste belo «cântico da vinha» de Isaías 5,7: plantou-a numa colina solarenga com castas selecionadas, cavou-a, limpou-a, amou-a, fê-la crescer ao ritmo de música de embalar. Todavia, a vinha assim amada e acariciada produziu agraços, em vez de uvas doces e saborosas. O Cântico di-lo numa extraordinária aliteração hebraica: «Deus esperavamishpath [= rectidão],/ e eis mispah [= sangue derramado];/ tsedaqah[= justiça],/ e eis tseʽaqah [= gritos de socorro]» (Isaías 5,7). Depois de uma lírica serena e tranquila, eis-nos agora perante o lamento de um camponês desiludido, de um amante traído, de um amor dorido, não correspondido.

2. O mesmo canto, ao mesmo tempo dorido e belo, atravessa o Salmo 80,9-17, que canta a videira, e conta a história da videira, que simboliza Israel. Contando a história desta videira, o poeta está, na verdade, a fazer uma autobiografia de Israel. Estava plantada no Egito, de onde Deus a retirou para a transplantar para outra terra (v. 9). Aí lançou raízes, cresceu e atingiu tais dimensões que a sua folhagem verde cobria todo o mapa de Israel (v. 11 e 12). Mas também aí conheceu o abandono e foi devastada pelo javali, símbolo de impureza pela sua semelhança com o porco. Se, em Isaías 5,1-7, era Deus que se queixava da sua vinha que já não respondia ao amor primeiro de Deus, agora é a vinha que se sente abandonada, e chora o estado de desolação em que se encontra, mas entrecorta o seu lamento com um belo refrão, pedindo a Deus que se levante e volte atrás, que lhe faça graça e a salve (v. 4.8.15.20).

3. O Evangelho deste Domingo XXVII é retirado de Mateus 21,33-43, e começa por descrever os gestos de amor embevecido de DEUS pela sua vinha, seguindo de perto o cântico da vinha, de Isaías 5,1-7. Mas depois continua de forma incisiva, introduzindo novas personagens: os VINHATEIROS violentos e assassinos são os chefes religiosos e civis (chefes dos sacerdotes e anciãos do povo, ou chefes dos sacerdotes e fariseus), dado que estas parábolas são dirigidas a eles (Mateus 21,23), e são eles que, no final, reagem (Mateus 21,45). Os SERVOS sucessivamente enviados por DEUS e maltratados pelos homens são os profetas, todos assassinados, segundo o módulo narrativo mais breve de toda a Escritura (Lucas 11,50-51; cf. Mateus 23,34-35). O FILHO, que é o último enviado, e que é igualmente morto pelos VINHATEIROS, salta à vista que é JESUS, prolepse do que está para acontecer.

4. Os VINHATEIROS são, neste ponto da parábola, apanhados na pergunta sem saída de JESUS: «Quando vier o dono da vinha, que fará com esses VINHATEIROS?» (Mateus 21,40). Eles respondem fácil e directo, ao jeito de David, quando ouve a história da ovelhinha do pobre comida à mesa do rico (2 Samuel 12,5-6): «Mandará matar sem piedade esses malvados, e arrendará a vinha a OUTROS VINHATEIROS, que lhe entreguem os frutos a seu tempo» (Mateus 21,41).

5. E Jesus remata com uma citação do Salmo 118,22: «A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular» (Mateus 21,42). E ainda: «O Reino de Deus ser-VOS-á tirado, e confiado a UM POVO que produza os seus frutos» (Mateus 21,43). Nesta altura, diz-nos o narrador, que «os chefes dos sacerdotes e os fariseus, ouvindo estas parábolas, perceberam que JESUS se referia a eles, e procuravam prendê-lo…» (Mateus 21,45-46).

6. Claramente, os chefes dos sacerdotes e os fariseus são alinhados ao lado dos VINHATEIROS violentos e assassinos, mas já surge no horizonte OUTRO POVO e OUTROS VINHATEIROS, à imagem do último Profeta e dele verdadeira transparência. Não nos esqueçamos de que é este o nosso retrato. Saibamos fazê-lo frutificar.

7. Esta Parábola faz passar diante de nós a inteira história da salvação, mostra-nos o amor permanente e persistente de Deus, e faz-nos ver também a qualidade do amor da resposta que somos hoje chamados a dar.

8. E somos seguramente chamados a tornar a vinha de Deus uma maravilha deliciosa e apetitosa, jovem, leve e bela. Mais ou menos como canta um apócrifo de origem judeo-cristã, de finais do séc. I ou princípios do II d. C., o Apocalipse Siríaco de Baruc: «A terra dará fruto, dez mil por um. Cada videira terá mil ramos, cada ramo mil cachos, cada cacho mil bagos, cada bago centenas de litros de vinho!».

9. Outra vez Paulo e as palavras de antologia que nos dirige na Carta aos Filipenses 4,6-9, que hoje temos a graça de escutar: «Tudo o que é verdadeiro e nobre, tudo o que é justo e puro, tudo o que é amável e de boa reputação, tudo o que é virtude e digno de louvor é o que deveis ter no pensamento» (Filipenses 4,8). E coloca-se como modelo a imitar: «O que aprendestes, recebestes e vistes em mim, isso fazei» (Filipenses 4,9). Já se sabe que por detrás de Paulo está Cristo, que é a sua vida (cf. 1 Cor 11,1).

António Couto

 

O Canto na Liturgia

Antífona de Entrada

Senhor Deus omnipotente – F. Lapa (BML 143-144)

Levanto os meus olhos para os montes – J. Santos (NRMS 70)

 

Salmo Responsorial

A vinha do Senhor é a casa de Israel (sl 79) –  M. Luís

 

Antífona da Comunhão

Formamos um só corpo  C. Silva

Porque todos comemos – C. Silva

Comemos, ó Senhor, do mesmo pão – M. Borda

O Pão que vem do céu – T. Sousa

Quem come a minha carne – F. Santos

Quem come a minha carne – C. Silva

Quem come a minha carne – M. Simões

Quem come a minha carne – J. A. Nunes

Quem come a minha carne – M. Carneiro

Domingo XXVI do Tempo Comum – Ano A

Tema do 26º Domingo do Tempo Comum

 

 

A liturgia do 26º Domingo do Tempo Comum deixa claro que Deus chama todos os homens e mulheres a empenhar-se na construção desse mundo novo de justiça e de paz que Deus sonhou e que quer propor a todos os homens. Diante da proposta de Deus, nós podemos assumir duas atitudes: ou dizer “sim” a Deus e colaborar com Ele, ou escolher caminhos de egoísmo, de comodismo, de isolamento e demitirmo-nos do compromisso que Deus nos pede. A Palavra de Deus exorta-nos a um compromisso sério e coerente com Deus – um compromisso que signifique um empenho real e exigente na construção de um mundo novo, de justiça, de fraternidade, de paz.

Na primeira leitura, o profeta Ezequiel convida os israelitas exilados na Babilónia a comprometerem-se de forma séria e consequente com Deus, sem rodeios, sem evasivas, sem subterfúgios. Cada crente deve tomar consciência das consequências do seu compromisso com Deus e viver, com coerência, as implicações práticas da sua adesão a Jahwéh e à Aliança.

O Evangelho diz como se concretiza o compromisso do crente com Deus… O “sim” que Deus nos pede não é uma declaração teórica de boas intenções, sem implicações práticas; mas é um compromisso firme, coerente, sério e exigente com o Reino, com os seus valores, com o seguimento de Jesus Cristo. O verdadeiro crente não é aquele que “dá boa impressão”, que finge respeitar as regras e que tem um comportamento irrepreensível do ponto de vista das convenções sociais; mas é aquele que cumpre na realidade da vida a vontade de Deus.

A segunda leitura apresenta aos cristãos de Filipos (e aos cristãos de todos os tempos e lugares) o exemplo de Cristo: apesar de ser Filho de Deus, Cristo não afirmou com arrogância e orgulho a sua condição divina, mas assumiu a realidade da fragilidade humana, fazendo-se servidor dos homens para nos ensinar a suprema lição do amor, do serviço, da entrega total da vida por amor. Os cristãos são chamados por Deus a seguir Jesus e a viver do mesmo jeito, na entrega total ao Pai e aos seus projectos.

 

LEITURA I – Ez 18,25-28

Leitura da Profecia de Ezequiel

Eis o que diz o Senhor:
«Vós dizeis: ‘A maneira de proceder do Senhor não é justa’.
Escutai, casa de Israel:
Será a minha maneira de proceder que não é justa?
Não será antes o vosso modo de proceder que é injusto?
Quando o justo se afastar da justiça,
praticar o mal o vier a morrer,
morrerá por causa do mal cometido.
Quando o pecador se afastar do mal que tiver realizado,
praticar o direito e a justiça,
salvará a sua vida.
Se abris os seus olhos e renunciar às faltas que tiver cometido,
há-de viver e não morrerá».

AMBIENTE

Ezequiel, o “profeta da esperança”, exerceu o seu ministério na Babilónia no meio dos exilados judeus. O profeta fez parte dessa primeira leva de exilados que, em 597 a.C., Nabucodonosor deportou para a Babilónia.

A primeira fase do ministério de Ezequiel decorreu entre 593 a.C. (data do seu chamamento à vocação profética) e 586 a.C. (data em que Jerusalém foi conquistada uma segunda vez pelos exércitos de Nabucodonosor e uma nova leva de exilados foi encaminhada para a Babilónia). Nesta fase, o profeta preocupou-se em destruir as falsas esperanças dos exilados (convencidos de que o exílio terminaria em breve e que iam poder regressar rapidamente à sua terra) e em denunciar a multiplicação das infidelidades a Jahwéh por parte desses membros do Povo judeu que escaparam ao primeiro exílio e que ficaram em Jerusalém.

A segunda fase do ministério de Ezequiel desenrolou-se a partir de 586 a.C. e prolongou-se até cerca de 570 a.C. Instalados numa terra estrangeira, privados de Templo, de sacerdócio e de culto, os exilados estavam desiludidos e duvidavam de Jahwéh e do compromisso que Deus tinha assumido com o seu Povo. Nessa fase, Ezequiel procurou alimentar a esperança dos exilados e transmitir ao Povo a certeza de que o Deus salvador e libertador não tinha abandonado nem esquecido o seu Povo.

Até esta altura, Israel reflectia a sua relação com Deus em termos colectivos e não em termos individuais. A catequese de Israel considerava que a Aliança tinha sido feita, não com cada israelita individualmente, mas com toda a comunidade. Assim, as infidelidades de uns (inclusive dos antepassados) traziam sofrimento e morte a toda a comunidade; e a fidelidade de outros (inclusive dos antepassados) era fonte de vida e de bênção para todos.

Os exilados liam à luz desta perspectiva teológica o drama que tinha caído sobre eles. Consideravam que eram justos e bons, que não tinham pecado e que estavam ali a expiar os pecados de toda a nação. Havia até um refrão muito repetido por esta altura: “os pais comeram as uvas verdes, mas são os dentes dos filhos que ficam embotados” (Ez 18,2b). Parece ser uma reprovação velada à acção de Deus que, na perspectiva da teologia da época, fez dos exilados o bode expiatório de todas as infidelidades da nação. É justo, isto? Está certo que os justos paguem pelos pecadores?

É a estas questões que o profeta Ezequiel vai tentar responder.

MENSAGEM

Na verdade, os membros do Povo de Deus que estão exilados na Babilónia não podem “sacudir a água do capote” e presumir de justos e inocentes: não há justos e inocentes neste processo, uma vez que todos, sem excepção, são responsáveis por atitudes de infidelidade a Jahwéh e de desrespeito pelos seus mandamentos. Fará algum sentido que os exilados acusem Jahwéh de ser injusto, depois de terem violado sistematicamente a aliança e terem cometido tantos pecados e infidelidades (vers. 25)?

Para além disso, Israel não pode continuar a esconder-se atrás de uma responsabilidade colectiva, que implica todos, mas não responsabiliza ninguém. Chegou a altura de cada membro do Povo de Deus se sentir pessoalmente responsável diante de Deus pelas suas acções e pelos compromissos assumidos no âmbito da Aliança. Cada membro do Povo de Deus tem de descobrir que, quando fizer escolhas erradas e se obstinar nelas, sofrerá as consequências; e que quando abandonar os caminhos de egoísmo e de pecado e optar por Deus e pelos seus valores, encontrará a vida (vers. 26-28).

Significa isto que o pecado de um membro da comunidade não afecta os outros irmãos, membros da mesma comunidade? É claro que afecta. O pecado introduz sempre elementos de desequilíbrio, de desarmonia, de egoísmo, de ruptura, que atingem todos aqueles que caminham connosco… Mas o que Ezequiel aqui pretende sublinhar é que cada homem ou mulher tem de sentir-se pessoalmente responsável diante de Deus pelas suas opções e pelos seus actos.

Esta superação da mentalidade colectiva, dando lugar à responsabilidade individual, é um dos grandes progressos na história teológica de Israel. Doravante, o Povo aprenderá a reagir em termos individuais e não em termos de massa. Está aberto o caminho para uma Nova Aliança: uma Aliança que não é feita genericamente com uma comunidade, mas uma Aliança pessoal e interior, feita com cada crente.

ACTUALIZAÇÃO

Considerar, na reflexão, os seguintes desenvolvimentos:

  • Antes de mais, a leitura convida-nos a tomar consciência de que um compromisso com Deus é algo que nos implica profundamente e que devemos sentir pessoalmente, sem rodeios, sem evasivas, sem subterfúgios. No nosso tempo – no tempo da cultura do plástico, do “light”, do efémero – há alguma tendência a não assumir responsabilidades, a não absolutizar os compromissos (no mundo do futebol e da política há até uma máxima que define a flutuabilidade, a incoerência, a contradição em que as pessoas se movem: “o que é verdade hoje, é mentira amanhã”). Mas, com Deus, não há meias tintas: ou se assume, ou não se assume. Como é que eu sinto esses compromissos que assumi com Deus no dia do meu Baptismo e que ao longo da vida, nas mais diversas circunstâncias, confirmei? Trata-se de algo que eu levo a sério e que eu aplico coerentemente a toda a minha existência e às opções que faço, ou de algo que eu só me lembro quando se trata de fazer uma bonita festa de casamento na igreja ou de cumprir a tradição e baptizar os filhos?
  • O profeta Ezequiel convida-nos também a assumir, com verdade e coerência, a nossa responsabilidade pelos nossos gestos de egoísmo e de auto-suficiência em relação a Deus e em relação aos irmãos. Entre nós, no entanto, muitas vezes “a culpa morre solteira”. Há homens e mulheres que não têm o mínimo para viver dignamente? A culpa é da conjuntura económica internacional… Há situações de violência extrema e de injustiça? A culpa é do governo que não legisla nem coloca suficientes polícias nas ruas… A minha comunidade cristã está dividida, estagnada e não testemunha suficientemente o amor de Jesus? A culpa é do Papa, ou do bispo, ou do padre… E a minha culpa? Eu não terei, muitas vezes, a minha quota-parte de responsabilidades em tantas situações negativas com que, dia a dia, convivo pacificamente? Eu não precisarei de me “converter”?

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 24 (25)

Refrão: Lembrai-Vos, Senhor,
da vossa misericórdia e do vosso amor.

Mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos,
ensinai-me as vossas veredas.
Guiai-me na vossa verdade e ensinai-me,
porque Vós sois Deus, meu Salvador:
em vós espero sempre.

Lembrai-Vos, Senhor, das vossas misericórdias
e das vossas graças que são eternas.
Não recordeis as minhas faltas
e os pecados da minha juventude.
Lembrai-Vos de mim segundo a vossa clemência,
por causa da vossa bondade, Senhor.

O Senhor é bom e recto,
ensina o caminho aos pecadores.
Orienta os humildes na justiça
e dá-lhes a conhecer os seus caminhos.

 

LEITURA II – Filip 2,1-11

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses

Irmãos:
Se há em Cristo alguma consolação,
algum conforto na caridade,
se existe alguma consolação nos dons do Espírito Santo,
alguns sentimentos de ternura e misericórdia,
então, completai a minha alegria,
tendo entre vós os mesmos sentimentos e a mesma caridade,
numa só alma e num só coração.
Não façais nada por rivalidade nem por vanglória;
mas, com humildade,
considerai os outros superiores a vós mesmos,
sem olhar cada um aos seus próprios interesses,
mas aos interesses dos outros.
Tende em vós os mesmos sentimentos
que havia em Cristo Jesus.
Ele, que era de condição divina,
não Se valeu da sua igualdade com Deus,
mas aniquilou-Se a Si próprio.
Assumindo a condição de servo,
tornou-Se semelhante aos homens.
Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais,
obedecendo até à morte, e morte de cruz.
Por isso, Deus O exaltou
e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes,
para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem,
no céu, na terra e nos abismos,
e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor,
para glória de Deus Pai.

AMBIENTE

Filipos, cidade situada no norte da Grécia, era uma cidade habitada maioritariamente por veteranos romanos do exército. Estava organizada à maneira de Roma e era uma espécie de Roma em miniatura. Os seus habitantes gozavam dos mesmos privilégios dos habitantes das cidades de Itália.

A comunidade cristã de Filipos foi fundada por Paulo no verão de 49, no decurso da sua segunda viagem missionária. Numa das estadias de Paulo na prisão (em Éfeso?), a comunidade enviou um dos seus membros para o ajudar e uma generosa quantia em dinheiro para prover às necessidades do apóstolo.

Apesar de ser uma comunidade viva, piedosa e generosa, a comunidade cristã de Filipos não era uma comunidade perfeita. O desprendimento, a humildade, a simplicidade, não eram valores demasiado apreciados entre os altivos patrícios romanos que compunham a comunidade.

É neste enquadramento que podemos situar o texto que esta leitura nos apresenta. Trata-se de um texto que, em termos literários, apresenta duas partes. A primeira (vers. 1-5), em prosa, contém recomendações concretas de Paulo aos Filipenses acerca dos valores que devem cultivar. A segunda (vers. 6-11), em poesia, apresenta aos Filipenses o exemplo de Cristo (trata-se, provavelmente, de um hino pré-paulino, recitado nas celebrações litúrgicas cristãs e que Paulo integrou no texto da carta).

MENSAGEM

Na primeira parte (vers. 1-5), Paulo, em tom solene, pede aos altivos romanos que constituem a comunidade de Filipos que não se deixem dominar pelo orgulho, pela auto-suficiência, pela vaidade, pela ambição, que só provocam egoísmo e divisão. Recomenda-lhes que vivam unidos, que se amem e que sejam solidários, pois foi isso que Cristo, não só com palavras, mas com a própria vida, ensinou aos seus discípulos.

Na segunda parte (vers. 6-11), Paulo vai referir-se, com mais pormenor, ao exemplo de Cristo. Para apresentar esse exemplo, Paulo recorre, então, ao tal hino litúrgico, que celebrava a “Kenosis” (“despojamento”) de Cristo e a sua exaltação.

Cristo Jesus – nomeado no princípio, no meio e no fim – constitui o motivo do hino. Dado que os Filipenses são cristãos, quer dizer, dado que Cristo é o protótipo a cuja imagem estão configurados, têm a iniludível obrigação de comportar-se como Cristo. Como é o exemplo de Cristo?

O hino começa por aludir subtilmente ao contraste entre Adão (o homem que reivindicou ser como Deus e lhe desobedeceu – cf. Gn 3,5.22) e Cristo (o Homem Novo que, ao orgulho e revolta de Adão responde com a humildade e a obediência ao Pai). A atitude de Adão trouxe fracasso e morte; a atitude de Jesus trouxe exaltação e vida.

Em traços precisos, o hino define o “despojamento” (“kenosis”) de Cristo: Ele não afirmou com arrogância e orgulho a sua condição divina, mas aceitou fazer-Se homem, assumindo com humildade a condição humana, para servir, para dar a vida, para revelar totalmente aos homens o ser e o amor do Pai. Não deixou de ser Deus; mas aceitou descer até aos homens, fazer-Se servidor dos homens, para garantir vida nova para os homens. Esse “abaixamento” assumiu mesmo foros de escândalo: Ele aceitou uma morte infamante – a morte de cruz – para nos ensinar a suprema lição do serviço, do amor radical, da entrega total da vida.

No entanto, essa entrega completa ao plano do Pai não foi uma perda nem um fracasso: a obediência e entrega de Cristo aos projectos do Pai resultaram em ressurreição e glória. Em consequência da sua obediência, do seu amor, da sua entrega, Deus fez d’Ele o “Kyrios” (“Senhor” – nome que, no Antigo Testamento, substituía o nome impronunciável de Deus); e a humanidade inteira (“os céus, a terra e os infernos”) reconhece Jesus como “o senhor” que reina sobre toda a terra e que preside à história.

É óbvio o apelo à humildade, ao desprendimento, ao dom da vida que Paulo faz aos Filipenses e a todos os crentes: o cristão deve ter como exemplo esse Cristo, servo sofredor e humilde, que fez da sua vida um dom a todos; esse caminho não levará ao aniquilamento, mas à glorificação, à vida plena.

ACTUALIZAÇÃO

Para reflexão, podem considerar-se as seguintes indicações:

  • Os valores que marcaram a existência de Cristo continuam a não ser demasiado apreciados em muitos dos nossos ambientes contemporâneos. De acordo com os critérios que presidem ao nosso mundo, os grandes “ganhadores” não são os que põem a sua vida ao serviço dos outros, com humildade e simplicidade, mas são os que enfrentam o mundo com agressividade, com auto-suficiência e fazem por ser os melhores, mesmo que isso signifique não olhar a meios para passar à frente dos outros. Como pode um cristão (obrigado a viver inserido neste mundo e a ser competitivo) conviver com estes valores?
  • Paulo tem consciência de que está a pedir aos seus cristãos algo realmente difícil; mas é algo que é fundamental, à luz do exemplo de Cristo. Também a nós é pedido um passo em frente neste difícil caminho da humildade, do serviço, do amor: será possível que, também aqui, sejamos as testemunhas da lógica de Deus?

 

ALELUIA – Jo 10,27

Aleluia. Aleluia.

As minhas ovelhas ouvem a minha voz, diz o Senhor;
Eu conheço-as e elas seguem-Me.

 

EVANGELHO – Mt 21,28-32

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes
e aos anciãos do povo:
«Que vos parece?
Um homem tinha dois filhos.
Foi ter com o primeiro e disse-lhe:
‘Filho, vai hoje trabalhar na vinha’.
Mas ele respondeu-lhe: ‘Não quero’.
Depois, porém, arrependeu-se e foi.
O homem dirigiu-se ao segundo filho
e falou-lhe do mesmo modo.
Ele respondeu: ‘Eu vou, Senhor’.
Mas de facto não foi.
Qual dos dois fez a vontade ao pai?»
Eles responderam-Lhe: «O primeiro».
Jesus disse-lhes:
«Em verdade vos digo:
Os publicanos e as mulheres de má vida
irão diante de vós para o reino de Deus.
João Baptista veio até vós,
ensinando-vos o caminho da justiça,
e não acreditastes nele;
mas os publicanos e as mulheres de má vida acreditaram.
E vós, que bem o vistes,
não vos arrependestes, acreditando nele».

AMBIENTE

O texto que nos é proposto neste domingo situa-nos em Jerusalém, na etapa final da caminhada terrena de Jesus. Pouco antes, Jesus entrara em Jerusalém e fora recebido em triunfo pela multidão (cf. Mt 21,1-11); no entanto, o entusiasmo inicial da cidade foi sendo substituído, aos poucos, por uma recusa categórica em acolher Jesus e o seu projecto.

Os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo – os líderes religiosos judaicos – aparecem como o motor da oposição a Jesus. Eles não estão dispostos a reconhecer Jesus como o Messias de Deus e a aceitar que Ele tenha um mandato de Deus para propor aos homens uma nova realidade – a realidade do Reino. Há uma tensão no ar, que anuncia a proximidade da paixão e da morte de Jesus.

No quadro que antecede o episódio que nos é hoje proposto – mas que está em relação directa com ele – os líderes judeus encontraram-se com Jesus no Templo; perguntaram-Lhe com que autoridade Ele agia e quais eram as suas credenciais (cf. Mt 21,23-27). Jesus respondeu-lhes convidando-os a pronunciarem-se sobre a origem do baptismo de João. Os líderes judaicos não quiseram responder: se dissessem que João Baptista não vinha de Deus, tinham medo da reacção da multidão (que considerava João um profeta); se admitissem que o baptismo de João vinha de Deus, temiam que Jesus lhes perguntasse porque não o aceitaram…

Diante do silêncio embaraçado dos seus interlocutores, Jesus deu-lhes a entender que não tinha uma resposta para lhes dar, enquanto eles continuassem de coração fechado, na recusa obstinada da novidade de Deus (anunciada por João e proposta pelo próprio Jesus).

Na sequência, Jesus vai apresentar três parábolas, destinadas a ilustrar a recusa de Israel em acolher a proposta do Reino. Com elas, Jesus convida os líderes da nação judaica a reflectir sobre a situação de “gueto” em que se instalaram e a reconhecerem o sem sentido das suas posições fixistas e conservadoras. O nosso texto é a primeira dessas três parábolas.

MENSAGEM

A parábola dos dois filhos ilustra duas atitudes diversas diante dos desafios e das propostas de Deus.

O primeiro filho foi convidado pelo pai a trabalhar “na vinha”. A sua primeira resposta foi negativa: “não quero”. No contexto familiar da Palestina do tempo de Jesus, trata-se de uma resposta totalmente reprovável, particularmente porque uma atitude deste tipo ia contra todas as convenções sociais… Enchia um pai de vergonha e punha em causa a sua autoridade diante dos familiares, dos amigos, dos vizinhos. No entanto, este primeiro filho acabou por reconsiderar e por ir trabalhar na vinha (vers. 28-29).

O segundo filho, diante do mesmo convite, respondeu: “vou, sim, senhor”. Deu ao pai uma resposta satisfatória, que não punha em causa a sua autoridade e a sua “honra”. Ficou bem visto diante de todos e todos o consideraram um filho exemplar. No entanto, acabou por não ir trabalhar na vinha (vers. 30).

A questão posta, em seguida, por Jesus, é: “qual dos dois fez a vontade do pai?” A resposta é tão óbvia que os próprios interlocutores de Jesus não têm qualquer pejo em a dar: “o primeiro” (vers. 31).

A parábola ensina que, na perspectiva de Deus, o importante não é quem se comportou bem e não escandalizou os outros; mas, de acordo com a lógica de Deus, o importante é cumprir, realmente, a vontade do pai. Na perspectiva de Deus, não bastam palavras bonitas ou declarações de boas intenções; mas é preciso uma resposta adequada e coerente aos desafios e às propostas do Pai (Deus).

É certo que os fariseus, os sacerdotes, os anciãos do Povo, disseram “sim” a Deus ao aceitar a Lei de Moisés… A sua atitude – como a do filho que disse “sim” e depois não foi trabalhar para a vinha – foi irrepreensível do ponto de vista das convenções sociais; mas, do ponto de vista do cumprimento da vontade de Deus, a sua atitude foi uma mentira, pois recusaram-se a acolher o convite de João à conversão. Em contrapartida, aqueles que, de acordo com o “política e religiosamente correcto” disseram “não” (por exemplo, os cobradores de impostos e as prostitutas), cumpriram a vontade do Pai: acolheram o convite de João à conversão e acolheram a proposta do Reino que Jesus veio apresentar (vers. 32).
Lida no contexto do ministério de Jesus, esta parábola dava uma resposta àqueles que O acusavam de acolher os pecadores e os marginais – isto é, aqueles que, de acordo com as “convenções”, disseram não a Deus. Jesus deixa claro que, na perspectiva de Deus, não interessam as convenções externas, mas a atitude interior. O que honra a Deus não é o que cumpre ritos externos e que dá “boa impressão” às massas; mas é o que cumpre a vontade de Deus.

Mais tarde, a comunidade de Mateus leu a mesma parábola numa perspectiva um pouco diversa. Ela serviu para iluminar a recusa do Evangelho por parte dos judeus e o seu acolhimento por parte dos pagãos. Israel seria esse “filho” que aceitou trabalhar na vinha mas, na realidade, não cumpriu a vontade do Pai; os pagãos seriam esse “filho” que, aparentemente, esteve sempre à margem dos projectos do Pai, mas aceitou o Evangelho de Jesus e aderiu ao Reino.

ACTUALIZAÇÃO

Para a reflexão, ter em conta os seguintes desenvolvimentos:

  • Antes de mais, a parábola dos dois filhos chamados para trabalhar “na vinha” do pai sugere que, na perspectiva de Deus, todos os seus filhos são iguais e têm a mesma responsabilidade na construção do Reino. Deus tem um projecto para o mundo e quer ver todos os seus filhos – sem distinção de raça, de cor, de estatuto social, de formação intelectual – implicados na concretização desse projecto. Ninguém está dispensado de colaborar com Deus na construção de um mundo mais humano, mais justo, mais verdadeiro, mais fraterno. Tenho consciência de que também eu sou chamado a trabalhar na vinha de Deus?
  • Diante do chamamento de Deus, há dois tipos de resposta… Há aqueles que escutam o chamamento de Deus, mas não são capazes de vencer o imobilismo, a preguiça, o comodismo, o egoísmo, a auto-suficiência e não vão trabalhar para a vinha (mesmo que tenham dito “sim” a Deus e tenham sido baptizados); e há aqueles que acolhem o chamamento de Deus e que lhe respondem de forma generosa. De que lado estou eu? Estou disposto a comprometer-me com Deus, a aceitar os seus desafios, a empenhar-me na construção de um mundo mais bonito e mais feliz, ou prefiro demitir-me das minhas responsabilidades e renunciar a ter um papel activo no projecto criador e salvador que Deus tem para os homens e para o mundo?
  • O que é que significa, exactamente, dizer “sim” a Deus? É ser baptizado ou crismado? É casar na igreja? É fazer parte de uma confraria qualquer da paróquia? É fazer parte da equipa que gere a Fábrica da Igreja? É ter feito votos num qualquer instituto religiosos? É ir todos os dias à missa e rezar diariamente a Liturgia das Horas? Atenção: na parábola apresentada por Jesus, não chega dizer um “sim” inicial a Deus; mas é preciso que esse “sim” inicial se confirme, depois, num verdadeiro empenho na “vinha” do Senhor. Ou seja: não bastam palavras e declarações de boas intenções; é preciso viver, dia a dia, os valores do Evangelho, seguir Jesus nesse caminho de amor e de entrega que Ele percorreu, construir, com gestos concretos, um mundo de justiça, de bondade, de solidariedade, de perdão, de paz. Como me situo face a isto: sou um cristão “de registo”, que tem o nome nos livros da paróquia, ou sou um cristão “de facto”, que dia a dia procura acolher a novidade de Deus, perceber os seus desafios, responder aos seus apelos e colaborar com Ele na construção de uma nova terra, de justiça, de paz, de fraternidade, de felicidade para todos os homens?
  • Nas nossas comunidades cristãs aparecem, com alguma frequência, pessoas que sabem tudo sobre Deus, que se consideram família privilegiada de Deus, mas que desprezam esses irmãos que não têm um comportamento “religiosamente correcto” ou que não cumprem estritamente as regras do “bom comportamento” cristão… Atenção: não temos qualquer autoridade para catalogar as pessoas, para as excluir e marginalizar… Na perspectiva de Deus, o importante não é que alguém se tenha afastado ou que tenha assumido comportamentos marginais e escandalosos; o essencial é que tenha acolhido o chamamento de Deus e que tenha aceitado trabalhar “na vinha”. A este propósito, Jesus diz algo de inaudito aos “santos” príncipes dos sacerdotes e anciãos do povo: “os publicanos e as mulheres de má vida irão diante de vós para o Reino de Deus”. Hoje, que é que isto significa? Hoje, quem são os “vós”? Hoje, quem são os “publicanos e mulheres de má vida”?

Dehonianos

 

FAZER A VONTADE DO PAI

 

1. Mais uma parábola de Jesus, dita aos «chefes dos sacerdotes» e aos «anciãos» do povo, no seguimento de Mateus 21,23). São eles, os bem colocados na religião e na vida pública, que são interpelados por Jesus: «Que vos parece?» (Mateus 21,28); «Qual dos dois fez a vontade do Pai?» (Mateus 21,31). No final de duas parábolas em que a temática é a «vinha» (Mateus 21,28-46), são os «chefes dos sacerdotes» e os «fariseus» que reagem às interpelações de Jesus (Mateus 21,45-46).

2. Os fariseus aparecem no Evangelho de Mateus como aqueles que «dizem, mas não fazem» (Mateus 23,3). E «fazer», em oposição a dizer, é um tema fundamental neste Evangelho, assim expresso por Jesus no Discurso programático da Montanha: «Não todo aquele que me diz: “Senhor, Senhor” entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus» (Mateus 7,21).

3. Mais ainda: neste Evangelho de Mateus, o verdadeiro «fazer» traduz-se em «fazer fruto», como consequência da conversão ou mudança operada na nossa vida. Como é importante, a ideia é recorrente neste Evangelho: veja-se Mateus 3,8; 7,16-20; 12,33; 13,8; 21,41.43; 25,40.45.

4. Mas também a «justiça» é um termo recorrente em Mateus. E «justiça», no Evangelho de Mateus, indica o desígnio divino de salvação e a nossa obediência a esse desígnio. Dada a sua importância, esta nota da «justiça» faz-se ouvir por sete vezes neste Evangelho: veja-se Mateus 3,15; 5,6.10.20; 6,1.33; 21,32.

5. Posto isto, é agora mais fácil deixar entrar em nós a força da parábola de Jesus, contada a gente habituada apenas a dizer, dizer, dizer… O homem e pai, na parábola, é Deus. A vinha é dele, mas é também nossa. Nunca se fala, no corpo desta parábola, da «minha» vinha. A vinha é, portanto, campo aberto de alegria e de liberdade, onde todos os filhos de Deus podem encontrar um novo espaço relacional, porventura ainda inédito, de filialidade e fraternidade.

6. É dito que este Pai tem dois filhos, que são todos os seus filhos, nas suas semelhanças e diferenças. Somos todos nós, nas nossas semelhanças e diferenças. Ao primeiro, o Pai diz: «Filho, vai hoje trabalhar na vinha» (Mateus 21,28). Note-se o termo carinhoso «filho», o imperativo da liberdade «vai», que nos coloca na estrada de Abraão, o «hoje», que requer resposta pronta e inadiável, e a «vinha», símbolo da festa e da alegria. Note-se ainda a resposta tresloucada deste «filho»: «Não quero» (Mateus 21,29a), e a emenda: «mas, depois, arrependeu-se e foi» (Mateus 21,29b). Note-se também a resposta do segundo filho, depois de ter ouvido o mesmo convite do seu Pai: «Eu vou, Senhor» (Mateus 21,30a), e a constatação do narrador de que, de facto, não foi (Mateus 21,30b).

7. Como se vê, todos os filhos de Deus-Pai ouvem o mesmo convite e veem a mesma atitude de carinho. Respondem que não ou que sim, e ambos mudam! O que disse que não, de facto, vai HOJE fazer a vontade do PAI; o que disse que sim, ficou apenas em palavras, apenas mudando o sim em não.

8. Os interpelados por Jesus (chefes dos sacerdotes e anciãos), os que só dizem, dizem, dizem, têm de reconhecer que não é o que se DIZ, mas o que se FAZ, o que verdadeiramente conta. E ainda têm de reconhecer que João Baptista bem que os tinha chamado à conversão (mudança de vida e atitude) para fazerem frutos de justiça (Mateus 3,8; 21,32) e obedecerem ao desígnio de Deus, mas nem por isso lhe deram qualquer atenção (Mateus 21,32). Entenda-se: o que fez João Baptista é o que Jesus faz agora, e tão-pouco lhe prestam atenção, convertendo-se ou mudando de vida e de atitudes.

9. É aqui que são chamados a fazer contraponto os publicanos e as prostitutas. Estes ouviram João e ouvem agora Jesus, e estão a mudar a sua vida (Mateus 21,31-32)! Note-se sempre que nem isto podemos desmentir, pois o Autor destas páginas deslumbrantes que estamos a folhear, Mateus, era um publicano. E agora é um Apóstolo e Evangelista. E nós?

10. Ezequiel levanta a sua voz para nos dizer que o pecador salvará a sua vida se abrir os olhos do coração e se afastar do mal, e começar a trilhar os caminhos do direito e da justiça (Ezequiel 18,25-28). Portanto, está sempre aberta a porta que conduz à vida. Não, porém, à custa de Deus, querendo fazer vingar os nossos direitos sobre Ele, para que Ele dê razão aos nossos caprichos, mas dando-lhe o lugar que sempre lhe compete, o primeiro, e convertendo-nos nós aos seus desígnios, isto é, respondendo-lhe nos passos concretos e quotidianos da nossa vida dele por graça recebida.

11. S. Paulo coloca diante de nós, para imitar, o exemplo de Jesus Cristo, que desceu ao nosso nível, para nos servir com doçura e humildade (Filipenses 2,1-11). É nele e dele, desde a fundura das entranhas das misericórdias e a transbordar de amor, que devemos viver, unidos e não desavindos, na comunhão do Espírito que opera união e não divisão. Vê-se nascer assim, não obstante os problemas, uma comunidade não autorreferencial em que cada um estará mais atento aos outros do que a si próprio.

12. Os acordes do Salmo 25, que hoje cantamos, trazem à tona os rumos e os caminhos de Deus, que são sempre bondade, verdade, ternura e misericórdia – caminhos intransitivos, entenda-se –, que se vão insinuando mansamente dentro de nós, mais ou menos como deixou escrito, no seu Diário, com data de 23 de janeiro de 1948, o grande escritor francês George Bernanos: «Que doçura pensar que, embora ofendendo-o, não deixamos de desejar, desde o mais profundo santuário da alma, aquilo que Ele deseja».

 

António Couto

 

O Canto na Liturgia

 

Antífona de Entrada

Vós sois justo, Senhor – F. Valente (BML 107)

Tudo quanto nos fizestes – C. Silva (OC, p. 258-259| CEC II, p. 123-124)

 

Salmo Responsorial

Lembrai-Vos, Senhor, da Vossa misericórdia (sl 24) – Az. Oliveira

 

Antífona da Comunhão

Senhor, lembrai-Vos da palavra – F. Lapa (BML 133-134)

Nós conhecemos e acreditamos – M. Carneiro (CVM, p. 114-116)

Não há maior prova de amor – M. Faria (NRMS 29| IC, p. 222-224)

Não há maior prova de amor – M. Luís (LHC III, p. 482)

Vós sereis meus amigos – M. Luís (CAC, p. 425| BML 30| CEC I, p. 151| NCT 128)

Vós sereis meus amigos – M. Faria (NRMS 29| IC, p. 267| LHC III, p. 485-486)

Vós sereis meus amigos – Az. Oliveira (NRMS 146)



Outros cânticos para o Domingo XXVI do Tempo Comum

Ao nome de Jesus – M. Simões

Como sois justo, Senhor – F. Santos

Deus é amor – M. Luís

Fiel e justo é o Senhor – M. Luís

Se cumprirdes os meus mandamentos – C. Silva            

Se vos amardes uns aos outros – F. Silva

Onde há caridade verdadeira – J. Santos

Onde há caridade verdadeira – C. Silva

Onde há caridade verdadeira – F. Silva

Onde há caridade e amor – M. Luís

Onde há caridade – R. Ramos

Onde haja caridade – M. Luís

 

 

 

 

Domingo XXV do Tempo Comum – Ano A

 

 

Tema do 25º Domingo do Tempo Comum

 

 

 

A liturgia do 25º Domingo do Tempo Comum convida-nos a descobrir um Deus cujos caminhos e cujos pensamentos estão acima dos caminhos e dos pensamentos dos homens, quanto o céu está acima da terra. Sugere-nos, em consequência, a renúncia aos esquemas do mundo e a conversão aos esquemas de Deus.

A primeira leitura pede aos crentes que voltem para Deus. “Voltar para Deus” é um movimento que exige uma transformação radical do homem, de forma a que os seus pensamentos e acções reflictam a lógica, as perspectivas e os valores de Deus.

O Evangelho diz-nos que Deus chama à salvação todos os homens, sem considerar a antiguidade na fé, os créditos, as qualidades ou os comportamentos anteriormente assumidos. A Deus interessa apenas a forma como se acolhe o seu convite. Pede-nos uma transformação da nossa mentalidade, de forma a que a nossa relação com Deus não seja marcada pelo interesse, mas pelo amor e pela gratuidade.

A segunda leitura apresenta-nos o exemplo de um cristão (Paulo) que abraçou, de forma exemplar, a lógica de Deus. Renunciou aos interesses pessoais e aos esquemas de egoísmo e de comodismo, e colocou no centro da sua existência Cristo, os seus valores, o seu projecto.

 

LEITURA I – Is 55,6-9

Leitura do Livro de Isaías

Procurai o Senhor, enquanto se pode encontrar,
invocai-O, enquanto está perto.
Deixe o ímpio o seu caminho
e o homem perverso os seus pensamentos.
Converta-se ao Senhor, que terá compaixão dele,
ao nosso Deus, que é generoso em perdoar.
Porque os meus pensamentos não são os vossos,
nem os vossos caminhos são os meus – oráculo do Senhor –.
Tanto quanto o céu está acima da terra,
assim os meus caminhos estão acima dos vossos
e acima dos vossos estão os meus pensamentos.

AMBIENTE

O Deutero-Isaías, autor deste texto, é um profeta anónimo da escola de Isaías, que cumpriu a sua missão profética entre os exilados da Babilónia, procurando consolar e manter acesa a esperança no meio de um povo amargurado, desiludido e decepcionado. Os capítulos que recolhem a sua mensagem (Is 40-55) chamam-se, por isso, “Livro da Consolação”.

Estes quatro versículos que a primeira leitura de hoje nos propõe aparecem no final do “Livro da Consolação”. Aproxima-se a libertação e, para muitos exilados, está perto o momento do regresso à Terra Prometida. Depois de exortar os exilados a cumprir um novo êxodo e de lhes garantir que, em Judá, vão sentar-se à mesa do banquete que Jahwéh quer oferecer ao seu Povo (cf. Is 55,1-3), o profeta lança-lhes agora um outro repto…

O tempo do Exílio foi um tempo de angústia e de sofrimento, mas também um tempo de amadurecimento e de graça. Aí, Israel tomou consciência das suas falhas e infidelidades, e descobriu que o viver longe de Deus não conduz à vida e à felicidade; por outro lado, o tempo de Exílio ajudou Israel a purificar a sua noção de Deus, da Aliança, do culto e até do significado de ser Povo de Deus.

O Deutero-Isaías – neste momento em que se abrem novos horizontes – convida os seus concidadãos a percorrerem esse caminho de conversão e de redescoberta de Deus que a experiência do Exílio lhes revelou. O Povo está prestes a pôr-se a caminho em direcção à Terra Prometida; esse “caminho” não é uma simples deslocação geográfica mas é, sobretudo, um “caminho” espiritual de reencontro com o Senhor. Deixar a terra da escravidão e voltar à terra da liberdade deve significar, para Israel, uma redescoberta dos esquemas de Deus e um esforço sério para viver na fidelidade dinâmica aos mandamentos de Jahwéh.

MENSAGEM

O apelo do profeta é, portanto, a um recomeço. Nesses novos caminhos que as vicissitudes da história vão abrir aos exilados, é preciso que este Israel renovado pela experiência do Exílio continue a procurar o Senhor, a invocá-l’O, a cultivar laços de comunhão e de proximidade com Ele.

Fundamentalmente, Israel é convidado a converter-se ou, literalmente, a “voltar (em hebraico: ‘shûb’) para Deus”. Essa “conversão” exige uma transformação radical do homem, quer em termos de mentalidade, quer em termos de comportamento (“deixe o ímpio o seu caminho e o homem perverso os seus pensamentos” – vers. 7).

A mentalidade, os valores, as atitudes dos “ímpio” e do “homem perverso”, estão muito longe da mentalidade, dos valores e dos esquemas de Deus. A vida do “ímpio” e do “homem perverso” funciona numa lógica de egoísmo, de orgulho, de auto-suficiência, de violência, de exploração; os esquemas do “ímpio” geram sofrimento, infelicidade, morte… Deus funciona numa lógica de amor, de serviço, de partilha, de doação; os esquemas de Deus geram alegria, paz verdadeira, vida definitiva.

Ao Povo de Deus, pede-se que prescinda da lógica do “ímpio” e do “homem perverso”, para abraçar a lógica de Deus; pede-se-lhe que não viva de olhos postos no chão, mas que olhe para o céu e contemple os horizontes de Deus; pede-se-lhe que seja capaz de confiar em Deus e de compreender o acerto dos seus caminhos. Só dessa forma o Povo poderá ser feliz nessa Terra a que vai regressar; só dessa forma Israel poderá continuar a ser fiel à sua missão de testemunhar Jahwéh no meio dos outros povos.

A conversão implica também (este aspecto está mais sugerido do que afirmado) uma mudança na forma de ver Deus. O homem tem sempre tendência a construir um deus à sua imagem, um deus previsível e domesticado que funcione de acordo com a lógica e a mentalidade do homem. No entanto, Deus não pode ser reduzido aos nossos esquemas humanos: os seus pensamentos não são os pensamentos do homem, as suas reacções não são as reacções do homem, os seus caminhos não são os caminhos do homem. “Converter-se” é, a este nível, aprender que Deus não é redutível às nossas lógicas e esquemas humanos; e é aprender que Deus tem os seus próprios caminhos, diferentes dos nossos… “Converter-se” é, a este nível, prescindir das nossas certezas, preconceitos e auto-suficiências, confiar em Deus e na bondade dos caminhos através dos quais ele conduz a história da salvação.

ACTUALIZAÇÃO

Considerar as seguintes questões:

• Antes de mais, o nosso texto apela à conversão. O “voltar para Deus” (como diz o Deutero-Isaías) significa, neste contexto, re-equacionar a vida, de modo a que Deus passe a estar no centro da existência do homem.
É inflectir o sentido da existência, de forma a que Deus (e não o dinheiro, o poder, o sucesso, os amigos, a família) ocupe sempre, na vida do homem, o primeiro lugar. A cultura pós-moderna prescindiu de Deus… Considerou que o homem é o único senhor do seu destino e que cada pessoa tem o direito de construir a sua felicidade à margem de Deus e dos seus valores; considerou que os valores de Deus não permitem ao homem potencializar as suas capacidades e ser verdadeiramente livre e feliz… Na verdade, o que é que nos faz passar da terra da escravidão para a terra da liberdade: o amor, a partilha, o serviço, o dom da vida, ou o egoísmo, o orgulho, a arrogância, a auto-suficiência?

• No entanto, o homem só poderá converter-se a Deus e abraçar os seus esquemas e valores, se se mantiver em comunhão com Ele. É na escuta e na reflexão da Palavra de Deus, na oração frequente, na atitude de disponibilidade para acolher a vida de Deus, na entrega confiada nas mãos de Deus, que o crente descobrirá os valores de Deus e os assumirá. Aos poucos, a acção de Deus irá transformando a mentalidade desse crente, de forma a que ele viva e testemunhe Deus e as suas propostas para os homens.

• A conversão é um processo nunca acabado. Todos os dias o crente terá de optar entre os valores de Deus e os valores do mundo, entre conduzir a sua vida de acordo com a lógica de Deus ou de acordo com a lógica dos homens. Por isso, o verdadeiro crente nunca cruza os braços, instalado em certezas definitivas ou em conquistas absolutas, mas esforça-se por viver cada instante em fidelidade dinâmica a Deus e às suas propostas.

• Finalmente, o nosso texto sugere uma reflexão sobre a imagem que temos de Deus. Não podemos construir e testemunhar diante dos outros homens um Deus à nossa imagem, que funcione de acordo com os nossos esquemas mentais e que assuma comportamentos parecidos com os nossos. Temos de descobrir, no diálogo pessoal com Ele, esse Deus que nos transcende infinitamente. Sem preconceitos, sem certezas absolutas, temos de mergulhar no infinito de Deus, e deixarmo-nos surpreender pela sua lógica, pela sua bondade, pelo seu amor.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 144 (145)

Refrão: O Senhor está perto de quantos O invocam.

Quero bendizer-Vos, dia após dia,
e louvar o vosso nome para sempre.
Grande é o Senhor e digno de todo o louvor,
insondável é a sua grandeza.

O Senhor é clemente e compassivo,
paciente e cheio de bondade.
O Senhor é bom para com todos
e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas.

O Senhor e justo em todos os seus caminhos
e perfeito em todas as suas obras.
O Senhor está perto de quantos O invocam,
de quantos O invocam em verdade.

 

LEITURA II – Filip 1,20c-24.27a

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses

Irmãos:
Cristo será glorificado no meu corpo,
quer eu viva quer eu morra.
Porque, para mim, viver é Cristo e morrer é lucro.
Mas, se viver neste corpo mortal é útil para o meu trabalho,
não sei o que escolher.
Sinto-me constrangido por este dilema:
desejaria partir e estar com Cristo, que seria muito melhor;
mas é mais necessário para vós
que eu permaneça neste corpo mortal.
Procurai somente viver de maneira digna do Evangelho de Cristo.

AMBIENTE

Filipos, cidade situada ao norte da Grécia, foi a primeira cidade europeia evangelizada por Paulo. Era uma cidade próspera, com uma população constituída maioritariamente por veteranos romanos do exército. Organizada à maneira de Roma, estava fora da jurisdição dos governantes das províncias locais e dependia directamente do imperador. Gozava, por isso, dos mesmos privilégios das cidades de Itália.

A comunidade cristã, fundada por Paulo, Silas e Timóteo no Verão do ano 49, era uma comunidade entusiasta, generosa e comprometida, sempre atenta às necessidades de Paulo e do resto da Igreja (como no caso da colecta em favor da Igreja de Jerusalém – cf. 2 Cor 8,1-5). Paulo nutria pelos “filhos” de Filipos um afecto especial.

No momento em que escreve aos Filipenses, Paulo está na prisão (em Éfeso?). Dos Filipenses recebeu dinheiro e o envio de Epafrodito (um membro da comunidade), encarregado de ajudar Paulo em tudo o que fosse necessário. Enviando Epafrodito de volta a Filipos, Paulo confia-lhe uma carta para a comunidade. É uma carta afectuosa, onde Paulo agradece aos Filipenses a sua preocupação, a sua solicitude e o seu amor. Nela, Paulo agradece, dá notícias, informa a comunidade sobre a sua própria sorte e exorta os Filipenses à fidelidade ao Evangelho.

O texto que nos é hoje proposto faz parte de uma perícopa (cf. Flp 1,12-26), na qual Paulo fala aos Filipenses de si próprio, da sua situação, das suas preocupações e esperanças. Paulo está consciente de que corre riscos de vida; mas está sereno, alegre e confiante porque a única coisa que lhe interessa é Cristo e o seu Evangelho.

MENSAGEM

Quando escreve a carta aos Filipenses, Paulo continua preso. Não sabe se sairá da prisão vivo ou morto mas, para ele, isso não é importante; o que é importante é que Cristo seja engrandecido – seja através da vida, seja através da morte do apóstolo.

Para Paulo, Cristo é que é a autêntica vida. Ele é a razão de ser e de viver do apóstolo. Na perspectiva de Paulo, a morte seria bem vinda, não como libertação das dificuldades e das dores que se experimentam na vida terrena, mas como caminho directo para o encontro definitivo, imediato, sem intermediários, com Cristo. Paulo não se importaria nada de morrer a curto prazo, porque isso significaria a comunhão total com Cristo. Especialmente significativa, a este propósito, é a conhecida frase (que, aliás, está escrita no seu túmulo, em Roma): “para mim, viver é Cristo e morrer é lucro”.

No entanto, Paulo está consciente de que Deus pode ter outros planos e querer que ele continue – para benefício das comunidades cristãs – algum tempo mais na terra, a dar testemunho do Evangelho de Cristo. Paulo aceita isso: por Cristo, está disposto a tudo. Na verdade, não são os interesses de Paulo que contam, mas os interesses de Cristo.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão pode ter em conta as seguintes questões:

• Um dos elementos que mais impressionam e questionam neste testemunho é a centralidade de Cristo na vida de Paulo. Diante de Cristo, todos os interesses pessoais e materiais do apóstolo passam a um plano absolutamente secundário. O apóstolo vive de Cristo e para Cristo; nada mais lhe interessa. Paulo aparece, neste aspecto, como o perfeito modelo do cristão: para os baptizados, Cristo deveria ser o centro de todas as referências e interesses, a “pedra angular” à volta da qual se constrói a existência cristã. Que significa Cris
to para mim? Ele é a referência fundamental à volta da qual tudo se articula, ou é apenas mais um entre muitos interesses a partir dos quais eu vou construindo a minha vida? Quando tenho de optar, para que lado cai a minha escolha: para o lado de Cristo, ou para o lado dos meus interesses pessoais?

• A mesma questão – a questão da centralidade de Cristo – pode colocar-se a propósito do testemunho que a Igreja oferece aos homens e ao mundo… É mais importante falar de Cristo e do seu Evangelho do que dos artigos do Código de Direito Canónico; é mais importante testemunhar Cristo e os seus valores do que discutir a estrutura hierárquica da Igreja; é mais importante anunciar Cristo e a sua proposta de Reino do que debater questões de organização e de disciplina… Cristo está, verdadeiramente, no centro desse anúncio que somos convidados a fazer aos homens do nosso tempo?

• Neste texto, impressiona também a liberdade total de Paulo face à morte. Essa liberdade resulta do facto de a fé que anima o apóstolo lhe permitir encarar a morte, não como o mais terrível e assustador de todos os males, mas como a possibilidade do encontro definitivo e pleno com Cristo. Dessa forma, Paulo pode entregar-se tranquilamente ao exercício do seu ministério, sem deixar que o medo trave o seu empenho e o seu testemunho. Também aqui a atitude de Paulo interpela e questiona os crentes… Para um cristão, a morte é o momento da realização plena, do encontro com a vida definitiva. Não é um drama sem sentido, sem remédio e sem esperança. Para um cristão, não faz sentido que o medo da perseguição ou da morte impeça o compromisso com os valores de Deus e com o compromisso profético diante do mundo.

 

ALELUIA – cf. Actos 16,14b

Aleluia. Aleluia.

Abri, Senhor, os nossos corações,
para aceitarmos a palavra do vosso Filho.

 

EVANGELHO – Mt 20,1-16a

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:
«O reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário,
que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha.
Ajustou com eles um denário por dia
e mandou-os para a sua vinha.
Saiu a meio da manhã,
viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes:
‘Ide vós também para a minha vinha
e dar-vos-ei o que for justo’.
E eles foram.
Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde,
e fez o mesmo.
Saindo ao cair da tarde,
encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes:
‘Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’
Eles responderam-lhe: ‘Ninguém nos contratou’.
Ele disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha’.
Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz:
«Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário,
a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros’.
Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um.
Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais,
mas receberam também um denário cada um.
Depois de o terem recebido,
começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo:
‘Estes últimos trabalharam só uma hora
e deste-lhes a mesma paga que a nós,
que suportámos o peso do dia e o calor’.
Mas o proprietário respondeu a um deles:
‘Amigo, em nada te prejudico.
Não foi um denário que ajustaste comigo?
Leva o que é teu e segue o teu caminho.
Eu quero dar a este último tanto como a ti.
Não me será permitido fazer o que eu quero do que é meu?
Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?’
Assim, os últimos serão os primeiros
e os primeiros serão os últimos».

AMBIENTE

No texto que nos é proposto, Jesus continua a instruir os discípulos, a fim de que eles compreendam a realidade do Reino e, após a partida de Jesus, a testemunhem. Trata-se de mais uma “parábola do Reino”.

O quadro que a parábola nos apresenta reflecte bastante bem a realidade social e económica dos tempos de Jesus. A Galileia estava cheia de camponeses que, por causa da pressão fiscal ou de anos contínuos de más colheitas, tinham perdido as terras que pertenciam à sua família. Para sobreviver, esses camponeses sem terra alugavam a sua força de trabalho. Juntavam-se na praça da cidade e esperavam que os grandes latifundiários os contratassem para trabalhar nos seus campos ou nas suas vinhas. Normalmente, cada “patrão” tinha os seus “clientes” – isto é, homens em quem ele confiava e a quem contratava regularmente. Naturalmente, esses trabalhadores “de confiança” recebiam um tratamento de favor. Esse tratamento de favor implicava, nomeadamente, que esses “clientes” fossem sempre os primeiros a ser contratados, a fim de que pudessem ganhar uma “jorna” completa (um “denário”, que era o pagamento diário habitual de um trabalhador não especializado).

MENSAGEM

A parábola refere-se, portanto, a um dono de uma vinha que, ao romper da manhã, se dirigiu à praça e chamou os seus “clientes” para trabalhar na sua vinha, ajustando com eles o preço habitual: um denário. O volume de tarefas a realizar na vinha fez com que este patrão voltasse a sair a meio da manhã, ao meio-dia, às três da tarde e ao cair da tarde e que trouxesse, de cada vez, novas levas de trabalhadores. O trabalho decorreu sem incidentes, até ao final do dia.

Ao anoitecer, os trabalhadores foram chamados diante do senhor, a fim de receberem a paga do trabalho. Todos – quer os que só tinham trabalhado uma hora, quer os que tinham trabalhado todo o dia – receberam a mesma paga: um denário. Contudo, os trabalhadores da primeira hora (os “clientes” habituais do dono da vinha) manifestaram a sua surpresa e o seu desconcerto por, desta vez, não terem recebido um tratamento “de favor”.

A resposta final do dono da vinha afirma que ninguém tem nada a reclamar se ele decide derramar a sua justiça e a sua misericórdia sobre todos, sem excepção. Ele cumpre as suas obrigações para com aqueles que trabalham com ele desde o início; não poderá ser bondoso e misericordioso para com aqueles que só chegam no fim? Isso em nada deveria afectar os outros…

Muito provavelmente, a parábola serviu primariamente a Jesus para responder às críticas dos adversários, que O acusavam de estar demasiado próximo dos pecadores (os trabalhadores da última hora). Através dela, Jesus mostra que o amor do Pai se derrama sobre todos os seus filhos, sem excepção e por igual. Para Deus, não é decisiva a hora a que se respondeu ao seu apelo; o que é decisivo é que se tenha respondido ao seu convite para trabalhar na vinha do Reino. Para Deus, não há tratamento “especial” por antiguidade; para Deus, todos os seus filhos são iguais e merecem o seu amor.

A parábola serviu a Jesus, também, para denunciar a concepção que os teólogos de Israel tinham de Deus e da salvação. Para os fariseus, sobretudo, Deus era um “patrão” que pagava conforme as acções do homem. Se o homem cumprisse escrupulosamente a Lei, conquistaria determinados méritos e Deus pagar-lhe-ia convenientemente. Segundo esta perspectiva, Deus não dá nada; é o homem que conquista tudo. O “deus” dos fariseus é uma espécie de comerciante, que todos os dias aponta no seu livro de registos as dívidas e os créditos do homem, que um dia faz as contas finais, vê o saldo e dá a recompensa ou aplica o castigo.

Para Jesus, no entanto, Deus não é um contabilista, sempre de lápis na mão a fazer as contas dos homens para lhes pagar conforme os seus merecimentos; mas é um pai, cheio de bondade, que ama todos os seus filhos por igual e que derrama sobre todos, sem excepção, o seu amor.

A parábola foi, depois, proposta por Mateus à sua comunidade (provavelmente a comunidade cristã de Antioquia da Síria) para iluminar a situação concreta que a comunidade estava a viver com a entrada maciça de pagãos na Igreja. Alguns cristãos de origem judaica não conseguiam entender que os pagãos, vindos mais tarde, estivessem em pé de igualdade com aqueles que tinham acolhido a proposta do Reino desde a primeira hora. Mateus deixa, no entanto, claro que o Reino é um dom oferecido por Deus a todos os seus filhos, sem qualquer excepção. Judeus ou gregos, escravos ou livres, cristãos da primeira hora ou da última hora, todos são filhos amados do mesmo Pai. Na comunidade de Jesus não há graus de antiguidade, de raça, de classe social, de merecimento… O dom de Deus destina-se a todos, por igual.

Conclusão: A parábola convida-nos a perceber que o nosso Deus é o Deus que oferece gratuitamente a salvação a todos os seus filhos, independentemente da sua antiguidade, créditos, qualidades, ou comportamentos. Os membros da comunidade do Reino não devem, por isso, fazer o bem em vista de uma determinada recompensa, mas para encontrarem a felicidade, a vida verdadeira e eterna.

ACTUALIZAÇÃO

Na reflexão, considerar as seguintes linhas:

• Antes de mais, o nosso texto deixa claro que o Reino de Deus (esse mundo novo de salvação e de vida plena) é para todos sem excepção. Para Deus não há marginalizados, excluídos, indignos, desclassificados… Para Deus, há homens e mulheres – todos seus filhos, independentemente da cor da pele, da nacionalidade, da classe social – a quem Ele ama, a quem Ele quer oferecer a salvação e a quem Ele convida para trabalhar na sua vinha. A única coisa verdadeiramente decisiva é se os interpelados aceitam ou não trabalhar na vinha de Deus. Fazer parte da Igreja de Jesus é fazer uma experiência radical de comunhão universal.

• Todos têm lugar na Igreja de Jesus… Mas todos terão a mesma dignidade e importância? Jesus garante que sim. Não há trabalhadores mais importantes do que os outros, não há trabalhadores de primeira e de segunda classe. O que há é homens e mulheres que aceitaram o convite do Senhor – tarde ou cedo, não interessa – e foram trabalhar para a sua vinha. Dentro desta lógica, que sentido é que fazem certas atitudes de quem se sente dono da comunidade porque “estou aqui há mais tempo do que os outros”, ou porque “tenho contribuído para a comunidade mais do que os outros”? Na comunidade de Jesus, a idade, o tempo de serviço, a cor da pele, a posição social, a posição hierárquica, não servem para fundamentar qualquer tipo de privilégios ou qualquer superioridade sobre os outros irmãos. Embora com funções diversas, todos são iguais em dignidade e todos devem ser acolhidos, amados e considerados de igual forma.

• O nosso texto denuncia ainda essa concepção de Deus como um “negociante”, que contabiliza os créditos dos homens e lhes paga em consequência. Deus não faz negócio com os homens: Ele não precisa da mercadoria que temos para Lhe oferecer. O Deus que Jesus anuncia é o Pai que quer ver os seus filhos livres e felizes e que, por isso, derrama o seu amor, de forma gratuita e incondicional, sobre todos eles. Sendo assim que sentido fazem certas expressões da vivência religiosa que são autênticas negociatas com Deus (“se tu me fizeres isto, prometo-te aquilo”; “se tu me deres isto, pago-te com aquilo”)?

• Entender que Deus não é um negociante, mas um Pai cheio de amor pelos seus filhos, significa também renunciar a uma lógica interesseira no nosso relacionamento com ele. O cristão não faz as coisas por interesse, ou de olhos postos numa recompensa (o céu, a “sorte” na vida, a eliminação da doença, o adivinhar a chave da lotaria), mas porque está convicto de que esse comportamento que Deus lhe propõe é o caminho para a verdadeira vida. Quem segue o caminho certo, é feliz, encontra a paz e a serenidade e colhe, logo aí, a sua recompensa.

• Com alguma frequência encontramos cristãos que não entendem porque é que Deus ama e aceita na sua família, em pé de igualdade com os filhos da primeira hora, esses que só tardiamente responderam ao apelo do Reino. Sentem-se injustiçados, incompreendidos, ciumentos, invejosos e condenam, mais ou menos veladamente, essa lógica de misericórdia que, à luz dos critérios humanos, lhes parece muito injusta. Na sua perspectiva, a fidelidade a Deus e aos seus mandamentos merece uma recompensa e esta deve ser tanto maior quanto maior a antiguidade e a qualidade dos “serviços” prestados a Deus. Que sentido faz esta lógica à luz dos ensinamentos de Jesus?

Dehonianos

 

 

EM APENAS UMA HORA SE PODE PERDER

OU GANHAR O DIA INTEIRO!

 

1. No Evangelho deste Domingo XXV do Tempo Comum (Mateus 20,1-16), Deus conta aos seus filhos mais uma história verdadeira. A praça está sempre cheia de gente à espera de uma oportunidade. O dono da vinha SAI às 06h00 da manhã e contrata trabalhadores para cultivar a sua vinha. Pagar-lhes-á um denário, que é o salário normal de um dia de trabalho. SAI outra vez às 09h00 da manhã, e, encontrando mais gente na praça, envia-os para a sua vinha, dizendo que lhes pagará o que for justo. Volta a SAIR às 12h00, às 15h00 e às 17h00, encontra sempre gente desocupada, e a todos vai enviando para a sua vinha.

2. Impõe-se que anotemos um primeiro indicador: o dono da vinha SAI por cinco vezes à PROCURA de nós. Encontra-nos a toda a hora, e a toda a hora nos envia para a sua vinha. É dele toda a iniciativa.

3. Às 18h00, o dono da vinha ordena ao seu capataz que pague o salário (um denário) aos trabalhadores, com uma estranha condição: a começar pelos últimos! O capataz pagou a todos um denário, o salário de um inteiro dia de trabalho. Também esta é uma bela iniciativa do dono da vinha. Até aqui tudo bem: todos os que aqui estamos, estamos todos depois e por causa da iniciativa de Deus!

4. Temos também, todavia, de prestar atenção ao que fazemos, quando somos nós a tomar a iniciativa. O texto não diz se trabalhámos, ou se fomos preguiçosos, durante o tempo, muito ou pouco, que estivemos na vinha. Mas diz que somos mesquinhos, invejosos e ciumentos, quando reparamos que o dono da vinha nos trata a todos por igual. O texto desvenda o nosso instinto de grandeza e superioridade, e a dificuldade que sentimos em aceitar-nos e abraçar-nos como irmãos.

5. O amor de Deus está lá, bem retratado, em todas as iniciativas do dono da vinha: SAI a toda a hora à nossa PROCURA. Quer-nos a todos por igual. Enche as nossas mãos com os seus dons. Mas nós ficamos tão mal na fotografia ou na radiografia, que mostra bem as invejas e ciúmes, que minam o nosso coração e não nos deixam ser irmãos.

6. Aquela última hora é a hora da graça. É a nossa hora de filhos de Deus. Mas é também a hora em que podemos ser aceites ou rejeitados como irmãos.

7. Em apenas uma hora se pode ganhar ou perder o dia inteiro!

8. A lição do Antigo Testamento que hoje, por graça, nos é dado escutar (Isaías 55,6-9), serve maravilhosamente de fundo ao Evangelho deste Dia. Apresenta-nos um Deus bom, que «se deixa encontrar» (Isaías 55,6), e que é «rico em perdão» (Isaías 55,7), e nos põe a caminho, pois, diz Deus: «Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos,/ os vossos caminhos não são os meus caminhos» (Isaías 55,8). Vê-se bem que esta última página do caderno do chamado «Segundo Isaías», na verdade um profeta e místico do tempo do exílio (século VI a. C.), foi escolhida para fazer coro com a personagem central do Evangelho de hoje, que vê as coisas de forma muito diferente de nós, muito melhor do que nós.

9. São Paulo, o Apóstolo de Jesus Cristo, escreve à sua comunidade dileta de Filipos, e, no extrato de hoje (Filipenses 1,20-24.27), lê-se a si mesmo, dizendo: «Para mim viver é Cristo» (Filipenses 1,21) e o resto é lixo (Filipenses 3,8). E desafia-nos a todos a viver de maneira digna do Evangelho de Cristo, que não consiste em nenhuma forma de instalação, mas em «lutar juntos (synathléô) pela fé do Evangelho» (Filipenses 1,27), verdadeiros atletas da fé do Evangelho.

10. Fica bem hoje cantar com alegria renovada o grande hino alfabético que é o Salmo 145, até que vibrem as cordas do nosso coração. Orígenes classificava este Salmo como «o supremo cântico de ação de graças», e Agostinho viu-o como «a oração perfeita de Cristo, uma oração para todas as circunstâncias e acontecimentos da vida». E enquanto saboreamos as imensas riquezas que nos vêm de Deus: a sua presença ao nosso lado, os seus caminhos novos e belos, cheios de graça, misericórdia, amor e bondade, usando, para o efeito, toda a gama de sabores e todas as letras do alfabeto, continuemos a cantar a vinda de Deus até nós e a sua insuperável proximidade: «O Senhor está próximo de quantos o invocam» (Salmo 145,18).

António Couto

 

 

 O Canto na Liturgia

Antífona de Entrada

Eu sou a salvação do meu povo – F. Lapa

Eu sou a salvação do meu povo – F. Santos

Eu sou a salvação do meu povo – C. Silva

Eu darei ao meu povo a salvação – A. Cartageno

 

Salmo Responsorial

O Senhor está próximo de quantos O invocam (Sl 144) – M. Luís

 

Antífona de Comunhão

Promulgastes, Senhor – F. Valente          

Eu sou o Bom Pastor – C. Silva

Deus é bom pastor – M. Luís

O Cordeiro de Deus é o nosso pastor – Az. Oliveira

O Cordeiro de Deus é o nosso pastor             

O Senhor é meu pastor – F. Santos (BML 52| CEC II, p. 143-144| NCT 268)  


Outros cânticos para o Domingo XXV do Tempo Comum

 Já não sou eu que vivo – Az. Oliveira (NRMS 48| IC, 221)

 Já não sou eu que vivo – C. Silva (OC, p. 140)

 Já não sou eu que vivo – M. Silva
 Já não sou eu que vivo – M. Frisina (CLC, p. 20-21)

Para mim viver é Cristo – A. Cartageno (LHC III, p. 26)

 

Domingo XXIV do Tempo Comum – Ano A

 

 

Tema do 24º Domingo do Tempo Comum

 

 

A Palavra de Deus que a liturgia do 24º Domingo do Tempo Comum nos propõe fala do perdão. Apresenta-nos um Deus que ama sem cálculos, sem limites e sem medida; e convida-nos a assumir uma atitude semelhante para com os irmãos que, dia a dia, caminham ao nosso lado.

O Evangelho fala-nos de um Deus cheio de bondade e de misericórdia que derrama sobre os seus filhos – de forma total, ilimitada e absoluta – o seu perdão. Os crentes são convidados a descobrir a lógica de Deus e a deixarem que a mesma lógica de perdão e de misericórdia sem limites e sem medida marque a sua relação com os irmãos.

A primeira leitura deixa claro que a ira e o rancor são sentimentos maus, que não convêm à felicidade e à realização do homem. Mostra como é ilógico esperar o perdão de Deus e recusar-se a perdoar ao irmão; e avisa que a nossa vida nesta terra não pode ser estragada com sentimentos, que só geram infelicidade e sofrimento.

Na segunda leitura Paulo sugere aos cristãos de Roma que a comunidade cristã tem de ser o lugar do amor, do respeito pelo outro, da aceitação das diferenças, do perdão. Ninguém deve desprezar, julgar ou condenar os irmãos que têm perspectivas diferentes. Os seguidores de Jesus devem ter presente que há algo de fundamental que os une a todos: Jesus Cristo, o Senhor. Tudo o resto não tem grande importância.

 

 

LEITURA I – Sir 27,33-28,9

Leitura do Livro de Ben-Sirá

O rancor e a ira são coisas detestáveis,
e o pecador é mestre nelas.
Quem se vinga sofrerá a vingança do Senhor,
que pedirá minuciosa conta de seus pecados.
Perdoa a ofensa do teu próximo
e, quando o pedires, as tuas ofensas serão perdoadas.
Um homem guarda rancor contra outro
e pede a Deus que o cure?
Não tem compaixão do seu semelhante
e pede perdão para os seus próprios pecados?
Se ele, que é um ser de carne, guarda rancor,
quem lhe alcançará o perdão das suas faltas?
Lembra-te do teu fim e deixa de ter ódio;
pensa na corrupção e na morte,
e guarda os mandamentos.
Recorda os mandamentos
e não tenhas rancor ao próximo;
pensa na Aliança do Altíssimo
e não repares nas ofensas que te fazem.

AMBIENTE

O livro de Ben Sira (também chamado “Eclesiástico”), de onde foi extraída a primeira leitura deste domingo, é um livro sapiencial que, como todos os livros sapienciais, pretende apresentar uma reflexão de carácter prático sobre a arte de bem viver e de ser feliz.

Estamos no início do séc. II a.C., numa época em que o helenismo tinha começado o seu trabalho pernicioso, no sentido de minar a cultura e os valores tradicionais de Israel. Jesus Ben Sira, o autor deste livro, está preocupado com a degradação dos valores tradicionais do seu Povo e as cedências que, sobretudo os mais jovens, vão fazendo à cultura grega. A “fé dos pais” corre riscos de desaparecer ou, ao menos, de perder a sua identidade.

Jesus Ben Sira procura, então, apresentar uma síntese da religião tradicional e da sabedoria de Israel, sublinhando a grandeza dos valores judaicos e demonstrando que a cultura judaica não fica a dever nada à brilhante cultura grega. Por essa razão, escreveu este compêndio de “sabedoria”. Nele, tenta demonstrar aos seus compatriotas que Israel possuía na “Torah”, revelada por Deus, a verdadeira “sabedoria” – uma “sabedoria” muito superior à “sabedoria” grega.

O texto que a liturgia de hoje nos propõe integra uma secção (cf. Sir 24,1-42,14) onde Jesus Ben Sira procura demonstrar que a “sabedoria” – criatura de Deus, oferecida a todos os homens piedosos (cf. Sir 1,1-23,38) – tem um campo especial de acção em Israel, o Povo eleito de Deus. Esta secção não tem uma estrutura clara e coerente: os temas vão-se sucedendo, aparentemente sem uma ordem lógica. Dominam, aí, as “máximas” destinadas a ensinar os comportamentos que se devem assumir nas relações sociais.

Uma nota de carácter prático: o nosso texto aparece, na maior parte das versões recentes da Bíblia, numerado como 27,30-28,7 e não como 27,33-28,9. Aqui, no entanto, conservamos a numeração 27,33-28,9 – que é a apresentada no “Leccionário Dominical”. Esta discrepância resulta do facto de o texto apresentado pelo “Leccionário” seguir uma versão latina, mais longa do que a versão grega que serve de base às traduções mais recentes do Livro de Ben Sira.

MENSAGEM

Jesus Ben Sira ensina que a verdadeira “sabedoria” está em não se deixar dominar pelo rancor, pela ira e pelos sentimentos de vingança. O “sábio” (isto é, aquele que quer ter êxito e ser feliz) é aquele que é capaz de perdoar as ofensas e de ter compaixão pelo seu semelhante.

Particularmente interessante é a relação estabelecida aqui entre o perdão humano e o perdão divino: quem se recusa a perdoar ao irmão, como poderá ter a coragem de pedir o perdão de Deus? Mas quem perdoa as ofensas dos outros, poderá pedir e esperar o perdão do Senhor para as suas próprias falhas. Ao menos dois séculos antes de Cristo o judaísmo já tinha descoberto que existe uma relação entre o perdão que Deus nos oferece e o perdão que ele nos convida a oferecer aos irmãos.

Para tornar mais sugestivo e impressionante o seu apelo, Ben Sira convida os seus concidadãos a lembrarem-se da morte: “pensa no teu fim e deixa de ter ódio”… Diante da realidade final que nos espera, que sentido é que fazem os sentimentos de rancor, de ira, de vingança que alimentamos nesta terra? E podemos, com coerência, esperar o perdão final de Deus, se a nossa vida foi vivida numa lógica de ódio e de vingança?

Fundamentalmente, temos aqui um apelo a invertermos a lógica do “olho por olho, dente por dente”, de forma a que as nossas relações com os irmãos sejam marcadas por sentimentos de perdão e de misericórdia. É dessa forma que o homem construirá a sua felicidade nesta terra; e é assumindo está lógica que o homem poderá pedir e esperar de Deus o perdão para as suas falhas.

ACTUALIZAÇÃO

Considerar, na reflexão, as seguintes questões:

Todos os dias vemos, nas notícias que nos chegam de todos os cantos do mundo, onde nos leva a lógica do “responder na mesma moeda”. Para vingar ofensas reais ou imaginárias, desencadeiam-se mecanismos de vingança que são responsáveis pela morte de inocentes, por sofrimentos e dramas sem fim e por uma espiral de violência sem limites e sem prazos. É este o mundo que queremos? A única forma de fazermos respeitar os nossos direitos e a nossa dignidade passará por deixarmos à solta os nossos instintos de vingança, de rancor e de ódio?

Ben Sira estabelece uma relação clara entre o perdão de Deus e o perdão humano. É claro que não podemos dizer que Deus não nos perdoa se nós não conseguirmos perdoar aos nossos irmãos (a bondade e a misericórdia de Deus são infinitamente maiores do que as nossas); mas, se o nosso coração estiver dominado por uma lógica de ódio e de vingança, o perdão que Deus nos oferece poderá encontrar aí lugar? Um coração duro, violento e agressivo, incapaz de compreender as falhas dos outros, estará suficientemente disponível para acolher a bondade e o amor de Deus?

Ben Sira lembra também, a propósito do perdão, o horizonte final do homem (a morte)… Não se tratará, tanto, de avisar que se não nos portarmos bem, Deus condena-nos (por esta altura, o Povo de Deus ainda não parece ter uma noção clara de que há, para além desta terra, uma vida eterna reservada para aqueles que escolhem Deus e os seus valores); trata-se, sobretudo, de sugerir que a nossa vida nesta terra está marcada pela brevidade e pela finitude e não pode ser estragada com sentimentos que só nos magoam a nós e aos outros.

Muitos homens do nosso tempo pensam que só nos afirmamos, só nos realizamos e só triunfamos quando somos fortes e respondemos com força e agressividade à força e agressividade dos outros. Jesus Ben Sira, contudo, ensina que a “sabedoria”, o êxito e a felicidade do homem não passam por cultivar sentimentos de ódio e de rancor, mas por cultivar sentimentos de perdão e de misericórdia. Quem tem razão? O que é que nos dá paz, nos faz sentir em harmonia connosco, com Deus e com ou outros e nos torna mais felizes: os gestos violentos que mostraram aos outros a nossa força e apaziguaram o nosso orgulho ferido, ou os nossos gestos de perdão, de bondade, de misericórdia?

 

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 102 (103)

Refrão: O Senhor é clemente e compassivo,
cheio de misericórdia para com todos.

Bendiz, ó minha alma, o Senhor
e todo o meu ser bendiga o seu nome santo.
Bendiz, ó minha alma, o Senhor
e não esqueças nenhum dos seus benefícios.

Ele perdoa todos os teus pecados
e cura as tuas enfermidades.
Salva da morte a tua vida
e coroa-te de graça e misericórdia.

Não está sempre a repreender
nem guarda ressentimento.
Não nos tratou segundo os nossos pecados
nem nos castigou segundo as nossas culpas.

Como a distância da terra aos céus,
assim e grande a sua misericórdia para os que O temem.
Como o oriente dista do Ocidente,
assim Ele afasta de nós os nossos pecados.

 

 

LEITURA II – Rom 14,7-9

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos

Irmãos:
Nenhum de nós vive para si mesmo
e nenhum de nós morre para si mesmo.
Se vivemos, vivemos para o Senhor,
e se morremos, morremos para o Senhor.
Portanto, quer vivamos quer morramos,
pertencemos ao Senhor.
Na verdade, Cristo morreu e ressuscitou
para ser o Senhor dos vivos e dos mortos.

AMBIENTE

Na segunda parte da Carta aos Romanos (já o vimos nos domingos anteriores), Paulo preocupa-se em apresentar aos cristãos de Roma (e aos cristãos de todos os lugares e tempos) um conjunto de atitudes e de valores que devem marcar a vida pessoal, social e eclesial daqueles que Deus chama à salvação. A segunda leitura deste domingo situa-nos neste contexto e apresenta-nos mais alguns dados sobre esta questão.

O nosso texto faz parte de uma perícopa (cf. Rom 14,1-12) em que Paulo dá algumas indicações acerca da conduta a ter face aos outros membros da comunidade, particularmente face àqueles que têm perspectivas diferentes da fé e do caminho cristão.

Paulo considera que existem dois tipos de crentes na comunidade cristã de Roma: os “fortes” e os “débeis”. Estas designações não parecem referir-se, primordialmente, à classe social (“ricos” e “pobres”) ou à origem religiosa (“pagano-cristãos” e “judeo-cristãos”) desses crentes, mas a atitudes diversas quanto à fé… Os “fortes” (na linguagem de hoje, poderíamos caracterizá-los como “progressistas”) são aqueles que já se libertaram decisivamente da escravidão da Lei e dos ritos e consideram que só os valores do Evangelho são decisivos no caminho da fé. Os “fracos” (na linguagem de hoje poderíamos chamar-lhes “tradicionalistas”) são aqueles que fazem finca-pé nas leis, nos ritos e nas tradições antigas e ficam escandalizados pelo facto de esses valores não serem assumidos por toda a gente.

Muito provavelmente, estes dois grupos viviam em confronto, provocando uma certa divisão na comunidade. Paulo não aceita atitudes de intolerância ou de desprezo pelos irmãos, venham elas de onde vieram. Na verdade, o pensamento de Paulo aproxima-o mais dos “fortes”; mas ele sabe muito bem que mais importante do que as divergências é o respeito pelo irmão e a construção da fraternidade. Os “fortes” não podem desprezar aqueles que não pensam como eles; e os “débeis” não têm o direito de julgar ou de catalogar aqueles que têm, quanto à fé, uma outra perspectiva.

É precisamente neste contexto que Paulo encaixa os três versículos que constituem a segunda leitura deste domingo.

MENSAGEM

Os vers. 7-9 são verdadeiramente o centro da perícopa. Fundamentalmente, Paulo recorda a todos – aos “fortes” e aos “débeis” – que pertencem ao Senhor: “quer vivamos quer morramos, é ao Senhor que pertencemos” (vers. 8). Isso é muito mais importante do que as opiniões particulares acerca do caminho a percorrer para atingir o mesmo objectivo. Os crentes, antes de se deixarem dividir e separar por questões verdadeiramente secundárias (que tipo de alimentos se devem comer, que festas se devem celebrar, que jejuns se devem fazer), devem ter consciência do essencial da fé e daquilo que os une: Jesus Cristo, que morreu e ressuscitou para a todos dar a mesma vida. A comunidade é uma família de irmãos, reunida à volta do mesmo Senhor.

ACTUALIZAÇÃO

Na reflexão, ter em conta as seguintes questões:

Paulo está consciente de que há vários caminhos válidos para chegar a Cristo e à sua proposta de salvação. Esses caminhos não só não se excluem mas, na sua diversidade, constituem um factor de enriquecimento da nossa experiência comunitária. A comunidade tem de estar consciente de que a diversidade não exclui, necessariamente, a unidade. Por isso, a comunidade cristã não é o lugar da intolerância, da incompreensão, do desrespeito pela diversidade de opiniões, da uniformidade imposta em nome da fé; mas é o lugar do amor, do respeito pelo outro, da aceitação das diferenças, da partilha, do perdão. A este respeito, como classifico a minha comunidade cristã ou religiosa?

Existem, às vezes, nas comunidades cristãs certas pessoas que se consideram mais esclarecidas e mais preparadas e que manifestam desprezo por aqueles que têm concepções menos racionais da fé, que vivem agarrados a determinadas devoções ou a determinados ritos considerados ultrapassados. Paulo recomenda-lhes: “não desprezeis ninguém; não esqueçais que a única coisa importante e decisiva é Cristo, a quem todos pertencemos”.

Existem, às vezes, na comunidade cristã certas pessoas que se consideram muito santas e virtuosas porque cumprem determinadas regras, são fiéis a determinados ritos e têm sempre presente os mandamentos da santa madre Igreja… Observam e controlam os outros, julgam-nos sem direito a defesa, condenam-nos e acham-se no sagrado direito de os desacreditar diante dos outros membros da comunidade… Paulo recomenda-lhes: “não julgueis nem condeneis os vossos irmãos; não esqueçais que a única coisa importante e decisiva é Cristo, a quem todos pertencemos”.

Às vezes perdemo-nos na discussão das coisas secundárias e esquecemos o essencial. Discutimos se se deve receber a comunhão na mão ou na boca, se se deve ou não ajoelhar à consagração, se determinado cântico é litúrgico ou não, se os padres devem ou não casar, se a procissão do santo padroeiro da paróquia deve fazer este ou aquele percurso… e, algures durante a discussão, esquecemos o amor, o respeito pelo outro, a fraternidade, e que todos vivemos à volta do mesmo Senhor. É preciso descobrir o essencial que nos une e não absolutizar o secundário que nos divide.

 

 

ALELUIA – Jo 13,34

Aleluia. Aleluia.

Dou-vos um mandamento novo, diz o Senhor:
amai-vos uns aos outros como Eu vos amei.

 

 

EVANGELHO – Mt 18,21-35

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe:
«Se meu irmão me ofender,
quantas vezes deverei perdoar-lhe?
Até sete vezes?»
Jesus respondeu:
«Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.
Na verdade, o reino de Deus pode comparar-se a um rei
que quis ajustar contas com os seus servos.
Logo de começo,
apresentaram-lhe um homem que devia dez mil talentos.
Não tendo com que pagar,
o senhor mandou que fosse vendido,
com a mulher, os filhos e tudo quanto possuía,
para assim pagar a dívida.
Então o servo prostrou-se a seus pés, dizendo:
‘Senhor, concede-me um prazo e tudo te pagarei’.
Cheio de compaixão, o senhor daquele servo
deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida.
Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros
que lhe devia cem denários.
Segurando-o, começou a apertar-lhe o pescoço, dizendo:
‘Paga o que me deves’.
Então o companheiro caiu a seus pés e suplicou-lhe, dizendo:
‘Concede-me um prazo e pagar-te-ei’.
Ele, porém, não conseguiu e mandou-o prender,
até que pagasse tudo quanto devia.
Testemunhas desta cena,
os seus companheiros ficaram muito tristes
e foram contar ao senhor tudo o que havia sucedido.
Então, o senhor mandou-o chamar e disse:
‘Servo mau, perdoei-te, porque me pediste.
Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro,
como eu tive compaixão de ti?’
E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos,
até que pagasse tudo o que lhe devia.
Assim procederá convosco meu Pai celeste,
se cada um de vós não perdoar a seu irmão
de todo o coração».

AMBIENTE

Continuamos a ler o “discurso eclesial”, que preenche todo o capítulo 18 do Evangelho segundo Mateus. Este “discurso” tem como ponto de partida algumas “instruções” apresentadas por Marcos sobre a vida comunitária (cf. Mc 9,33-37.42-47), mas que Mateus ampliou de forma significativa. Os destinatários do discurso são os discípulos (na realidade Mateus pretende, sobretudo, atingir os membros dessa comunidade cristã a quem este Evangelho se destina).

Por detrás do texto que nos é hoje proposto, podemos entrever uma comunidade onde as tensões e os conflitos degeneram em ofensas pessoais e que tem muita dificuldade em perdoar.

MAENSAGEM

O mandamento do perdão não é novo – como vimos, aliás, na primeira leitura. Os catequistas de Israel ensinavam a perdoar as ofensas e a não guardar rancor contra o irmão que tinha cometido qualquer falha. Os “mestres” de Israel estavam, no entanto, de acordo em que a obrigação de perdoar existia apenas em relação aos membros do Povo de Deus (os inimigos estavam excluídos dessa dinâmica de amor e de misericórdia). A grande discussão girava, porém, à volta do número limite de vezes em que se devia perdoar. Todos – desde os mais exigentes aos mais misericordiosos – aceitavam, contudo, que o perdão tem limites e que não se deve perdoar indefinidamente.

É nesta problemática que Jesus é envolvido pelos discípulos. Pedro, o porta-voz da comunidade, consulta Jesus acerca dos limites do perdão. Ele sabe que, quanto a isto, Jesus tem ideias radicais e, talvez com alguma ironia, pergunta a Jesus se, na sua perspectiva, se deve perdoar sempre (“até sete vezes?” – vers. 21: o número sete, na cultura semita, indica “totalidade”).

Jesus responde que não só se deve perdoar sempre, mas de forma ilimitada, total, absoluta (“setenta vezes sete” – vers. 22). Deve-se perdoar sempre, a toda a gente (mesmo aos inimigos) e sem qualquer reserva, sombra ou prevenção.

É neste contexto e a propósito da lógica do perdão que Jesus propõe aos discípulos uma parábola (vers. 23-35). A parábola apresenta-se em três quadros ou cenas.

O primeiro quadro (vers. 23-27) coloca-nos diante de uma cena de corte: um funcionário real, na hora de prestar contas ao seu senhor (provavelmente de impostos recebidos e nunca entregues), revela-se incapaz de saldar a sua dívida. O senhor ordena que o funcionário e a sua família sejam vendidos como escravos; mas, perante a humildade e a submissão do servo, o senhor deixa-se dominar por sentimentos de misericórdia e perdoa a dívida. Neste quadro, o que impressiona mais é o montante astronómico da dívida: dez mil talentos (um talento equivalia a cerca de 36 Kg e podia ser em ouro ou em prata. Dez mil talentos é, portanto, uma soma incalculável). O exagero da dívida serve, aqui, para pôr em relevo a misericórdia infinita do senhor.

O segundo quadro (vers. 28-30) descreve como esse funcionário que experimentou a misericórdia do seu senhor se recusou, logo a seguir, a perdoar um companheiro que lhe devia cem denários (um denário equivalia a 12 gramas de prata e era o pagamento diário de um operário nã o especializado. Cem denários correspondia, portanto, a uma quantia insignificante para um alto funcionário do rei).
Quando estes dois quadros são postos em paralelo, sobressaem, por um lado, a desproporção entre as duas dívidas e, por outro, a diferença de atitudes e de sentimentos entre o senhor (capaz de perdoar infinitamente) e o funcionário do rei (incapaz de se converter à lógica do perdão, mesmo depois de ter experimentado a alegria de ser perdoado).

É precisamente desta diferença de comportamentos e de lógicas que resulta o terceiro quadro (vers. 28-35): os outros companheiros do funcionário real, chocados com a sua ingratidão, informaram o rei do sucedido; e o rei, escandalizado com o comportamento do seu funcionário, castigou-o duramente.

Antes de mais, a parábola é uma catequese sobre a misericórdia de Deus. Mostra como, na perspectiva de Deus, o perdão é ilimitado, total e absoluto.

Depois, a parábola convida-nos a analisar as nossas atitudes e comportamentos face aos irmãos que erram. Mostra como neste capítulo, a nossa lógica está, tantas vezes, distante da lógica de Deus. Diante de qualquer falha do irmão (por menos significativa que ela seja), assumimos a pose de vítimas magoadas e, muitas vezes, tomamos atitudes de desforra e de vingança que são o sinal claro de que ainda não interiorizámos a lógica de Deus.

Finalmente, a parábola sugere que existe uma relação (aliás já afirmada na primeira leitura deste domingo) entre o perdão de Deus e o perdão humano. Mateus estará a sugerir que o perdão de Deus é condicionado e que só se tornará efectivo se nós aprendermos a perdoar aos nossos irmãos? O que Mateus está a dizer, sobretudo, é que na comunidade cristã deve funcionar a lógica do perdão ilimitado: se essa é a lógica de Deus, terá de ser a nossa lógica, também. O que Mateus está a sugerir, também, é que se o nosso coração não bater segundo a lógica do perdão, não terá lugar para acolher a misericórdia, a bondade e o amor de Deus. Fazer a experiência do amor de Deus transforma-nos o coração e ensina-nos a amar os nossos irmãos, nomeadamente aqueles que nos ofenderam.

Deus pagará na mesma moeda e castigará quem não for capaz de viver segundo a lógica do perdão e da misericórdia? Não. Decididamente, o revanchismo e a vingança não fazem parte dos métodos de Deus… Mateus usa aqui – bem ao jeito semita – imagens fortes e dramáticas para sublinhar que a lógica do perdão é urgente e que dela depende a construção de uma realidade nova, de amor, de comunhão, de fraternidade – a realidade do Reino.

ACTUALIZAÇÃO

Considerar os seguintes desenvolvimentos:

O Evangelho deste domingo é sobre a necessidade de perdoar sempre, de forma radical e ilimitada. Trata-se – todos estamos conscientes do facto – de uma das exigências mais difíceis que Jesus nos faz. No entanto não há, neste campo, meias tintas, dúvidas, evasivas, desculpas: trata-se de um valor fundamental da proposta de Jesus. Ele deu testemunho, em gestos concretos, do amor, da bondade e da misericórdia do Pai. Na cruz, ele morreu pedindo perdão para os seus assassinos… Ora o cristão é, antes de mais, um seguidor de Jesus. Pessoalmente, como é que me situo face a isto?

O perdão e a misericórdia tornam-se ainda mais complicados à luz dos valores que presidem à construção do nosso mundo. O “mundo” considera que perdoar é próprio dos fracos, dos vencidos, dos que desistem de impor a sua personalidade e a sua visão do mundo; Deus considera que perdoar é dos fortes, dos que sabem o que é verdadeiramente importante, dos que estão dispostos a renunciar ao seu orgulho e auto-suficiência para apostar num mundo novo, marcado por relações novas e verdadeiras entre os homens. Na verdade, a lógica do mundo só tem aumentado a espiral de violência, de injustiça, de morte; a lógica de Deus tem ajudado a mudar os corações e frutificado em gestos de amor, de partilha, de diálogo e de comunhão. Para mim, qual destas duas propostas faz mais sentido? Qual destes dois caminhos pode ajudar a instaurar uma realidade mais humana, mais harmoniosa, mais feliz?

O que significa, realmente, perdoar? Significa ceder sempre diante daqueles que nos magoam e nos ofendem? Significa encolher os ombros e seguir adiante quando nos confrontamos com uma situação que causa morte e sofrimento a nós ou a outros nossos irmãos? Significa “deixar correr” enquanto forem coisas que não nos afectem directamente? Significa pactuar com a injustiça e a opressão? Significa tolerar tudo num silêncio feito de cobardia e de conformismo? Não. O perdão não pode ser confundido com passividade, com alienação, com conformismo, com cobardia, com indiferença… O cristão, diante da injustiça e da maldade, não esconde a cabeça na areia, fingindo que não viu nada… O cristão não aceita o pecado e não se cala diante do que está errado; mas não guarda rancor para com o irmão que falhou, nem permite que as falhas derrubem as possibilidades de encontro, de comunhão, de diálogo, de partilha… Perdoar não significa isolar-se num silêncio ofendido, ou demitir-se das responsabilidades na construção de um mundo novo e melhor; mas significa estar sempre disposto a ir ao encontro, a estender a mão, a recomeçar o diálogo, a dar outra oportunidade.

Este Evangelho recorda-nos – talvez ainda de forma mais clara e concludente – aquilo que a primeira leitura já sugeria: quem faz a experiência do perdão de Deus, envolve-se numa lógica de misericórdia que tem, necessariamente, implicações na forma de abordar os irmãos que falharam. Não podemos dizer que Deus não perdoa a quem é incapaz de perdoar aos irmãos; mas podemos dizer que experimentar o amor de Deus e deixar-se transformar por Ele significa assumir uma outra atitude para com os irmãos, uma atitude marcada pela bondade, pela compreensão, pela misericórdia, pelo acolhimento, pelo amor.

Dehonianos

 

 

ENTRE A ESPADA E O PERDÃO

 

1. Neste Domingo XXIV do Tempo Comum, continuamos a braços com o Discurso Eclesial de Jesus, iniciado no passado Domingo com oportunas e incisivas instruções sobre a correção fraterna (Mateus 18,15-20). O resto do Discurso é servido hoje a Pedro e a todos nós (Mateus 18,21-35). Prevenimos que o Discurso é suficientemente demolidor, capaz de, se atentamente o recebermos, provocar em nós o maior terramoto da história, deixando às claras a radical insuficiência da nossa programação para tão gigantesca onda de perdão.

2. Estão-nos no sangue as letras da vingança. Aprendemos bastante bem e depressa com Lamec o «Cântico da Espada»: «Caim será vingado sete vezes, mas Lamec setenta vezes sete!» (Génesis 4,24). Face a esta barbaridade desmedida, a chamada «Lei de Talião» [pena, não multiplicada, mas igual ao delito: «olho por olho, dente por dente»] representa um enorme progresso civilizacional. Mas Jesus derruba uma e outra mesa, para nos brindar com a desmesura do Perdão, sempre sem motivação.

3. «Senhor, até quantas vezes devo perdoar ao meu irmão? Até sete?», pergunta Pedro a Jesus (Mateus 18,21). «Não te digo até sete, mas até setenta vezes sete!», respondeu Jesus (Mateus 18,22). Desarranjo completo na cabeça de Pedro, e na nossa. O Perdão, segundo Jesus, não se conta pelos dedos, nem pela máquina de calcular. Faz-se simplesmente sempre e sem condição.

4. Mas Jesus, bom pedagogo, desce ao nível de Pedro, e ao nosso. Conta uma história absolutamente inverosímil, para nos prender a atenção e o coração, suspender a respiração. É mais uma parábola do Reino dos Céus (Mateus 18,23-35). A cena é preenchida por um Rei – vê-se que é Deus – e pelos seus servos, dado que o Rei [Deus] entende chamar a contas os seus servos. Entenda-se aqui que estes servos não são escravos, mas altos oficiais ao serviço do Rei. Estreita-se a cena, e vê-se agora apenas o Rei e um dos seus servos. Este servo tinha uma dívida enorme para com o seu Rei [Deus], contabilizada na soma astronómica de 10.000 talentos (Mateus 18,24).

5. O montante é colossal. Tão colossal, que é difícil de quantificar com exatidão. Lembro, para começar, que os estudiosos calculam em cerca de 900 talentos o valor dos impostos anuais que entravam nos cofres de Herodes o Grande (37-4 a. C.). E, após a sua morte, os impostos anuais da Galileia e da Pereia contavam-se em 200 talentos, sendo de 600 talentos os impostos pagos pela Judeia, Samaria e Idumeia. Ou seja, a dívida do servo da nossa história é muito superior ao dinheiro que então circulava no país inteiro! Mais coisa menos coisa, diz a Bíblia de Jerusalém, como 174 toneladas de ouro, que o estudioso Richard France, no seu belo Comentário ao Evangelho de Mateus, sobe para 300 toneladas! Entrando por outro tipo de contabilidade, lembro agora que um talento equivalia a cerca de 6.000 denários, sendo um denário o correspondente a um salário diário. Avaliados por este critério, os 10.000 talentos equivaleriam a um montante entre 60 e 100 milhões de denários (Vittorio Fusco, Rudolf Schnackenburg, Craig S. Keener, TOB), que o mesmo é dizer entre 60 e 100 milhões de salários! Ou ainda o correspondente ao salário de um trabalhador durante um período que oscila entre 200 e 250 mil anos (Craig S. Keener, John Nolland).

6. Vê-se bem que este servo não pode pagar aquela dívida imensa, a perder de vista. O Rei [Deus] manda que seja vendido ele, a mulher, os filhos e tudo quanto possui, em ordem ao pagamento da dívida. Aqui o servo pediu ao Rei [Deus] que lhe desse um prazo, e que pagaria tudo. Auge da cena. Será que o Rei [Deus] dá o prazo, ou mostrar-se-á impiedoso? Adianto eu: se der o prazo, é demasiado lógico e simétrico, e esta não é a medida do Evangelho, que rebenta sempre os nossos mais pensados calculismos. Se não der o prazo, pior ainda, passa por ser um Deus insensível e impiedoso, que não sabe compadecer-se. Eis a incrível resposta de Deus: «Vai-te embora; estás perdoado!» (Mateus 18,27).

7. Entenda-se ainda, porque salta à vista: para Deus e para o Evangelho, um ato de Perdão vale mais do que 10.000 talentos e tudo o que isso representa. E veja-se, no seguimento da história, a rapidez com que perdemos a memória, e como, sem dó nem piedade, condenamos um «com-servo» ao pagamento, aqui e já, de uma bagatela (Mateus 18,28)!

8. O Livro de Ben-Sirá (27,33-28,9) lá está hoje também a gritar-te ao coração: perdão, perdão, perdão! Não te deixes encharcar por ódios, iras e rancores! Como convém a quem pertence ao Senhor, diz Paulo ao Romanos (14,7-9).

9. O Salmo 103 é um grande canto ao amor de Deus, que dia-a-dia nos perdoa, nos cura, cuida de nós com carinho e misericórdia maternais. Sem este amor, sem esta música, seríamos talvez levados melancolicamente a pensar que é o mesmo o destino das folhas outonais e dos homens! Deixemos ecoar em nós as belas notas do Salmo 103, que alguns autores já chamaram o Te Deum do Antigo Testamento.

10. Irmão, deixa-te tomar pela música nova e excessiva do Perdão. Que essa, sim, te encharque até aos ossos, até ao coração!

António Couto

 

O Canto na Liturgia

 

Antífona de Entrada

Dai a paz, Senhor – M. Faria

Dai a paz, Senhor – F. Valente

Dai a paz, Senhor – M. Luís

Escutai, Senhor, a prece – M. Carneiro

Escutai, Senhor, a prece – A. Cartageno

 

Salmo Responsorial

O Senhor é clemente e compassivo, cheio de misericórdia para com todos (Sl 102) – M. Luís
                 

Antífona da Comunhão

Como é admirável – F. Santos

O cálice de bênção – F. Lapa

O cálice da bênção – F. Silva

 

Outros cânticos para o Domingo XXIV do Tempo Comum – ano A

É este o meu mandamento – M. Luís

Dou-vos um mandamento novo – F. Silva

Dou-vos um mandamento novo – F. Valente

Não vivamos para nós – Az. Oliveira

Recebemos do Senhor um mandamento novo – M. Luís

Vós sereis meus amigos – M. Luís

Vós sereis meus amigos – M. Faria

 

 

Domingo XXIII do Tempo Comum – Ano A

 

 

Tema do 23º Domingo do Tempo Comum

 

 

A liturgia deste domingo sugere-nos uma reflexão sobre a nossa responsabilidade face aos irmãos que nos rodeiam. Afirma, claramente, que ninguém pode ficar indiferente diante daquilo que ameaça a vida e a felicidade de um irmão e que todos somos responsáveis uns pelos outros.

A primeira leitura fala-nos do profeta como uma “sentinela”, que Deus colocou a vigiar a cidade dos homens. Atento aos projectos de Deus e à realidade do mundo, o profeta apercebe-se daquilo que está a subverter os planos de Deus e a impedir a felicidade dos homens. Como sentinela responsável alerta, então, a comunidade para os perigos que a ameaçam.

O Evangelho deixa clara a nossa responsabilidade em ajudar cada irmão a tomar consciência dos seus erros. Trata-se de um dever que resulta do mandamento do amor. Jesus ensina, no entanto, que o caminho correcto para atingir esse objectivo não passa pela humilhação ou pela condenação de quem falhou, mas pelo diálogo fraterno, leal, amigo, que revela ao irmão que a nossa intervenção resulta do amor.

Na segunda leitura, Paulo convida os cristãos de Roma (e de todos os lugares e tempos) a colocar no centro da existência cristã o mandamento do amor. Trata-se de uma “dívida” que temos para com todos os nossos irmãos, e que nunca estará completamente saldada.

 

 

LEITURA I – Ez 33,7-9

Leitura da Profecia de Ezequiel

Eis o que diz o Senhor:
«Filho do homem,
coloquei-te como sentinela na casa de Israel.
Quando ouvires a palavra da minha boca,
deves avisá-los da minha parte.
Sempre que Eu disser ao ímpio: ‘Ímpio, hás-de morrer’,
e tu não falares ao ímpio para o afastar do seu caminho,
o ímpio morrerá por causa da sua iniquidade,
mas Eu pedir-te-ei contas da sua morte.
Se tu, porém, avisares o ímpio,
para que se converta do seu caminho,
e ele não se converter,
morrerá nos seus pecados,
mas tu salvarás a tua vida».

AMBIENTE

Ezequiel é conhecido como “o profeta da esperança”. Desterrado na Babilónia desde 597 a.C. (no reinado de Joaquin, quando Nabucodonosor conquista Jerusalém pela primeira vez e deporta para a Babilónia a classe dirigente do país), Ezequiel exerce aí a sua missão profética entre os exilados judeus.

A primeira fase do ministério de Ezequiel decorre entre 593 a.C. (data do seu chamamento) e 586 a.C. (data em que Jerusalém é arrasada pelas tropas de Nabucodonosor e uma segunda leva de exilados é encaminhada para a Babilónia). Nesta fase, Ezequiel procura destruir falsas esperanças e anuncia que, ao contrário do que pensam os exilados, o cativeiro está para durar… Eles não só não vão regressar a Jerusalém, mas os que ficaram em Jerusalém (e que continuam a multiplicar os pecados e as infidelidades) vão fazer companhia aos que já estão desterrados na Babilónia.

A segunda fase do ministério de Ezequiel desenrola-se a partir de 586 a.C. e prolonga-se até cerca de 570 a.C. Instalados numa terra estrangeira, privados de templo, de sacerdócio e de culto, os exilados estão desesperados e duvidam da bondade e do amor de Deus. Nessa fase, Ezequiel procura alimentar a esperança dos exilados e transmitir ao Povo a certeza de que o Deus salvador e libertador – esse Deus que Israel descobriu na sua história – não os abandonou nem esqueceu.

Pelo conteúdo, não é possível dizer de forma clara se o texto que hoje nos é proposto como primeira leitura pertence à primeira ou à segunda fase da actividade profética de Ezequiel. Em qualquer caso, ele define – recorrendo à imagem da sentinela – a missão profética: o profeta é, entre os exilados, como uma sentinela atenta, que escuta os apelos de Deus e que avisa o Povo dos perigos que aparecem no horizonte da comunidade.

MENSAGEM

A imagem da sentinela aplicada ao profeta não é nova. Já Habacuc (cf. Hab 2,1), Isaías (cf. 21,6), Jeremias (cf. Jer 6,17) e mesmo Oseias (cf. Os 5,8) recorrem a esta figura para definir a missão profética.

O que é que significa dizer que o profeta é uma “sentinela”? A sentinela é o vigilante atento que, enquanto os outros descansam, perscruta o horizonte e procura detectar o perigo que ameaça a sua cidade, os seus concidadãos, os seus camaradas de armas. Quando pressente o perigo, tem a obrigação de dar o alarme. Dessa forma, a comunidade poderá preparar-se para enfrentar o desafio que o inimigo lhe vai colocar. Se a sentinela não vigiar ou se não der o alarme, será responsável pela catástrofe que atingiu o seu Povo.

Assim é o profeta. Ele é esse guarda que Jahwéh colocou no meio da comunidade do Povo de Deus, para perscrutar atentamente o horizonte da história e da vida do Povo e para dar o alarme sempre que a comunidade corre riscos.

Para que o profeta seja uma sentinela eficiente, ele tem de ser, simultaneamente, um homem de Deus e um homem atento ao mundo que o rodeia.

O profeta é, antes de mais, um homem que Jahwéh chamou ao seu serviço. Eleito por Jahwéh, chamado para o serviço de Jahwéh, ele vive em comunhão com Deus; e nessa intimidade que vai criando com Deus, ele descobre a vontade de Deus e aprende a discernir os projectos que Deus tem para os homens e para o mundo. Ao mesmo tempo, o profeta é um homem do seu tempo, mergulhado na realidade e nos desafios da sociedade em que está integrado; conhece o mundo e é capaz de ler, numa perspectiva crítica, os problemas, os dramas e as infidelidades dos seus contemporâneos.

Ao contemplar os planos de Deus e a vida do mundo, o profeta dá-se conta do desfasamento entre uma realidade e outra. Apercebe-se de que a realidade da vida dos homens é muito diferente dessa realidade que Deus projectou.

Diante disto, o que é que o profeta faz? Sacode a água do capote e diz que não é nada com ele? Fecha-se no seu mundo cómodo e ignora as infidelidades dos homens aos projectos de Deus? Demite-se das suas responsabilidades e não se incomoda com as escolhas erradas que os seus irmãos fazem?

Não. O profeta recebeu um mandato de Deus para alertar a comunidade para os perigos que a ameaçam. Custe o que custar, doa a quem doer, o profeta tem que dizer a todos – mesmo que os seus concidadãos não o compreendam ou recusem escutá-lo – que continuar a trilhar esses caminhos errados não pode senão conduzir à infelicidade, ao sofrimento, à morte.

O profeta/sentinela é, em última análise, um sinal vivo – mais um – do amor de Jahwéh pelo seu Povo. É Deus que o chama, que o envia em missão, que lhe dá a coragem de testemunhar, que o apoia nos momentos de crise, de desilusão e de solidão… O profeta/sentinela é a prova de que Deus, cada dia, continua a oferecer ao seu Povo caminhos de salvação e de vida. O profeta/sentinela demonstra, sem margem para dúvidas, que Deus não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão pode partir das seguintes questões:

• E hoje? Deus continua a amar o seu Povo? Continua a querer que ele se converta e viva? Continua a preocupar-Se em oferecer ao seu Povo a salvação – isto é, a possibilidade de ser feliz neste mundo e de alcançar, no final da sua caminhada nesta terra, a vida definitiva? O Deus de ontem não será o Deus de hoje e de amanhã?

• Na verdade, Ele continua a chamar, todos os dias, profetas/sentinelas que alertem o mundo e os homens. Pelo Baptismo, todos nós fomos constituídos profetas. Recebemos do nosso Deus a missão de dizer aos nossos irmãos que certos valores que o mundo cultiva e endeusa são responsáveis por muitos dos dramas que afligem os homens. Temos consciência de que recebemos de Deus uma missão profética e que essa missão nos compromete com a denúncia do que está errado no mundo e na vida dos homens?

• O que é que devemos denunciar? Tudo aquilo que contradiz os projectos de Deus. Portanto, o profeta/sentinela tem de ser alguém que vive em comunhão com Deus, que medita a Palavra de Deus, que dialoga com Deus e que, nessa intimidade, vai percebendo o que Deus quer para os homens e para o mundo. Aliás, é dessa relação forte com Deus que o profeta/sentinela tira também a coragem para falar, para denunciar, para agir. Portanto, dificilmente seremos fiéis à nossa missão profética sem um relacionamento forte com Deus. Encontro tempo para potenciar a relação com Deus, para falar com Deus, para escutar e meditar a sua Palavra?

• É preciso também que o profeta/sentinela desenvolva uma consciência crítica sobre o mundo que o rodeia. Ele tem de estar atento aos acontecimentos da vida nacional e internacional (o profeta tem de ouvir as notícias e ler o jornal!), tem de conhecer a fundo as questões que os homens debatem (senão, a sua intervenção dificilmente será levada a sério); e tem, especialmente, de aprender a ler os acontecimentos à luz de Deus e do projecto de Deus. Estou atento aos sinais dos tempos e procuro analisá-los a partir de uma perspectiva de fé?

• É preciso, finalmente, que o profeta/sentinela não se acomode no seu cantinho cómodo, demitindo-se das suas responsabilidades. Tudo o que se passa no mundo, tudo o que afecta a vida de um homem ou de uma mulher, diz respeito ao profeta. Podemos ficar calados diante das escolhas erradas que o mundo faz? O nosso silêncio não nos tornará cúmplices daqueles que destroem o mundo e que condenam ao sofrimento e à miséria tantos homens e mulheres?

 

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 94 (95)

Refrão: Hoje se escutardes a voz do Senhor,
não fecheis os vossos corações.

Vinde, exultemos de alegria no Senhor,
aclamemos a Deus, nosso Salvador.
Vamos à sua presença e dêmos graças,
ao som de cânticos aclamemos o Senhor.

Vinde, prostremo-nos em terra,
adoremos o Senhor que nos criou.
Pois Ele é o nosso Deus
e nós o seu povo, as ovelhas do seu rebanho.

Quem dera ouvísseis hoje a sua voz:
«Não endureçais os vossos corações,
como em Meriba, no dia de Massa no deserto,
onde vossos pais Me tentaram e provocaram,
apesar de terem visto as minhas obras».

 

 

LEITURA II – Rom 13,8-10

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos

Irmãos:
Não devais a ninguém coisa alguma,
a não ser o amor de uns para com os outros,
pois, quem ama o próximo, cumpre a lei.
De facto, os mandamentos que dizem:
«Não cometerás adultério, não matarás,
não furtarás, não cobiçarás»,
e todos os outros mandamentos,
resumem-se nestas palavras:
«Amarás ao próximo como a ti mesmo».
A caridade não faz mal ao próximo.
A caridade é o pleno cumprimento da lei.

AMBIENTE

Continuamos a ler a segunda parte da Carta aos Romanos (cf. Rom 12,1-15,13). Aí, Paulo mostra – em termos práticos – como devem viver aqueles que Deus chama à salvação.

Deus oferece a todos a salvação; ao homem resta acolher o dom de Deus, aderindo a Jesus e à sua proposta… Mas a adesão a Jesus implica assumir, na prática do dia a dia, atitudes coerentes com essa vida nova que o cristão acolheu no dia do seu baptismo. São essas atitudes que Paulo recomenda aos romanos (e aos crentes em geral) nesta segunda parte da carta.

No ano 49, o imperador Cláudio tinha publicado um édito que expulsava de Roma os judeus (incluindo os cristãos de origem judaica). Ora em 57/58 (quando a Carta aos Romanos foi escrita), muitos desses judeus tinham já voltado a Roma. Será que os cristãos de origem pagã, “donos” da comunidade durante bastante tempo, ostentavam a sua superioridade e manifestavam desprezo pelos cristãos de origem judaica entretanto regressados a Roma? Será que, por essa razão, havia divisões e falta de amor na comunidade de Roma? Nessas circunstâncias, Paulo teria escrito uma “carta de reconciliação”, destinada a unir uma comunidade dividida. O apelo ao amor que o nosso texto nos apresenta poderia entender-se neste contexto.

MENSAGEM

Paulo exorta os crentes de Roma a construir toda a sua vida sobre o amor. O cristianismo sem amor é uma mentira. Os cristãos não podem nunca deixar de amar os seus irmãos.

Essa exigência, contudo, nunca estará completamente realizada… Qualquer dívida pode ser liquidada de uma vez; mas o amor não: em cada instante é preciso amar e amar sempre mais. O cristão nunca poderá cruzar os braços e dizer que já ama o suficiente ou que já amou tudo: ele tem uma dívida eterna de amor para com os seus irmãos.

O amor está no centro de toda a nossa experiência religiosa. No mandamento do amor, resume-se toda a Lei e todos os preceitos. Os diversos mandamentos não passam, aliás, de especificações da exigência do amor. A ideia – aqui expressa – de que toda a Lei se resume no amor não é uma “invenção” de Paulo, mas é uma constante na tradição bíblica (cf. Mt 22,34-40).

ACTUALIZAÇÃO

Na reflexão, ter em conta os seguintes desenvolvimentos:

• Na última ceia, despedindo-se dos discípulos, Jesus resumiu desta forma a proposta que veio apresentar aos homens: “amai-vos uns aos outros como Eu vos amei” (Jo 15,12). Este não é “mais um mandamento”, mas é “o mandamento” de Jesus. Entretanto, algures durante a nossa caminhada pela história, esquecemos “o mandamento” de Jesus e distraímo-nos com questões secundárias… Preocupamo-nos em discutir ritos litúrgicos, problemas de organização e de autoridade, códigos de leis, questões de disciplina… e esquecemos “o mandamento” do amor. Já é tempo de voltarmos ao essencial. O cristão é aquele que, como Cristo, ama sem cálculo, sem contrapartidas, sem limite, sem medida. Na nossa experiência cristã, só o amor é essencial; tudo o resto é secundário.

• As nossas comunidades cristãs, a exemplo da primitiva comunidade cristã de Jerusalém, deviam ser comunidades fraternas onde se notam as marcas do amor. Os que estão de fora deviam olhar para nós e dizer: “eles são diferentes, são uma mais valia para o mundo, porque amam mais do que os outros”. É isso que acontece? Quem contempla as nossas comunidades, descobre as marcas do amor, ou as marcas da insensibilidade, do egoísmo, do confronto, do ciúme, da inveja? Os estrangeiros, os doentes, os necessitados, os débeis, os marginalizados são acolhidos nas nossas comunidades com solicitude e amor?

• É importante sentirmos que a nossa dívida de amor nunca está paga. Podemos, todos os dias, realizar gestos de partilha, de serviço, de acolhimento, de reconciliação, de perdão… mas é preciso, neste campo, ir sempre mais além. Há sempre mais um irmão que é preciso amar e acolher; há sempre mais um gesto de solidariedade que é preciso fazer; há sempre mais um sorriso que podemos partilhar; há sempre mais uma palavra de esperança que podemos oferecer a alguém. Sobretudo, é preciso que sintamos que a nossa caminhada de amor nunca está concluída.

 

 

ALELUIA – 2Cor 5,19

Aleluia. Aleluia.

Em Cristo, Deus reconcilia o mundo consigo
e confiou-nos a palavra da reconciliação.

 

 

EVANGELHO – Mt 18,15-20

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Se o teu irmão te ofender,
vai ter com ele e repreende-o a sós.
Se te escutar, terás ganho o teu irmão.
Se não te escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas,
para que toda a questão fique resolvida
pela palavra de duas ou três testemunhas.
Mas se ele não lhes der ouvidos, comunica o caso à Igreja;
e se também não der ouvidos à Igreja,
considera-o como um pagão ou um publicano.
Em verdade vos digo:
Tudo o que ligardes na terra será ligado no Céu;
e tudo o que desligardes na terra será desligado no Céu.
Digo-vos ainda:
Se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa,
ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos Céus.
Na verdade, onde estão dois ou três reunidos em meu nome,
Eu estou no meio deles».

AMBIENTE

O capítulo 18 do Evangelho de Mateus é conhecido como o “discurso eclesial”. Apresenta uma catequese de Jesus sobre a experiência de caminhada em comunidade. Aqui, Mateus ampliou de forma significativa algumas instruções apresentadas por Marcos sobre a vida comunitária (cf. Mc 9,33-37. 42-47) e compôs, com esses materiais, um dos cinco grandes discursos que o seu Evangelho nos apresenta. Os destinatários desta “instrução” são os discípulos e, através deles, a comunidade a que o Evangelho de Mateus se dirige.

A comunidade de Mateus é uma comunidade “normal” – isto é, é uma comunidade parecida com qualquer uma das que nós conhecemos. Nessa comunidade existem tensões entre os diversos grupos e problemas de convivência: há irmãos que se julgam superiores aos outros e que querem ocupar os primeiros lugares; há irmãos que tomam atitudes prepotentes e que escandalizam os pobres e os débeis; há irmãos que magoam e ofendem outros membros da comunidade; há irmãos que têm dificuldade em perdoar as falhas e os erros dos outros… Para responder a este quadro, Mateus elaborou uma exortação que convida à simplicidade e humildade, ao acolhimento dos pequenos, dos pobres e dos excluídos, ao perdão e ao amor. Ele desenha, assim, um “modelo” de comunidade para os cristãos de todos os tempos: a comunidade de Jesus tem de ser uma família de irmãos, que vive em harmonia, que dá atenção aos pequenos e aos débeis, que escuta os apelos e os conselhos do Pai e que vive no amor.

MENSAGEM

O fragmento do “discurso eclesial” que nos é hoje proposto refere-se, especialmente, ao modo de proceder para com o irmão que errou e que provocou conflitos no seio da comunidade. Como é que os irmãos da comunidade devem proceder, nessa situação? Devem condenar, sem mais, e marginalizar o infractor?

Não. Neste quadro, as decisões radicais e fundamentalistas raramente são cristãs. É preciso tratar o problema com bom senso, com maturidade, com equilíbrio, com tolerância e, acima de tudo, com amor. Mateus propõe um caminho em várias etapas…
Em primeiro lugar, Mateus propõe um encontro com esse irmão, em privado, e que se fale com ele cara a cara sobre o problema (vers. 15). O caminho correcto não passa, decididamente, por dizer mal “por trás”, por publicitar a falta, por criticar publicamente (ainda que não se invente nada), e muito menos por espalhar boatos, por caluniar, por difamar. O caminho correcto passa pelo confronto pessoal, leal, honesto, sereno, compreensivo e tolerante com o irmão em causa.

Se esse encontro não resultar, Mateus propõe uma segunda tentativa. Essa nova tentativa implica o recurso a outros irmãos (“toma contigo uma ou duas pessoas” – diz Mateus – vers. 16) que, com serenidade, sensibilidade e bom senso, sejam capazes de fazer o infractor perceber o sem sentido do seu comportamento.

Se também essa tentativa falhar, resta o recurso à comunidade. A comunidade será então chamada a confrontar o infractor, a recordar-lhe as exigências do caminho cristão e a pedir-lhe uma decisão (vers. 16a).

No caso de o infractor se obstinar no seu comportamento errado, a comunidade terá que reconhecer, com dor, a situação em que esse irmão se colocou a si próprio; e terá de aceitar que esse comportamento o colocou à margem da comunidade. Mateus acrescenta que, nesse caso, o faltoso será considerado como “um pagão ou um cobrador de impostos” (vers. 17b). Isto significa que os pagãos e os cobradores de impostos não têm lugar na comunidade de Mateus? Não. Ao usar este exemplo, o autor deste texto não pretende referir-se a indivíduos, mas a situações. Trata-se de imagens tipicamente judaicas para falar de pessoas que estão instaladas em situações de erro, que se obstinam no seu mau proceder e que recusam todas as oportunidades de integrar a comunidade da salvação.

A Igreja tem o direito de expulsar os pecadores? Mateus não sugere aqui, com certeza, que a Igreja possa excluir da comunhão qualquer irmão que errou. Na realidade, a Igreja é uma realidade divina e humana, onde coexistem a santidade e o pecado. O que Mateus aqui sugere é que a Igreja tem de tom ar posição quando algum dos seus membros, de forma consciente e obstinada, recusa a proposta do Reino e realiza actos que estão frontalmente contra as propostas que Cristo veio trazer. Nesse caso, contudo, nem é a Igreja que exclui o prevaricador: ele é que, pelas suas opções, se coloca decididamente à margem da comunidade. A Igreja tem, no entanto, que constatar o facto e agir em consequência.

Depois desta instrução sobre a correcção fraterna, Mateus acrescenta três “ditos” de Jesus (cf. Mt 18,18-20) que, originalmente, seriam independentes da temática precedente, mas que Mateus encaixou neste contexto.

O primeiro (vers. 18) refere-se ao poder, conferido à comunidade, de “ligar” e “desligar”. Entre os judeus, a expressão designava o poder para interpretar a Lei com autoridade, para declarar o que era ou não permitido e para excluir ou reintroduzir alguém na comunidade do Povo de Deus; aqui, significa que a comunidade (algum tempo antes – cf. Mt 16,19 – Jesus dissera estas mesmas palavras a Pedro; mas aí Pedro representava a totalidade da comunidade dos discípulos) tem o poder para interpretar as palavras de Jesus, para acolher aqueles que aceitam as suas propostas e para excluir aqueles que não estão dispostos a seguir o caminho que Jesus propôs.

O segundo (vers. 19) sugere que as decisões graves para a vida da comunidade devem ser tomadas em clima de oração. Assegura aos discípulos, reunidos em oração, que o Pai os escutará.

O terceiro (vers. 20) garante aos discípulos a presença de Jesus “no meio” da comunidade. Neste contexto, sugere que as tentativas de correcção e de reconciliação entre irmãos, no seio da comunidade, terão o apoio e a assistência de Jesus.

ACTUALIZAÇÃO

Na reflexão e partilha, considerar as seguintes questões:

• A palavra “tolerância” é uma palavra profundamente cristã, que sugere o respeito pelo outro, pelas suas diferenças, até pelos seus erros e falhas. No entanto, o que significa “tolerância”? Significa que cada um pode fazer o mal ou o bem que quiser, sem que tal nos diga minimamente respeito? Implica recusarmo-nos a intervir quando alguém toma atitudes que atentam contra a vida, a liberdade, a dignidade, os direitos dos outros? Quer dizer que devemos ficar indiferentes quando alguém assume comportamentos de risco, porque ele “é maior e vacinado” e nós não temos nada com isso? Quais são as fronteiras da “tolerância”? Diante de alguém que se obstina no erro, que destrói a sua vida e a dos outros, devemos ficar de braços cruzados? Até que ponto vai a nossa responsabilidade para com os irmãos que nos rodeiam? A “tolerância” não será, tantas vezes, uma desculpa que serve para disfarçar a indiferença, a demissão das responsabilidades, o comodismo?

• O Evangelho deste domingo sugere a nossa responsabilidade em ajudar cada irmão a tomar consciência dos seus erros. Convida-nos a respeitar o nosso irmão, mas a não pactuar com as atitudes erradas que ele possa assumir. Amar alguém é não ficar indiferente quando ele está a fazer mal a si próprio; por isso, amar significa, muitas vezes, corrigir, admoestar, questionar, discordar, interpelar… É preciso amar muito e respeitar muito o outro, para correr o risco de não concordar com ele, de lhe fazer observações que o vão magoar; no entanto, trata-se de uma exigência que resulta do mandamento do amor…

• Que atitude tomar em relação a quem erra? Como proceder? Antes de mais, é preciso evitar publicitar os erros e as falhas dos outros. O denunciar publicamente o erro do irmão, pode significar destruir-lhe a credibilidade e o bom-nome, a paz e a tranquilidade, as relações familiares e a confiança dos amigos. Fazer com que alguém seja julgado na praça pública – seja ou não culpado – é condená-lo antecipadamente, é não dar-lhe a possibilidade de se defender e de se explicar, é restringir-lhe o direito de apelar à misericórdia e à capacidade de perdão dos outros irmãos. Humilhar o irmão publicamente é, sobretudo, uma grave falta contra o amor. É por isso que o Evangelho de hoje convida a ir ao encontro do irmão que falhou e a repreendê-lo a sós…

• Sobretudo, é preciso que a nossa intervenção junto do nosso irmão não seja guiada pelo ódio, pela vingança, pelo ciúme, pela inveja, mas seja guiada pelo amor. A lógica de Deus não é a condenação do pecador, mas a sua conversão; e essa lógica devia estar sempre presente, quando nos confrontamos com os irmãos que falharam. O que é que nos leva, por vezes, a agir e a confrontar os nossos irmãos com os seus erros: o orgulho ferido, a vontade de humilhar aquele que nos magoou, a má vontade, ou o amor e a vontade de ver o irmão reencontrar a felicidade e a paz?

• A Igreja tem o direito e o dever de pronunciar palavras de denúncia e de condenação, diante de actos que afectam gravemente o bem comum… No entanto, deve distinguir claramente entre a pessoa e os seus actos errados. As acções erradas devem ser condenadas; os que cometeram essas acções devem ser vistos como irmãos, a quem se ama, a quem se acolhe e a quem se dá sempre outra oportunidade de acolher as propostas de Jesus e de integrar a comunidade do Reino.

Dehonianos

 

 

TRATA-O COMO UM PAGÃO OU UM PUBLICANO!

 

1. Em Março de 1947, o beduíno Muhammed ed-Dib, da tribo dos pastores beduínos Taʼamireh, descobriu nas onze grutas situadas junto do Mar Morto os célebres manuscritos da comunidade essénia de Qumran, que ali tinha vivido entre os séculos II a. C. e I d. C. A partir do seu conteúdo, um desses manuscritos acabou por receber o título de Regra da Comunidade ou Manual de Disciplina. Tratava-se de uma espécie de «regra monástica», e destinava-se a orientar a vida interna daquela comunidade, contendo também uma série de sanções com que eram penalizados os membros transgressores.

2. Um dos Capítulos desta Regra é dedicado à correção fraterna, e diz assim: «Corrijam-se mutuamente com verdade, humildade e bondade. Ninguém fale ao seu irmão com ira, resmungando e com maldade, mas advirta-o no mesmo dia em que comete a falta, para não carregar ele mesmo com a culpa. Ninguém advirta o seu próximo diante de todos, se primeiro não o fez perante algumas testemunhas» (V,24-26; VI,1).

3. Convenhamos que se trata de medidas de grande elevação, dignas de serem ainda hoje tidas em consideração. Esta viagem a Khirbet Qumran e à Regra de vida da comunidade judaica que aí viveu, vem a propósito do Evangelho deste Domingo XXIII do Tempo Comum, em que nos é dada a graça de escutar um bocadinho do chamado Discurso Eclesial de Mateus, que ocupa todo o seu Capítulo 18. Hoje ouviremos apenas Mateus 18,15-20. No próximo Domingo, ouviremos a parte que resta desse Capítulo, exatamente Mateus 18,21-35.

4. Tendo em conta o teor da Regra da Comunidade de Qumran e o teor do Discurso Eclesial de Mateus (Mateus 18), tem sido este Discurso muitas vezes visto como A Regra da Comunidade Cristã. No bocadinho que hoje nos cabe escutar, aí está, à semelhança de Qumran, a prática da correção fraterna ou promoção fraterna, a levar por diante de forma gradativa e sempre com o perdão no coração e no horizonte. Primeiro, tu a tu, a quatro olhos, dois corações. Depois, com o recurso a testemunhas. Finalmente, na assembleia, sempre multiplicando os olhos e os corações. Entenda-se: multiplicando sempre a atenção e o amor.

5. Subjaz ao itinerário proposto, que tem de ser sempre o amor fraterno a mover esta importante prática eclesial, e não aquele subtil sentimento que tantas vezes se apodera de nós, levando-nos a pensar que somos melhores ou superiores ao nosso irmão que erra. Contra este pretensiosismo, lá está a clave de abertura deste Discurso Eclesial, com os discípulos de Jesus – connosco, portanto – a entreterem-se com a questão inútil de quem é o maior (Mateus 18,1), e com a paradigmática resposta de Jesus, chamando uma criança e dando-lhe o lugar do meio (Mateus 18,2). E não esqueçamos também que só podemos abeirar-nos de alguém para o advertir, tendo nós o nosso olhar límpido e puro. É fulgurante, a este propósito, a advertência de Jesus num outro importante Discurso no Evangelho de Mateus, o Discurso ou Sermão da Montanha: «Como podes dizer ao teu irmão: deixa-me tirar o argueiro do teu olho, se no teu há uma trave? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e depois verás bem para tirar o argueiro do olho do teu irmão» (Mateus 7,4-5). Como é importante que este dizer de Jesus esteja sempre a retinir no nosso coração! E não esqueçamos também que a criança no meio (Mateus 18,2) é Jesus no meio (Mateus 18,20).

6. Talvez fiquemos satisfeitos e tranquilos, e até, se calhar, cheios de razão, com a declaração final deste itinerário de correção ou de promoção: «Seja para ti como um pagão ou um publicano!» (Mateus 18,17). Mas é, talvez, exatamente aqui que se esconde a carga mais explosiva do Evangelho e se abre o seu horizonte mais amplo! Ou não é verdade que o próprio Jesus se tornou companheiro de viagem e de mesa de publicanos e de pecadores, Ele que veio curar, não os que têm saúde, mas os doentes (Mateus 9,12; cf. Lucas 5,31-32).

7. Uma última e imensa consideração. Não é o texto deste Domingo um exclusivo do Evangelho de Mateus? E não era Mateus um publicano? E não se abeirou dele um dia Jesus, quando Mateus, o publicano, estava sentado no seu telónio, um pouco a norte de Cafarnaum, cobrando impostos e ouvindo insultos dos seus concidadãos? Os insultos não demoveram Mateus. Mas Jesus aproximou-se, cravou nos dois olhos tristes e cansados de Mateus os seus dois olhos repletos de amor, e disse-lhe: «Segue-me!» (Mateus 9,9). Mateus levantou-se e seguiu Jesus, e foi fazer uma grande festa para celebrar esta página nova e bela que Jesus abriu na sua vida triste e cansada. Sim, este episódio é exclusivo de Mateus, porque traduz a coisa mais bela e irresistível que aconteceu na sua vida: aquele olhar bom e belo de Jesus que fez Mateus levantar-se do lodaçal e perceber o poder da lógica do amor e do perdão. E de saber bem que é Jesus que está no meio!

8. Portanto, aquele «seja para ti como um pagão ou um publicano!» não significa que se pode pôr um ponto final no trabalho do perdão e do amor devido a um irmão, e ficar com a consciência tranquila. Este «seja par ti como um pagão ou um publicano» é virar a página da análise fria e da metodologia social profissional em curso, e começar tudo de novo, absolutamente de novo, à maneira absolutamente nova de Jesus. A não ser assim, também já podemos antecipar que o nosso ponto final posto ao trabalho do perdão esbarraria logo a seguir com a lógica do «setenta vezes sete» de Jesus para Pedro (Mateus 18,21-22) e do Senhor da história seguinte, que é Deus, que, de uma assentada, perdoa a um pobre servo a módica quantia de mais coisa menos coisa como o equivalente a 174 toneladas de ouro! (Mateus 18,23-27). Note-se também que os três episódios são exclusivos de Mateus, e veja-se o quão importante é termos feito um dia a experiência do perdão!

9. Em plena e boa sintonia, a profecia de Ezequiel (33,7-9) lembra-nos a nossa condição de sentinelas atentas e ativas, sensíveis, sempre sintonizadas em Hi-Fi, velando para que não se desperdice a força performativa da Palavra de Deus. Leia-se, em contraponto, a advertência fortíssima de Isaías: «Todas as sentinelas são cegas: não entendem; todas como cães mudos: incapazes de ladrar; sonham, ficam deitadas, gostam de dormir» (Isaías 56,10).

10. E sempre na mesma boa sintonia, desafia-nos S. Paulo (Romanos 13,8-10) a termos sempre boa consciência para sabermos que temos uns para com os outros uma bela dívida a pagar todos os dias: o amor mútuo. Trata-se de uma dívida de que não podemos fugir, pois não nos é permitido declarar insolvência!

11. Sim, não nos é permitido declarar insolvência ou adormecer ou entorpecer, de modo a ficarmos inativos, infecundos, insensíveis, tipo «tanto faz!». O Salmo 95, que hoje cantamos, e que é, para os judeus fiéis, a oração de ingresso ou de entrada no sábado (reza-se sexta-feira ao pôr-do-sol), e para nós, cristãos, é o Salmo invitatório recitado todas as manhãs, é o mais quotidiano dos Salmos. E deve ser um permanente despertador para não nos deixarmos andar ao sabor de qualquer música, mas apenas e sempre ao sabor da música de Deus. Sim, não é tempo de nos instalarmos aqui, em qualquer «aqui». É necessário levar a todos os lugares e a todas as pessoas este vendaval manso de graça e de bondade e de fé que um dia Jesus ensinou e todos os dias mostrou aos seus discípulos.

António Couto

 

 

O Canto na Liturgia

 

Antífona de Entrada

Como sois justo, Senhor – F. Santos (BML 57)

Fiel e justo é o Senhor – M. Luís (CAC, p. 340)

 

Salmo Responsorial

Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações (sl 94) – C. Silva
                 
Escutai hoje a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações (sl 94) – F. Santos
                 
Hoje se escutardes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações (sl 94) – M. Luís
                  
Hoje escutai a voz do Senhor, não fecheis o vosso coração (sl 94) – Az. Oliveira

Hoje se escutardes a voz do Senhor, não fecheis o vosso coração (sl 94) – Az. Oliveira
              
Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis o vosso coração (sl 94) – Az. Oliveira
                 

 

Antífona da Comunhão

Como suspira o veado  –  F. Lapa

Como o veado anseia – M. Carneiro

Como o veado anseia – M. Luís

Como o veado em busca das águas  –  B. Salgado / M. Simões

Eu sou a luz do mundo – J. Santos

Eu sou a luz do mundo – M. Carneiro

Eu sou o Pão da vida – B. Sousa

Se alguém quiser seguir-Me – C. Silva

Se alguém quiser seguir-Me – F. Borda

Se alguém quer vir após Mim – M. Luís

Quem quiser vir após de Mim – B. Sousa

 

Outros cânticos para o Domingo XXIII do Tempo Comum

Vós sois justo, Senhor – F. Valente

Tudo o que pedirdes – C. Silva

Tudo o que me pedirdes – J. A. Nunes

 

 

Domingo XXII do Tempo Comum – Ano A

Tema do 22º Domingo do Tempo Comum

A liturgia do 22º Domingo do Tempo Comum convida-nos a descobrir a “loucura da cruz”: o acesso a essa vida verdadeira e plena que Deus nos quer oferecer passa pelo caminho do amor e do dom da vida (cruz).

Na primeira leitura, um profeta de Israel (Jeremias) descreve a sua experiência de “cruz”. Seduzido por Jahwéh, Jeremias colocou toda a sua vida ao serviço de Deus e dos seus projectos. Nesse “caminho”, ele teve que enfrentar os poderosos e pôr em causa a lógica do mundo; por isso, conheceu o sofrimento, a solidão, a perseguição… É essa a experiência de todos aqueles que acolhem a Palavra de Jahwéh no seu coração e vivem em coerência com os valores de Deus.

A segunda leitura convida os cristãos a oferecerem toda a sua existência de cada dia a Deus. Paulo garante que é esse o sacrifício que Deus prefere. O que é que significa oferecer a Deus toda a existência? Significa, de acordo com Paulo, não nos conformarmos com a lógica do mundo, aprendermos a discernir os planos de Deus e a viver em consequência.

No Evangelho, Jesus avisa os discípulos de que o caminho da vida verdadeira não passa pelos triunfos e êxitos humanos, mas passa pelo amor e pelo dom da vida (até à morte, se for necessário). Jesus vai percorrer esse caminho; e quem quiser ser seu discípulo tem de aceitar percorrer um caminho semelhante.

 

LEITURA I – Jer 20,7-9

Leitura da Profecia de Jeremias

Vós me seduzistes, Senhor, e eu deixei-me seduzir;
Vós me dominastes e vencestes.
Em todo o tempo sou objecto de escárnio,
toda a gente se ri de mim;
porque sempre que falo é para gritar e proclamar:
«Violência e ruína!»
E a palavra do Senhor tornou-se para mim
ocasião permanente de insultos e zombarias.
Então eu disse:
«Não voltarei a falar n’Ele,
não falarei mais em seu nome».
Mas havia no meu coração um fogo ardente,
comprimido dentro dos meus ossos.
Procurava contê-lo, mas não podia.

AMBIENTE

Jeremias nasceu em Anatot (a norte de Jerusalém), por volta de 650 a.C. Ainda novo (por volta de 627/626 a.C.), sentiu que Deus o chamava a ser profeta. A actividade profética de Jeremias prolongou-se até depois da destruição de Jerusalém pelos babilónios (586 a.C.). O cenário da actividade do profeta foi, em geral, o reino de Judá (e, sobretudo, a cidade de Jerusalém).

Jeremias viveu numa época histórica bastante conturbada. Foi um período de grande instabilidade, de injustiças sociais gritantes, de infidelidade religiosa. Quer Joaquim (609-597 a.C.) quer Sedecias (597-586 a.C.) foram reis fracos, incapazes de responder com êxito às exigências da conjuntura internacional e de manter uma política de neutralidade em relação às grandes potências da época (sobretudo o Egipto e a Babilónia). Jeremias – convencido de que Judá estava a ser infiel a Deus ao deixar de confiar em Jahwéh e ao colocar a sua segurança e a sua esperança nas mãos dos povos estrangeiros – criticou duramente os líderes do Povo e anunciou uma invasão estrangeira, destinada a castigar os pecados de Judá.

A pregação de Jeremias não foi, no entanto, apreciada pelo Povo e pelos líderes. Considerado um “profeta da desgraça”, Jeremias apenas conseguiu criar o vazio à sua volta e viu os amigos, os familiares, os conhecidos voltarem-lhe as costas. Conheceu a solidão, o abandono, a maledicência… Acusado de traição e encarcerado (cf. Jer 37,11-16), o profeta chegou a correr perigo de vida (cf. Jer. 38,11-13).

Jeremias é o paradigma dos profetas que sofreram por causa da sua missão. De natureza sensível e cordial, homem de paz, Jeremias não foi feito para o confronto, para a violência das palavras ou dos gestos; mas Jahwéh chamou-o para “arrancar e destruir, para exterminar e demolir” (Jer 1,10), para predizer desgraças e anunciar destruição e morte (cf. Jer 20,8). Como consequência, foi continuamente objecto de desprezo e de irrisão e todos o maldiziam e se afastavam mal ele abria a boca. E esse homem bom, sensível e delicado sofria terrivelmente pelo abandono e pela solidão a que a missão profética o condenava.

Jeremias estava, verdadeiramente, apaixonado pela Palavra de Jahwéh e sabia que não teria descanso se não a proclamasse com fidelidade. Mas, nos momentos mais negros de solidão e de frustração, o profeta deixou, algumas vezes, que a amargura que lhe ia no coração lhe subisse à boca e se transformasse em palavras. Então, dirigia-se a Deus e censurava-O asperamente por causa dos problemas que a missão lhe trazia.

No Livro de Jeremias aparecem, a par e passo, queixas e lamentos do profeta, condenado a essa vida de aparente fracasso. Alguns desses textos são conhecidos como “confissões de Jeremias” e são verdadeiros desabafos em que o profeta expõe a Jahwéh, com sinceridade e rebeldia, a sua desilusão, a sua amargura e a sua frustração (cf. Jer 11, 18-23; 12,1-6; 15,10.15-20; 17,14-18; 18,18-23; 20,7-18). O texto que hoje nos é proposto faz parte de uma dessas “confissões”.

MENSAGEM

O texto apresenta-nos uma desconcertante oração de Jeremias num momento dramático de desilusão e de desânimo (quando, preso pelos ministros de Sedecias e atirado para uma cisterna, se afundava no lodo? – cf. Jer 38,4-6).

Esta estranha oração adopta a forma de denúncia ou de acusação do profeta ao seu Deus. Essa acusação é formulada através da imagem da “sedução”: é como se Jahwéh tivesse namorado o profeta até ao ponto de o seduzir (o verbo “pth”, aqui utilizado, aparece em Ex 22,15 para falar da sedução de uma jovem solteira). Deus insinuou-Se na vida do profeta, pressionou-o, subjugou-o, dominou-o e o profeta não soube como resistir às investidas de Deus (o verbo “ykl”, utilizado no vers. 7 para definir a forma como Deus actuou em relação ao profeta, significa “exercer o poder”, “prevalecer sobre alguém”, “dominar”). O profeta, embalado pelas promessas desse Deus sedutor, incapaz de resistir ao seu “charme” e aos seus jogos de sedução, pressionado, dominado, violentado, entregou-se completamente nas suas mãos e dedicou toda a vida ao seu serviço.

O que é que o profeta ganhou com essa entrega? Nada. Esse Deus que o seduziu, que o forçou a dedicar a vida ao serviço profético, abandonou-o miseravelmente e deixou-o entregue aos insultos e às zombarias dos seus adversários. O profeta está desiludido e decepcionado… Essa desilusão irrompe em resolução firme de resistir à voz do sedutor: “não voltarei a falar nele, não falarei mais em seu nome” (vers. 9). Conseguirá o profeta levar até ao fim o seu propósito?

Não. O amor por Deus e pela sua Palavra está tão vivo no coração do profeta que é inútil resistir: “procurava contê-lo, mas não podia” (vers. 9). A Palavra de Deus é um fogo devorador, que consome o coração do profeta e que não o deixa demitir-se da missão e esconder-se numa vida cómoda e instalada. Ao profeta resta, portanto, continuar ao serviço da Palavra, enfrentando o seu destino de solidão e de sofrimento, na esperança de, ao longo da caminhada, reencontrar esse amor de Deus que um dia o seduziu e ao qual o profeta nunca saberá renunciar.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão pode fazer-se, considerando as seguintes questões:

  • A história de Jeremias é, em termos gerais, a história de todos aqueles que Deus chama a ser profetas. Ser sinal de Deus e dos seus valores significa enfrentar a injustiça, a opressão, o pecado e, portanto, pôr em causa os interesses egoístas e os esquemas sobre os quais, tantas vezes, se constrói a história do mundo; por isso, o “caminho profético” é um caminho onde se lida, permanentemente, com a incompreensão, com a solidão, com o risco. Deus nunca prometeu a nenhum profeta um caminho fácil de glórias e de triunfos humanos. Temos consciência disso e estamos dispostos a seguir esse caminho?
  • No baptismo, fomos ungidos como “profetas”, à imagem de Cristo. Estamos conscientes dessa vocação a que Deus, a todos, nos convocou? Temos a noção de que somos a “boca” através da qual a Palavra de Deus ressoa no mundo e se dirige aos homens?
  • Neste texto – e, em geral, em toda a vida de Jeremias – impressiona-nos o espaço fundamental que a Palavra de Deus ocupa na vida do profeta. Ela tomou conta do seu coração e dominou-o totalmente. É uma “paixão” que – apesar de ter trazido ao profeta uma história pessoal de sofrimento e de risco – não pode ser calada e sufocada. Que espaço ocupa a Palavra de Deus ocupa na minha vida? Amo, de forma apaixonada, a Palavra de Deus? Estou disposto a correr todos os riscos para que a Palavra de Deus alcance a vida dos meus irmãos e renove o mundo?
  • O lamento de Jeremias não deve escandalizar-nos; mas deve ser entendido no contexto de uma situação trágica de sofrimento intolerável. É o grito de um coração humano dolorido, marcado pela incompreensão dos que o rodeiam, pelo abandono, pela solidão e pelo aparente fracasso da missão a que devotou a sua vida. É o mesmo lamento de tantos homens e mulheres, em tantos momentos dramáticos de solidão, de sofrimento, de incompreensão, de dor. É a expressão da nossa finitude, da nossa fragilidade, das nossas limitações, da nossa humanidade. É precisamente nessas situações que nos dirigimos a Deus (às vezes até com expressões menos próprias) e Lhe dizemos a falta que Ele nos faz e o quanto a nossa vida é vazia e sem sentido se Ele não nos estender a sua mão. Esses momentos não são, propriamente, momentos negativos da nossa caminhada de fé e de relação com Deus; mas são momentos (talvez necessários) de crescimento e de amadurecimento, em que experimentamos a nossa fragilidade e descobrimos que, sem Deus e sem o seu amor, a nossa vida não faz sentido.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 62 (63)

Refrão: A minha alma tem sede de Vós, meu Deus.

Senhor, sois o meu Deus: desde a aurora Vos procuro.
A minha alma tem sede de Vós.
Por Vós suspiro,
como terra árida, sequiosa, sem água.

Quero contemplar-Vos no santuário,
para ver o vosso poder e a vossa glória.
A vossa graça vale mais do que a vida;
por isso, os meus lábios hão-de cantar-Vos louvores.

Assim Vos bendirei toda a minha vida
e em vosso louvor levantarei as mãos.
Serei saciado com saborosos manjares,
e com vozes de júbilo Vos louvarei.

Porque Vos tornastes o meu refúgio,
exulto à sombra das vossas asas.
Unido a Vós estou, Senhor,
a vossa mão me serve de amparo.

 

LEITURA II – Rom 12,1-2

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos

Peço-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus,
que vos ofereçais a vós mesmos
como vítima santa, viva, agradável a Deus,
como culto racional.
Não vos conformeis com este mundo,
mas transformai-vos,
pela renovação espiritual da vossa mente,
para saberdes discernir, segundo a vontade de Deus,
o que é bom,
o que Lhe é agradável,
o que é perfeito.

AMBIENTE

Depois de apresentar a sua catequese sobre o projecto de salvação que Deus tem para todos os homens (cf. Rom 1,18-11,36), Paulo vai descer a considerações de carácter mais prático, destinadas a mostrar como deve viver aquele que é chamado à salvação.

Essas indicações práticas aparecem na segunda parte da Carta aos Romanos (cf. Rom 12,1-15,13). Aí Paulo apresenta um longo discurso exortativo, no qual convida os romanos (e os crentes em geral) a comportar-se de acordo com as exigências da sua condição de baptizados. Aderir a Cristo e acolher a salvação que Ele veio oferecer não significa ficar no simples campo das verdades teóricas e abstractas (por muito bonitas e profundas que elas possam ser), mas exige um comportamento coerente com os valores de Jesus e com a vida nova que Ele oferece. A adesão a Jesus implica assumir atitudes, nos vários momentos e situações da vida diária, que sejam a expressão existencial desse dinamismo de vida nova que resulta do baptismo.

O texto que hoje nos é proposto é a introdução à segunda parte da Carta e a esta reflexão prática sobre as exigências do caminho cristão. Apresentam-se como uma espécie de ponte entre a parte teórica (primeira parte da carta) e a parte prática (segunda parte da carta).

MENSAGEM

A bondade e o amor de Deus (de que Paulo tratou abundantemente nos capítulos anteriores) convida a uma resposta do homem. Como é que deve ser essa resposta?

Paulo convida os crentes a oferecerem-se a si mesmos (literalmente “os vossos corpos”. “Corpo” não designa, aqui, essa entidade distinta da alma, mas a pessoa na sua totalidade, enquanto ser em relação. É o homem enquanto ser que se relaciona com Deus, com os outros homens e com o mundo). Os cristãos são aqueles que se entregam completamente nas mãos de Deus e que, em todos os instantes da sua existência, vivem para Deus.

Essa oferta será um “sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”. É esse “culto espiritual” (pode traduzir-se também como “culto lógico” ou “culto razoável”) que Deus espera do homem. O adjectivo utilizado por Paulo para referir-se ao culto é utilizado em contextos análogos, tanto por autores judeus como por autores gregos, para marcar a diferença entre um culto formal e exterior, que não compromete o homem e o culto verdadeiro, que brota do coração e que compromete o homem inteiro (cf. Am 5,21-25; Os 6,6; Jo 4,23-24). Os crentes devem, portanto, oferecer inteiramente as suas vidas a Deus; e é esse o culto que Deus espera desses sobre quem derrama a sua misericórdia e a quem oferece a salvação.

Na perspectiva de Paulo, o que é que significa o homem oferecer inteiramente a sua vida a Deus?

Significa, em primeiro lugar, não se conformar com “este mundo” – isto é, manter uma distância crítica em relação aos esquemas do mundo e aos valores sobre os quais este mundo de egoísmo e de pecado se constrói. Significa, em segundo lugar, uma mudança de coração, de mentalidade e de inteligência, que possibilite ao homem discernir qual é a vontade de Deus, a fim de poder percorrer, com fidelidade, os seus caminhos.

O “culto espiritual” de que Paulo fala é, portanto, a entrega a Deus da totalidade da vida do homem. Na sua relação com Deus, com os outros homens e com o mundo, o cristão deve renunciar aos caminhos do egoísmo, do orgulho, da auto-suficiência, da injustiça e do pecado; e deve procurar conhecer os projectos de Deus, acolhê-los no coração e viver em coerência total com as suas propostas.

ACTUALIZAÇÃO

Na reflexão, considerar os seguintes elementos:

  • Como é que o crente deve responder aos dons de Deus? Com actos rituais solenes e formais, com orações ou gestos tradicionais repetidos de forma mecânica, com a oferta de uma “esmola” para os cofres da Igreja, com uma peregrinação a um santuário? Paulo responde: o culto que Deus quer é a nossa vida, vivida no amor, no serviço, na doação, na entrega a Deus e aos irmãos. Respondemos ao amor de Deus entregando-nos nas suas mãos, tentando perceber as suas propostas, vivendo na fidelidade aos seus projectos. Como é o culto que eu procuro prestar a Deus: é um somatório de gestos mecânicos, rituais e externos, ou é uma vida de entrega e de amor a Deus e aos homens meus irmãos?
  • “Não vos conformeis com este mundo” – pede Paulo. O cristão é alguém que não pactua com um mundo que se constrói à margem ou contra os valores de Deus. O cristão não pode pactuar com a violência como meio para resolver os problemas, nem com a lógica materialista do sucesso a qualquer custo, nem com as leis do neo-liberalismo que deixam atrás uma multidão de vencidos e de sofredores, nem com as exigências de uma globalização que favorece alguns privilegiados mas aumenta as bolsas de miséria e de exclusão, nem com a forma de organização de uma sociedade que condena à solidão os velhos e os doentes… Eu sou um comodista, egoisticamente instalado no meu cantinho a devorar a minha pequena fatia de felicidade, ou sou alguém que não se conforma e que luta para que os projectos de Deus se concretizem?
  • “Transformai-vos pela renovação espiritual da vossa mente” – diz Paulo. Estou instalado nos meus preconceitos, nas minhas certezas e seguranças, nos meus princípios imutáveis, ou estou sempre numa permanente escuta de Deus, dos seus caminhos, dos seus projectos e propostas?

 

ALELUIA – cf. Ef 1,17-18

Aleluia. Aleluia.

Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo,
ilumine os olhos do nosso coração,
para sabermos a que esperança fomos chamados.

 

EVANGELHO – Mt 16,21-27

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus começou a explicar aos seus discípulos
que tinha de ir a Jerusalém
e sofrer da parte dos anciãos,
dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas;
que tinha de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia.
Pedro, tomando-O à parte,
começou a contestá-l’O, dizendo:
«Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há-de acontecer!»
Jesus voltou-Se para Pedro e disse-he:
«Vai-te daqui, Satanás.
Tu és para mim uma ocasião de escândalo,
pois não tens em vista as coisas de Deus, mas dos homens».
Jesus disse então aos seus discípulos:
«Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo,
tome a sua cruz e siga-Me.
Porque, quem quiser salvar a sua vida há-de perdê-la;
mas quem perder a sua vida por minha causa,
há-de encontrá-la.
Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro,
se perder a sua vida?
O Filho do homem há-de vir na glória de seu Pai,
com os seus Anjos,
e então dará a cada um segundo as suas obras».

AMBIENTE

O episódio que o Evangelho de hoje nos propõe vem na sequência daquele que lemos e reflectimos no passado domingo. Então (cf. Mt 16,13-20), a comunidade dos discípulos expressava a sua fé em Jesus como o “Messias, Filho de Deus” (é sobre essa fé – diz Jesus – que a Igreja será edificada); agora, Jesus vai explicar a esse grupo de discípulos o sentido autêntico do seu messianismo e da sua filiação divina.

Continuamos, ainda, no âmbito da “instrução sobre o Reino” (cf. Mt 13,1-17,27); no entanto, iniciamos, com este episódio, uma secção onde se privilegia a catequese sobre esse destino de cruz que aparece no horizonte próximo de Jesus (cf. Mt 16,21-17,27).

Nesta fase, as multidões ficaram para trás e os líderes já decidiram rejeitar Jesus. Quem continua a acompanhar Jesus, de forma indefectível, é o grupo dos discípulos. Eles acreditam que Jesus é o “Messias, Filho de Deus” e querem partilhar o seu destino de glória e de triunfo. Jesus vai, no entanto, explicar-lhes que o seu messianismo não passa por triunfos e êxitos humanos, mas pela cruz (cf. Mt 16,21-17,21); e vai avisá-los de que viver como discípulo é seguir esse caminho da entrega e do dom da vida (cf. Mt 17,22-27).

Mateus escreve o seu Evangelho para comunidades cristãs do final do séc. I (anos 80/90). São comunidades instaladas, que já esqueceram o fervor inicial e que se acomodaram num cristianismo morno e pouco exigente. Com a aproximação de tempos difíceis (no horizonte próximo estão já as grandes perseguições do final do séc. I), é conveniente que os crentes recordem que o caminho cristão não é um caminho fácil, percorrido no meio de êxitos e de aplausos, mas é um caminho difícil, que exige diariamente a entrega e o dom da vida.

MENSAGEM

O nosso texto pode, claramente, dividir-se em duas partes. Na primeira (vers. 21-23), Jesus anuncia aos discípulos a sua paixão; na segunda (vers. 24-28), Jesus apresenta uma instrução sobre o significado e as exigências de ser seu discípulo.

A primeira parte começa com o anúncio de Jesus de que o caminho para a ressurreição passa pelo sofrimento e pela morte na cruz. Não é uma previsão arriscada: depois do confronto de Jesus com os líderes judeus e depois que estes rejeitaram de forma absoluta a proposta do Reino, é evidente que o judaísmo medita a eliminação física de Jesus. Jesus tem consciência disso; no entanto, não se demite do projecto do Reino e anuncia que pretende continuar a apresentar, até ao fim, os planos do Pai.

Pedro não está de acordo com este final e opõe-se, decididamente, a que Jesus caminhe em direcção ao seu destino de cruz. A oposição de Pedro (e dos discípulos, pois Pedro continua a ser o porta-voz da comunidade) significa que a sua compreensão do mistério de Jesus ainda é muito imperfeita. Para ele, a missão do “Messias, Filho de Deus” é uma missão gloriosa e vencedora; e, na lógica de Pedro – que é a lógica do mundo – a vitória não pode estar na cruz e no dom da vida.

Jesus dirige-Se a Pedro com alguma dureza, pois é preciso que os discípulos corrijam a sua perspectiva de Jesus e do plano do Pai que Ele vem realizar. O plano de Deus não passa por triunfos humanos, nem por esquemas de poder e de domínio; mas o plano do Pai passa pelo dom da vida e pelo amor até às últimas consequências (de que a cruz é a expressão mais radical). Ao pedir a Jesus que não embarque nos projectos do Pai, Pedro está a repetir essas tentações que Jesus experimentou no início do seu ministério (cf. Mt 4,3-10); por isso, Mateus coloca na boca de Jesus a mesma resposta que, então, Ele deu ao diabo: “Retira-te, Satanás”. As palavras de Pedro – como as do diabo anteriormente – pretendem desviar Jesus do cumprimento dos planos do Pai; e Jesus não está disposto a transigir com qualquer proposta que O impeça de concretizar, com amor e fidelidade, os projectos de Deus.

Na segunda parte, Jesus apresenta uma instrução sobre as atitudes próprias do discípulo. Quem quiser ser discípulo de Jesus, tem de “renunciar a si mesmo”, “tomar a cruz” e seguir Jesus no seu caminho de amor, de entrega e de dom da vida.

O que é que significa, exactamente, renunciar a si mesmo? Significa renunciar ao seu egoísmo e auto-suficiência, para fazer da vida um dom a Deus e aos outros. O cristão não pode viver fechado em si próprio, preocupado apenas em concretizar os seus sonhos pessoais, os seus projectos de riqueza, de segurança, de bem-estar, de domínio, de êxito, de triunfo… O cristão deve fazer da sua vida um dom generoso a Deus e aos irmãos. Só assim ele poderá ser discípulo de Jesus e integrar a comunidade do Reino.

O que é que significa “tomar a cruz” de Jesus e segui-l’O? A cruz é a expressão de um amor total, radical, que se dá até à morte. Significa a entrega da própria vida por amor. “Tomar a cruz” é ser capaz de gastar a vida – de forma total e completa – por amor a Deus e para que os irmãos sejam mais felizes.

No final desta instrução, Jesus explica aos discípulos as razões pelas quais eles devem abraçar a “lógica da cruz” (vers. 25-27).

Em primeiro lugar, Jesus convida-os a entender que oferecer a vida por amor não é perdê-la, mas ganhá-la. Quem é capaz de dar a vida a Deus e aos irmãos não fracassou; mas ganhou a vida eterna, a vida verdadeira que Deus oferece a quem vive de acordo com as suas propostas (vers. 25).

Em segundo lugar, os discípulos são convidados a perceber que a vida que gozam neste mundo não é a vida definitiva. Não devem, pois, preocupar-se em preservá-la a qualquer custo: devem é procurar encontrar, já nesta terra, essa vida definitiva que passa pelo amor total e pelo dom a Deus e aos outros. É essa a grande meta que todos devem procurar alcançar (vers. 26).

Em terceiro lugar, os discípulos devem pensar no seu encontro final com Deus: nessa altura, Deus dar-lhes-á a recompensa pelas opções que fizeram… Esta alusão ao momento do juízo não é rara em Mateus: ele recorre, com alguma frequência, a esta motivação para fundamentar as exigências éticas da vida cristã.

ACTUALIZAÇÃO

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

  • Frente a frente, o Evangelho deste domingo coloca a lógica dos homens (Pedro) e a lógica de Deus (Jesus). A lógica dos homens aposta no poder, no domínio, no triunfo, no êxito; garante-nos que a vida só tem sentido se estivermos do lado dos vencedores, se tivermos dinheiro em abundância, se formos reconhecidos e incensados pelas multidões, se tivermos acesso às festas onde se reúne a alta sociedade, se tivermos lugar no conselho de administração da empresa. A lógica de Deus aposta na entrega da vida a Deus e aos irmãos; garante-nos que a vida só faz sentido se assumirmos os valores do Reino e vivermos no amor, na partilha, no serviço, na solidariedade, na humildade, na simplicidade. Na minha vida de cada dia, estas duas perspectivas confrontam-se, a par e passo… Qual é a minha escolha? Na minha perspectiva, qual destas duas propostas apresenta um caminho de felicidade seguro e duradouro?
  • Jesus tornou-Se um de nós para concretizar os planos do Pai e propor aos homens – através do amor, do serviço, do dom da vida – o caminho da salvação, da vida verdadeira. Neste texto (como, aliás, em muitos outros), fica claramente expressa a fidelidade radical de Jesus a esse projecto. Por isso, Ele não aceita que nada nem ninguém O afaste do caminho do dom da vida: dar ouvidos à lógica do mundo e esquecer os planos de Deus é, para Jesus, uma tentação diabólica que Ele rejeita duramente. Que significado e que lugar ocupam na minha vida os projectos de Deus? Esforço-me por descobrir a vontade de Deus a meu respeito e a respeito do mundo? Estou atento a esses “sinais dos tempos” através dos quais Deus me interpela? Sou capaz de acolher e de viver com fidelidade e radicalidade as propostas de Deus, mesmo quando elas são exigentes e vão contra os meus interesses e projectos pessoais?
  • Quem são os verdadeiros discípulos de Jesus? Muitos de nós receberam uma catequese que insistia em ritos, em fórmulas, em práticas de piedade, em determinadas obrigações legais, mas que deixou para segundo plano o essencial: o seguimento de Jesus. A identidade cristã constrói-se à volta de Jesus e da sua proposta de vida. Que nenhum de nós tenha dúvidas: ser cristão é bem mais do que ser baptizado, ter casado na igreja, organizar a festa do santo padroeiro da paróquia, ou dar-se bem com o padre… Ser cristão é, essencialmente, seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida. O cristão é aquele que faz de Jesus a referência fundamental à volta da qual constrói toda a sua existência; e é aquele que renuncia a si mesmo e que toma a mesma cruz de Jesus.
  • O que é “renunciar a si mesmo”? É não deixar que o egoísmo, o orgulho, o comodismo, a auto-suficiência dominem a vida. O seguidor de Jesus não vive fechado no seu cantinho, a olhar para si mesmo, indiferente aos dramas que se passam à sua volta, insensível às necessidades dos irmãos, alheado das lutas e reivindicações dos outros homens; mas vive para Deus e na solidariedade, na partilha e no serviço aos irmãos.
  • O que é “tomar a cruz”? É amar até às últimas consequências, até à morte. O seguidor de Jesus é aquele que está disposto a dar a vida para que os seus irmãos sejam mais livres e mais felizes. Por isso, o cristão não tem medo de lutar contra a injustiça, a exploração, a miséria, o pecado, mesmo que isso signifique enfrentar a morte, a tortura, as represálias dos poderosos.

Dehonianos

 

VAI PARA TRÁS DE MIM!

1. O Evangelho deste Domingo XXII do Tempo Comum (Mateus 16,21-28) forma uma unidade de alto-a-baixo com o Evangelho do Domingo passado (XXI), em que escutámos a passagem imediatamente anterior (Mateus 16,13-20), que terminava com Jesus a ordenar aos seus discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Cristo (Mateus 16,20). No Domingo passado não o podíamos saber. Mas hoje, que ficamos a ter acesso ao texto inteiro, já não precisamos de ficar parados no meio da ponte ou em Cesareia de Filipe, sem nunca chegarmos a Jerusalém. Na verdade, depois de ter dado aos seus discípulos aquela ordem taxativa de não dizerem a ninguém que Ele era o Cristo (Mateus 16,20), Jesus abre uma página nova logo no versículo seguinte, falando pela primeira vez, de forma explícita, da sua Paixão e Ressurreição: «começou a mostrar aos seus discípulos que é necessário (deî), necessidade divina ou teológica, que Ele vá para Jerusalém, sofra muito da parte dos anciãos e dos sumo-sacerdotes e dos escribas, seja morto, e ressuscite ao terceiro dia» (Mateus 16,21).

2. Ouvindo estes dizeres incríveis de Jesus, Pedro tomou-o consigo à parte e começou a recriminá-lo, dizendo: «Isso não te há de acontecer» (Mateus 16,22).

3. E é aqui que Jesus diz a Pedro estas palavras duríssimas e correctivas: «Vai para trás de mim (hýpage opísô mou), satanás! Pedra de tropeço (skándalon) és para mim, porque não pensas as coisas de Deus, mas as coisas dos homens» (Mateus 16,23). Note-se que «atrás de mim» é o lugar do discípulo, exactamente o lugar que Pedro deve ocupar e para o qual foi chamado. «Vinde atrás de mim» (deûte opísô mou), são estas as palavras que Jesus dirige a Pedro e a André, aquando do seu chamamento (Mateus 4,19). Portanto, Pedro deve seguir atentamente atrás de Jesus, e não postar-se à sua frente para lhe barrar o caminho, e tentar que Jesus siga as ideias que Pedro colheu acerca do Cristo na torrente da tradição judaica. O apelativo de «satanás» tem aqui o vulgar signifido hebraico de «separador» e «adversário». E o texto prossegue no mesmo tom determinado, com Jesus a dizer aos seus discípulos que, para o seguir, é preciso dizer não a si mesmos (aparnéomai), e carregar a cruz todos os dias, perder a vida para a ganhar. Dizer não a si mesmos e seguir Jesus (Mateus 16,24) implica pôr em Jesus a sua confiança, e não nos bens, que nos gritam todos os dias: «confia em nós!» (apólogo judaico de 1700). «Perder a vida por causa de mim» (Mateus 16,25), diz Jesus. Entenda-se: perder a vida desta maneira é perder-se nos caminhos de Jesus, «imitando verdadeiramente, e não segui-lo só com os pés», para o dizer com as palavras de Erasmo de Roterdão (1469-1536).

4. Por aqui se vê por que razão Jesus ordenou aos seus discípulos quenão dissessem a ninguém que Ele era o Cristo. Pedro tinha dito: «Tu és o Cristo!». Mas, como acabámos de ver, fosse qual fosse a ideia que Pedro tivesse de «Cristo», nela não cabia ainda o sofrimento, a rejeição, a morte, a ressurreição, e muito menos a adesão pessoal de Pedro a este «Cristo», a um «Cristo» assim (Mateus 16,21-22). O que Pedro sabia era o que vinha na torrente do judaísmo desde há muito tempo: que o Cristo vinha para triunfar, para ter sucesso, para estabelecer um mundo de excelência para os judeus, libertando-os dos seus adversários. Viria, enfim, pôr fim a todas as necessidades, discórdias e disputas, à doença e à velhice, a tudo aquilo que perturba e diminui a vida. Ele viria trazer a plenitude da vida. É por isto que Pedro e aqueles discípulos seguem Jesus, e não porque andem à procura de novas ideias religiosas, ou queiram aprender alguma oração nova. Portanto, se os discípulos de Jesus fossem dizer que Ele era o Cristo, era isto que iam dizer, e era isto que a sua audiência ia perceber.

5. O que é que nós dizemos quando dizemos Cristo? E a nossa maneira de viver é verdadeiramente a de quem segue Cristo?

6. O caminho de Jesus é paradoxal e provocatório. Assim o considerou Pedro, mal ouviu a versão nova de Jesus acerca do seu messianismo. Todavia, seguiu-o apaixonadamente até ao sangue, não apenas com os pés, portanto. É neste caminho ardente que se pode inserir mais uma passagem das chamadas «confissões» de Jeremias, hoje Jeremias 20,7-9. Olhando para o rastro da sua vida, Jeremias confessa que foi irresistivelmente seduzido pelo seu Deus, para logo o acusar, no limite da blasfémia, de velhacaria e engano, pois o abandonou à sua sorte, colocando-lhe na boca palavras violentas e deixando-o à mercê dos seus opressores, que zombam dele e o torturam sem descanso. Neste contexto, Jeremias confessa-se desanimado e tentado a abandonar a sua missão de profeta. Mas a Palavra de Deus volta a assaltá-lo como um fogo, uma lava ardente de que não se pode fugir, pois arde dentro de nós (Jeremias 20,9).

7. As «confissões» de Jeremias encontram-se em Jeremias 11,18-12,6; 15,10-21; 17,12-18; 18,18-23; 20,7-18, e são uma espécie de diário interior, autobiográfico, em que o profeta de Anatot, uma aldeiazinha situada a meia-dúzia de km a nordeste de Jerusalém, grita a Deus as dores e os amores da sua vida. Jeremias atravessou o período mais dramático da história do seu país, vendo primeiro, em 609, morrer tragicamente o justo rei Josias e subir ao trono o tirano rei Joaquim (609-597), assiste às duas entradas do babilónio Nabucodonosor em Jerusalém, em 597 e 587, sendo a segunda para arrasar Jerusalém e o Templo, deportar o rei Sedecias e pôr fim à nação de Judá.

8. Não coisas exteriores a nós, mas nós mesmos em oferta a Deus, eis o culto lógico (latreía logikê), isto é, racional, integral, pessoal, que Paulo nos exorta a prestar a Deus (Romanos 12,1-2). Claro, tudo sempre envolvido na graça preveniente, concomitante e consequente que nos vem de Deus e nos enche de bondade e de beleza, e que faz da nossa vida sacrifício agradável a Deus.

9. De toda esta intensidade faz eco o Salmo 63(62), conhecido como «o canto do amor místico», em que o orante descreve a sua sede psicobiológica de Deus. Sem Deus, estiola e morre. Santa Teresa de Ávila, de quem, em 2015, celebramos o V Centenário do seu nascimento, descreveu assim esta sede, no seu Caminho de perfeição: «A sede exprime o desejo de uma coisa, mas um desejo de tal modo intenso, que morremos se não o saciarmos».

António Couto

 

O Canto na Liturgia

 

Antífona de Entrada

Tende compaixão de mim, Senhor – F. Lapa

Escutai a minha prece – M. Carneiro

Inclinai o vosso ouvido  – F. Lapa

Respondei-me, Senhor – F. Valente

Escutai-me, Senhor, e respondei-me – F. Silva

 

Salmo Responsoria

A minha alma tem sede de Vós, meu Deus (sl 62) – A. Cartageno

 

Antífona da Comunhão

Como é grande, Senhor – F. Valente

Bem-aventurados os que promoveis a paz – Az. Oliveira

Bem-aventurados os que fazem a paz – A. Cartageno

Quem se exalta será humilhado – F. Santos

 

Outros cânticos para o Domingo XXII do Tempo Comum

Se alguém quiser seguir-Me – C. Silva

Se alguém quiser seguir-Me – F. Borda

Eu vos invoco, Senhor – A. Cartageno

Ouvi, Senhor, as minhas palavras – F. Silva

 

Domingo XXI do Tempo Comum – Ano A

 

Tema do 21º Domingo do Tempo Comum

No centro da reflexão que a liturgia do 21º Domingo do Tempo Comum nos propõe, estão dois temas à volta dos quais se constrói e se estrutura toda a existência cristã: Cristo e a Igreja.

O Evangelho convida os discípulos a aderirem a Jesus e a acolherem-n’O como “o Messias, Filho de Deus”. Dessa adesão, nasce a Igreja – a comunidade dos discípulos de Jesus, convocada e organizada à volta de Pedro. A missão da Igreja é dar testemunho da proposta de salvação que Jesus veio trazer. À Igreja e a Pedro é confiado o poder das chaves – isto é, de interpretar as palavras de Jesus, de adaptar os ensinamentos de Jesus aos desafios do mundo e de acolher na comunidade todos aqueles que aderem à proposta de salvação que Jesus oferece.

A primeira leitura mostra como se deve concretizar o poder “das chaves”. Aquele que detém “as chaves” não pode usar a sua autoridade para concretizar interesses pessoais e para impedir aos seus irmãos o acesso aos bens eternos; mas deve exercer o seu serviço como um pai que procura o bem dos seus filhos, com solicitude, com amor e com justiça.

A segunda leitura é um convite a contemplar a riqueza, a sabedoria e a ciência de Deus que, de forma misteriosa e às vezes desconcertante, realiza os seus projectos de salvação do homem. Ao homem resta entregar-se confiadamente nas mãos de Deus e deixar que o seu espanto, reconhecimento e adoração se transformem num hino de amor e de louvor ao Deus salvador e libertador.

 

LEITURA I – Is 22,19-23

Leitura do Livro de Isaías

Eis o que diz o Senhor a Chebna, administrador do palácio:
«Vou expulsar-te do teu cargo, remover-te-ei do teu posto.
E nesse mesmo dia chamarei o meu servo Eliacim,
filho de Elcias.
Hei-de revesti-lo com a tua túnica,
hei-de pôr-lhe à cintura a tua faixa,
entregar-lhe nas mãos os teus poderes.
E ele será um pai para os habitantes de Jerusalém
e para a casa de Judá.
Porei aos seus ombros a chave da casa de David:
há-de abrir, sem que ninguém possa fechar;
há-de fechar, sem que ninguém possa abrir.
Fixá-lo-ei como uma estaca em lugar firme
e ele será um trono de glória para a casa de seu pai».

AMBIENTE

O profeta Isaías nasceu por de 760 a.C., muito provavelmente em Jerusalém. Bastante jovem, sentiu-se chamado por Deus para ser profeta (“no ano da morte do rei Ozias” – Is 6,1 – o que nos coloca por volta de 740-739 a.C.); e vai desempenhar essa missão durante um longo espaço de tempo (os seus últimos oráculos são de finais do séc. VIII ou princípios do séc. VII a.C.), sendo uma espécie de consciência crítica dos vários reis que, nessa fase, presidiram aos destinos do Povo de Deus.

De família nobre, Isaías é um homem culto, decidido, enérgico, que frequenta os círculos de poder e faz parte dos notáveis do reino de Judá. Participa nas decisões relativas à condução do reino, fala com autoridade aos altos funcionários (cf. Is 22,15) e mesmo aos reis (cf. Is 7,10). No entanto, isso não significa que apoie as classes altas: os seus maiores ataques são dirigidos aos grupos dominantes – autoridades, juízes, latifundiários, políticos, mulheres da classe alta que vivem num luxo escandaloso (cf. Is 3,16-25)… Defende com paixão os oprimidos, os órfãos, as viúvas (cf. Is 1,17), o povo explorado e desencaminhado pelos governantes (Is 3,12-15). Convida continuamente o seu povo à conversão, pedindo-lhe que se volte para Jahwéh, que respeite os compromissos assumidos, que reaprenda a viver no âmbito da Aliança, que coloque outra vez Deus e os seus mandamentos no centro da vida e da história.

O oráculo de Isaías que nos é hoje proposto leva-nos à época do rei Ezequias. Em 714 a.C., Ezequias atinge a maioridade e toma conta dos destinos de Judá. Movido pelo desejo de reforma religiosa e de independência política, Ezequias manifestará uma certa propensão para alinhar em alianças políticas contra os assírios (que, desde o reinado de Acaz, mantêm Judá sob a sua autoridade). Em resposta, Senaquerib volta-se contra Judá e devasta-a… Em 701 a.C., Jerusalém é cercada pelos assírios e Ezequias tem de aceitar uma submissão ainda mais onerosa do que a anterior.

O episódio que nos é narrado, contudo, não se refere aos grandes acontecimentos políticos em que Judá, por esta altura, se vê envolvido. Refere-se, antes, a um episódio doméstico da vida do palácio. Quer Shebna, quer Elyaqîm, aqui referenciados, são altos funcionários de Ezequias, que o segundo livro dos Reis cita a propósito de um episódio relacionado com a invasão de Senaquerib (cf. 2 Re 18,18.26.37).

MENSAGEM

O nosso oráculo dirige-se, inicialmente, a Shebna, “administrador do palácio”. Anuncia-lhe a expulsão do cargo e a sua substituição por Elyaqîm. Porquê? A razão aparece antes (num versículo que, contudo, o texto que nos é hoje proposto não conservou): Shebna talhou “para si um sepulcro no alto e cavou para si na rocha um mausoléu” (Is 22,16). Porque é que o erigir um monumento funerário é condenado? Talvez porque é sinal do orgulho de Shebna; ou talvez porque Shebna utilizou o dinheiro do povo ou despendeu dinheiro em futilidades num momento difícil para o povo.

De qualquer forma, Shebna será substituído nas suas funções. Irá ser despojado das insígnias do seu poder (a túnica, o cinto, a chave do palácio), as quais serão revestidas por Elyaqîm.

Elyaqîm receberá, pois, o “poder das chaves” do palácio. O simbolismo das chaves é particularmente sugestivo: o mordomo do palácio, entre outras coisas, conservava em seu poder as chaves do palácio real, administrava os bens do soberano, fixava a abertura e o fechamento das portas e definia quais os visitantes a introduzir junto do soberano.

Isaías deposita grande esperança em Elyaqîm e na forma como ele desempenhará as suas funções. A expressão usada pelo profeta a propósito de Elyaqîm – “ele será um pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá” (vers. 21) – indica que Elyaqîm irá exercer o serviço da autoridade com solicitude, com amor, com justiça… A referência à “estaca” (“fixá-lo-ei como uma estaca num lugar firme” – vers. 23), revela que, na perspectiva de Isaías, Elyaqîm desempenhará as suas funções com grande firmeza.

Num outro desenvolvimento que a leitura que nos é proposta não conservou, contudo, sugere-se que o “serviço” de Elyaqîm terminou mal… Um comentarista que conheceu a actividade ulterior de Elyaqîm retomou a imagem da “estaca” para construir uma crítica à sua venalidade: nessa “estaca” penduraram-se e apoiaram-se todos os familiares de Elyaqîm (os nobres que pertenciam à família, os filhos e os netos) e a “estaca” acabou por cair, arrastando na queda todos aqueles que a ela se seguravam (cf. Is 22,24-25).

Porque é que esta história privada, este “fait divers” doméstico, nos é hoje proposto como Palavra de Deus? Uma dupla história de corrupção e de venalidade é assim tão importante?

Ela prepara-nos para entender melhor o Evangelho que nos é hoje proposto. Define em que consiste o verdadeiro serviço “das chaves”, o serviço da autoridade: ser um pai para aqueles sobre quem se tem responsabilidade e procurar o bem de todos com solicitude, com amor, com justiça.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão pode partir das seguintes questões:

  • O texto convida-nos a uma reflexão sobre a lógica e o sentido do poder… Sugere que o poder é um serviço à comunidade. Quem exerce o poder, deverá fazê-lo com a solicitude, o cuidado, a bondade, a compreensão, a tolerância, a misericórdia, e também com a firmeza com que um pai conduz e orienta os seus filhos. Nessa perspectiva, o serviço da autoridade não é uma questão de poder, mas é uma questão de amor. Será impensável considerar que alguém pode desempenhar com êxito cargos de responsabilidade, se não for guiado pelo amor. É esta mesma lógica que os cristãos devem exigir, seja no exercício do poder civil, seja no exercício do poder no âmbito da comunidade cristã.
  • O exercício do poder, quer para Shebna, quer para Elyaqîm, aparece associado à corrupção, à venalidade, ao aproveitamento do serviço da autoridade para a concretização de finalidades egoístas, interesseiras, pessoais. A Palavra de Deus que nos é proposta vai em sentido contrário: o exercício do poder só faz sentido enquanto está ao serviço do bem comunitário… O exercício de um cargo público supõe, precisamente, a secundarização dos interesses próprios em benefício do bem comum.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 137 (138)

Refrão: Pela [Por] vossa misericórdia, não nos abandoneis, Senhor.

De todo o coração, senhor, eu Vos dou graças
porque ouvistes as palavras da minha boca.
Na presença dos Anjos Vos hei-de cantar
e Vos adorarei, voltado para o vosso templo santo.

Hei-de louvar o vosso nome pela vossa bondade e fidelidade,
porque exaltastes acima de tudo o vosso nome e a vossa promessa.
Quando Vos invoquei, me respondestes,
aumentastes a fortaleza da minha alma.

O Senhor é excelso e olha para o humilde,
ao soberbo conhece-o de longe.
Senhor, a vossa bondade é eterna,
não abandoneis a obra das vossas mãos.

 

LEITURA II – Rom 11,33-36

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos

Como é profunda a riqueza, a sabedoria e a ciência de Deus!
Como são insondáveis os seus desígnios
e incompreensíveis os seus caminhos!
Quem conheceu o pensamento do Senhor?
Quem foi o seu conselheiro?
Quem Lhe deu primeiro,
para que tenha de receber retribuição?
D’Ele, por Ele e para Ele são todas as coisas.
Glória a Deus para sempre. Amen.

AMBIENTE

Nos capítulos 9-11 da Carta aos Romanos, Paulo reflecte sobre a questão do acesso de Israel à salvação. A questão aí abordada é a seguinte: Israel rejeitou oferta da salvação que Deus fez aos homens, através de Jesus Cristo; isso significa que Israel está, definitivamente, arredado da salvação?

Paulo não concorda. Ele acha que Deus – esse Deus que prometeu a salvação a Israel – não pode ser infiel às suas promessas. Talvez Ele tenha deixado que Israel, num primeiro momento, recusasse a salvação, para que os gentios pudessem beneficiar dos dons de Deus… Deus “escreve direito por linhas tortas” e pode ter permitido algo de aparentemente mau, para daí tirar um bem maior.

De resto, Israel foi, desde os primeiros instantes da sua existência, chamado a ser o Povo de Deus; e esse chamamento é irrevogável. O Povo eleito, chamado por Deus desde os seus inícios, não pode deixar de ser objecto especial da misericórdia de Deus.

O texto que nos é hoje proposto é a conclusão da reflexão de Paulo. Trata-se de um belíssimo hino de louvor, de reconhecimento e de adoração que exalta o desígnio salvador de Deus.

MENSAGEM

Depois de reflectir sobre o projecto salvífico de Deus e de ter tentado perceber o lugar de Israel nesse projecto Paulo, abismado, contempla a riqueza de Deus, a sabedoria de Deus e a ciência de Deus (vers. 33). Estas três qualidades de Deus conduzem, depois, às exclamações e interrogações que preenchem o resto do hino (vers. 34-36)

Fundamentalmente, Paulo reconhece que os desígnios de Deus são misteriosos e ultrapassam infinitamente a capacidade de compreensão e de entendimento do homem. Deus é sempre “mais” do que aquilo que o homem possa imaginar: mais sábio, mais poderoso, mais misericordioso… Ao homem resta reconhecer a sua própria pequenez, os seus próprios limites, a sua própria finitude, a sua própria incapacidade de compreender totalmente esse Deus desconcertante e incompreensível. Mesmo quando as coisas parecem não fazer sentido (porque a lógica de Deus é completamente diferente da lógica dos homens), ao homem resta atirar-se com confiança para os braços de Deus, acolher humildemente a sua Palavra e procurar seguir, com simplicidade e amor os seus caminhos…

O verdadeiro crente é aquele que, mesmo sem entender o alcance total dos projectos de Deus, se entrega confiadamente nas suas mãos e deixa que o seu espanto, reconhecimento e adoração se transformem num hino de louvor: “glória a Deus para sempre. Amén”.

ACTUALIZAÇÃO

Na reflexão, considerar as seguintes questões:

  • Antes de mais, o nosso texto convida-nos a reflectir sobre Deus… Convida-nos a mergulhar no seu mistério, a reconhecer a sua riqueza, sabedoria e ciência; convida-nos a reconhecer a nossa incapacidade de entender cabalmente os seus projectos; convida-nos a perceber que Deus, na sua infinita sabedoria, nos ultrapassa completamente. Por isso, precisamos de ter cuidado com as imagens de Deus que criamos e que apresentamos… O nosso Deus não é um Deus “domesticado” pelo homem, previsível, fantoche, lógico pelos padrões humanos, que se encaixa nas teorias de uma qualquer igreja ou catequese… O verdadeiro crente não é aquele que “sabe” tudo sobre Deus, que tem respostas feitas sobre Ele, que pretende conhecê-l’O perfeitamente e dominá-l’O; mas é aquele que, com honestidade e verdade, mergulha na infinita grandeza de Deus, abisma-se na contemplação do seu mistério, entrega-se confiadamente nas suas mãos… e deixa que o seu espanto e admiração se transformem num cântico de adoração e de louvor.
  • Esse Deus omnipotente, que nunca conseguiremos definir, controlar e explicar não é um concorrente ou um adversário do homem, preocupado em afirmar a sua grandeza e omnipotência à custa da humilhação do homem… Mas é um pai, preocupado com a felicidade dos seus filhos e com um projecto de salvação que Ele pretende que os homens acolham. É verdade que muitas vezes não percebemos o alcance desse projecto; mas se virmos em Deus, não um concorrente mas um pai cheio de amor, aprenderemos a não nos fecharmos no orgulho e na auto-suficiência e a acolhermos, com gratidão, os seus dons – como um menino que recebe do pai a vida, o alimento, o afecto, o amor.

 

ALELUIA – Mt 16,18

Aleluia. Aleluia.

Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja
e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.

 

Evangelho: Mt 16,13-20

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus foi para os lados de Cesareia de Filipe
e perguntou aos seus discípulos:
«Quem dizem os homens que é o Filho do homem?»
Eles responderam: «Uns dizem que é João Baptista,
outros que é Elias,
outros que é Jeremias ou algum dos profetas».
Jesus perguntou: «E vós, quem dizeis que Eu sou?»
Então, Simão Pedro tomou a palavra e disse:
«Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo».
Jesus respondeu-lhe:
«Feliz de ti, Simão, filho de Jonas,
porque não foram a carne e o sangue que to revelaram,
mas sim meu Pai que está nos Céus.
Também Eu te digo: Tu és Pedro;
sobre esta pedra edificarei a minha Igreja
e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.
Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus:
tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus,
e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus».
Então, Jesus ordenou aos discípulos
que não dissessem a ninguém
que Ele era o Messias.

AMBIENTE

O Evangelho deste domingo situa-nos no Norte da Galileia, perto das nascentes do rio Jordão, em Cesareia de Filipe (na zona da actual Bânias). A cidade tinha sido construída por Herodes Filipe (filho de Herodes o Grande) no ano 2 ou 3 a.C., em honra do imperador Augusto.

O episódio que nos é proposto ocupa um lugar central no Evangelho de Mateus. Aparece num momento de viragem, quando começa a perfilar-se no horizonte de Jesus um destino de cruz. Depois do êxito inicial do seu ministério, Jesus experimenta a oposição dos líderes e um certo desinteresse por parte do Povo. A sua proposta do Reino não é acolhida, senão por um pequeno grupo – o grupo dos discípulos.

É, então, que Jesus dirige aos discípulos uma série de perguntas sobre si próprio. Não se trata, tanto, de medir a sua quota de popularidade; trata-se, sobretudo, de tornar as coisas mais claras para os discípulos e confirmá-los na sua opção de seguir Jesus e de apostar no Reino.

O relato de Mateus é um pouco diferente do relato do mesmo episódio feito por outros evangelistas (nomeadamente Marcos – cf. Mc 8,27-30). Mateus remodelou e ampliou o texto de Marcos, acrescentando a afirmação de que Jesus é o Filho de Deus e a missão confiada a Pedro.

MENSAGEM

O nosso texto pode dividir-se em duas partes. A primeira, de carácter mais cristológico, centra-se em Jesus e na definição da sua identidade. A segunda, de carácter mais eclesiológico, centra-se na Igreja, que Jesus convoca à volta de Pedro.

Na primeira parte (vers. 13-16), Jesus interroga duplamente os discípulos: acerca do que as pessoas dizem dele e acerca do que os próprios discípulos pensam.

A opinião dos “homens” vê Jesus em continuidade com o passado (“João Baptista”, “Elias”, “Jeremias” ou “algum dos profetas”). Não captam a condição única de Jesus, a sua novidade, a sua originalidade. Reconhecem, apenas, que Jesus é um homem convocado por Deus e enviado ao mundo com uma missão – como os profetas do Antigo Testamento… Mas não vão além disso. Na perspectiva dos “homens”, Jesus é, apenas, um homem bom, justo, generoso, que escutou os apelos de Deus e que Se esforçou por ser um sinal vivo de Deus, como tantos outros homens antes d’Ele (vers. 13-14). É muito, mas não é o suficiente: significa que os “homens” não entenderam a novidade do Messias, nem a profundidade do mistério de Jesus.

A opinião dos discípulos acerca de Jesus vai muito além da opinião comum. Pedro, porta-voz da comunidade dos discípulos, resume o sentir da comunidade do Reino na expressão: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo” (vers. 16). Nestes dois títulos resume-se a fé da Igreja de Mateus e a catequese aí feita sobre Jesus. Dizer que Jesus é “o Cristo” (Messias) significa dizer que Ele é esse libertador que Israel esperava, enviado por Deus para libertar o seu Povo e para lhe oferecer a salvação definitiva. No entanto, para os membros da comunidade do Reino, Jesus não é apenas o Messias: é também o “Filho de Deus”. No Antigo Testamento, a expressão “Filho de Deus” é aplicada aos anjos (cf. Dt 32,8; Sal 29,1; 89,7; Job 1,6), ao Povo eleito (cf. Ex 4,22; Os 11,1; Jer 3,19), aos vários membros do Povo de Deus (cf. Dt 14,1-2; Is 1,2; 30,1.9; Jer 3,14), ao rei (cf. 2 Sm 7,14) e ao Messias/rei da linhagem de David (cf. Sal 2,7; 89,27). Designa a condição de alguém que tem uma relação particular com Deus, a quem Deus elegeu e a quem Deus confiou uma missão.

Definir Jesus como o “Filho de Deus” significa, não só que Ele recebe vida de Deus, mas que vive em total comunhão com Deus, que desenvolve com Deus uma relação de profunda intimidade e que Deus Lhe confiou uma missão única para a salvação dos homens; significa reconhecer a profunda unidade e intimidade entre Jesus e o Pai e que Jesus conhece e realiza os projectos do Pai no meio dos homens. Os discípulos são convidados a entender dessa forma o mistério de Jesus.

Na segunda parte (vers. 17-20), temos a resposta de Jesus à confissão de fé da comunidade dos discípulos, apresentada pela voz de Pedro. Jesus começa por felicitar Pedro (isto é, a comunidade) pela clareza da fé que o anima. No entanto, essa fé não é mérito de Pedro, mas um dom de Deus (“não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim o meu Pai que está nos céus” – vers. 17). Pedro (os discípulos) pertence a essa categoria dos “pobres”, dos “simples”, abertos à novidade de Deus, que têm um coração disponível para acolher os dons e as propostas de Deus (esses “pobres” e “simples” estão em contraposição com os líderes – fariseus, doutores da Lei, escribas – instalados nas suas certezas, seguranças e preconceitos, incapazes de abrir o coração aos desafios de Deus).

O que é que significa Jesus dizer a Pedro que ele é “a rocha” (o nome “Pedro” é a tradução grega do hebraico “Kephâ” – “rocha”) sobre a qual a Igreja de Jesus vai ser construída? As palavras de Jesus têm de ser vistas no contexto da confissão de fé precedente. Mateus está, portanto, a afirmar que a base firme e inamovível sobre a qual vai assentar a Ekklesia de Jesus é a fé que Pedro e a comunidade dos discípulos professam: a fé em Jesus como o Messias, Filho de Deus vivo.

Para que seja possível a Pedro testemunhar que Jesus é o Messias Filho de Deus e edificar a comunidade do Reino, Jesus promete-lhe “as chaves do Reino dos céus” e o poder de “ligar e desligar”. A entrega das chaves equivale à nomeação do “administrador do palácio” de que falava a primeira leitura: o “administrador do palácio”, entre outras coisas, administrava os bens do soberano, fixava o horário da abertura e do fechamento das portas do palácio e definia quais os visitantes a introduzir junto do soberano… Por outro lado, a expressão “atar e desatar” designava, entre os judeus da época, o poder para interpretar a Lei com autoridade, para declarar o que era ou não permitido, para excluir ou reintroduzir alguém na comunidade do Povo de Deus. Assim, Jesus nomeia Pedro para “administrador” e supervisor da Igreja, com autoridade para interpretar as palavras de Jesus, para adaptar os ensinamentos de Jesus a novas necessidades e situações, e para acolher ou não novos membros na comunidade dos discípulos do Reino (atenção: todos são chamados por Deus a integrar a comunidade do Reino; mas aqueles que não estão dispostos a aderir às propostas de Jesus não podem aí ser admitidos).

Trata-se, aqui, de confiar a um homem (Pedro) um primado, um papel de liderança absoluta (o poder das chaves, o poder de ligar e desligar) da comunidade dos discípulos? Ou Pedro é, aqui, um discípulo que dá voz a todos aqueles que acreditam em Jesus e que representa a comunidade dos discípulos? É difícil, a partir deste texto, fazer afirmações concludentes e definitivas. O poder de “ligar e desligar”, por exemplo, aparece noutro contexto, confiado à totalidade da comunidade e não a Pedro em exclusivo (cf. Mt 18,18). Provavelmente, o mais correcto é ver em Pedro o protótipo do discípulo; nele, está representada essa comunidade que se reúne à volta de Jesus e que proclama a sua fé em Jesus como o “Messias” e o “Filho de Deus”. É a essa comunidade, representada por Pedro, que Jesus confia as chaves do Reino e o poder de acolher ou excluir. Isso não invalida que Pedro fosse uma figura de referência para os primeiros cristãos e que desempenhasse um papel de primeiro plano na animação da Igreja nascente, sobretudo nas comunidades da Síria (as comunidades a que o Evangelho de Mateus se destina).

ACTUALIZAÇÃO

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

  • Quem é Jesus? O que é que “os homens” dizem de Jesus? Muitos dos nossos conterrâneos vêem em Jesus um homem bom, generoso, atento aos sofrimentos dos outros, que sonhou com um mundo diferente; outros vêem em Jesus um admirável “mestre” de moral, que tinha uma proposta de vida “interessante”, mas que não conseguiu impor os seus valores; alguns vêem em Jesus um admirável condutor de massas, que acendeu a esperança nos corações das multidões carentes e órfãs, mas que passou de moda quando as multidões deixaram de se interessar pelo fenómeno; outros, ainda, vêem em Jesus um revolucionário, ingénuo e inconsequente, preocupado em construir uma sociedade mais justa e mais livre, que procurou promover os pobres e os marginais e que foi eliminado pelos poderosos, preocupados em manter o “status quo”. Estas visões apresentam Jesus como “um homem” – embora “um homem” excepcional, que marcou a história e deixou uma recordação imorredoira. Jesus foi, apenas, um “homem” que deixou a sua pegada na história, como tantos outros que a história absorveu e digeriu?
  • Para os discípulos, Jesus foi bem mais do que “um homem”. Ele foi e é “o Messias, o Filho de Deus vivo”. Defini-l’O dessa forma significa reconhecer em Jesus o Deus que o Pai enviou ao mundo com uma proposta de salvação e de vida plena, destinada a todos os homens. A proposta que Ele apresentou não é apenas uma proposta de “um homem” bom, generoso, clarividente, que podemos admirar de longe e aceitar ou não; mas é uma proposta de Deus, destinada a tornar cada homem ou cada mulher uma pessoa nova, capaz de caminhar ao encontro de Deus e de chegar à vida plena da felicidade sem fim. A diferença entre o “homem bom” e o “Messias, Filho de Deus”, é a diferença entre alguém a quem admiramos e que é igual a nós, e alguém que nos transforma, que nos renova e que nos encaminha para a vida eterna e verdadeira.
  • “E vós, quem dizeis que Eu sou?” É uma pergunta que deve, de forma constante, ecoar nos nossos ouvidos e no nosso coração. Responder a esta questão não significa papaguear lições de catequese ou tratados de teologia, mas sim interrogar o nosso coração e tentar perceber qual é o lugar que Cristo ocupa na nossa existência… Responder a esta questão obriga-nos a pensar no significado que Cristo tem na nossa vida, na atenção que damos às suas propostas, na importância que os seus valores assumem nas nossas opções, no esforço que fazemos ou que não fazemos para o seguir… Quem é Cristo para mim?
  • É sobre a fé dos discípulos (isto é, sobre a sua adesão ao Cristo libertador e salvador, que veio do Pai ao encontro dos homens com uma proposta de vida eterna e verdadeira) que se constrói a Igreja de Jesus. O que é a Igreja? O nosso texto responde de forma clara: é a comunidade dos discípulos que reconhecem Jesus como “o Messias, o Filho de Deus”. Que lugar ocupa Jesus na nossa experiência de caminhada em Igreja? Porque é que estamos na Igreja: é por causa de Jesus Cristo, ou é por outras causas (tradição, inércia, promoção pessoal…)?
  • A Igreja de Jesus não existe, no entanto, para ficar a olhar para o céu, numa contemplação estéril e inconsequente do “Messias, Filho de Deus”; mas existe para O testemunhar e para levar a cada homem e a cada mulher a proposta de salvação que Cristo veio oferecer. Temos consciência desta dimensão “profética” e missionária da Igreja? Os homens e as mulheres com quem contactamos no dia a dia – em casa, no emprego, na escola, na rua, no prédio, nos acontecimentos sociais – recebem de nós este anúncio e este convite a integrar a comunidade da salvação?
  • A comunidade dos discípulos é uma comunidade organizada e estruturada, onde existem pessoas que presidem e que desempenham o serviço da autoridade. Essa autoridade não é, no entanto, absoluta; mas é uma autoridade que deve, constantemente, ser amor e serviço. Sobretudo, é uma autoridade que deve procurar discernir, em cada momento, as propostas de Cristo e a interpelação que Ele lança aos discípulos e a todos os homens.

Dehonianos

 

 

A SINGULARIDADE DE JESUS

1. Cesareia de Filipe, actual Banyas, na tetrarquia de Filipe, um dos filhos de Herodes o Grande, é o lugar certo para se pôr a questão da identidade de JESUS, que atravessa o Evangelho (Mateus 16,13-20) deste Domingo XXI do Tempo Comum. Cesareia de Filipe, onde se encontra uma das nascentes do rio Jordão, respirava o paganismo do deus Pã e também o culto do Imperador. Ali construiu Herodes um templo dedicado ao Imperador César Augusto, e o tetrarca Filipe, filho de Herodes, deu à cidade, antes conhecida por Pânias, em honra do deus Pã, o nome de Cesareia, também em honra de César Augusto. Dela resta hoje a gruta do deus Pã, lugar que os peregrinos da Terra Santa costumam visitar.

2. É aí, em Cesareia de Filipe, cidade marcada pelo paganismo e pelo culto do Imperador, que Jesus põe a questão da sua identidade. Soberanamente Jesus pergunta: «Quem dizem as pessoas que é o Filho do Homem?» (Mateus 16,13). Dizem-lhe que o povo pensa que Jesus é um profeta. Um entre muitos: antes dele apareceram muitos; depois dele, outros poderão aparecer. De qualquer modo, dá-se a entender que o povo não vê em Jesus uma pessoa singular. Ouvida esta resposta, Jesus avança, logo de seguida, de forma directa e enfática, uma nova pergunta: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» (Mateus 16,15). A esta nova pergunta, posta por Jesus aos seus discípulos que de há muito o seguiam, Simão Pedro foi rápido a responder: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!» (Mateus 16,16). Jesus declara «Feliz» (makários) Simão, filho de Jonas, não por achar que ele reunia competência humana para expressar aquele dizer, mas por saber que o tinha recebido do Pai (Mateus 16,17). Chamado por Jesus (Mateus 4,18-19). Predestinado pelo Pai (Romanos 8,29-30).

3. De forma diferente do povo, Simão Pedro atinge a singularidade de Jesus. Enquanto Cristo ou Messias, Jesus não é um entre muitos. É único, primeiro e último, definitivo, enviado por Deus para dar à humanidade a plenitude da vida. Sim, enquanto Filho do Deus vivo, Jesus está com o Pai numa relação singular de conhecimento, igualdade, vida. Tal como o Pai, o Filho é a vida em si mesmo. É sobre este dizer de Simão Pedro, dizer, não seu, mas recebido do Pai, que Jesus declara que construirá a sua Igreja (Mateus 16,18). Note-se a assonância «Pétros» – «pétra». Mas note-se também que quem constrói a Igreja é Jesus, e não Pedro, e a Igreja a construir também é de Jesus, e não de Pedro: «sobre esta pedra (pétra) construirei aminha Igreja», diz Jesus. Em todo o Novo Testamento, só Jesus e Pedro recebem o apelativo de «pedra». «Rocha», «rochedo», «pedra firme» diz-se, em hebraico, tsûr ou sela‘, terminologia usada no Antigo Testamento por 33 vezes para dizer Deus e a solidez do seu amor fiel. Veja-se, por exemplo, na boca e no coração do Salmista: «O Senhor é a minha Rocha (sela‘) e a minha fortaleza (…), nele me abrigo, meu Rochedo (tsûr), meu escudo e meu baluarte, minha torre forte e meu refúgio» (Salmo 18,3).

4. Mas a forma originária para designar a rocha é keph, aramaicokêpha’, que mostra a rocha, não tanto na sua solidez, mas a rocha escavada, oca, espécie de gruta que serve de lugar de refúgio e acolhimento, onde os pássaros fazem os seus ninhos, os animais guardam as suas crias e os homens se refugiam em caso de guerra: não é sólido, mas dá solidez e protecção a uma vida nova. Este segundo veio de termos, que traduzem a ideia de guardar, proteger, abraçar, envolver, alarga-se num vasto campo onomatopaico: kaph, palma da mão; keph, rochedo esburacado (grutas); kêpha’ (aramaico), rochedo esburacado; kêphãs (grego), rochedo esburacado e acolhedor, nome dado por Jesus a Pedro em João 1,42, única vez nos Evangelhos, mas várias vezes em Paulo (1 Coríntios 1,12; 3,22; 9,5; 15,5; Gálatas 1,18; 2,9.11.14); kipah, folha de palmeira, que serve para proteger do sol, e cobertura que os judeus ortodoxos usam na cabeça para indicar a protecção de Deus; kaphar, cobrir, perdoar;kaporet, cobertura, perdão. Sendo de teor onomatopaico, este som existe na composição de vocábulos em todas as línguas. Esta terminologia abre para um Simão Pedro novo, casa aberta e acolhedora, atento, próximo, cuidadoso e carinhoso, frágil, com a missão pastoral de alimentar e cuidar de todos os filhos de Deus. Mas, entenda-se sempre bem, a casa é Deus, e são de Deus os filhos que nela são gerados, acolhidos e alimentados.

5. Note-se bem a precisão da pergunta de Jesus. De facto, Jesus não pede aos seus discípulos que se pronunciem ou deem a sua opinião acerca do Sermão da Montanha ou sobre outro assunto qualquer, por importante que possa ser ou parecer. A pergunta de Jesus é acerca de Si mesmo, da sua própria identidade, e do grau de implicação dos discípulos com Ele. Daí que Jesus pergunte sobre o dizer. Pedro diz. E face ao dizer de Pedro, Jesus declara de seguida: «Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus» (Mateus 16,19). As chaves representam um saber e um poder. Falamos de chaves de uma casa, de uma cidade, de um tesouro, da leitura de um texto. Quem as possui, possui um poder em sede administrativa, jurídica ou científica. É assim que o texto de Isaías 22,19-23 fala hoje do «rito das chaves» e do poder retirado a Shebnae conferido a Eliaqîm.

6. As chaves do Reino dos Céus são as chaves do amor e do perdão, traves mestras de uma comunidade unida e confiante, com os pés na terra e o olhar fixo em Deus. Diz, na verdade, a Constituição Dogmática Lumen Gentium: «Aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo» (n.º 9).

7. É importante, porque esclarecedora e mobilizadora, esta nota do Concílio Vaticano II. De facto, Pedro é a Pedra e tem as Chaves do Reino dos Céus, e é-lhe ainda dada a autoridade de ligar-desligar, isto é, de perdoar: «Tudo o que ligares (dêsês: conj. aor. de déô) sobre a terra, ficará para sempre ligado (dedeménon: part. perf. pass. de déô) nos Céus, e tudo o que desligares (lýsês: conj. aor. de lýô) sobre a terra, ficará para sempre desligado (lelyménon: part. perf. pass. de lýô) nos Céus» (Mateus 16,19). Todavia, esta autoridade de ligar-desligar, isto é, de perdoar, é também confiada à inteira comunidade, exactamente nos mesmos termos em que é confiada a Pedro: «Em verdade vos digo: tudo o que ligardes (dêsête: conj. aor. de déô) sobre a terra, ficará para sempre ligado (dedeména: part. perf. pass. de déô) no céu, e tudo o que desligardes (lýsête: conj. aor. de lýô) na terra, ficará para sempre desligado (lelyména: part. perf. pass. de lýô) no céu» (Mateus 18,18). A inteira comunidade assente na Pedra, que é Pedro, como Pedro, não alijando responsabilidades, mas operante na prática quotidiana do Perdão!

8. O texto do Evangelho de hoje termina registando a ordem taxativa de Jesus aos seus discípulos para não dizerem a ninguém que Ele é o Cristo (Mateus 16,20). O texto inteiro deste Evangelho (Mateus 16,13-20) é, então, percorrido por um dizer, e fecha com um não-dizer. Trata-se de um dizer novo, não meramente convencional ou tradicional. Não basta dizer um conjunto de palavras que vêm na torrente da tradição, que se recolhem, e se voltam a dizer. É assim que Pedro respondeu bem [«Tu és o Cristo»], e é louvado por isso. Não obstante, Jesus não quer que os discípulos passem esse dizer a ninguém (Mateus 16,20). Por que será?

9. Para sabermos a razão, temos de esperar pelo próximo Domingo (XXII), pois é aí que escutaremos Mateus 16,21-28, o seguimento imediato do texto deste Domingo XXI (Mateus 16,13-20). Na verdade, o texto integral de Mateus 16,13-28, dividido por estes dois Domingos, forma uma unidade incindível.

10. Entretanto, que o nosso coração esteja cheio do amor primeiro de Deus, e que o louvor que lhe é devido encha os dias da nossa vida. É a bela oração de Paulo na Carta aos Romanos 11,33-36, a que se junta o orante do Salmo 138, com a sua bela Acção de Graças.

 D. António Couto

 

O Canto na Liturgia

 

Antífona de Entrada

Inclinai o vosso ouvido – F. Lapa

Escutai, Senhor, as minhas palavras – M. Carneiro

Respondei-me, Senhor – F. Valente

Escutai-me, Senhor, e respondei-me – F. Silva

Ouvi, Senhor, as minhas palavras – F. Silva

 

Salmo Responsorial

Por vossa misericórdia, não nos abandoneis, Senhor (sl 137) – M. Luís

Pela vossa misericórdia, atendei-me, Senhor (sl 137) – M. Carneiro 

 

Antífona da Comunhão

Encheis a terra, Senhor – P. Miranda

Quem come a minha carne – F. Santos

Quem come a minha carne – C. Silva

Quem come a minha carne – M. Simões

Quem come a minha carne – M. Carneiro

 Quem come a minha carne – J. A. Nunes

A minha carne é verdadeira comida – F. Silva

 

Outros cânticos para o Domingo XXI do Tempo Comum

Tu és Pedro – M. Simões

Chegue até vós, Senhor – F. Santos

Quem come deste pão – M. Luís

Quem come deste pão – C. Silva

Quem comer deste pão – C. Silva

 

 

Domingo XX do Tempo Comum – Ano A

Tema do 20º Domingo do Tempo Comum

 

A liturgia do 20º Domingo do Tempo Comum reflecte sobre a universalidade da salvação. Deus ama cada um dos seus filhos e a todos convida para o banquete do Reino.

Na primeira leitura, Jahwéh garante ao seu Povo a chegada de uma nova era, na qual se vai revelar plenamente a salvação de Deus. No entanto, essa salvação não se destina apenas a Israel: destina-se a todos os homens e mulheres que aceitarem o convite para integrar a comunidade do Povo de Deus.

O Evangelho apresenta a realização da profecia do Trito-Isaías, apresentada na primeira leitura deste domingo. Jesus, depois de constatar como os fariseus e os doutores da Lei recusam a sua proposta do Reino, entra numa região pagã e demonstra como os pagãos são dignos de acolher o dom de Deus. Face à grandeza da fé da mulher cananeia, Jesus oferece-lhe essa salvação que Deus prometeu derramar sobre todos os homens e mulheres, sem excepção.

A segunda leitura sugere que a misericórdia de Deus se derrama sobre todos os seus filhos, mesmo sobre aqueles que, como Israel, rejeitam as suas propostas. Deus respeita sempre as opções dos homens; mas não desiste de propor, em todos os momentos e a todos os seus filhos, oportunidades novas de acolher essa salvação que Ele quer oferecer.

 

LEITURA I – Is 56,1.6-7

Leitura do Livro de Isaías

Eis o que diz o Senhor:
«Respeitai o direito, praticai a justiça,
porque a minha salvação está perto
e a minha justiça não tardará a manifestar-se.
Quanto aos estrangeiros que desejam unir-se ao Senhor
para O servirem, para amarem o seu nome e serem seus servos,
se guardarem o sábado, sem o profanarem,
se forem fiéis à minha aliança,
hei-de conduzi-los ao meu santo nome,
hei-de enchê-los de alegria na minha casa de oração.
Os seus holocaustos e os seus sacrifícios
serão aceites no meu altar,
porque a minha casa
será chamada casa de oração para todos os povos».

AMBIENTE

A primeira leitura deste domingo faz parte de um bloco de textos a que se convencionou chamar “Trito-Isaías” (cfr. Is 56-66). Para alguns, são textos de um profeta anónimo, pós-exílico, que exerceu o seu ministério em Jerusalém, entre os retornados da Babilónia, nos anos 537-520 a.C.; para a maioria, trata-se de textos que provêm de uma pluralidade de autores, e que foram redigidos ao longo de um arco de tempo relativamente longo (provavelmente entre os séc. VI e V a.C.). Estamos, em qualquer caso, na época pós-exílica.

Não é uma época fácil. Os retornados estão desiludidos, pois a tarefa da reconstrução apresenta-se demorada e difícil. O país está arruinado, as cidades destruídas e desabitadas, os campos incultos e abandonados. Os ricos bem depressa começam a oprimir os pobres e a esmagar os humildes. Do ponto de vista religioso, o ambiente caracteriza-se pela incompreensão dos planos de Deus, pelo cepticismo e desconfiança, por um culto meramente exterior e pelo retorno às práticas idolátricas. Nesta fase, desempenham um papel fundamental o sacerdote Josué e o governador Zorobabel, responsáveis pelos trabalhos de reconstrução do Templo.

Como é que os regressados a Jerusalém se relacionam, nesta fase, com os outros povos? A resposta não é clara, até porque não conhecemos bem este período da história do Povo de Deus. Alguns textos desta época mostram uma certa abertura à universalidade, sugerindo que o exílio, ao permitir o contacto com outras realidades culturais e religiosas, levou o Povo de Deus a uma certa tolerância para com as outras nações… No entanto, outros textos da época manifestam um fechamento cada vez mais acentuado (além da experiência dramática do exílio, a oposição dos povos vizinhos na altura em que os retornados tentam reconstruir Jerusalém aumenta a desconfiança em relação aos estrangeiros), que culminará na política xenófoba de Esdras e Neemias, na segunda metade do séc. V a.C. (os casamentos mistos entre judeus e estrangeiros são anulados e proibidos – cf. Esd 9,1-10,44; ee 13,23-31).

Não podemos situar exactamente, em termos cronológicos, o texto que nos é proposto. Provavelmente, ele aparece nos primeiros decénios após o exílio, quando a comunidade discute se os eunucos e os estrangeiros devem ou não integrar a comunidade do Povo de Deus (cf. Is 56,3). De qualquer forma, o texto leva-nos coloca-nos, sem dúvida, nesse ambiente – rico de desafios, mas cheio de contradições – da época pós-exílica.

MENSAGEM

A essa comunidade desiludida e decepcionada, o profeta anuncia que está para chegar um tempo novo. O que caracterizará essa nova era é a presença na comunidade do Povo de Deus da salvação e da justiça.

A comunidade precisa, no entanto, de se preparar para receber o dom de Deus. Como? Guardando o direito e praticando a justiça (“mishpat” e “zedaqa” – as decisões justas dos tribunais, que fundamentam uma recta ordem social).

Até aqui, a “promessa” não apresenta nada de verdadeiramente novo. A “justiça” foi pregada e anunciada, vezes sem conta (com estas mesmas palavras ou com outras semelhantes), por todos os profetas de Israel…

A verdadeira novidade aparece a seguir… A salvação que Deus vai oferecer não se destina apenas a Israel, mas também aos estrangeiros. Trata-se de uma espantosa revolução no universo religioso do Povo de Deus.

Para os autores do livro do Deuteronómio, os estrangeiros deveriam ser vencidos e votados à destruição; Israel não podia jamais fazer qualquer pacto, nem aceitar qualquer aliança matrimonial com eles. Os altares dos povos estrangeiros deveriam ser destruídos, os seus monumentos quebrados, os seus postes sagrados cortados, os seus ídolos queimados no fogo. Se Israel não procedesse dessa forma e tolerasse os estrangeiros, a cólera de Jahwéh inflamar-se-ia contra o seu Povo e exterminá-lo-ia rapidamente (cf. Dt 7,2-5).

Agora, é o próprio Deus que quer oferecer a sua salvação a todos os povos, inclusive aos estrangeiros. O que é necessário aos estrangeiros para entrarem na comunidade do Povo de Deus (“os estrangeiros que desejam unir-se ao Senhor para O servirem, para amarem o seu nome e serem seus servos” – vers. 6)? Duas coisas: “guardarem o sábado, sem o profanarem” e serem “fiéis à Aliança”. Serão, então, membros de pleno direito da comunidade do Povo de Deus. Participarão plenamente na vida litúrgica do Povo de Deus e o próprio Jahwéh os conduzirá ao Templo, onde poderão oferecer holocaustos e sacrifícios, como os israelitas. O Templo não será, então, um condomínio fechado a que só Israel tem acesso, mas será a “casa de oração para todos os povos” (esta perspectiva deve ter conhecido uma tal dificuldade para se firmar em Israel que, mesmo na época neo-testamentária, os estrangeiros que visitavam Jerusalém não podiam passar da esplanada exterior do Templo – o “átrio dos gentios” – e em nenhum caso podiam penetrar no “átrio dos israelitas”).

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão pode partir dos seguintes dados:

  • Também nós vivemos num mundo de contradições. Por um lado, o intercâmbio de ideias, de experiências, de notícias, o contacto fácil, rápido e directo com qualquer pessoa, em qualquer canto do mundo, contribuem para nos abrir horizontes, para nos ensinar o respeito pela diferença, para nos fazer descobrir a riqueza de cada povo e de cada cultura… Por outro lado, o egoísmo, a auto-suficiência, o medo dos conflitos sociais, o sentimento de que um determinado estilo de vida pode estar ameaçado, provocam o racismo e a xenofobia e levam-nos a fechar as portas àqueles que querem cruzar as nossas fronteiras à procura de melhores condições de vida… Não é, evidentemente, uma questão simples e que possa ser objecto de demagogia… No entanto, o nosso Deus convida-nos a abrir o nosso coração à universalidade, à diferença. Os outros homens e mulheres – estrangeiros, diferentes, com outra cor de pele, com outra língua, com outros valores ou com outra religião – são irmãos nossos, que devemos acolher e amar.
  • A Igreja é a comunidade do Povo de Deus. Todos os seus membros são filhos do mesmo Deus e irmãos em Jesus, embora pertençam a raças diferentes, a culturas diferentes e a extractos sociais diferentes. No entanto: todos são lá acolhidos da mesma forma? O rico e o pobre são sempre tratados da mesma forma nas recepções das nossas igrejas? Aqueles que têm comportamentos considerados social ou religiosamente incorrectos são sempre tratados com amor e acolhidos com respeito nas nossas comunidades cristãs, ou são tratados como cristãos de segunda?

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 66 (67)

Refrão:  Louvado sejais, Senhor, pelos povos de toda a terra.

Deus Se compadeça de nós e nos dê a sua bênção,
resplandeça sobre nós a luz do seu rosto.
Na terra se conhecerão os vossos caminhos
e entre os povos a vossa salvação.

Alegrem-se e exultem as nações,
porque julgais os povos com justiça
e governais as nações sobre a terra.

Os povos Vos louvem, ó Deus,
todos os povos Vos louvem.
Deus nos dê a sua bênção
e chegue o seu temor aos confins da terra.

 

LEITURA II – Rom 11,13-15.29-32

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos

Irmãos:
É a vós, os gentios, que eu falo:
Enquanto eu for Apóstolo dos gentios,
procurarei prestigiar o meu ministério
a ver se provoco o ciúme dos homens da minha raça
e salvo alguns deles.
Porque, se da sua rejeição resultou a reconciliação do mundo,
o que será a sua reintegração
senão uma ressurreição de entre os mortos?
Porque os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis.
Vós fostes outrora desobedientes a Deus
e agora alcançastes misericórdia,
devido à desobediência dos judeus.
Assim também eles desobedeceram agora,
devido à misericórdia que alcançastes,
para que, por sua vez,
também eles alcancem agora misericórdia.
Efectivamente, Deus encerrou a todos na desobediência,
para usar de misericórdia para com todos.

AMBIENTE

Continuamos, com Paulo, a reflectir a questão posta pela segunda leitura do passado domingo… Israel, apesar de ser o Povo de eleito de Deus e o Povo da Promessa, recusou a salvação que Cristo veio oferecer. Que lhe acontecerá, então? Ficará, devido a essa recusa, à margem da salvação?

Vimos como esse problema afectava Paulo e como o fazia sofrer. Na introdução a esta questão (cf. Rom 9,1-5), Paulo confessava a sua dor e tristeza ao ver o seu povo obstinado na recusa da vida nova de Deus. Paulo admitia, até, aceitar ser separado – ele próprio – de Cristo, se isso servisse para que o Povo judeu aceitasse a salvação que Deus não desiste de lhe oferecer.

A desilusão e a tristeza de Paulo significarão a convicção de que não há mais saída, que Israel vai manter-se fechado aos dons de Deus e que está, definitivamente, à margem da salvação? Deus terá rejeitado o seu Povo?

De modo nenhum. Paulo vai, aliás, constatar que a questão não está encerrada. Em primeiro lugar, porque uma parte (uma parte pequena, um “resto”) de Israel aderiu a Jesus (cf. Rom 11,1-6) e entrou na comunidade do Reino (o próprio Paulo faz parte desse grupo); em segundo lugar, porque o endurecimento de Israel face à oferta de salvação feita por Deus já estava prevista na Escritura e insere-se, certamente, nos planos de Deus (cf. Rom 11,7-10).

De resto, a recusa de Israel fez com que o Evangelho fosse proposto aos gentios (cf. Rom 11,11-12). Há males que vêm por bem; Deus escreve direito por linhas tortas…

MENSAGEM

Entretanto, Paulo continua o seu ministério entre os gentios, com a esperança de que os israelitas sintam ciúmes e acolham os dons de Deus (vers. 13-14).
De resto, Paulo está convencido de que, um dia, todo o Israel será salvo. Assim será, não só porque está anunciado na Escritura (cf. Rom 11,26-27), mas sobretudo porque Deus permanece fiel às suas promessas.

Da sua parte, os gentios não têm nada que se sentir superiores aos israelitas. Israel foi chamado por Deus desde os seus inícios e o chamamento de Deus é irrevogável (vers. 29). Os gentios, que antes estavam longe de Deus, agora tiveram acesso à sua graça; e os judeus, que agora se afastaram dos dons de Deus, hão-de também alcançar a graça. Parece enquadrar-se tudo no projecto salvífico de um Deus que permitiu que todos sejam rebeldes, a fim de sobre todos deixar cair a sua misericórdia. E Israel, o Povo eleito, chamado por Deus desde os seus inícios, não pode deixar de ser objecto especial da misericórdia de Deus.

ACTUALIZAÇÃO

Considerar, na reflexão, as seguintes propostas:

  • Em primeiro lugar, o nosso texto convida-nos a ter sempre presente que a misericórdia de Deus não abandona nenhum dos seus filhos, mesmo aqueles que numa determinada fase da caminhada rejeitam as suas propostas. Deus respeita sempre as opções livres dos homens; mas não desiste de propor oportunidades infindáveis de salvação, que só esperam o “sim” do homem.
  • Em segundo lugar, o nosso texto sugere que “Deus escreve direito por linhas tortas”. Do mal, Ele é sempre capaz de retirar o bem (se os judeus – com a sua mentalidade fechada aos estrangeiros e com a sua mentalidade de que a salvação era uma proposta exclusiva, só a eles destinada – tivessem aderido em massa ao Evangelho, dificilmente teriam aceite que a proposta de salvação se tornasse universal). Aquilo que, muitas vezes, nos parece ilógico e sem sentido, talvez faça parte dos projectos de Deus – projectos que nem sempre conseguimos entender e enquadrar nos nossos esquemas mentais. Temos de aprender a confiar em Deus e na forma como Ele dirige a história, mesmo quando não conseguimos entender os seus projectos.
  • Em terceiro lugar, o nosso texto convida-nos – implicitamente – a não nos arvorarmos em juízes dos nossos irmãos. Por um lado, porque o comportamento tolerante de Deus nos convida a uma tolerância semelhante; por outro, porque aquilo que nos parece estranho e reprovável pode fazer parte, em última análise, dos projectos de Deus.

 

ALELUIA – cf. Mt 4,2 

Aleluia. Aleluia.

Jesus proclamava o evangelho do reino
e curava todas as doenças entre o povo.

 

EVANGELHO – Mt 15,21-28

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus retirou-Se para os lados de Tiro e Sidónia.
Então, uma mulher cananeia, vinda daqueles arredores,
começou a gritar:
«Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim.
Minha filha está cruelmente atormentada por um demónio».
Mas Jesus não lhe respondeu uma palavra.
Os discípulos aproximaram-se e pediram-Lhe:
«Atende-a, porque ela vem a gritar atrás de nós».
Jesus respondeu:
«Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel».
Mas a mulher veio prostrar-se diante d’Ele, dizendo:
«Socorre-me, Senhor».
Ele respondeu:
«Não é justo que se tome o pão dos filhos
para o lançar aos cachorrinhos».
Mas ela replicou:
«É verdade, Senhor;
mas também os cachorrinhos
comem das migalhas que caem da mesa de seus donos».
Então Jesus respondeu-lhe:
«Mulher, e grande a tua fé.
Faça-se como desejas».
E, a partir daquele momento, a sua filha ficou curada.

AMBIENTE

Continuamos na secção da “instrução sobre o Reino” (cf. Mt 13,1-17,27). Depois de apresentar a pregação sobre o Reino em parábolas (cf. Mt 13,1-52), Mateus descreve a resposta dos interlocutores de Jesus à proposta que lhes foi transmitida (cf. Mt 14,1-17,27).

De uma forma geral, a comunidade judaica responde negativamente ao desafio apresentado por Jesus. Quer os nazarenos (cf. Mt 13,53-58), quer Herodes (cf. Mt 14,1-12), quer os escribas, quer os fariseus, quer os saduceus (cf. Mt 15,1-9; 16,1-4.5-12) recusam embarcar na aventura do Reino. Começa a tornar-se, cada vez mais claro, que a comunidade judaica não está disposta a acolher a proposta de Jesus.

O episódio que nos é proposto é, precisamente, antecedido de um confronto entre Jesus, por um lado, os fariseus e doutores da Lei, por outro, por causa das tradições judaicas (cf. Mt 15,1-9). Em ruptura com os fariseus e os doutores da Lei, Jesus “retirou-Se dali e foi para os lados de Tiro e de Sídon”. A recusa de Israel em acolher a proposta do Reino vai fazer com que a pregação de Jesus se dirija para fora das fronteiras de Israel. A comunidade dos discípulos – esse grupo que escutou atentamente a proposta do Reino e a acolheu – acompanha Jesus.

O episódio narrado no Evangelho deste domingo situa-nos na “região de Tiro e Sídon”. Diante de Jesus apresenta-se uma mulher “cananeia”. O apelativo “cananeia” designa, no Antigo Testamento, uma mulher pagã (neste caso, trata-se de uma mulher fenícia, provavelmente residente na região de Tiro e Sídon).

A Fenícia não era, aos olhos dos judeus, uma região “recomendável”. De lá tinham vindo, frequentemente, exércitos inimigos; de lá tinham vindo, muitas vezes, influências religiosas nefastas, que afastavam os israelitas da fé em Jahwéh e os levavam a correr atrás dos deuses cananeus. A famosa Jezabel, mulher do rei Acab, que potenciou o culto a Baal e Asserá (meados do séc. IX a.C., na época do profeta Elias) e que tão má memória deixou entre os fiéis a Jahwéh era filha de um rei de Sídon. Não admira, portanto, que os fariseus e doutores da Lei, defensores intransigentes da Lei e da pureza da fé, considerassem os habitantes dessa zona como “cães” (designação que, para os judeus, tinha um sentido altamente pejorativo).

O apelo da mulher fenícia vai no sentido de que ela possa, também, ter acesso a essa salvação que Jesus veio propor. Jesus passará por cima dos preconceitos religiosos dos judeus e oferecerá a salvação a esta pagã? Uma mulher fenícia (estrangeira, inimiga, oriunda de uma região com má fama e, ainda por cima, “mulher”) merecerá a graça da salvação?

MENSAGEM

Consideremos, em primeiro lugar, a figura da mulher fenícia… As suas três intervenções mostram, por um lado, a sua ânsia de salvação; e, por outro, a fé firme e convicta que a anima (as designações “filho de David” – que equivale a “Messias” – e “Senhor” – “Kyrios” – com que ela se dirige a Jesus, lidas em contexto cristão, equivalem a uma confissão de fé). É uma figura que nos impressiona pela fé, pela humildade e também pelo sofrimento que transparece no seu apelo.

Surpreende-nos depois, numa primeira leitura, a forma dura como Jesus trata esta mulher que pede ajuda. Ele começa por passar em silêncio, aparentemente insensível aos apelos da mulher (vers. 23). Depois, perante a insistência dos discípulos, responde: “não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” (vers. 24). Finalmente, diante do dramático último apelo da mulher (“socorre-me, Senhor”), responde: “não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cães” (vers. 26).

Como entender esta atitude rude e insensível do mestre galileu, sempre preocupado em traduzir em gestos concretos o amor e a misericórdia de Deus pelos homens? A reacção de Jesus será fruto da convicção de que, de acordo com o plano de Deus, a salvação devia derramar-se, em primeiro lugar, pelos judeus, antes de alcançar os gentios?

A atitude de Jesus faz sentido, se a virmos como uma estratégia pedagógica, destinada a mostrar o sem sentido dos preconceitos judaicos contra os pagãos.

Jesus conduziu o jogo de forma a demonstrar como eram ridículas as atitudes de discriminação dos pagãos, propostas pela catequese oficial judaica. Endurecendo progressivamente a sua atitude face ao apelo que lhe foi feito pela “cananeia”, Jesus dá à mulher a possibilidade de demonstrar a firmeza e a convicção da sua fé e prova aos judeus que os pagãos são bem dignos – talvez mais dignos do que esses “santos” membros do Povo de Deus – de se sentar à mesa do Reino. Esta mulher, na sua humildade, nem sequer reivindica equiparar-se a esse Povo eleito, convidado por Deus para o banquete do Reino… Ela está disposta a ficar apenas com “as migalhas” que caem da mesa (vers. 27); mas pede insistentemente que lhe permitam ter acesso a essa salvação que Jesus traz. Ao contrário, os fariseus e doutores da Lei, fechados na sua auto-suficiência e nos seus preconceitos, rejeitam continuamente essa salvação que Jesus não cessa de lhes oferecer.

No final de toda esta caminhada de afirmação da “bondade” e do “merecimento” desses pagãos que a teologia oficial de Israel desprezava, Jesus conclui: “Mulher, grande é a tua fé. Faça-se como desejas”. A afirmação de Jesus significa: “na verdade tu estás disposta a acolher-Me como o enviado do Pai e a aceitar o pão do Reino, o pão com que Deus mata a fome de vida de todos os seus filhos. Recebe essa salvação que se destina a todos aqueles que têm o coração aberto aos dons de Deus”.

É possível que Mateus esteja, nesta catequese, a responder a uma situação concreta da sua comunidade… Nos finais do século primeiro (o Evangelho segundo Mateus aparece durante a década de oitenta), alguns judeo-cristãos ainda tinham dificuldade em aceitar a entrada dos pagãos na Igreja de Jesus. Mateus recorda-lhes, então, que para Jesus o que é decisivo não é a raça, a história, a eleição, mas a adesão firme e convicta à proposta de salvação que, em Jesus, Deus faz aos homens.

O texto mostra que a proposta de Jesus é para todos. A comunidade de Jesus é, verdadeiramente, uma comunidade universal. Aquilo que é decisivo, no acesso à salvação, é a fé – isto é, a capacidade de aderir a Jesus e à sua proposta de vida.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão pode partir dos seguintes elementos:

  • A primeira questão que o nosso texto põe prende-se com a definição daquilo que é essencial na experiência cristã. Quem é que é cristão? Quem é que pode fazer parte da comunidade de Jesus? A resposta está implícita na história da mulher cananeia: torna-se membro da comunidade de Jesus quem aceita a sua oferta de salvação, quem acolhe o Reino, adere a Jesus e ao Evangelho. O que é determinante, para integrar a comunidade do Reino, não é a raça, a cor da pele, o local de nascimento, a tradição familiar, a formação académica, a capacidade intelectual, a visibilidade social, o cumprimento de ritos, a recepção de sacramentos, a amizade com o pároco, os serviços prestados à “fábrica da igreja”, mas a fé (entendida como adesão a Jesus e à sua proposta de salvação). Para mim, o que é que é ser cristão? O que está no centro da minha experiência cristã é a pessoa de Jesus e a sua proposta de salvação? Em que é que se fundamenta a minha fé?
  • O exemplo da mulher cananeia leva-nos a pensar, por contraste, nesses “fariseus e doutores da Lei” que rejeitam a oferta de salvação que Deus lhes faz, em Jesus. Estão cheios de certezas, de convicções firmes, de preconceitos; mas não têm o coração aberto aos desafios que Deus lhes faz… Conhecem bem a Palavra de Deus, têm ideias definidas acerca do que Deus quer ou não quer, são orgulhosos e auto-suficientes porque se consideram um povo santo, eleito de Deus, mas não têm esse coração humilde e simples para acolher a novidade de Deus… Atenção: o verdadeiro crente é aquele que se apresenta diante de Deus numa atitude de humildade e simplicidade, acolhendo com um coração agradecido os dons de Deus e a graça da salvação. O verdadeiro crente não se barrica em certezas imutáveis ou em chavões doutrinais, mas procura descobrir, cada dia, com humildade e simplicidade, a verdade eterna de Deus e as suas propostas para o mundo e para os homens.
  • Teoricamente, ninguém põe em causa que a Igreja nascida de Jesus seja uma comunidade aberta a todos os homens e mulheres, de todas as raças, culturas, classes sociais, quadrantes políticos… Na prática, será que todos encontram na Igreja um espaço de comunhão, de amor, de fraternidade? Os homens e as mulheres, os casados e os divorciados, os pobres e os ricos, os instruídos e os analfabetos, os conhecidos e os desconhecidos, os bons e os maus, os novos e os velhos, todos são acolhidos na comunidade cristã sem discriminação e todos são convidados a pôr a render, para benefício dos irmãos, os talentos que Deus lhes deu? Independentemente do que os documentos da Igreja dizem, do que o Papa ou os bispos dizem, o que é que eu faço para que a minha comunidade cristã seja um espaço de fraternidade, onde todos se sentem acolhidos e amados?
  • Como a primeira leitura, também o Evangelho sugere uma reflexão sobre a forma como acolhemos o estrangeiro, o irmão diferente, o “outro” que, por razões políticas, económicas, sociais, laborais, culturais, turísticas, vem ao nosso encontro. Se Deus não discrimina ninguém, mas aceita acolher à sua mesa todos os homens e mulheres, sem distinção, porque não havemos de proceder da mesma forma? Particular cuidado e atenção devem merecer-nos os imigrantes que não falam a nossa língua, que não têm casa, que não têm trabalho, que sentem a ausência da família e dos amigos, que são perseguidos pelas redes que exploram o trabalho escravo… O convite que Deus nos faz é que vejamos em cada pessoa um irmão, independentemente das diferenças de cor da pele, de nacionalidade, de língua ou de valores.

Dehonianos

 

 

MULHER DA GRANDE FÉ!

1. O Evangelho deste Domingo XX do Tempo Comum serve-nos uma página absolutamente desarmante, retirada de Mateus 15,21-28. Jesus abandona Genesaré, na costa ocidental do Mar da Galileia, e vai para a região de Tiro e de Sídon, atual Líbano, terra pagã.

 2. Uma mulher e mãe «libanesa», carregada com o drama da sua filha doente, situação verdadeira ontem como hoje, e que hoje bem podemos estender à Palestina, à Síria e ao Iraque, vem implorar de Jesus, num grito que lhe sai do fundo das entranhas, que lhe «faça graça» (eléêsón me, kýrie) (Mateus 15,22), isto é, que olhe para ela com bondade e ternura como uma mãe que dirige o seu olhar embevecido para o bebé que embala nos braços.

 3. O texto diz que Jesus nem lhe respondeu (Mateus 15,23). Mas a mulher não desiste, mas insiste e vai mais longe, prostrando-se (verboproskinéô) agora diante de Jesus (Mateus 15,25). O gesto significa orientar a sua vida toda para Jesus, pôr-se totalmente na dependência de Jesus. A reação de Jesus é de uma dureza extrema: afasta a pobre mulher e mãe duramente, catalogando-a na classe dos cachorros [= pagãos] e não dos filhos [= judeus] (Mateus 15,26). Só para estes é que ele veio.

 4. A mulher replica de modo admirável: é verdade, Senhor! Os filhos estão reclinados à mesa, mas os cachorros comem debaixo da mesa as migalhas que caem! (Mateus 15,27). «Mulher da grande fé! (megalê hê pístis)», replicou Jesus, «faça-se como queres!» (Mateus 15,28).

 5. Note-se bem que é a única vez que Jesus fala da «grande fé». E atribui-a a uma mulher e mãe «libanesa» cujo amor nunca se vergou perante a dureza e as dificuldades da vida. Em contraponto com esta mulher da «grande fé», note-se bem que Pedro é o homem da «pequena fé» (oligópistos) (Mateus 14,31), do mesmo modo que os discípulos são também os homens «da pequena fé» (oligópistoi) (Mateus 6,30; 8,26; 16,8; 17,20). Admirável ainda que Jesus diga a esta mulher que não desiste, mas insiste e persiste: «faça-se como queres» (genêthêtô hôs théleis), um paralelo claro da oração do «Pai Nosso»: «Faça-se a tua vontade» (genêthêtô tò thélêmá sou) (Mateus 6,10)!

 6. O episódio é de uma crueza e de uma beleza inauditas. Mas há ainda mais: é a insistência desta mulher e mãe «libanesa» que, por assim dizer, obriga Jesus a passar mais uma fronteira: de hebraeos ad gentes, dos hebreus para os pagãos!

 7. Enquanto tentamos compreender melhor a ousadia da grande fé desta mulher e mãe «libanesa», que enche claramente este Domingo XX, não deixemos também de contemplar o rumor missionário que se faz ouvir, em perfeita sintonia, nas demais passagens ou paisagens bíblicas de hoje. Em primeiro lugar, e em pura sintonia com a universalidade do Evangelho, aí está a lição igualmente aberta de Isaías 56,1-7, que adscreve mais um belo nome a Jerusalém: «Casa de oração para todos os povos» (Isaías 56,7). Jesus citará este texto de Isaías em Mateus 21,13, Marcos 11,17 e Lucas 19,46. Em Mateus e Lucas, só a primeira parte é referida: «A minha casa será chamada casa de oração». Só em Marcos, a citação aparece por inteiro: «A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos». Mas Isaías continua a anunciar que os estrangeiros que quiserem servir e amar o Deus Santo e ser fiéis à sua aliança, serão por Ele conduzidos ao monte santo, e os seus sacrifícios e holocaustos serão do agrado de Deus (Isaías 56,6-7). Alguns serão mesmo escolhidos por Deus para sacerdotes e levitas (Isaías 66,21).

 8. Mas este tom de comovida universalidade já se tinha feito ouvir, de forma surpreendente, em Isaías 19,24-25, em que Deus une na mesma bênção o Egipto, a Assíria e Israel, sendo o Egipto e a Assíria inimigos de Israel! O amor de Deus não conhece barreiras. A mesma admirável lição se encontra no Salmo 87,4, um maravilhoso Cântico de Sião: «Recordarei Raab e Babel entre os que me conhecem; eis a Filisteia e Tiro e a Etiópia: este nasceu lá». Eis Deus a escrever no livro anagráfico os nomes dos seus filhos. E aí vemos outra vez inscritos os inimigos de Israel: Raab, que é o Egipto (Isaías 30,7), a Babilónia, os Filisteus, e os estrangeiros mais estrangeiros, a Etiópia (do grego aíthô[= acender, queimar], e ôps [= rosto]), que é o país das pessoas de rosto queimado ou de cor negra, o país do fim do mundo, como escreve Homero.

 9. Vai ainda no sentido da universalidade, a lição da Carta aos Romanos 11,13-15.29-32, hoje também lida, em que S. Paulo se intitula «Apóstolo das nações» (Romanos 11,13), e nos diz que Deus usa de misericórdia para com todos (Romanos 11,32). Por isso, bem podemos hoje, com o Salmo 67, juntar as nossas vozes às vozes dos povos de toda a terra no mesmo louvor ao Deus que a todos faz graça e misericórdia.

 D. António Couto

 

O Canto na Liturgia

Antífona de Entrada

 Senhor Deus, nosso protector – F. Valente

 Senhor que nos dais guarida – F. Silva

 

Salmo Responsorial

 Louvado sejais, Senhor, pelos povos de toda a terra (sl 66) – M. Luís

 Os povos Vos louvem, ó Deus, todos os povos Vos louvem (sl 66) – Az. Oliveira
                 

Antífona da Comunhão

 A minha carne é verdadeira comida – F. Silva (NRMS 102| IC, p. 365-366)

 Eu sou o Pão vivo – M. Luís (CAC, p. 395-396| CEC II, p. 101)

 Eu sou o Pão da vida – M. Luís (CAC, p. 393| CEC II, p. 93| NCT 261| L 374)

 Eu sou o Pão da vida – M. Simões

 Eu sou o Pão vivo descido do Céu – C. Silva

 Eu sou o Pão vivo – Duarte Morgado/A. Cartageno

 

Outros cânticos para o Domingo XX do Tempo Comum

Eucaristia, Corpo de Jesus – Paulo Cruz

Eu sou o pão da vida – M. Simões (SC I, p. 48-49| NCT 421)

Vós sois o pão vivo, Senhor – F. Silva (NRMS 90-91| CEC II, p. 94-96)

Vós sois o pão vivo, Senhor – F. Santos (BML 155-156)

Quem come a minha carne – F. Santos (BML 155-156)

Quem come a minha carne – C. Silva

Quem come a minha carne – M. Simões (BML 37| CEC II, p. 167-168)

Quem come a minha carne – J. A. Nunes

Quem come a minha carne – M. Carneiro        

No Senhor está a misericórdia, no Senhor está a abundância da redenção (sl 129)

– M. Carneiro (SRMC A, p. 40-41)

No Senhor a misericórdia, no Senhor a abundância da redenção (sl 129)

– B. Salgado

No Senhor está a misericórdia e abundante redenção (sl 129)

– F. Silva (NRMS 44|IC, p. 837| LHC II, p. 210); A. Mendes (LHC II, p. 213); F. Santos (LHC II, p. 216|L 1033; ou CP I, p. 131); Az. Oliveira (LHC II, p. 219)

Vinde, comei do meu Pão – T. Sousa (CS, p. 21)

Vinde comer do meu Pão – C. Silva (OC, p. 269| NRMS 98| IC, p. 591)

Vinde, comei do meu Pão  M. Valença (NRMS 42)

Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria – Ano A

 

Tema da Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria

 

Bendita és tu, Maria! Hoje, Jesus ressuscitado acolhe a sua mãe na glória do céu… Hoje, Jesus vivo, glorificado à direita do Pai, põe sobre a cabeça da sua mãe a coroa de doze estrelas…

Primeira leitura: Maria, imagem da Igreja.  Como Maria, a Igreja gera na dor um mundo novo. E como Maria, participa na vitória de Cristo sobre o Mal.

Salmo: Bendita és tu, Virgem Maria!  A esposa do rei é Maria. Ela tem os favores de Deus e está associada para sempre à glória do seu Filho.

Segunda leitura: Maria, nova Eva.  Novo Adão, Jesus faz da Virgem Maria uma nova Eva, sinal de esperança para todos os homens.

Evangelho: Maria, Mãe dos crentes.  Cheia do Espírito Santo, Maria, a primeira, encontra as palavras da fé e da esperança: doravante todas as gerações a chamarão bem-aventurada!

LEITURA I – Ap 11,19a;12,1-6a.10ab

Leitura do Apocalipse de São João

O templo de Deus abriu-se no Céu
e a arca da aliança foi vista no seu templo.
Apareceu no Céu um sinal grandioso:
uma mulher revestida de sol,
com a lua debaixo dos pés
e uma coroa de doze estrelas na cabeça.
Estava para ser mãe
e gritava com as dores e ânsias da maternidade.
E apareceu no Céu outro sinal:
um enorme dragão cor de fogo,
com sete cabeças e dez chifres
e nas cabeças sete diademas.
A cauda arrastava um terço das estrelas do céu
e lançou-as sobre a terra.
O dragão colocou-se diante da mulher que estava para ser mãe,
para lhe devorar o filho, logo que nascesse.
Ela teve um filho varão,
que há-de reger todas as nações com ceptro de ferro.
O filho foi levado para junto de Deus e do seu trono
e a mulher fugiu para o deserto,
onde Deus lhe tinha preparado um lugar.
E ouvi uma voz poderosa que clamava no Céu:
«Agora chegou a salvação, o poder e a realeza do nosso Deus
e o domínio do seu Ungido».
 
 

BREVE COMENTÁRIO

As visões do Apocalipse exprimem-se numa linguagem codificada. Elas revelam que Deus arranca os seus fiéis de todas as formas de morte. Por transposição, a visão o sinal grandioso pode ser aplicada a Maria.

O livro do Apocalipse foi composto no ambiente das perseguições que se abatiam sobre a jovem Igreja, ainda tão frágil. O profeta cristão evoca estes acontecimentos numa linguagem codificada, em que os animais terrificantes designam os perseguidores. A Mulher pode representar a Igreja, novo Israel, o que sugere o número doze (as estrelas). O seu nascimento é o do baptismo que deve dar à terra uma nova humanidade. O Dragão é o perseguidor, que põe tudo em acção para destruir este recém-nascido. Mas o destruidor não terá a última palavra, pois o poder de Deus está em acção para proteger o seu Filho.

Proclamando esta mensagem na Assunção, reconhecemos que, no seguimento de Jesus e na pessoa de Maria, a nova humanidade já é acolhida junto de Deus.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 44 (45)

 

Refrão:  À vossa direita, Senhor, está a Raínha do Céu

Ao vosso encontro vêm filhas de reis,
à vossa direita está a rainha, ornada com ouro de Ofir.
 
Ouve, minha filha, vê e presta atenção,
esquece o teu povo e a casa de teu pai.
 
Da tua beleza se enamora o Rei;
Ele é o teu Senhor, presta-Lhe homenagem.
 
Cheias de entusiasmo e alegria,
entram no palácio do Rei.
 
 

LEITURA II – 1 Cor 15,20-27

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios

Irmãos:
Cristo ressuscitou dos mortos,
como primícias dos que morreram.
Uma vez que a morte veio por um homem,
também por um homem veio a ressurreição dos mortos;
porque, do mesmo modo que em Adão todos morreram,
assim também em Cristo serão todos restituídos à vida.
Cada qual, porém, na sua ordem:
primeiro, Cristo, como primícias;
a seguir, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda.
Depois será o fim,
quando Cristo entregar o reino a Deus seu Pai
depois de ter aniquilado toda a soberania, autoridade e poder.
É necessário que Ele reine,
até que tenha posto todos os inimigos debaixo dos seus pés.
E o último inimigo a ser aniquilado é a morte,
porque Deus tudo colocou debaixo dos seus pés.
Mas quando se diz que tudo Lhe está submetido
é claro que se exceptua Aquele que Lhe submeteu todas as coisas.
 
 

BREVE COMENTÁRIO

A Assunção é uma forma privilegiada de Ressurreição. Tem a sua origem na Páscoa de Jesus e manifesta a emergência de uma nova humanidade, em que Cristo é a cabeça, como novo Adão.

Todo o capítulo 15 desta epístola é uma longa demonstração da ressurreição. Na passagem escolhida para a festa da Assunção, o apóstolo apresenta uma espécie de genealogia da ressurreição e uma ordem de prioridade na participação neste grande mistério. O primeiro é Jesus, que é o princípio de uma nova humanidade. Eis porque o apóstolo o designa como um novo Adão, mas que se distingue absolutamente do primeiro Adão; este tinha levado a humanidade à morte, ao passo que o novo Adão conduz aqueles que o seguem para a vida.

O apóstolo não evoca Maria, mas se proclamamos esta leitura na Assunção, é porque reconhecemos o lugar eminente da Mãe de Deus no grande movimento da ressurreição.

ALELUIA

Aleluia. Aleluia.

Maria foi elevada ao Céu;
alegra-se a multidão dos Anjos.
 
 

EVANGELHO – Lc 1,39-56

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naqueles dias,
Maria pôs-se a caminho
e dirigiu-se apressadamente para a montanha,
em direcção a uma cidade de Judá.
Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel.
Quando Isabel ouviu a saudação de Maria,
o menino exultou-lhe no seio.
Isabel ficou cheia do Espírito Santo
e exclamou em alta voz:
«Bendita és tu entre as mulheres
e bendito é o fruto do teu ventre.
Donde me é dado
que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?
Na verdade, logo que chegou aos meus ouvidos
a voz da tua saudação,
o menino exultou de alegria no meu seio.
Bem-aventurada aquela que acreditou
no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito
da parte do Senhor».
Maria disse então:
«A minha alma glorifica o Senhor
e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador,
porque pôs os olhos na humildade da sua serva:
de hoje em diante me chamarão bem-aventurada
todas as gerações.
O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas:
Santo é o seu nome.
A sua misericórdia se estende de geração em geração
sobre aqueles que O temem.
Manifestou o poder do seu braço
e dispersou os soberbos.
Derrubou os poderosos de seus tronos
e exaltou os humildes.
Aos famintos encheu de bens
e aos ricos despediu de mãos vazias.
Acolheu a Israel, seu servo,
lembrado da sua misericórdia,
como tinha prometido a nossos pais,
a Abraão e à sua descendência para sempre».
Maria ficou junto de Isabel cerca de três meses
e depois regressou a sua casa.
 
 

BREVE COMENTÁRIO

O cântico de Maria descreve o programa que Deus tinha começado a realizar desde o começo, que ele prosseguiu em Maria e que cumpre agora na Igreja, para todos os tempos.

Pela Visitação que teve lugar na Judeia, Maria levava Jesus pelos caminhos da terra. Pela Dormição e pela Assunção, é Jesus que leva a sua mãe pelos caminhos celestes, para o templo eterno, para uma Visitação definitiva. Nesta festa, com Maria, proclamamos a obra grandiosa de Deus, que chama a humanidade a se juntar a ele pelo caminho da ressurreição.

Em Maria, Ele já realizou a sua obra na totalidade; com ela, nós proclamamos: “dispersou os soberbos, exaltou os humildes”. Os humildes são aqueles que crêem no cumprimento das palavras de Deus e se põem a caminho, aqueles que acolhem até ao mais íntimo do seu ser a Vida nova, Cristo, para o levar ao nosso mundo. Deus debruça-se sobre eles e cumpre neles maravilhas.

Rezar por Maria.

Frequentemente, ouvimos a expressão: “rezar à Virgem Maria”… Esta maneira de falar não é absolutamente exacta, porque a oração cristã dirige-se a Deus, ao Pai, ao Filho e ao Espírito: só Deus atende a oração. Os nossos irmãos protestantes que, contrariamente ao que se pretende, por vezes têm a mesma fé que os católicos e os ortodoxos na Virgem Maria Mãe de Deus, recordam-nos que Maria é e se diz ela própria a Serva do Senhor.

Rezar por Maria é pedir que ela reze por nós: “Rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa morte!” A sua intervenção maternal em Caná resume bem a sua intercessão em nosso favor. Ela é nossa “advogada” e diz-nos: “Fazei tudo o que Ele vos disser!”

Rezar com Maria

Ela está ao nosso lado para nos levar na oração, como uma mãe sustenta a palavra balbuciante do seu filho. Na glória de Deus, na qual nós a honramos hoje, ela prossegue a missão que Jesus lhe confiou sobre a Cruz: “Eis o teu Filho!” Rezar com Maria, mais que nos ajoelharmos diante dela, é ajoelhar-se ao seu lado para nos juntarmos à sua oração. Ela acompanha-nos e guia-nos na nossa caminhada junto de Deus.

Rezar como Maria.

Aprendemos junto de Maria os caminhos da oração. Na escola daquela que “guardava e meditava no seu coração” os acontecimentos do nascimento e da infância de Jesus, nós meditamos o Evangelho e, à luz do Espírito Santo, avançamos nos caminhos da verdade. A nossa oração torna-se acção de graças no eco ao Magnificat. Pomos os nossos passos nos passos de Maria para dizer com ela na confiança: “que tudo seja feito segundo a tua Palavra, Senhor!”

Dehonianos

 

NOSSA SENHORA DA ASSUNÇÃO

 

1. Ainda que com títulos diferentes, mas com temas e conteúdos idênticos,  as Igrejas do Oriente e do Ocidente, portanto a Igreja inteira, a Una e Santa, celebra no dia 15 de Agosto a maior e mais antiga festa da Mãe de Deus, a Virgem Santa Maria. No Oriente, é a festa da «Dormição» (koímêsis), enquanto que, no Ocidente, prevalece a tonalidade da «Assunção» (análêmpsis).

2. O Evangelho deste grande Dia relata o belíssimo episódio da «Visitação» (Lucas 1,39-45) seguido do cântico da «Exultação» ou «Magnificat» (Lucas 1,46-56). Note-se outra vez uma pequena diferença de tonalidade: o episódio que o Ocidente conhece por «Visitação», recebe no Oriente o nome de «Saudação» (aspasmós). E o episódio que precede e motiva esta «Visitação» ou «Saudação» recebe no Ocidente o nome de «Anunciação» e no Oriente o nome de «Evangelização» (euangelismós) (Lucas 1,26-38). Verdadeiramente é a Leveza e a Alegria em trânsito, a caminho, ao ritmo do vento do Espírito, música nova, inefável e bendita. Vinda de Deus até Maria, até Isabel, até João Baptista, outra vez até Deus. Lembra uma pequena parábola rabínica que, quando David andava fugido de Saul, buscando refúgio nas montanhas (1 Samuel 22 e seguintes), um dia dependurou a sua harpa numa árvore, e adormeceu. Mas o vento, passando, fez as cordas da harpa exalar uma suave melodia. Verdadeira música do Espírito.

3. É igualmente sugestiva a intuição dos Mestres judaicos, registrada por Martin Buber nos seus «Contos dos Justos». Citando o Salmo 147,1, em que se lê: «É bom cantar ao nosso Deus», Buber apresenta logo a bela interpretação que Rabbí Elimelek dava deste versículo: «É bom se o homem faz cantar Deus nele». Música divina. Assim Maria correndo sobre os montes e saudando Isabel e cantando as maravilhas de Deus no Magnificat, assim Isabel bendizendo Maria e bendizendo Deus, assim João Baptista, dançando ao som dessa nova música inefável, no ventre de Isabel.

4. Maria correndo sobre os montes: feliz evocação do mensageiro de boas notícias de Isaías 52,7: «Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia boas novas a Sião…»; evocação também do amado do Cântico dos Cânticos 2,8, assim cantado pela amada: «A voz do meu amado: ei-lo que vem correndo sobre os montes». Assim, com este simples acorde montanhoso, o narrador e grande retratista do terceiro Evangelho traça o perfil de Maria movida por uma grande notícia e pelo amor. A aclamação de Isabel: «Bendita tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre» = «Bendita tu e bendito Deus» lembra o duplo «Bendito» na aclamação de Judite (13,18). A locução maravilhada de Isabel: «E donde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor» remete para o atónito dizer de David: «E donde me é dado que venha ao meu encontro a Arca do Senhor?» (2 Samuel 6,9). E a «dança de João» reclama a dança de David na presença da Arca do Senhor (2 Samuel 6,5.14.16.21). Os acordes textuais evidentes mostram Maria como a Arca da Aliança, como, de resto, é aclamada pelo Povo de Deus.

5. O que verdadeiramente me extasia e inebria é esta música outra, ventilando as cordas do nosso humano, e quase sempre orgulhoso, coração. Vem outra vez a propósito a velha sabedoria judaica, que nos legou esta bela pequena história: «Conta-se que, quando David terminou o Livro dos Salmos, se sentiu muito orgulhoso. Então disse para Deus: “Senhor do mundo, quem de entre todos os seres que criaste, canta melhor do que eu a tua glória?” Naquele momento, apareceu uma rã que lhe disse: “David, não te envaideças. Eu canto melhor do que tu a glória de Deus”» (Sefer ha-Haggadah, 89b).

6. Pela Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, de 1 de Novembro de 1950, o Papa Pio XII proclamava a Assunção da Virgem Maria como dogma de fé. Mas é desde os primeiros séculos do Cristianismo que o Povo de Deus proclama e vive com amor esta realidade. Quantas igrejas, paróquias e dioceses a têm como Padroeira! E, neste particular, este recanto Peninsular, terra de Santa Maria, não podia ser excepção. O Povo de Deus desde muito cedo aclamou a Assunção de Maria, Mãe de Deus e esperança da nossa frágil humanidade.

7. No seguimento lógico da Assunção de Maria, a Igreja celebra oito dias depois, em 22 de Agosto, a Memória da Virgem Santa Maria, Rainha, proclamação também devida a Pio XII, através da Carta Encíclica Ad Coeli Reginam, de 11 de Outubro de 1954. Mãe Elevada aos Céus, mas Mãe que vela carinhosamente pelos seus filhos. O Rei e a Rainha não são, na Bíblia, títulos de nobreza, mas traduzem a dupla função de quem deve estar particularmente próximo de Deus e particularmente próximo dos homens. Para acolher de perto toda a Palavra que vem do coração de Deus, e para trazer à humanidade a prosperidade, o bem-estar e a felicidade. Tal é a função do Rei e da Rainha.

Senhora da Visitação ou da Saudação,
que corres ligeira sobre os montes,
Senhora da Assunção ou da Dormição,
Santa Maria Rainha,
vela por nós, fica à nossa beira.
É bom ter a esperança como companheira.
 
 

D. António Couto

O Canto na Liturgia

MISSA DA VIGÍLIA

14 de Agosto de 2016 | Ano C

Antífona de Entrada

Bendita sois vós – F. Santos

Alegrai-Vos, ó Virgem Maria – M. Luís

Nos braços do Deus forte – F. Silva

 

Salmo Responsorial

Levantai-Vos, Senhor, e entrai no vosso sepulcro, Vós e a arca da vossa majestade   (sl 131) – A. Cartageno

 

Antífona da Comunhão

Bendita seja a Virgem Maria – M. Luís

Felizes as entranhas da Virgem Maria – C. Silva

 

MISSA DO DIA

15 de Agosto de 2016 | Ano C

 

Antífona de Entrada

O povo viu um grande sinal – F. Santos

Apareceu no céu um sinal – J. Geada

Apareceu no Céu um sinal – C. Silva

Nos braços do Deus forte – F. Silva

 

Salmo Responsorial

À vossa direita, Senhor, está a Rainha do Céu (sl 44) – A. Cartageno

Aclamação ao Evangelho

Aleluia. Maria foi elevada ao Céu – F. Santos / A. M. Seiça

Aleluia. Maria foi elevada ao Céu – João Vilas Boas / J. Mateus


Antífona da Comunhão

Todas as gerações me hão-de proclamar ditosa – Az. Oliveira

Todas as gerações me chamarão bem-aventurada – F. Santos 


Outros cânticos para a Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria

A Virgem Maria foi exaltada – F. Santos

Alegrai-Vos, ó Virgem Maria  – M. Luís

Bendita por Deus entre todas as mulheres – F. Santos

Bendita seja a Virgem Maria – M. Luís

Ditosa Virgem – M. Luís

É celebrada a vossa glória – F. Santos

Maria, és a árvore da vida – F. Santos

Nós te louvamos, ó Maria – M. Luís

O coro dos anjos canta – Nuno Queirós

Ó incomparável alegria – M. Luís

Salve, ó Virgem Maria – C. Silva

Salve, Salve Rainha, Mãe de Misericórdia – A. Cartageno