Domingo XVII do Tempo Comum – Ano C

Tema do 17º Domingo do Tempo Comum

O tema fundamental que a liturgia nos convida a reflectir, neste domingo, é o tema da oração. Ao colocar diante dos nossos olhos os exemplos de Abraão e de Jesus, a Palavra de Deus mostra-nos a importância da oração e ensina-nos a atitude que os crentes devem assumir no seu diálogo com Deus.

primeira leitura sugere que a verdadeira oração é um diálogo “face a face”, no qual o homem – com humildade, reverência, respeito, mas também com ousadia e confiança – apresenta a Deus as suas inquietações, as suas dúvidas, os seus anseios e tenta perceber os projectos de Deus para o mundo e para os homens.

Evangelho senta-nos no banco da “escola de oração” de Jesus. Ensina que a oração do crente deve ser um diálogo confiante de uma criança com o seu “papá”. Com Jesus, o crente é convidado a descobrir em Deus “o Pai” e a dialogar frequentemente com Ele acerca desse mundo novo que o Pai/Deus quer oferecer aos homens.

segunda leitura, sem aludir directamente ao tema da oração, convida a fazer de Cristo a referência fundamental (neste contexto de reflexão sobre a oração, podemos dizer que Cristo tem de ser a referência e o modelo do crente que reza: quer na frequência com que se dirige ao Pai, quer na forma como dialoga com o Pai).

LEITURA I – Gen 18,20-32

Leitura do Livro do Génesis

Naqueles dias, disse o Senhor:
«O clamor contra Sodoma e Gomorra é tão forte,
o seu pecado é tão grave
que Eu vou descer para verificar
se o clamor que chegou até Mim
corresponde inteiramente às suas obras.
Se sim ou não, hei-de sabê-lo».
Os homens que tinham vindo à residência de Abraão
dirigiram-se então para Sodoma,
enquanto o Senhor continuava junto de Abraão.
Este aproximou-se e disse:
«Irás destruir o justo com o pecador?
Talvez haja cinquenta justos na cidade.
Matá-los-ás a todos?
Não perdoarás a essa cidade,
por causa dos cinquenta justos que nela residem?
Longe de Ti fazer tal coisa:
dar a morte ao justo e ao pecador,
de modo que o justo e o pecador tenham a mesma sorte!
Longe de Ti!
O juiz de toda a terra não fará justiça?»
O Senhor respondeu-lhe:
«Se encontrar em Sodoma cinquenta justos,
perdoarei a toda a cidade por causa deles».
Abraão insistiu:
«Atrevo-me a falar ao meu Senhor,
eu que não passo de pó e cinza:
talvez para cinquenta justos faltem cinco.
Por causa de cinco, destruirás toda a cidade?»
O Senhor respondeu:
«Não a destruirei se lá encontrar quarenta e cinco justos».
Abraão insistiu mais uma vez:
«Talvez não se encontrem nela mais de quarenta».
O Senhor respondeu:
«Não a destruirei em atenção a esses quarenta».
Abraão disse ainda:
«Se o meu Senhor não levar a mal, falarei mais uma vez:
talvez haja lá trinta justos».
O Senhor respondeu:
«Não farei a destruição, se lá encontrar esses trinta».
Abraão insistiu novamente:
«Atrevo-me ainda a falar ao meu Senhor:
talvez não se encontrem lá mais de vinte justos».
O Senhor respondeu:
«Não destruirei a cidade em atenção a esses vinte».
Abraão prosseguiu:
«Se o meu Senhor não levar a mal,
falarei ainda esta vez:
talvez lá não se encontrem senão dez».
O Senhor respondeu:
«Em atenção a esses dez, não destruirei a cidade».
 
 
 
AMBIENTE
 

Este texto do Livro do Génesis vem na sequência da primeira leitura do passado domingo. Depois de terem deixado a tenda de Abraão, os três personagens dirigiram-se para a cidade de Sodoma, a fim de constatar “in loco” o pecado dos habitantes da cidade. Abraão acompanhou os seus visitantes divinos durante algum tempo. O autor jahwista situa num lugar alto, a Este de Hebron – de onde se avista Sodoma (cf. Gn 19,27) – esse diálogo entre Abraão e Deus que o texto nos apresenta.

Sodoma era uma cidade antiga, que se supõe ter existido nas margens do Mar Morto, ao sul da península de El-Lisan. De acordo com as lendas, foi uma das cidades destruídas (as outras teriam sido Gomorra, Adama, Seboim e Segor) por um cataclismo que ficou na memória do povo bíblico. Alguns estudiosos modernos têm procurado uma explicação para a lenda na geologia da área: a região fica situada na falha do vale do Jordão, numa zona sujeita a terramotos e a actividades vulcânicas. Depósitos de betume e de petróleo têm sido descobertos nesta região; e alguns escritores antigos atestam a presença de gases que, uma vez inflamados, poderiam causar uma terrível destruição, do tipo relatado em Gn 19. Terá sido isso que aconteceu nessa zona?

É, provavelmente, essa recordação de um antigo cataclismo que, em tempos imemoriais, destruiu a área, que originou a reflexão que esta leitura nos apresenta. Poder-se-ia pensar que um acontecimento pré-histórico muito remoto, cujos traços enigmáticos eram ainda visíveis no tempo de Abraão (como o são ainda hoje), tenha excitado a fantasia religiosa, no sentido de procurar as causas de uma tão terrível catástrofe.

O diálogo que a primeira leitura de hoje nos propõe é um texto de transição que serve para ligar a lenda de Mambré com as lendas que relatam a destruição de Sodoma e das cidades vizinhas. Os autores jahwistas aproveitaram o ensejo para propor uma catequese sobre o peso que o justo e o pecador têm diante de Deus.

MENSAGEM

Deus prepara-se para iniciar a “investigação”, a fim de constatar da culpabilidade ou da não culpabilidade de Sodoma. É precisamente aí que o autor jahwista resolve inserir essa pergunta fundamental que o inquieta: que acontecerá se essa “investigação” revelar a existência na cidade de um pequeno grupo de justos? Deus vai castigar toda a comunidade? Será que um punhado de justos vale tanto que, por amor deles, Deus esteja disposto a perdoar o castigo a uma multidão de culpados?

A ideia de que um punhado de “justos” possa salvar a cidade pecadora é, em pleno séc. X a.C. (a época do jahwista), uma ideia revolucionária. Para a mentalidade religiosa dos israelitas desta altura, todos os membros de uma comunidade (família, cidade, nação) eram solidários no bem e no mal; se alguém falhasse, o castigo devia, invariavelmente, derramar-se sobre o grupo. No entanto, os catequistas jahwistas atrevem-se a sugerir que talvez a “justiça” de uns tantos seja, para Deus, mais importante do que o pecado da maioria. Apesar de tudo, ainda estamos longe da perspectiva da retribuição e da responsabilidade individuais: essas ideias só serão consagradas pela catequese de Israel a partir do séc. VI a.C. (época do exílio na Babilónia).

O problema que Abraão procura resolver é, portanto, se aos olhos de Deus um grupo de “justos” tem tal peso que, por amor deles, Deus esteja disposto a suspender o castigo que pesa sobre toda a colectividade. Os números sucessivamente avançados por Abraão (em forma descendente, de 50 até 10) fazem parte do folclore do “regateio” oriental; mas servem, também, para pôr em relevo a misericórdia e a “justiça de Deus”: a descida até aos dez “justos” e as sucessivas manifestações da vontade de Deus em suspender o castigo mostram que, n’Ele, a misericórdia é maior do que vontade de castigar, que a vontade de salvar é infinitamente maior do que a vontade de perder.

Definida a questão fundamental que o jahwista quer abordar, detenhamo-nos agora um pouco na forma como se desenrola a “conversa” entre Abraão e Deus. É um diálogo “face a face” no qual Abraão se apresenta com humildade, com respeito, pois sente-se “pó e cinza” diante da omnipotência de Deus. No entanto, à medida que o diálogo avança e que Abraão se confronta com a benevolência de Deus, vai surgindo a confiança. Abraão chega a ser importuno na sua insistência e ousado no seu regateio. Recordando a Deus os seus compromissos, ele aparece como o “intercessor”, que consegue da misericórdia de Deus que um número insignificante de justos tenha mais peso do que um número muito elevado de culpados.

É possível dialogar com Deus desta forma familiar, confiante, insistente, ousada? Certamente, pois o Deus de Abraão é esse Deus que veio ao encontro do homem, que entrou na sua tenda, que Se sentou à sua mesa, que estabeleceu com ele comunhão, que realizou os sonhos desse homem que O acolheu, que aceitou partilhar com Ele os seus projectos. Um Deus que Se revela dessa forma é um Deus com quem o homem pode dialogar, com amor e sem temor.

ACTUALIZAÇÃO

Considerar, para a reflexão, os seguintes dados:

¨       O diálogo entre Abraão e Deus a propósito de Sodoma confirma esse Deus da comunhão, que vem ao encontro do homem, que entra na sua casa, que Se senta à mesa com ele, que escuta os seus anseios e que lhes dá resposta; e mostra, além disso, um Deus cheio de bondade e de misericórdia, cuja vontade de salvar é infinitamente maior do que a vontade de condenar. É esse Deus “próximo”, cheio de amor, que quer vir ao nosso encontro e partilhar a nossa vida que temos de encontrar: só será possível rezar, se antes tivermos descoberto este “rosto” de Deus.

¨       A “oração” de Abraão é paradigmática da “oração” do crente: é um diálogo com Deus – um diálogo humilde, reverente, respeitoso, mas também cheio de confiança, de ousadia e de esperança. Não é uma repetição de palavras ocas, gravadas e repetidas por um gravador ou um papagaio, mas um diálogo espontâneo e sincero, no qual o crente se expõe e coloca diante de Deus tudo aquilo que lhe enche o coração. A minha oração é este diálogo espontâneo, vivo, confiante com Deus, ou é uma repetição fastidiosa de fórmulas feitas, mastigadas à pressa e sem significado?

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 137 (138)

Refrão: Quando Vos invoco, sempre me atendeis, Senhor.

De todo o coração, Senhor, eu Vos dou graças,
porque ouvistes as palavras da minha boca.
Na presença dos Anjos hei-de cantar-Vos
e adorar-Vos, voltando para o vosso templo santo.
 
Hei-de louvar o vosso nome pela vossa bondade e fidelidade,
porque exaltastes acima de tudo o vosso nome e a vossa promessa.
Quando Vos invoquei, me respondestes,
aumentastes a fortaleza da minha alma.
 
O Senhor é excelso e olha para o humilde,
ao soberbo conhece-o de longe.
No meio da tribulação Vós me conservais a vida,
Vós me ajudais contra os meus inimigos.
 
A vossa mão direita me salvará,
o Senhor completará o que em meu auxílio começou.
Senhor, a vossa bondade é eterna,
não abandoneis a obra das vossas mãos.
 
 
 

LEITURA II – Col 2,12-14

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Colossenses

Irmãos:

Sepultados com Cristo no baptismo,
também com Ele fostes ressuscitados
pela fé que tivestes no poder de Deus
que O ressuscitou dos mortos.
Quando estáveis mortos nos vossos pecados
e na incircuncisão da vossa carne,
Deus fez que voltásseis à vida com Cristo
e perdoou-nos todas as nossas faltas.
Anulou o documento da nossa dívida,
com as suas disposições contra nós;
suprimiu-o, cravando-o na cruz.
 
 

AMBIENTE

Pela terceira semana consecutiva, temos como segunda leitura um trecho dessa Carta aos Colossenses em que Paulo defende a absoluta suficiência de Cristo para a salvação do homem.

O texto que hoje nos é proposto integra uma perícopa em que Paulo polemiza contra os “falsos doutores” que confundiam os cristãos de Colossos com exigências acerca de anjos, de ritos e de práticas ascéticas (cf. Col 2,4-3,4). Depois de exortar os Colossenses à firmeza na fé frente aos erros dos “falsos doutores” (cf. Col 2,4-8), Paulo afirma que Cristo basta, pois é n’Ele que reside a plenitude da divindade; Ele é a cabeça de todo o principado e potestade e foi Ele que nos redimiu com a sua morte (cf. Col 2,9-15).

MENSAGEM

A questão fundamental é, neste texto breve, a afirmação da supremacia de Cristo e da sua suficiência na salvação do crente. Pelo Baptismo, o crente aderiu a Cristo e identificou-se com Cristo; a vida de Cristo passou a circular nele: por isso, o crente – revivificado por Cristo – morreu para o pecado e nasceu para a vida nova do Homem Novo. Em Cristo encontramos, portanto, a vida em plenitude, sem que seja necessário recorrer a mais nada (poderes angélicos, ritos, práticas) para ter acesso à salvação.

Para representar, de forma mais explícita, o que significa este “morrer” e “ressuscitar”, Paulo refere-se a um “documento de dívida” que a morte de Cristo teria “anulado”. Este “documento” em que se reconhece a nossa dívida para com Deus pode designar aqui, quer a Lei de Moisés (com as suas leis, exigências, prescrições, impossíveis de cumprir na totalidade e constituindo, portanto, um documento de acusação contra as falhas dos homens), quer o “registo” onde, de acordo com as tradições judaicas da época, Deus inscreve as contas da humanidade (cf. Sal 139,16). De uma forma ou de outra, não interessa acentuar demasiado esta imagem do “documento de dívida”: ela é, apenas, uma linguagem, utilizada para significar que Cristo anulou os nossos débitos (no sentido em que o nosso egoísmo e o nosso pecado morreram, no instante em que Ele nos libertou); e, através de Cristo, começou para nós uma vida nova, liberta de tudo o que nos oprime, nos escraviza, nos rouba a felicidade, nos impede o acesso à vida plena.

ACTUALIZAÇÃO

Para a reflexão e actualização da Palavra, considerar os seguintes elementos:

¨       Mais uma vez, a Palavra de Deus afirma a absoluta centralidade de Cristo na nossa experiência cristã. É por Ele – e apenas por Ele – que o nosso pecado e o nosso egoísmo são saneados e que temos acesso à salvação – quer dizer, à vida nova do Homem Novo. É nisto que reside o fundamental da nossa fé e é à volta de Cristo (da sua vida feita doação, entrega, amor até à morte) que se deve centralizar a nossa existência de cristãos. Ao denunciar a atitude dos Colossenses (mais preocupados com os poderes dos anjos e com certas práticas e ritos do que com Cristo), Paulo adverte-nos para não nos deixarmos afastar do essencial por aspectos secundários. O critério fundamental, no que diz respeito à vivência da nossa fé, deve ser este: tudo o que contribui para nos levar até Cristo é bom; tudo o que nos distrai de Cristo é dispensável.

¨       É necessário ter consciência de que o Baptismo, identificando-nos com Jesus, constitui um ponto de partida para uma vida vivida ao jeito de Jesus, na doação, no serviço, na entrega da vida por amor. É este “caminho” que temos vindo a percorrer? A minha vida caminha, decisivamente, em direcção ao Homem Novo, ou mantém-me fossilizado no homem velho do egoísmo, do orgulho e do pecado?

ALELUIA – Rom 8,15bc

Aleluia. Aleluia. 

Recebestes o espírito de adopção filial;
nele clamamos: «Abba, ó Pai».
 
 
 

EVANGELHO – Lc 11,1-13

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,

Estava Jesus em oração em certo lugar.
Ao terminar, disse-Lhe um dos discípulos:
«Senhor, ensina-nos a orar,
como João Baptista ensinou também os seus discípulos».
Disse-lhes Jesus:
«Quando orardes, dizei:
‘Pai,
santificado seja o vosso nome;
venha o vosso reino;
dai-nos em cada dia o pão da nossa subsistência;
perdoai-nos os nossos pecados,
porque também nós perdoamos a todo aquele que nos ofende;
e não nos deixeis cair em tentação’».
Disse-lhes ainda:
«Se algum de vós tiver um amigo,
poderá ter de ir a sua casa à meia-noite, para lhe dizer:
‘Amigo, empresta-me três pães,
porque chegou de viagem um dos meus amigos
e não tenho nada para lhe dar’.
Ele poderá responder lá de dentro:
‘Não me incomodes;
a porta está fechada,
eu e os meus filhos estamos deitados
e não posso levantar-me para te dar os pães’.
Eu vos digo:
Se ele não se levantar por ser amigo,
ao menos, por causa da sua insistência,
levantar-se-á para lhe dar tudo aquilo de que precisa.
Também vos digo:
Pedi e dar-se-vos-á;
procurai e encontrareis;
batei à porta e abrir-se-vos-á.
Porque quem pede recebe;
quem procura encontra
e a quem bate à porta, abrir-se-á.
Se um de vós for pai e um filho lhe pedir peixe,
em vez de peixe dar-lhe-á uma serpente?
E se lhe pedir um ovo, dar-lhe-á um escorpião?
Se vós, que sois maus,
sabeis dar coisas boas aos vossos filhos,
quanto mais o Pai do Céu
dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedem!».

 

AMBIENTE

Continuamos, ainda, nesse “caminho de Jerusalém” – quer dizer, a percorrer esse caminho espiritual que prepara os discípulos para se assumirem, plenamente, como testemunhas do Reino. A catequese que, neste contexto, Jesus apresenta aos discípulos é, hoje, sobre a forma de dialogar com Deus.

Lucas é o evangelista da oração de Jesus. Ele refere a oração de Jesus no Baptismo (cf. Lc 3,21), antes da eleição dos Doze (cf. Lc 6,12), antes do primeiro anúncio da paixão (cf. Lc 9,18), no contexto da transfiguração (cf. Lc 9,28-29), após o regresso dos discípulos da missão (cf. Lc 10,21), na última ceia (cf. Lc 22,32), no Getsemani (cf. Lc 22,40-46), na cruz (cf. Lc 23,34.46). Em geral, a oração é o espaço de encontro de Jesus com o Pai, o momento do discernimento do projecto do Pai.

O texto que hoje nos é proposto apresenta-nos Jesus a orar ao Pai e a ensinar aos discípulos como orar ao Pai. Não se trata tanto de ensinar uma fórmula fixa, que os discípulos devem repetir de memória, mas mais de propor um “modelo”. De resto, o “Pai nosso” conservado por Lucas é um tanto diferente do “Pai nosso” conservado por Mateus (cf. Mt 6,9-13) – o que pode explicar-se por tradições litúrgicas distintas. A versão de Mateus condiz com um meio judeo-cristão, enquanto que a de Lucas – mais breve e com menos embelezamentos litúrgicos – está mais próxima (provavelmente) da oração original. Nenhuma destas versões pretende, na realidade, reproduzir literalmente as palavras de Jesus, mas mostrar às comunidades cristãs qual a atitude que se deve assumir no diálogo com Deus.

MENSAGEM

Como é que os discípulos devem, então, rezar? Lucas refere-se a dois aspectos que devem ser considerados no diálogo com Deus. O primeiro diz respeito à “forma”: deve ser um diálogo de um filho com o Pai; o segundo diz respeito ao “assunto”: o diálogo incidirá na realização do plano do Pai, no advento do mundo novo.

Tratar Deus como “Pai” não é novidade nenhuma. No Antigo Testamento, Deus é “como um pai” que manifesta amor e solicitude pelo seu Povo (cf. Os 11,1-9). No entanto, na boca de Jesus, a palavra “Pai” referida a Deus não é usada em sentido simbólico, mas em sentido real: para Jesus, Deus não é “como um pai”, mas é “o Pai”.

A própria linguagem com que Jesus Se dirige a Deus mostra isto: a expressão “Pai” usada por Jesus traduz o original aramaico “abba” (cf. Mc 14,36), tomada da maneira comum e familiar como as crianças chamavam o seu “papá”. Ao referir-se a Deus desta forma, Jesus manifesta a intimidade, o amor, a comunhão de vida, que o ligam a Deus.

No entanto, o aspecto mais surpreendente reside no facto de Jesus ter aconselhado os seus discípulos a tratarem a Deus da mesma forma, admitindo-os à comunhão que existe entre Ele e Deus. Porque é que os discípulos podem chamar “Pai” a Deus? Porque, ao identificarem-se com Jesus e ao acolherem as propostas de Jesus, eles estabelecem uma relação íntima com Deus (a mesma relação de comunhão, de intimidade, de familiaridade que unem Jesus e o Pai). Tornam-se, portanto, “filhos de Deus”.

Sentir-se “filho” desse Deus que é “Pai” significa outra coisa: implica reconhecer a fraternidade que nos liga a uma imensa família de irmãos. Dizer a Deus “Pai” implica sair do individualismo que aliena, superar as divisões e destruir as barreiras que impedem de amar e de ser solidários com os irmãos, filhos do mesmo “Pai”.

Desta forma, Cristo convida os discípulos a assumirem, na sua relação e no seu diálogo com Deus, a mesma atitude de Jesus: a atitude de uma criança que, com simplicidade, se entrega confiadamente nas mãos do pai, acolhe naturalmente a sua ternura e o seu amor e aceita a proposta de intimidade e de comunhão que essa relação pai/filho implica; convida, também, os discípulos a assumirem-se como irmãos e a formarem uma verdadeira família, unida à volta do amor e do cuidado do “Pai”.

Definida a “atitude”, falta definir o “assunto” ou o “tema” da oração. Na perspectiva de Jesus, o diálogo do crente com Deus deve, sobretudo, abordar o tema do advento do Reino, do nascimento desse mundo novo que Deus nos quer oferecer. A referência à “santificação do nome” expressa o desejo de que Deus se manifeste como salvador aos olhos de todos os povos e o reconhecimento por parte dos homens, da justiça e da bondade do projecto de Deus para o mundo; a referência à “vinda do Reino” expressa o desejo de que esse mundo novo que Jesus veio propor se torne uma realidade definitivamente presente na vida dos homens; a referência ao “pão de cada dia” expressa o desejo de que Deus não cesse de nos alimentar com a sua vida (na forma do pão material e na forma do pão espiritual); a referência ao “perdão dos pecados” pede que a misericórdia de Deus não cesse de derramar-se sobre as nossas infidelidades e que, a partir de nós, ela atinja também os outros irmãos que falharam; a referência à “tentação” pede que Deus não nos deixe seduzir pelo apelo das felicidades ilusórias, mas que nos ajude a caminhar ao encontro da felicidade duradoura, da vida plena…

Duas parábolas finais completam o quadro. O acento da primeira (vers. 5-8) não deve ser posto tanto na insistência do “amigo importuno”, mas mais na acção do amigo que satisfaz o pedido; o que Jesus pretende dizer é: se os homens são capazes de escutar o apelo de um amigo importuno, ainda mais Deus atenderá gratuitamente aqueles que se Lhe dirigem. A segunda parábola (vers. 9-13) convida à confiança em Deus: Ele conhece-nos bem e sabe do que necessitamos; em todas as circunstâncias Ele derramará sobre nós o Espírito, que nos permitirá enfrentar todas as situações da vida com a força de Deus.

ACTUALIZAÇÃO

Considerar, na reflexão, os seguintes desenvolvimentos:

¨       O Evangelho de Lucas sublinha o espaço significativo que Jesus dava, na sua vida, ao diálogo com o Pai – nomeadamente, antes de certos momentos determinantes, nos quais se tornava particularmente importante o cumprimento do projecto do Pai. Na minha vida, encontro espaço para esse diálogo com o Pai? Na oração, procuro “sentir o pulso” de Deus a propósito dos acontecimentos com que me deparo, de forma a conhecer o seu projecto para mim, para a Igreja e para o mundo?

¨       A forma como Jesus Se dirige a Deus mostra a existência de uma relação de intimidade, de amor, de confiança, de comunhão entre Ele e o Pai (de tal forma que Jesus chama a Deus “papá”); e Ele convida os seus discípulos a assumirem uma atitude semelhante quando se dirigem a Deus… É essa a atitude que eu assumo na minha relação com Deus? Ele é o “papá” a quem amo, a quem confio, a quem recorro, com quem partilho a vida, ou é o Deus distante, inacessível, indiferente?

¨       A minha oração é uma oração egoísta, de “pedinchice” ou é, antes de mais, um encontro, um diálogo, no qual me esforço para escutar Deus, por estar em comunhão com Ele, por perceber os seus projectos e acolhê-los?

¨       A minha oração é uma “negociata” entre dois parceiros comerciais (“dou-te isto, se me deres aquilo”) ou é um encontro com um amigo de quem preciso, a quem amo e com quem partilho as preocupações, os sonhos e as esperanças?

Dehonianos

 

REZAR É PEDIR!

1. Depois do tríptico sobre o discípulo de Jesus, que contemplámos nos últimos três Domingos (XIV, XV e XVI), em que foi proclamado, em três andamentos, o saboroso texto de Lucas 10 (o envio dos 72 discípulos; o bom samaritano; Maria sentada a escutar a Palavra de Jesus), eis-nos já perante um novo belo tríptico, agora sobre a oração cristã, que enche o Domingo XVII, e que Lucas nos oferece em 11,1-13.

2. O primeiro quadro deste tríptico sobre a oração pode intitular-se INTIMIDADE, e tem a sua explicitação altíssima na oração do PAI NOSSO, ensinada por Jesus aos seus discípulos (Lucas 11,1-4). Jesus aparece ao fundo da cena a rezar sozinho ao Pai, totalmente voltado para o seio do Pai (João 1,18), completamente ocupado nas Realidades do Pai (Lucas 2,49), repousando toda a sua existência no Pai. Os discípulos vêem Jesus a rezar, mas não ousam interromper tão intensa corrente de confiança e de amor. Vêem apenas. O deslumbramento tolhe-lhes os movimentos e as palavras. Mas eis que Jesus termina a sua oração ao Pai. Então, ainda extasiado, um dos discípulos, em nome de todos – também em nosso nome –, atreveu-se a formular este pedido: «Senhor, ensina-nos a rezar como João Baptista ensinou a rezar os seus discípulos!»

3. E foi então que Jesus ensinou a eles e a nós, a todos, o segredo mais profundo da sua vida e da nossa vida, a orientação da sua vida e da nossa vida: para onde, melhor, para quem devem estar sempre voltados o nosso coração, os nossos olhos, as nossas mãos, os nossos pés, a nossa vida toda.

E disse: «Quando rezardes, dizei:

 “Pai (páter),
         1. Santifica o teu Nome,
         2. Venha o teu Reino,
         3. Dá-nos o pão nosso (árton hêmônde cada dia,
         4. Perdoa os nossos pecados,
         5. Não nos deixes cair na tentação”».

4. Como bem se vê, não se trata de uma lição teórica, mas da comunicação de uma experiência, de um segredo, de uma intimidade. Rezar é orientar a nossa vida toda para Deus, a quem tratamos carinhosamente por ’Abba’, nome de radical ternura, simplicidade, verdade e dependência, tal como as crianças se dirigem ao seu pai. A oração é composta no texto de Lucas por cinco pedidos (Mateus apresenta sete: Mateus 6,9-13), sendo o do meio, nos dois textos, o do «pão nosso». De acordo com a retórica bíblica, o pedido do meio é o mais importante, é o que estrutura a inteira oração, constituindo por assim dizer a clave de toda a oração e relação com Deus-Pai. E aqui é preciso descer abaixo das escadarias da importância e do orgulho e dos truques que diariamente usamos, pois é imperioso assumir a atitude evangélica das crianças: só elas sabem pedir pão com verdade e simplicidade, sem maquilhagens ou reboco de qualquer espécie!

5. O segundo quadro deste tríptico sobre a oração trata o tema da CONSTÂNCIA, retratada imediatamente a seguir (Lucas 11,5-8), na atitude do amigo que de noite bate à porta do seu amigo, e não desiste até ser atendido. Este quadro mostra que a oração cristã não é apenas a emoção de un momento, de uns momentos, mas a respiração permanente da alma, que não se extingue sequer durante a noite.

6. O terceiro quadro deste tríptico trata o tema da EFICÁCIA (Lucas 11,9-13): «Pedi e ser-vos-á dado, procurai e encontrareis, batei e abrir-se-vos-á». Entenda-se, todavia, que se trata de uma eficácia que não tem de responder directamente aos cânones do que esperamos obter, aos desejos que formulamos, mas sim aos planos de Deus, que devemos saber acolher com humildade e prontidão.

7. Essencial é saber que dirigimos sempre a nossa oração ao Pai, que dá sempre o melhor aos seus filhos. E é grandemente significativo que o verbo REZAR, que aparece no tríptico três vezes (Lucas 11,1[2 x] e 2), apareça praticamente traduzido por PEDIR, que atravessa o texto por cinco vezes (Lucas 11,9.10.11.12.13), e cujo corolário é DAR, com nove menções no texto (Lucas 11,3.7.8[2 x].9.11.12.13[2 x].

8. Feita esta explicitação vocabular, salta à vista a importância dada àoração de súplica. Todos sabemos que a oração de súplica é muitas vezes vista como uma forma secundária de oração, quase como um subproduto, quando comparada com a oração de louvor ou de acção de graças. Ora, este tríptico diz-nos que, de acordo com Jesus, REZAR é PEDIR, é mesmo só PEDIR. Aprofundando um pouco, compreendemos então que PEDIR é próprio do filho. E é como Filho que Jesus REZA, e é no lugar de filhos que Jesus nos quer colocar. Por isso também nos ensina a REZAR, dizendo: “Pai…” E também já sabemos que o Filho é aquele que recebe tudo do Pai, sendo o Pai aquele que dá tudo ao Filho.

9. Coloquemo-nos então no nosso lugar correcto: o de filhos, que tudo recebem do Pai. E compreendamos bem que, para recebermos tudo, não podemos possuir nada! Se possuirmos alguma coisa, já não podemos receber tudo! Impõe-se que temos de ser radicalmente pobres, filhos e irmãos! Só assim podemos começar a REZAR.

D. António Couto

O Canto na Liturgia

Antífona de Entrada

Deus vive na sua morada santa – F. Santos

Vinde à presença de Deus – M. Carneiro

Salmo Responsorial

Quando vos invoco, sempre me atendeis, Senhor. (Sl 137) – M. Luís

 

Antífona da Comunhão

Pedi e recebereis – Az. Oliveira

Bendiz, minha alma o Senhor – M. Carneiro

A minha alma louva o Senhor – F. Santos

A minha alma louva o Senhor – M. Carneiro

Felizes os puros de coração – A. Cartageno

Bem-aventurados os puros de coração – A. Cartageno

Domingo XVI do Tempo Comum – Ano C

Tema do 16º Domingo do Tempo Comum

As leituras deste domingo convidam-nos a reflectir o tema da hospitalidade e do acolhimento. Sugerem, sobretudo, que a existência cristã é o acolhimento de Deus e das suas propostas; e que a acção (ainda que em favor dos irmãos) tem de partir de um verdadeiro encontro com Jesus e da escuta da Palavra de Jesus. É isso que permite encontrar o sentido da nossa acção e da nossa missão.

A primeira leitura propõe-nos a figura patriarcal de Abraão. Nessa figura apresenta-se o modelo do homem que está atento a quem passa, que partilha tudo o que tem com o irmão que se atravessa no seu caminho e que encontra no hóspede que entra na sua tenda a figura do próprio Deus. Sugere-se, em consequência, que Deus não pode deixar de recompensar quem assim procede.

No Evangelho, apresenta-se um outro quadro de hospitalidade e de acolhimento de Deus. Mas sugere-se que, para o cristão, acolher Deus na sua casa não é tanto embarcar num activismo desenfreado, mas sentar-se aos pés de Jesus, escutar as propostas que, n’Ele, o Pai nos faz e acolher a sua Palavra.

A segunda leitura apresenta-nos a figura de um apóstolo (Paulo), para quem Cristo, as suas palavras e as suas propostas são a referência fundamental, o universo à volta do qual se constrói toda a vida. Para Paulo, o que é necessário é “acolher Cristo” e construir toda a vida à volta dos seus valores. É isso que é preponderante na experiência cristã.

LEITURA I – Gen 18,1-10a

Leitura do Livro do Génesis

Naqueles dias,
o Senhor apareceu a Abraão junto do carvalho de Mambré.
Abraão estava sentado à entrada da sua tenda,
no maior calor do dia.
Ergueu os olhos e viu três homens de pé diante dele.
Logo que os viu, deixou a entrada da tenda
e correu ao seu encontro;
prostrou-se por terra e disse:
«Meu Senhor, se agradei aos vossos olhos,
não passeis adiante sem parar em casa do vosso servo.
Mandarei vir água, para que possais lavar os pés
e descansar debaixo desta árvore.
Vou buscar um bocado de pão, para restaurardes as forças
antes de continuardes o vosso caminho,
pois não foi em vão que passastes diante da casa do vosso servo».
Eles responderam: «Faz como disseste».
Abraão apressou-se a ir à tenda onde estava Sara e disse-lhe:
«Toma depressa três medidas de flor da farinha,
amassa-a e coze uns pães no borralho».
Abraão correu ao rebanho e escolheu um vitelo tenro e bom
e entregou-o a um servo que se apressou a prepará-lo.
Trouxe manteiga e leite e o vitelo já pronto
e colocou-o diante deles;
e, enquanto comiam, ficou de pé junto deles debaixo da árvore.
Depois eles disseram-lhe:
«Onde está Sara, tua esposa?».
Abraão respondeu: «Está ali na tenda».
E um deles disse:
«Passarei novamente pela tua casa daqui a um ano
e então Sara tua esposa terá um filho».

AMBIENTE

Os capítulos 12-36 do Livro do Génesis são um conjunto de textos sem grande unidade e sem carácter de documento histórico ou de reportagem jornalística de acontecimentos. Fundamentalmente, estamos diante de uma mistura de “mitos de origem” (que narravam a chegada de um “fundador” a um determinado local e a tomada de posse daquela terra), de “lendas cultuais” (que relatavam como um deus qualquer apareceu em determinado local a um desses “fundadores” e como esse lugar se tornou um local de culto) e de relatos onde se expressa a realidade da vida nómada durante o segundo milénio antes de Cristo.

Na origem do texto que hoje nos é proposto como primeira leitura está, provavelmente, uma antiga “lenda cultual” que narrava como três figuras divinas tinham aparecido a um cananeu anónimo junto do carvalho sagrado de Mambré (perto de Hebron), como esse cananeu os tinha acolhido na sua tenda e como tinha sido recompensado com um filho pelos deuses (Mambré é um famoso santuário cananeu, já no terceiro milénio a.C., muito antes de Abraão aí ter chegado). Mais tarde, quando Abraão se estabeleceu nesse lugar, a antiga lenda cananaica foi-lhe aplicada e ele passou a ser o herói desse encontro com as figuras divinas. No séc. X a.C. (reinado de Salomão), os autores jahwistas recuperaram essa velha lenda para apresentar a sua catequese.

MENSAGEM

Qual é, então, a proposta catequética que os autores jahwistas querem fazer passar, servindo-se dessa velha “lenda cultual”?

No estado actual do texto, a personagem central é Abraão. É esta figura que os catequistas jahwistas vão apresentar aos israelitas da época de Salomão, como um modelo de vida e de fé.

O texto apresenta-nos Abraão “sentado à entrada da sua tenda, na hora de maior calor do dia” (vers. 1). De repente, aparecem três homens diante de Abraão (vers. 2). Abraão convida-os a entrar; não se limita a trazer-lhes água para lavar os pés, mas improvisa um banquete com pão recentemente cozido, com um vitelo “tenro e bom” do rebanho, com manteiga e leite; depois, fica de pé junto deles, na atitude do servo sempre vigilante para que nada falte aos convidados (vers. 3-8): é a lendária hospitalidade nómada no seu melhor.

Abraão é, assim, apresentado, como o modelo do homem íntegro, humano, bondoso, misericordioso, atento a quem passa e disposto a repartir com ele, de forma gratuita, aquilo que tem de melhor.

Terminada a refeição, é anunciada a Abraão a próxima realização dos seus anseios mais profundos: a chegada de um filho, o herdeiro da sua casa, o continuador da sua descendência (vers. 9-10). Aparentemente, o dom do filho é a resposta de Deus à acção de Abraão: o catequista jahwista pretende dizer que Deus não deixa passar em claro, mas recompensa uma tal atitude de bondade, de gratuidade, de amor.
O texto apresenta, complementarmente, a atitude do verdadeiro crente face a Deus. Ao longo do relato – sem que fique expresso se Abraão tem ou não consciência de que está diante de Deus – transparece a serena submissão, o respeito, a confiança total (num desenvolvimento que, contudo, não aparece na leitura que nos é proposta, Sara ri diante da “promessa”; mas Abraão conserva-se em silêncio digno, sem manifestar qualquer dúvida – vers. 10b-15): tais são as atitudes que o crente israelita é convidado a assumir diante desse Deus que vem ao encontro do homem.
Atente-se, também, na sugestiva imagem de um Deus que irrompe repentinamente na vida do homem, que aceita entrar na sua tenda e sentar-Se à sua mesa, constituindo-Se em comunidade com ele. Por detrás desta imagem, está o significado do comer em conjunto: criar comunhão, estabelecer laços de família, partilhar vida. O jahwista apresenta, assim, um Deus dialogante, que quer estabelecer laços familiares com o homem e estabelecer com ele uma história de amor e de comunhão.

O catequista jahwista aproveitou a velha “lenda cultual” e a figura inspirativa de Abraão para apresentar aos homens do seu tempo o modelo do crente: ele é aquele a quem Deus vem visitar, que o acolhe na sua casa e na sua vida de forma exemplar, que coloca tudo o que possui nas mãos de Deus e que manifesta, com o seu comportamento, a sua bondade, a sua humanidade, a sua confiança e a sua fé; ele é aquele que partilha o que tem com quem passa e cumpre em grau extremo o sagrado dever da hospitalidade. A realização dos anseios mais profundos do homem é a recompensa de Deus para quem age como Abraão.

ACTUALIZAÇÃO

Na reflexão, ter em conta os seguintes elementos:

• Cada vez mais, o sagrado sacramento da hospitalidade está em crise, pelo menos na nossa civilização ocidental. O egoísmo, o fechamento, o “salve-se quem puder”, o “cada um que se meta na sua vida”… parecem marcar cada vez mais a nossa realidade. No entanto, são cada vez mais as pessoas perdidas, não acolhidas, que têm por tecto os buracos das nossas cidades… De África, do Leste da Europa, da Ásia, da América Latina, chegam todos os dias à fronteira da “fortaleza Europa” bandos de deserdados, que procuram conquistar, com sangue, suor e lágrimas, o direito a uma vida minimamente humana. Que fazer por eles? Como os acolhemos: com indiferença e agressividade, ou com a atitude humana e misericordiosa de Abraão? Temos consciência de que, em cada irmão deserdado, é Deus que vem ao nosso encontro?

• É com atenção, com bondade, com respeito, que as pessoas são acolhidas na nossa família, na nossa comunidade cristã, nas nossas repartições públicas, nas urgências dos nossos hospitais, nas recepções das nossas igrejas, nas portarias das nossas comunidades religiosas?

• A atitude de Abraão face a Deus é, também, questionante, numa época em que muita gente vê em Deus um concorrente ou um rival do homem… Abraão é o crente que acolhe Deus na sua vida, que aceita viver em comunhão com Ele, que aceita pôr tudo o que tem nas mãos de Deus e que se coloca diante de Deus numa atitude de respeito, de submissão, de total confiança. Qual é a atitude que marca, dia a dia, a nossa relação com Deus?

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 14 (15)

Refrão: Ensinai-nos, Senhor: quem viverá em vossa casa.

O que vive sem mancha e pratica a justiça
e diz a verdade que tem no seu coração
e guarda a sua língua da calúnia.

O que não faz mal ao seu próximo,
nem ultraja o seu semelhante,
o que tem por desprezível o ímpio,
mas estima os que temem o Senhor.

O que não falta ao juramento mesmo em seu prejuízo
e não empresta dinheiro com usura,
nem aceita presentes para condenar o inocente.
Quem assim proceder jamais será abalado.

LEITURA II – Col 1,24-28

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Colossenses

Irmãos:
Agora alegro-me com os sofrimentos que suporto por vós
e completo na minha carne o que falta à paixão de Cristo,
em benefício do seu corpo que é a Igreja.
Dela me tornei ministro,
em virtude do cargo que Deus me confiou a vosso respeito,
isto é, anunciar em plenitude a palavra de Deus,
o mistério que ficou oculto ao longo dos séculos
e que foi agora manifestado aos seus santos.
Deus quis dar-lhes a conhecer
as riquezas e a glória deste mistério entre os gentios:
Cristo no meio de vós, esperança da glória.
E nós O anunciamos, advertindo todos os homens
e instruindo-os em toda a sabedoria,
a fim de os apresentarmos todos perfeitos em Cristo.

AMBIENTE

Continuamos com a leitura dessa Carta aos Colossenses que já vimos no passado domingo. Recordemos que é uma carta escrita por Paulo da prisão (em Roma), convidando os habitantes da cidade de Colossos (Ásia Menor) a não darem ouvidos a esses doutores para quem a fé em Cristo devia ser complementada com o culto dos anjos, com rituais legalistas, com práticas ascéticas rigoristas e com a observância de certas festas… Para Paulo, o único necessário é Cristo: a sua vida, o seu testemunho, a sua cruz (o dom da vida por amor) e a sua ressurreição. Estamos por volta dos anos 61/63.

O texto que nos é proposto inicia a parte polémica da carta. Nele, Paulo apresenta o seu próprio exemplo, para que ele sirva de estímulo aos Colossenses.

MENSAGEM

Qual é, então, o exemplo que o apóstolo quer propor aos cristãos de Colossos? É um exemplo de alguém que, a partir da sua conversão, se alheou de tudo o resto, fez de Cristo a referência fundamental e se preocupou apenas em pôr a sua vida ao serviço de Cristo.

Ao longo do seu caminho de missionário, Paulo sofreu muito para levar a proposta de salvação a todos os homens, sem excepção (cf. 2 Cor 11,23-29). Inclusive, no momento em que escreve, Paulo está prisioneiro por causa do anúncio do Evangelho. No entanto, o apóstolo sente-se feliz pois sabe que esses sofrimentos não foram em vão, mas deram frutos e levaram muita gente a descobrir Jesus Cristo e a sua proposta de libertação.

Mais ainda: os sofrimentos de Paulo completam “o que falta à paixão de Cristo, em favor do seu corpo que é a Igreja”. Que significa isto? Para uns, Paulo refere-se à união da Igreja/corpo com o Cristo/cabeça: uma vez que a cabeça (Cristo) sofreu, os membros devem sofrer também para partilhar a sorte que a cabeça suportou. Esta explicação põe em relevo a união dos cristãos com Cristo e dos cristãos entre si.

Para outros, Paulo refere-se à acção redentora de Jesus: para Jesus, a redenção significou a cruz e o dom da vida; se os apóstolos aceitam ser testemunhas da redenção, isso implica, também para eles, o dom da vida (que passa pela perseguição e pelo sofrimento). Esta explicação põe em relevo a unidade do ministério de Cristo e dos apóstolos e a necessidade do testemunho apostólico. Esta explicação – que aparece já nos Padres Gregos – é a que está mais de acordo com o contexto.

De resto, Paulo tem consciência de que foi chamado por Cristo a anunciar o “mistério” (“mystêrion” – vers. 26). Esta palavra (que a “Lumen Gentium” retomará para definir a Igreja e a sua missão no mundo – cf. LG 1) designa, em Paulo, o plano salvador de Deus, escondido aos homens durante séculos, revelado plenamente na vida, na acção e nas palavras de Jesus Cristo e continuado pelos discípulos de Jesus (Igreja) na história. O esforço de Paulo (e dos cristãos em geral) deve ir no sentido de continuar a apresentação desse projecto de salvação/libertação que traz a vida em plenitude aos homens de toda a terra.

Paulo convida, pois, os Colossenses a construir a sua vida à volta de Jesus e do seu projecto (mesmo que isso implique sofrimento e perseguição); com o seu exemplo, Paulo estimula-os a uma comunhão cada vez mais perfeita com Cristo, pois é em Cristo (e não nos anjos, ou nas prática legalistas, ou nas práticas ascéticas) que os crentes encontrarão a salvação e a vida em plenitude.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão deste texto pode abordar as seguintes questões:

• Paulo é, para os crentes, uma das figuras mais questionantes da história do cristianismo. É o cristão de “vistas largas”, que não se deixa amarrar pelas coisas secundárias, mas sabe discernir o essencial e lutar por aquilo que é importante… Mas, sobretudo, é o exemplo do apóstolo por excelência, do apóstolo para quem Cristo é tudo e que põe cada batida do seu coração ao serviço do Evangelho e da libertação dos homens. É com o mesmo empenho de Paulo que eu “agarro” a missão que Cristo me confiou? Como é que a nossa comunidade trata e considera esses irmãos que, tantas vezes escondidos atrás da sua simplicidade e humildade, dão a vida à causa do Evangelho e da libertação dos outros?

• A centralidade que Cristo assume na experiência religiosa de Paulo leva-o à conclusão de que Cristo basta e que tudo o resto assume um valor relativo (quando não serve, até, para “desviar” os crentes do essencial). Que valor ocupa Cristo na minha experiência de fé? Ele é a prioridade fundamental, ou há outras imagens ou ritos que chegam a ocupar o lugar central que só pode pertencer a Cristo?

ALELUIA – cf. Lc 8,15

Aleluia. Aleluia.

Felizes os que recebem a palavra de Deus
de coração sincero e generoso
e produzem fruto pela perseverança.

EVANGELHO – Lc 10,38-42

Evangelho de Nosso senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus entrou em certa povoação
e uma mulher chamada Marta recebeu-O em sua casa.
Ela tinha uma irmã chamada Maria,
que, sentada aos pés de Jesus,
ouvia a sua palavra.
Entretanto, Marta atarefava-se com muito serviço.
Interveio então e disse:
«Senhor, não Te importas
que minha irmã me deixe sozinha a servir?
Diz-lhe que venha ajudar-me».
O Senhor respondeu-lhe:
«Marta, Marta,
andas inquieta e preocupada com muitas coisas,
quando uma só é necessária.
Maria escolheu a melhor parte,
que não lhe será tirada».

AMBIENTE

Este episódio situa-nos numa aldeia não identificada, em casa de duas irmãs (Marta e Maria). Estas duas irmãs são, provavelmente, as mesmas Marta e Maria, irmãs de Lázaro, referidas em Jo 11,1-40 e Jo 12,1-3. Se assim for, a acção passa-se em Betânia, uma pequena aldeia situada na encosta oriental do Monte das Oliveiras, a cerca de 3 quilómetros de Jerusalém. Continuamos, de qualquer forma, a percorrer esse “caminho de Jerusalém”, durante o qual Jesus vai revelando aos seus discípulos os projectos do Pai e os vai preparando para o testemunho do Reino.

MENSAGEM

Estamos no contexto de um banquete. Não se diz se havia muitos ou poucos convidados; o que se diz é que uma das irmãs (Marta) andava atarefada “com muito serviço” (vers. 40), enquanto a outra (Maria) “sentada aos pés de Jesus, ouvia a sua Palavra” (vers. 39). Marta, naturalmente, não se conformou com a situação e queixou-se a Jesus pela indiferença da irmã. A resposta de Jesus (vers. 41-42) constitui o centro do relato e dá-nos o sentido da catequese que, com este episódio, Lucas nos quer apresentar: a Palavra de Jesus deve estar acima de qualquer outro interesse.

Há, neste texto, um pormenor que é preciso pôr em relevo. Diz respeito à “posição” de Maria: “sentada aos pés de Jesus”. É a posição típica de um discípulo diante do seu mestre (cf. Lc 8,35; Act 22,3). É uma situação surpreendente, num contexto sociológico em que as mulheres tinham um estatuto de subalternidade e viam limitados alguns dos seus direitos religiosos e sociais; por isso, nenhum “rabbi” da época se dignava aceitar uma mulher no grupo dos discípulos que se sentavam aos seus pés para escutar as suas lições. Lucas (que, na sua obra, procura dizer que Jesus veio libertar e salvar os que eram oprimidos e escravizados, nomeadamente as mulheres) mostra, neste episódio, que Jesus não faz qualquer discriminação: o facto decisivo para ser seu discípulo é estar disposto a escutar a sua Palavra.
Muitas vezes, este episódio foi lido à luz da oposição entre acção e contemplação; no entanto, não é bem isso que aqui está em causa… Lucas não está, nesta catequese, a explicar que a vida contemplativa é superior à vida activa; está é a dizer que a escuta da Palavra de Jesus é o mais importante para a vida do crente, pois é o ponto de partida da caminhada da fé. Isto não significa que o “fazer coisas”, que o “servir os irmãos” não seja importante; mas significa que tudo deve partir da escuta da Palavra, pois é a escuta da Palavra que nos projecta para os outros e nos faz perceber o que Deus espera de nós.

ACTUALIZAÇÃO

Na reflexão e actualização, ter em conta as seguintes linhas:

• O nosso tempo vive-se a uma velocidade estonteante… Para ganhar uns minutos, arriscamos a vida porque “tempo é dinheiro” e perder um segundo é ficar para trás ou deixar acumular trabalho que depois não conseguimos “digerir”. Mudamos de fila no trânsito da manhã vezes incontáveis para ganhar uns metros, passamos semáforos vermelhos, comemos de pé ao lado de pessoas para quem nem olhamos, chegamos a casa derreados, enervados, vencidos pelo cansaço e pelo stress, sem tempo e sem vontade de brincar com os filhos ou de lhes ler uma história e dormimos algumas horas com a consciência de que amanhã tudo vai ser igual… Claro que estas são as exigências da vida moderna; mas, como é possível, neste ritmo, guardar tempo para as coisas essenciais? Como é possível encontrar espaço para nos sentarmos aos pés de Jesus e escutarmos o que Ele tem para nos propor?

• Nas nossas comunidades cristãs e religiosas, encontramos pessoas que fazem muitas coisas, que se dão completamente à missão e ao serviço dos irmãos, que não param um instante… É óptimo que exista esta capacidade de doação, de entrega, de serviço; mas não nos podemos esquecer que o activismo desenfreado nos aliena, nos massacra e asfixia. É preciso encontrar tempo para escutar Jesus, para acolher e “ruminar” a Palavra, para nos encontrarmos com Deus e connosco próprios, para perceber os desafios que Deus nos lança. Sem isso, facilmente perdemos o sentido das coisas e o sentido da missão que nos é proposta; sem isso, facilmente passamos a agir por nossa conta, passando ao lado do que Deus quer de nós.

• Esta época do ano – tempo de férias, de evasão, de descanso – é um tempo privilegiado para invertermos a marcha alienante que nos massacra. Que este tempo não seja mais uma corrida desenfreada para lugar nenhum, mas um tempo de reencontro connosco, com a nossa família, com os nossos amigos, com Deus e com as nossas prioridades. A oração e a escuta da Palavra podem ajudar-nos a recentrar a nossa vida e a redescobrir o sentido da nossa existência.

• Qual é a nossa perspectiva da hospitalidade e do acolhimento? Esta leitura sugere que o verdadeiro acolhimento não se limita a abrir a porta, a sentar a pessoa no sofá, a ligar a televisão para que ela se entretenha sozinha, e a correr para a cozinha para lhe preparar um banquete opíparo; mas o verdadeiro acolhimento passa por dar atenção àquele que veio ao nosso encontro, escutá-lo, partilhar com ele, a fazê-lo sentir o quanto nos preocupamos com aquilo que ele sente…

• A atitude de Jesus – que, contra os costumes da época, aceita Maria como discípula – faz-nos, mais uma vez, pensar nas discriminações que, na Igreja e fora dela, existem, nomeadamente em relação às mulheres. Fará algum sentido qualquer tipo de discriminação, à luz das atitudes que Jesus sempre tomou?

Dehonianos

A SENHORA DONA MARTA

E A DISCÍPULA MARIA

1. Imediatamente a seguir ao belo trabalho de amor do Bom Samaritano (Lucas 10,25-37), eis-nos a braços com outra cena de excepção do Evangelho de Lucas: Jesus, Marta e Maria (Lucas 10,38-42).

2. A primeira anotação do narrador é para nos comunicar que, estando Jesus em viagem, uma mulher, de nome Marta, o recebeu em sua casa. Acrescenta logo que Marta tinha uma irmã, chamada Maria, e começa de imediato a desenhar o retrato das duas irmãs.

3. De Maria, diz-nos que se SENTOU aos pés de Jesus e que ESCUTAVA a sua Palavra. O leitor apercebe-se de imediato que Maria assume a figura de discípula atenta, dedicada e deliciada: SENTADA perto do Mestre, ESCUTAVA… O narrador usa outras tintas para pintar o retrato de Marta. Começa por nos dizer que andava DISTRAÍDA (verbo gregoperispáô) com muito trabalho. Aproximando-se, porém, disse a Jesus com um certo ar de reprovação: “Senhor, a ti não te importa que a minha irmã me deixe sozinha a trabalhar?” E, sem esperar pela resposta, como quem está cheia de razão, acrescenta logo, como quem tem autoridade para dar ordens até a Jesus: “Diz-lhe, pois, que me venha ajudar!” É aqui que intervém Jesus, com a sua Palavra serena e soberana, para lhe dizer: “Marta, Marta, andas PREOCUPADA (verbo grego merimnáô) e ÀS VOLTAS (verbo grego thorybázô) com MUITAS COISAS, quando UMA SÓ é necessária”. E conclui, para total espanto nosso e de Marta: “Maria ESCOLHEU a parte BOA (e bela), que não lhe será tirada”.

4. Importa ver já, com clareza, que Maria não diz uma palavra em todo o episódio. Não se ouve a sua voz. Ela está tranquilamente SENTADA e totalmente concentrada na ESCUTA de outra VOZ. Maria é a mulher de UMA COISA e de UMA PESSOA. Por isso, na base da sua vida, tem de haver uma ESCOLHA. Nas páginas da Escritura Santa, é normalmente Deus o sujeito do verbo ESCOLHER. Quando também nós ousamos ESCOLHER, então já se percebe que deixamos muitos mundos para trás e que nasce em nós um mundo novo.

5. Marta começa por receber Jesus na casa dela. É a senhora dona Marta. Olha de soslaio para a sua irmã Maria que acusa de não fazer nada, e repreende Jesus por não se importar com isso, e acaba dando ordens a Jesus, para que, por sua vez, dê ordens a Maria para a ir ajudar. É a senhora dona Marta. Manda, ou pensa que manda, em casa, na sua irmã e em Jesus! O quadro que aqui vemos desenhado por Lucas vai muito para além da nossa simplista e velha dicotomia entre vida activa e vida contemplativa. Querer entrar por aqui é mesmo ficar fora da porta!

6. A sua vida é uma azáfama, anda às voltas, ocupada por preocupações e preconceitos, descentrada e desconcentrada. O seu fazer é tradicional e convencional. Nunca ESCOLHEU. O narrador diz-nos que anda DISTRAÍDA, e Jesus diz-lhe que anda PREOCUPADA e ÀS VOLTAS… Vocabulário importante. Um pouco adiante, Jesus adverte os seus discípulos para não se PREOCUPAREM com a vida, quanto ao que hão-de comer, nem com o corpo, quanto ao que hão-de vestir (Lucas 12,22), e acrescenta logo que isso são coisas dos pagãos! (Lucas 12,30). E põe-nos diante dos olhos este tesouro evangélico e poético: “Considerai os lírios do campo, que não fiam nem tecem!…” (Lucas 12,27).

7. Ao contrário da senhora dona Marta, que nunca abriu mão da sua condição de dona, Maria percebeu bem que não é dona, mas simplesmente hóspede. Não da sua irmã Marta, mas de Jesus. Maria está, na verdade, hospedada em casa de Jesus. Por isso, está assim serena e tranquila. Entregou-lhe tudo: o coração, as mãos, os olhos, o cofre, a chave do cofre, a chave de casa. Marta não é apresentada como sendo má pessoa, mas não compreendeu que, quando Jesus entra em nossa casa, é dele a casa, e nós simplesmente seus hóspedes, tranquilamente sentados junto dele! Ai esta nossa entranhada tentação patronal (!), que atenta contra a declaração fundamental de Deus: «A terra é minha, e vós sois para mim estrangeiros e hóspedes» (Levítico 25,23).

8. Dizia um velho rabino acerca de um seu colega: “anda de tal modo ocupado com as COISAS de Deus, que até se esquece de que ELE existe!” Convenhamos que se trata de um esquecimento desastroso…

9. Veja-se bem a simplicidade, a prontidão e a candura desarmantes do velho Abraão do Antigo Testamento de hoje! (Génesis 18,1-10).

D. António Couto

O Canto na Liturgia

Antífona de Entrada

Deus vem em meu auxílio – F. Santos

Deus vem em meu auxílio – F. Valente

Salmo Responsorial

Quem viverá, Senhor,em vossa casa? (sl 14) – Az. Oliveira

Ensinai-nos, Senhor, quem viverá em vossa casa. (sl 14) – M. Luís

Senhor, quem habitará na vossa casa? (sl 14) – Nuno Costa

 

Antífona da Comunhão
              

Uma só coisa é necessária (XXXVI ENPL, p. 90-92)

O Senhor instituiu o memorial – T. Sousa

O Senhor misericordioso – F. Santos

O Senhor misericordioso – M. Luís

O Senhor misericordioso – C. Silva

Eis que estou à porta e bato – F. Santos (BML 92)

Eu estou à porta e chamo – F. Silva

Domingo XV do Tempo Comum – Ano C

Tema do 15º Domingo do Tempo Comum

A liturgia deste domingo procura definir o caminho para encontrar a vida eterna. É no amor a Deus e aos outros – dizem os textos que nos são propostos – que encontramos a vida em plenitude.

O Evangelho sugere que essa vida plena não está no cumprimento de determinados ritos, mas no amor (a Deus e aos irmãos). Como exemplo, apresenta-se a figura de um samaritano – um herege, um infiel, segundo os padrões judaicos, mas que é capaz de deixar tudo para estender a mão a um irmão caído na berma da estrada. “Vai e faz o mesmo” – diz Jesus a cada um dos que o querem seguir no caminho da vida plena.

A primeira leitura reflecte, sobretudo, sobre a questão do amor a Deus. Convida os crentes a fazer de Deus o centro da sua vida e a amá-lo de todo o coração. Como? Escutando a sua voz no íntimo do coração e percorrendo o caminho dos seus mandamentos.

Na segunda leitura, Paulo apresenta-nos um hino que propõe Cristo como a referência fundamental, como o centro à volta do qual se constrói a história e a vida de cada crente. O texto foge, um tanto, à temática geral das outras duas leituras; no entanto, a catequese sobre a centralidade de Cristo leva-nos a pensar na importância do que Ele nos diz no Evangelho de hoje. Se Cristo é o centro a partir do qual tudo se constrói, convém escutá-l’O atentamente e fazer do amor a Deus e aos outros uma exigência fundamental da nossa caminhada.

LEITURA I – Deut 30,10-14

Leitura do Livro do Deuteronómio

Moisés falou ao povo, dizendo:
«Escutarás a voz do Senhor teu Deus,
cumprindo os seus preceitos e mandamentos
que estão escritos no Livro da Lei,
e converter-te-ás ao Senhor teu Deus
com todo o teu coração e com toda a tua alma.
Este mandamento que hoje te imponho
não está acima das tuas forças nem fora do teu alcance.
Não está no céu, para que precises de dizer:
‘Quem irá por nós subir ao céu,
para no-lo buscar e fazer ouvir,
a fim de o pormos em prática?’.
Não está para além dos mares,
para que precises de dizer:
‘Quem irá por nós transpor os mares,
para no-lo buscar e fazer ouvir,
a fim de o pormos em prática?’.
Esta palavra está perto de ti,
está na tua boca e no teu coração,
para que a possas pôr em prática».

AMBIENTE

O Livro do Deuteronómio é fruto da reflexão e da catequese dos teólogos do Reino do Norte (Israel), preocupados em lembrar ao Povo os compromissos assumidos no âmbito da “aliança”; mas apresenta-se, literariamente, como um conjunto de discursos de Moisés, uma espécie de testamento espiritual que Moisés teria pronunciado antes da sua morte, na planície de Moab, na altura em que os hebreus se preparavam para renovar a “aliança”, antes de entrar na “Terra Prometida”.
O texto que hoje nos é proposto é a parte final do terceiro discurso de Moisés (cf. Dt 29-30). Na realidade, trata-se de uma homilia dos teólogos deuteronomistas, redigida na fase final do exílio da Babilónia, alertando a comunidade do Povo de Deus para as consequências da fidelidade ou da infidelidade face aos compromissos assumidos para com Jahwéh.

MENSAGEM

Fundamentalmente, estamos diante de um convite a aderir com todo o coração e com todo o ser às propostas e aos mandamentos de Deus (vers. 10).

No entanto, perguntavam os exilados, como encontrar o caminho e descobrir o que Deus propõe? Como é que se descobre o que Deus quer de nós, de forma a que não voltemos, nunca mais, a cair na escravidão?

Os teólogos deuteronomistas estão convencidos de que não é necessário procurar muito longe: nem no céu (vers. 12), nem no mar (vers. 13), nem em qualquer outro lugar inacessível ao homem comum. O caminho que Deus propõe não é um caminho escondido, misterioso, revelado só aos iniciados ou iluminados; mas é um caminho que está claramente inscrito no coração e na consciência de cada homem (vers. 14).

A mensagem aqui apresentada pelos catequistas deuteronomistas diz-nos, portanto, o seguinte: para perceber o projecto de salvação, de liberdade e de felicidade que Deus tem para os homens, basta olhar para o nosso coração e para a nossa consciência; é aí que Deus nos fala e é aí que nós escutamos as suas propostas e as suas indicações. Resta-nos estar disponíveis para escutar e para perceber – no meio das contra-indicações que as nossas paixões nos apresentam – as sugestões, os apelos, os desafios de Deus.

ACTUALIZAÇÃO

Para a reflexão e a partilha, considerar as seguintes indicações:

• O convite a aderir com todo o coração e com todo o ser às propostas de Deus leva-nos a questionar a qualidade da nossa adesão. Não pode ser uma adesão a meio-gás ou a tempo parcial – de acordo com os nossos interesses; mas tem de ser uma adesão total, completa, plenamente empenhada, a “fundo perdido”. É desta forma radical e total que aderimos aos projectos de Deus, ou a nossa adesão é “morna”, incompleta, limitada, reticente?

• Encontramos espaço e disponibilidade para interrogar o nosso coração e para escutar o Deus que fala, que Se revela, que nos desafia e questiona?

• Pode acontecer que os nossos interesses egoístas, as nossas ambições, as nossas paixões, os nossos esquemas e projectos pessoais abafem a voz de Deus e nos impeçam de escutar as suas propostas. Quais são, para mim, essas outras “vozes” que calam a voz de Deus? Que lugar ocupam elas na minha vida? Em que medida elas contribuem para definir o sentido essencial da minha existência?

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 68 (69)

Refrão:  Procurai, pobres, o Senhor e encontrareis a vida.

A Vós, Senhor, elevo a minha súplica,
pela vossa imensa bondade respondei-me.
Ouvi-me, Senhor, pela bondade da vossa graça,
voltai-Vos para mim pela vossa grande misericórdia.

Eu sou pobre e miserável:
defendei-me com a vossa protecção.
Louvarei com cânticos o nome de Deus
e em acção de graças O glorificarei.

Vós, humildes, olhai e alegrai-vos,
buscai o Senhor e o vosso coração se reanimará.
O Senhor ouve os pobres
e não despreza os cativos.

Deus protegerá Sião,
reconstruirá as cidades de Judá.
Os seus servos a receberão em herança
e nela hão-de morar os que amam o seu nome.


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 18B,8-11
(em alternativa ao anterior)

Refrão: Os preceitos do Senhor alegram o coração.

A lei do Senhor é perfeita,
ela reconforta a alma.
As ordens do Senhor são firmes
e dão sabedoria aos simples.

Os preceitos do Senhor são rectos
e alegram o coração.
Os mandamentos do Senhor são claros
e iluminam os olhos.

O temor do Senhor é puro
e permanece eternamente.
Os juízos do Senhor são verdadeiros,
todos eles são rectos.

São mais preciosos que o ouro,
o ouro mais fino;
são mais doces que o mel,
o puro mel dos favos.

LEITURA II – Col 1,15-20

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Colossenses

Cristo Jesus é a imagem de Deus invisível,
o Primogénito de toda a criatura;
porque n’Ele foram criadas todas as coisas
no céu e na terra, visíveis e invisíveis,
Tronos e Dominações, Principados e Potestades:
por Ele e para Ele tudo foi criado.
Ele é anterior a todas as coisas
e n’Ele tudo subsiste.
Ele é a cabeça da Igreja, que é o seu corpo.
Ele é o Princípio, o Primogénito de entre os mortos;
em tudo Ele tem o primeiro lugar.
Aprouve a Deus que n’Ele residisse toda a plenitude
e por Ele fossem reconciliadas consigo todas as coisas,
estabelecendo a paz, pelo sangue da sua cruz,
com todas as criaturas na terra e nos céus.

AMBIENTE

Colossos era uma cidade da Frígia (Ásia Menor), situada a cerca de 200 quilómetros a Este de Éfeso. A comunidade cristã dessa cidade não foi fundada por Paulo mas por Epafras, discípulo de Paulo e colossense de origem (cf. Col 4,12).
Paulo escreveu aos Colossenses da prisão (provavelmente, de Roma). Estaríamos entre os anos 61 e 63. Epafras visitou Paulo e levou ao apóstolo notícias alarmantes… Alguns “doutores” locais (talvez membros de um movimento de índole sincretista, que misturava cristianismo com cultos mistéricos em voga no mundo helenista e com elementos religiosos de várias origens) ensinavam aos Colossenses que a fé em Cristo devia ser completada por rígidas práticas ascéticas, por ritos legalistas judaicos, por prescrições sobre os alimentos (cf. Col 2,16.21), pela observância de determinadas festas (cf. Col 2,16) e por especulações acerca dos anjos (cf. Col 2,18). Na opinião desses “doutores”, tudo isto devia comunicar aos crentes um conhecimento superior dos mistérios e uma maior perfeição.
Paulo desmonta toda esta confusão doutrinal e afirma que nenhum destes elementos tem qualquer importância para a salvação: Cristo basta.

O texto que hoje nos é proposto é um hino de duas estrofes, que provavelmente Paulo tomou da liturgia cristã primitiva, mas que está perfeitamente integrado no conteúdo geral da carta. Este hino cristão de inspiração sapiencial celebra a supremacia absoluta de Cristo na criação e na redenção.

MENSAGEM

A primeira estrofe deste hino (vers. 15-17) afirma e celebra a soberania e o poder de Cristo sobre toda a criação.

A primeira afirmação é a de que Cristo é a “imagem de Deus invisível”. Dizer que é “imagem” significa aqui que Ele é em tudo igual ao Pai, no ser e no agir, pois n’Ele reside a plenitude da divindade. Significa que Deus, espiritual e transcendente, Se revela aos homens e Se faz visível através da humanidade de Cristo.

A segunda afirmação é que Ele é o “primogénito de toda a criatura”. No contexto familiar judaico, o “primogénito” era o herdeiro principal, que tinha a primazia em dignidade e em autoridade sobre os seus irmãos. Aplicado a Cristo, significa a supremacia e a autoridade de Cristo sobre toda a criação.

A terceira afirmação é a de que “n’Ele, por Ele e para Ele foram criadas todas as coisas”. Tal significa que todas as coisas têm n’Ele o seu centro supremo de unidade, de coesão, de harmonia (“n’Ele”); que é Ele que comunica a vida do Pai (“por Ele”); e que Cristo é o termo e a finalidade de toda a criação (“para Ele”). Ao mencionar expressamente que os “tronos, dominações, principados e potestades” estão incluídos na soberania de Cristo, Paulo desmonta as especulações dos “doutores” Colossenses acerca dos poderes angélicos, considerados em paralelo com o poder de Cristo.

A segunda estrofe (vers. 18-20) afirma e celebra a soberania e o poder de Cristo na redenção.

A primeira afirmação é a de que Ele é a “cabeça do corpo que é a Igreja”. A expressão significa, em primeiro lugar, que Cristo tem a primazia e a soberania sobre a comunidade cristã; mas significa, também, que é Ele quem comunica a vida aos membros do corpo e que os une num conjunto vital e harmónico.

A segunda afirmação é a de que Ele é o “princípio, o primogénito de entre os mortos”. Significa que Ele, não só foi o primeiro que ressuscitou, mas também que Ele é a fonte de vida que vai provocar a nossa própria ressurreição.

A terceira afirmação é de que n’Ele reside “toda a plenitude”. Significa que n’Ele e só n’Ele habita, efectiva e essencialmente, a divindade: tudo o que Deus nos quer comunicar, a fim de nos inserir na sua família, está em Cristo. Por isso, o autor deste hino pode dizer que por Cristo foram reconciliadas com Deus todas as criaturas na terra e nos céus: por Cristo a criação inteira, marcada pelo pecado, recebeu a oferta da salvação e pôde voltar a inserir-se na família de Deus.

ACTUALIZAÇÃO

Na reflexão, ter em conta os seguintes elementos:

• Um dado fundamental da vida cristã é a consciência desta centralidade de Cristo na nossa experiência e na nossa existência. No entanto, a religião de tantos dos nossos cristãos centraliza-se, tantas vezes, em coisas secundárias… Cristo é, efectivamente, a referência fundamental à volta da qual a nossa vida se articula e se constrói? Ele tem a primazia na nossa vida? É Ele que está no centro dos interesses e da vida das nossas comunidades cristãs ou religiosas? Há outros deuses, ou poderes, ou “santos” em quem centramos os nossos interesses e que nos desviam de Cristo?

• Para muitos dos nossos contemporâneos, Jesus não é uma referência fundamental. Quando muito, foi um homem bom, que deu a vida por um sonho, um visionário, um idealista, que a história se encarregou de digerir e que hoje é, apenas, uma peça de museu; por isso, não tem qualquer espaço nas suas vidas. Como podemos testemunhar a nossa convicção de que Ele é o centro da história e de que Ele está no princípio e no fim da história da salvação?

ALELUIA – cf. Jo 6,63c.68c

Aleluia. Aleluia.

As vossas palavras, Senhor, são espírito e vida:
Vós tendes palavras de vida eterna.

EVANGELHO – Lc 10,25-37

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
levantou-se um doutor da lei
e perguntou a Jesus para O experimentar:
«Mestre,
que hei-de fazer para receber como herança a vida eterna?»
Jesus disse-lhe:
«Que está escrito na lei? Como lês tu?»
Ele respondeu:
«Amarás o Senhor teu Deus
com todo o teu coração e com toda a tua alma,
com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento;
e ao próximo como a ti mesmo».
Disse-lhe Jesus:
«Respondeste bem. Faz isso e viverás».
Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus:
«E quem é o meu próximo?»
Jesus, tomando a palavra, disse:
«Um homem descia de Jerusalém para Jericó
e caiu nas mãos dos salteadores.
Roubaram-lhe tudo o que levava, espancaram-no
e foram-se embora, deixando-o meio morto.
Por coincidência, descia pelo mesmo caminho um sacerdote;
viu-o e passou adiante.
Do mesmo modo, um levita que vinha por aquele lugar,
viu-o e passou adiante.
Mas um samaritano, que ia de viagem,
passou junto dele e, ao vê-lo, encheu-se de compaixão.
Aproximou-se, ligou-lhe as feridas deitando azeite e vinho,
colocou-o sobre a sua própria montada,
levou-o para uma estalagem e cuidou dele.
No dia seguinte, tirou duas moedas,
deu-as ao estalajadeiro e disse:
‘Trata bem dele; e o que gastares a mais
eu to pagarei quando voltar’.
Qual destes três te parece ter sido o próximo
daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?»
O doutor da lei respondeu:
«O que teve compaixão dele».
Disse-lhe Jesus:
«Então vai e faz o mesmo».

AMBIENTE

Continuamos “a caminho de Jerusalém” – quer dizer, continuamos a percorrer esse percurso espiritual, durante o qual Jesus prepara os discípulos para serem as testemunhas do Reino, após a sua partida deste mundo. É neste contexto “pedagógico” que vai aparecer a “parábola do bom samaritano”.

Para percebermos cabalmente o que está aqui em jogo, convém também ter presente o quadro da relação entre judeus e samaritanos. Trata-se de dois grupos que as vicissitudes históricas tinham separado e cujas relações eram, no tempo de Jesus, bastante conflituosas.

Historicamente, a divisão começou quando, em 721 a.C., a Samaria foi tomada pelos assírios e foi deportada cerca de 4% da sua população; na Samaria instalaram-se colonos assírios que se misturaram com a população local; para os judeus, os habitantes da Samaria começaram, então, a paganizar-se (cf. 2 Re 17,29). A relação entre as duas comunidades deteriorou-se ainda mais quando, após o regresso do exílio, os judeus recusaram a ajuda dos samaritanos (cf. Esd 4,1-5) para a reconstrução do templo de Jerusalém (ano 437) e denunciaram os casamentos mistos; tiveram, então, que enfrentar a oposição dos samaritanos na reconstrução da cidade (cf. Ne 3,33-4,17). No ano de 333 a.C., novo elemento de separação: os samaritanos construíram um templo no monte Garizim; no entanto, esse templo foi destruído em 128 a.C. por João Hircano. Mais tarde, as picardias continuaram: a mais famosa aconteceu já na época de Cristo (alguns anos depois do nascimento de Cristo), quando os samaritanos profanaram com ossos o templo de Jerusalém.

Os judeus desprezavam os samaritanos, por serem uma mistura de sangue israelita com estrangeiros e consideravam-nos hereges em relação à pureza da fé jahwista; e os samaritanos pagavam aos judeus com um desprezo semelhante.

MENSAGEM

O que está em jogo no texto que nos é proposto é uma pergunta de um mestre da Lei: “o que fazer, a fim de conseguir a vida eterna?” (Marcos apresenta a mesma cena – cf. Mc 12,28-34 – mas, aí, a pergunta é acerca do “maior mandamento da Lei”. Lucas, talvez adaptando-se aos leitores cristãos de cultura grega, põe a questão em termos de “vida eterna”).

A resposta é previsível e evidente, de tal forma que o próprio mestre da Lei a conhece: amar a Deus, fazer de Deus o centro da vida e amar o próximo como a si mesmo. Neste “resumo” dos mandamentos, cita-se Dt 6,5 (no que diz respeito ao amor a Deus) e Lv 19,18 (no que diz respeito ao amor ao próximo). Jesus concorda: até aqui, a proposta de Jesus não acrescenta nada de novo àquilo que a própria Lei sugere.

A dúvida do mestre da Lei vai, no entanto, mais fundo: “e quem é o meu próximo?” É uma questão pertinente, neste contexto. Na época de Jesus, os mestres de Israel discutiam, precisamente, quem era o “próximo”. Naturalmente, havia opiniões mais abrangentes e opiniões mais particularistas e exclusivistas; mas havia consenso entre todos no sentido de excluir da categoria “próximo” os inimigos: de acordo com a Lei, o “próximo” era apenas o membro do Povo de Deus (cf. Ex 20,16-17; 21,14.18.35; Lv 19,11.13.15-18). Jesus, no entanto, tinha uma perspectiva diferente da perspectiva dos “fazedores de opinião” de Israel. É precisamente para explicar a sua perspectiva que Jesus conta a “parábola do bom samaritano”.

A parábola situa-nos nessa estrada de cerca de 30 quilómetros entre a cidade santa de Jerusalém e o oásis de Jericó. Na época de Jesus, é uma estrada perigosa, sempre infestada de bandos armados. Ora “um homem” não identificado (não se diz quem é, de que raça é, qual a sua religião, mas apenas que é “um homem”, embora, pelo contexto, possa depreender-se que é um judeu) foi assaltado pelos bandidos e deixado caído na berma da estrada. Trata-se, portanto (e isso é que é preponderante), de “um homem” ferido, abandonado, necessitado de ajuda.
Pela estrada passaram sucessivamente um sacerdote (que conhecia a Lei e que exercia funções litúrgicas no templo) e um levita (ligado à instituição religiosa judaica e que exercia, também, funções litúrgicas no templo). Ambos passaram adiante: ou o medo de enfrentar a mesma sorte, ou as preocupações com a pureza legal (que impedia contactar com um cadáver), ou a pressa, ou a indiferença diante do sofrimento alheio, impede-os de parar. Apesar dos seus conhecimentos religiosos, não têm qualquer sentimento de misericórdia por aquele homem. Eles sabem tudo sobre Deus, lidam diariamente com Deus mas, afinal, não sabem nada de Deus, pois não sabem nada de amor. A sua religião é uma religião oca, de ritos estéreis, de gestos vazios e sem sentido, de cerimónias faustosas e solenes, mas não tem nada a ver com o amor, com o coração.

Pela estrada passou, finalmente, um samaritano. Trata-se de um desses que a religião tradicional de Israel considerava um inimigo, um infiel, longe da salvação e do amor de Deus… No entanto, foi ele que parou, sem medo de correr riscos ou de adiar os seus esquemas e interesses pessoais, que cuidou do ferido e que o salvou. Apesar de ser um herege, um excomungado, mostra ser alguém atento ao irmão necessitado, com o coração cheio de amor e, portanto, cheio de Deus.

Jesus conclui a parábola dizendo ao mestre da Lei que o interrogara: “então vai e faz o mesmo”. A verdadeira religião que conduz à vida plena passa pelo amor a Deus, traduzido em gestos concretos de amor pelo irmão – por todo o irmão, sem excepção.

Recordemos que a pergunta inicial era: “o que fazer para alcançar a vida eterna”… A conclusão é óbvia: para alcançar a vida eterna é preciso amar a Deus e amar o próximo. O “próximo” é qualquer um que necessita de nós, seja amigo ou inimigo, conhecido ou desconhecido, da mesma raça ou doutra raça qualquer; o “próximo” é qualquer irmão caído nos caminhos da vida que necessita, para se levantar, da nossa ajuda e do nosso amor. Neste gesto do samaritano, a Igreja de todos os tempos (a comunidade dos que caminham ao encontro da vida plena, da salvação) reconhece um aspecto fundamental da sua missão: a de levantar todos os homens e mulheres caídos nos caminhos da vida.

ACTUALIZAÇÃO

Para a reflexão e actualização da Palavra, considerar o seguinte:

• A pergunta do mestre da Lei não é uma pergunta académica; é a pergunta que os homens do nosso tempo fazem todos os dias: “o que fazer para chegar à vida plena, à felicidade? Como dar, verdadeiramente, sentido à vida?” A resposta eterna é: “faz de Deus o centro da tua vida, ama-O e ama também os outros irmãos”. Trata-se, portanto, de fazer com que o amor percorra as duas coordenadas fundamentais da nossa existência – a vertical (relação com Deus) e a horizontal (relação com os outros homens). É por aqui que passa a nossa realização plena.

• O que é isso do amor ao próximo? Até onde se deve ir? É preciso exagerar? Não se trata de exagerar. Trata-se de ver em cada pessoa – sem excepção – um irmão e de lhe dar a mão sempre que ele necessitar. Qualquer pessoa ferida com quem nos cruzamos nos caminhos da vida tem direito ao nosso amor, à nossa misericórdia, ao nosso cuidado – seja ela branca ou negra, portuguesa ou ucraniana, cristã ou muçulmana, portista, sportinguista ou benfiquista, fascista ou comunista, pobre ou rica… A verdadeira religião que conduz à salvação passa por este amor sem limites.

• Pode acontecer que o lidar todos os dias com o divino tenha endurecido o nosso coração em relação às realidades do mundo… Pode acontecer que uma vida instalada nos torne insensíveis aos gritos de sofrimento dos pobres… Pode acontecer que o nosso egoísmo fale mais alto e que evitemos meter-nos em complicações por causa das injustiças que os nossos irmãos sofrem… Mas, nesse caso, convém perguntar: deixando que a minha vida se guie por critérios de egoísmo e de comodismo, estou a caminhar em direcção à minha realização plena, à vida eterna?

• As nossas comunidades são clubes fechados, “reservados a sócios”, onde é “proibida a entrada aos estranhos”, ou comunidades onde são amados e têm lugar todos aqueles que a vida atira para a berma da estrada?

Dehonianos

 

 

 

AMARÁS

1. «Sou a personagem mais popular do Evangelho. Vós falais muitas vezes de mim: há vinte séculos que oiço o vosso aplauso por ter puxado o freio com que parei o cavalo naquela estrada que seguia de Jerusalém para Jericó. Ofereci imagens consoladoras à vossa emotividade e ao vosso gosto inato de histórias com um final feliz: a minha figura debruçada a colocar faixas, as gotas de óleo e vinho derramadas sobre as feridas do viandante maltratado pelos ladrões e traído por aqueles dois que pouco antes me precederam naquela estrada e lhe tinham negado a sua piedade, o facto de eu ter colocado o ferido sobre a minha montada, a pousada com o hospedeiro a quem entrego dois denários para ele continuar a assistência. E vós, para me honrar, ornamentastes com estas cenas as entradas dos albergues e lugares piedosos». É assim que o escritor italiano Luigi Santucci (1918-1999) abre o seu Samaritano apocrifo, deixando transparecer alguma ironia.

2. Concentrando agora a nossa atenção sobre a parábola do Evangelho de Lucas (10,25-37), é impressionante notar que o narrador não tenha necessitado de mais de cem palavras (incluindo artigos e partículas gramaticais) para criar um quadro inesquecível!

3. Um HOMEM anónimo e solitário percorre os 27 km da estrada romana que, serpenteando através do Wadi el-Kelt, ligava a Cidade Santa (Jerusalém) ao belíssimo oásis de Jericó, tradicional morada de sacerdotes, superando um desnivelamento de cerca de 1100 metros. De improviso, na paisagem inóspita e desértica daquela estrada, o cenário habitual: BANDIDOS que saltam da emboscada, roubo, violência, fuga. Fica na berma da estrada um corpo ensanguentado, com a guarda de honra das rochas vermelhas dos montes circundantes, ditos em hebraico de Adummîm, tradução literal: «do sangue». Tudo envolto num gritante silêncio.

4. Mas eis, ao longe, um SACERDOTE… Súbita desilusão. O narrador refere que o SACERDOTE bem viu o nosso homem, mas «passou pelo lado contrário» (antiparêlthen). Evitou demoras, chatices, incómodos, impureza ritual. Eis, todavia, no horizonte, outra possibilidade: um LEVITA… A mesma desilusão. Também ele «passou pelo lado contrário» (antiparêlthen).

5. A narrativa atinge o seu auge. Eis que vem agora um SAMARITANO, lídimo representante do «estúpido povo que habita em Siquém» (Eclesiástico 50,26), mas vai fazer tudo ao contrário dos dois anteriores representantes da religiosidade fria e formal de Jerusalém. Veja-se com quanto pormenor o narrador descreve todos os seus gestos: vem até junto dele (1), viu-o (2), encheu-se de comoção (3), aproximou-se (4), enfaixou-lhe as feridas (5), derramou óleo e vinho (6), colocou-o na sua montada (7), levou-o para uma pousada (8), tomou-o ao seu cuidado (9), deu dois denários ao hospedeiro (10), e disse-lhe: «Toma tu cuidado dele» (11).

6. Aí está a religiosidade fria e calculista e insensível, debruçada sobre si mesma, que passa ao lado da vida por e para estar atenta apenas às rubricas, por parte dos agentes do culto de Jerusalém, em claro contraponto com o amor pessoal, eivado de afecto e de gestos de carinho activo e criativo deste SAMARITANO, totalmente debruçado sobre os outros e para os outros, interessando-se até sobre o seu futuro, e provocando outros a entrar nesta dinâmica nova cheia de amor novo. Notável aquele: «Cuida tu dele!» do Samaritano implicando o hospedeiro neste trabalho do amor! E de Jesus implicando o doutor: «Vai e faz tu!»

7. É por tudo isto que, sobre uma pedra da pretensa pousada do Bom Samaritano, na verdade um edifício do tempo dos Cruzados, mas que os peregrinos identificam com a pousada da parábola, um peregrino medieval gravou em latim estas palavras: «Ainda que sacerdotes e levitas passem ao lado da tua angústia, fica a saber que Cristo é o Bom Samaritano, que terá compaixão de ti, e, na hora da tua morte, te conduzirá à pousada eterna».

8. «Amarás!», é quanto responde o doutor, lendo a Lei de Deus, que não está longe de ti: está na tua boca e no teu coração (Deuteronómio, 30,10-14).

 

D. António Couto

O Canto na Liturgia

Antífona de Entrada

Eu venho à vossa presença – F. Santos

Eu venho, Senhor, à vossa presença – F. Santos

Eu venho, Senhor, à vossa presença – F. Silva

Eu venho, Senhor, à vossa presença – A. Cartageno

Senhor, à sombra das vossas asas – F. Santos

 

Salmo Responsorial 

Procurai, pobres, o Senhor e encontrareis a vida. (Sl 68) – F. Santos

Os preceitos do Senhor alegram o coração. (Sl 18) – M. Luís

 

Antífona da Comunhão

As aves do céu encontram abrigo – P. Miranda

Quem come a minha carne – F. Santos

Quem come a minha carne – M. Simões

Quem come a minha carne – M. Carneiro

A minha carne é verdadeira comida – F. Silva

 

Outros cânticos para o Domingo XV do Tempo Comum

Quem come deste pão – C. Silva

Quem comer deste pão – C. Silva

Quem come deste pão – M. Luís

Quem come deste pão – M. Luís

Cristo é o primogénito – M. Luís

Felizes os que moram na vossa casa – F. Silva

Felizes os que habitam na vossa casa, Senhor – B. Sousa

Felizes os que habitam na vossa casa –  M. Valença

 

Domingo XIV do Tempo Comum – Ano C

Tema do 14º Domingo do Tempo Comum

Embora as leituras de hoje nos projectem em sentidos diversos, domina a temática do “envio”: na figura dos 72 discípulos do Evangelho, na figura do profeta anónimo que fala aos habitantes de Jerusalém do Deus que os ama, ou na figura do apóstolo Paulo que anuncia a glória da cruz, somos convidados a tomar consciência de que Deus nos envia a testemunhar o seu Reino.

É, sobretudo, no Evangelho que a temática do “envio” aparece mais desenvolvida. Os discípulos de Jesus são enviados ao mundo para continuar a obra libertadora que Jesus começou e para propor a Boa Nova do Reino aos homens de toda a terra, sem excepção; devem fazê-lo com urgência, com simplicidade e com amor. Na acção dos discípulos, torna-se realidade a vitória do Reino sobre tudo o que oprime e escraviza o homem.

Na primeira leitura, apresenta-se a palavra de um profeta anónimo, enviado a proclamar o amor de pai e de mãe que Deus tem pelo seu Povo. O profeta é sempre um enviado que, em nome de Deus, consola os homens, liberta-os do medo e acena-lhes com a esperança do mundo novo que está para chegar.

Na segunda leitura, o apóstolo Paulo deixa claro qual o caminho que o apóstolo deve percorrer: não o podem mover interesses de orgulho e de glória, mas apenas o testemunho da cruz – isto é, o testemunho desse Jesus, que amou radicalmente e fez da sua vida um dom a todos. Mesmo no sofrimento, o apóstolo tem de testemunhar, com a própria vida, o amor radical; é daí que nasce a vida nova do Homem Novo.

LEITURA I – Is 66,10-14c

Leitura do Livro de Isaías

Alegrai-vos com Jerusalém,
exultai com ela, todos vós que a amais.
Com ela enchei-vos de júbilo,
todos vós que participastes no seu luto.
Assim podereis beber e saciar-vos
com o leite das suas consolações,
podereis deliciar-vos no seio da sua magnificência.
Porque assim fala o Senhor:
«Farei correr para Jerusalém a paz como um rio
e a riqueza das nações como torrente transbordante.
Os seus meninos de peito serão levados ao colo
e acariciados sobre os joelhos.
Como a mãe que anima o seu filho,
também Eu vos confortarei:
em Jerusalém sereis consolados.
Quando o virdes, alegrar-se-á o vosso coração
e, como a verdura, retomarão vigor os vossos membros.
A mão do Senhor manifestar-se-á aos seus servos.

AMBIENTE

Os capítulos 56-66 do Livro de Isaías (designados genericamente como “Trito-Isaías”) são atribuídos pela maior parte dos estudiosos a diversos autores, vinculados espiritualmente ao Deutero-Isaías (o autor dos capítulos 40-55 do Livro de Isaías). Sobre esses autores não sabemos rigorosamente nada, a não ser que apresentaram a sua mensagem nos últimos anos do séc. VI e primeiros anos do séc. V a.C.

Estamos em Jerusalém, vários anos após o regresso do Exílio da Babilónia. A reconstrução faz-se muito lentamente e em condições penosas; a maioria da população de Jerusalém está mergulhada na miséria; os inimigos atacam continuamente e põem em causa o esforço da reconstrução; a esperança está em crise… O Povo pergunta: “quando é que Deus vai realizar as promessas que fez, ainda na Babilónia, através do Deutero-Isaías?”

Os profetas da época procuram, então, apresentar uma mensagem de salvação e alimentar a esperança, a fim de que o Povo recobre forças e confie em Deus. É nesse contexto que podemos situar este hino que a primeira leitura de hoje nos propõe: o profeta apresenta um quadro de restauração da cidade (cf. Is 66,7-14) e convoca os seus habitantes para a alegria.

MENSAGEM

Neste quadro de restauração, o objectivo fundamental do profeta é “consolar” esse Povo martirizado, sofrido, angustiado, que não vê grandes perspectivas de futuro e já perdeu a esperança. Como é que o profeta vai “dizer” a mensagem que Deus lhe confiou?

Todo o quadro gira à volta da apresentação de Jerusalém como mãe. Depois de dar à luz o seu filho (o povo), sem esforço e antes do tempo (cf. Is 66,7), a mãe/Jerusalém alimenta-o com um leite abundante e reconfortante (cf. Is 66,11). As expressões utilizadas (a referência ao “sugar o leite até à saciedade”, ao “seio glorioso”) evocam, de forma bem sugestiva, a imagem da fecundidade, da riqueza, da vida em abundância. Tudo é fácil, rápido, abundante, pleno… No entanto, o profeta está consciente de que é Deus que está por detrás desta corrente de vida e de fecundidade que a mãe/cidade dispensa ao filho/povo.

Na “tradução” da imagem, o profeta põe Deus a fazer chegar à cidade/mãe (para que depois ela distribua pelo filho/povo) a paz e a riqueza das nações. A paz (“shalom”) exprime aqui bem mais do que a ausência de guerra: inclui saúde, fecundidade, prosperidade, amizade com Deus e com os outros; é, portanto, sinónimo de felicidade total. É isso que Deus quer para o seu Povo e que Se propõe oferecer-lhe em abundância.

Particularmente sugestiva é a forma como se fala de Deus. Ele é o pai que dá ao filho/povo a vida abundante e plena, que o acaricia e consola como uma mãe. O profeta propõe ao seu Povo um Deus que ama e que, em cada dia, vem ao encontro dos homens para lhes trazer a salvação. Daí o insistente convite à alegria.

ACTUALIZAÇÃO

Considerar as seguintes questões, para a reflexão:

• Esta proposta de “consolação” vem de Deus e atinge o coração do Povo através da acção e do testemunho profético. É através do profeta que Deus actua no mundo, que consola os corações feridos, que revitaliza a esperança, que salva da morte, que liberta do medo… Todos os crentes são profetas e todos comungam desta missão. Eu assumo e procuro concretizar, dia a dia, esta proposta profética e procuro testemunhar a esperança?

• Deus é o pai que dá vida em abundância e a mãe que acaricia e consola. É esta a perspectiva que temos d’Ele? Sabemos “ler” a nossa vida à luz da bondade de Deus, ver nos acontecimentos sinais do seu amor? Sabemos manifestar-Lhe a nossa gratidão? É este Deus de amor que procuramos testemunhar, com palavras e com gestos?

• O insistente convite à alegria feito pelo profeta atinge-nos também a nós… O medo e a angústia não podem ser os nossos companheiros de viagem, pois acreditamos no amor e na bondade desse Deus que nos acompanha, que nos acaricia, que nos consola e que faz nascer para nós, dia a dia, esse mundo novo de vida plena e abundante.

• Aqueles que a vida feriu e que perderam a esperança encontram nas nossas comunidades (cristãs ou religiosas) um testemunho que os consola e que os anima? Que temos para transmitir aos doentes incuráveis, aos que perderam a família e as referências e vivem na rua, aos imigrantes explorados, aos marginalizados, aos fracassados?

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 65 (66)

Refrão: A terra inteira aclame o Senhor.

Aclamai a Deus, terra inteira,
cantai a glória do seu nome,
celebrai os seus louvores, dizei a Deus:
«Maravilhosas são as vossas obras».

A terra inteira Vos adore e celebre,
entoe hinos ao vosso nome.
Vinde contemplar as obras de Deus,
admirável na sua acção pelos homens.

Mudou o mar em terra firme,
atravessaram o rio a pé enxuto.
Alegremo-nos n’Ele:
domina eternamente com o seu poder.

Todos os que temeis a Deus, vinde e ouvi,
vou narrar-vos quanto Ele fez por mim.
Bendito seja Deus que não rejeitou a minha prece,
nem me retirou a sua misericórdia.

LEITURA II – Gal 6,14-18

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Gálatas

Irmãos:
Longe de mim gloriar-me,
a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo,
pela qual o mundo está crucificado para mim
e eu para o mundo.
Pois nem a circuncisão nem a incircuncisão valem alguma coisa:
o que tem valor é a nova criatura.
Paz e misericórdia para quantos seguirem esta norma,
bem como para o Israel de Deus.
Doravante ninguém me importune,
porque eu trago no meu corpo os estigmas de Jesus.
Irmãos, a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo
esteja com o vosso espírito. Amen.

AMBIENTE

Terminamos hoje a leitura da Carta aos Gálatas. Nos domingos anteriores, já dissemos qual é a questão fundamental abordada nesta carta: face às exigências dos “judaízantes” (segundo os quais os cristãos, além de acreditar em Cristo, devem cumprir escrupulosamente a Lei de Moisés e, de forma especial, aderir à circuncisão), Paulo considera que só Cristo interessa e que tudo o resto são leis e ritos desnecessários ou, ainda pior, geradores de escravidão.

Este texto pertence à conclusão da carta (cf. Gal 6,11-18). É uma espécie de remate, no qual Paulo resume toda a sua argumentação anterior a propósito de Cristo, da Lei e da salvação.

MENSAGEM

Paulo começa por denunciar quais os interesses que movem os “judaízantes” que pregam a circuncisão: eles têm por finalidade evitar a perseguição (fazendo do cristianismo apenas um ramo do judaísmo e, por isso, uma “religião lícita” aos olhos do império); além disso, são pessoas desejosas de se evidenciar, para quem a circuncisão que impõem aos outros serve para mostrar o sucesso do seu proselitismo (o “prosélito” era um pagão convertido à observância da fé judaica)…

Isso não tem qualquer importância para Paulo. O único título de glória que interessa ao apóstolo é a cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Falar da “cruz de Jesus Cristo” é falar do dom total da vida, da entrega de Si mesmo por amor. Esse (e não a circuncisão ou a prática dos rituais da Lei de Moisés) é que é o grande objectivo de Paulo e da sua pregação, pois é a morte para o egoísmo e o nascimento para o amor (cumpridos e representados na cruz) que fazem surgir o “Homem Novo”, o “Israel de Deus”, o novo Povo de Deus.

Precisamente aqui (vers. 15), Paulo inaugura um dos seus temas favoritos, ao qual voltará nas cartas posteriores: o tema do Homem Novo em Cristo Jesus. Na perspectiva paulina, a identificação do cristão com o Cristo da cruz – isto é, com o Cristo do amor total – fará surgir um Homem Novo, liberto do egoísmo e da preocupação consigo próprio, capaz de amar sem medida. Esse Homem Novo, imagem de Jesus Cristo, será capaz de superar o pecado e a morte e de chegar à vida plena, à felicidade total.

De resto, o próprio Paulo luta pessoalmente para chegar a esse objectivo. Aliás, ele já leva “no seu corpo as marcas de Jesus” (vers. 17). Esta indicação não parece referir-se à presença no corpo de Paulo dos sinais físicos da paixão de Jesus (“estigmas”), mas às cicatrizes reais deixadas pelas feridas recebidas por Paulo no exercício do seu apostolado. Na sociedade greco-romana, cada escravo levava uma marca, como sinal da sua pertença a um determinado dono; assim, as marcas do seu sofrimento por causa do Evangelho mostram que Paulo pertence a Cristo, que é propriedade d’Ele: por elas, Paulo demonstra a sua vontade de amar, de dar a vida e a sua pertença inalienável a esse Cristo cujo amor se fez entrega na cruz.

Esta carta é a única em que a palavra “irmãos” aparece na saudação final (vers. 18): é um grito, ao mesmo tempo de angústia e de confiança, que apela à comunhão e que manifesta a esperança no restabelecimento da fraternidade.

ACTUALIZAÇÃO

Para a reflexão, considerar as seguintes questões:

• Como Paulo, cada crente é um enviado a testemunhar o Cristo da cruz – quer dizer, a anunciar a todos os homens que só no amor radical, no amor até às últimas consequências se gera vida e nasce o Homem Novo. Este caminho é, no entanto, um caminho de exigência, pois conduz ao confronto com o pecado, com o egoísmo, com a injustiça, com a opressão. Eu estou, como Paulo, disposto a percorrer este caminho, com coragem profética?

• Existe, por vezes, alguma perplexidade acerca da identidade fundamental do cristão. Qual é, verdadeiramente, a essência da nossa experiência cristã? O discípulo de Cristo é alguém que se distingue pelo uniforme que veste, pela cruz que traz ao pescoço, pelo papel que alguém assinou por ele no dia do baptismo, pelos ritos que cumpre, pela observância de certas leis, ou é alguém que se distingue pela sua identificação com Cristo – com o Cristo do amor, da entrega, do dom da vida?

• Quais são, verdadeiramente os nossos títulos de glória: a conta bancária, os diplomas universitários, o estatuto social, o êxito profissional, a visibilidade nas festas do “jet-set”, os “fans” incondicionais que circulam à nossa volta? Ou são os gestos de amor, de partilha, de doação, de entrega e as feridas recebidas a lutar pela justiça, pela verdade e pela paz?

ALELUIA – Col 3,15a.16a

Aleluia. Aleluia.

Reine em vossos corações a paz de Cristo,
habite em vós a sua palavra.

EVANGELHO – Lc 10,1-12.17-20

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
designou o Senhor setenta e dois discípulos
e enviou-os dois a dois à sua frente,
a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir.
E dizia-lhes:
«A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos.
Pedi ao dono da seara
que mande trabalhadores para a sua seara.
Ide: Eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos.
Não leveis bolsa nem alforge nem sandálias,
nem vos demoreis a saudar alguém pelo caminho.
Quando entrardes nalguma casa,
dizei primeiro: ‘Paz a esta casa’.
E se lá houver gente de paz,
a vossa paz repousará sobre eles:
senão, ficará convosco.
Ficai nessa casa, comei e bebei do que tiverem,
que o trabalhador merece o seu salário.
Não andeis de casa em casa.
Quando entrardes nalguma cidade e vos receberem,
comei do que vos servirem,
curai os enfermos que nela houver
e dizei-lhes: ‘Está perto de vós o reino de Deus’.
Mas quando entrardes nalguma cidade e não vos receberem,
saí à praça pública e dizei:
‘Até o pó da vossa cidade que se pegou aos nossos pés
sacudimos para vós.
No entanto, ficai sabendo:
Está perto o reino de Deus’.
Eu vos digo:
Haverá mais tolerância, naquele dia, para Sodoma
do que para essa cidade».
Os setenta e dois discípulos voltaram cheios de alegria, dizendo:
«Senhor, até os demónios nos obedeciam em teu nome».
Jesus respondeu-lhes:
«Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago.
Dei-vos o poder de pisar serpentes e escorpiões
e dominar toda a força do inimigo;
nada poderá causar-vos dano.
Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem;
alegrai-vos antes
porque os vossos nomes estão escritos nos Céus».

AMBIENTE

O Evangelho situa-nos, outra vez, no contexto da caminhada de Jesus para Jerusalém. Apresenta-nos mais uma etapa desse “caminho espiritual”, durante o qual Jesus vai oferecendo aos discípulos a plenitude da revelação do Pai e preparando-os para continuar, após a sua partida, a missão de levar o Evangelho a todos os homens.

A história do envio dos 72 discípulos é uma tradição exclusiva de Lucas. Seria uma história estranha e inesperada, se a víssemos como um relato fotográfico de acontecimentos concretos: de onde vêm estes 72, que não são nomeados nem por Mateus nem por Marcos e que aqui aparecem surgidos do nada? Trata-se, fundamentalmente, de uma catequese através da qual Lucas propõe, aos discípulos de todas as épocas, uma reflexão sobre a missão da Igreja, em caminhada pelo mundo.

MENSAGEM

Trata-se, portanto, de uma catequese. Nela, Lucas ensina que o cristão tem de continuar no mundo a missão de Jesus, tornando-se testemunha, para todos os homens, dessa proposta de salvação/libertação que Cristo veio trazer.

O texto começa por nos apresentar o número dos discípulos enviados: 72 (vers. 1). Trata-se, evidentemente, de um número simbólico, que deve ser posto em relação com Gn 10 (na versão grega do Antigo Testamento), onde esse número se refere à totalidade das nações pagãs que habitam a terra. Significa, portanto, que a proposta de Jesus é uma proposta universal, destinada a todos os povos, de todas as raças.

Depois, Lucas assinala que os discípulos foram enviados dois a dois. Trata-se de assegurar que o seu testemunho tem valor jurídico (cf. Dt 17,6; 19,15); e trata-se de sugerir que o anúncio do Evangelho é uma tarefa comunitária, que não é feita por iniciativa pessoal e própria, mas em comunhão com os irmãos.

Lucas indica, ainda, que os discípulos são enviados às aldeias e localidades onde Jesus “devia de ir”. Dessa forma, indica que a tarefa dos discípulos não é pregar a sua própria mensagem, mas preparar o caminho de Jesus e dar testemunho d’Ele.
Depois desta apresentação inicial, Lucas passa a descrever a forma como a missão se deve concretizar.

Há, em primeiro lugar, um aviso acerca da dificuldade da missão: os discípulos são enviados “como cordeiros para o meio de lobos” (vers. 3). Trata-se de uma imagem que, no Antigo Testamento, descreve a situação do justo, perdido no meio dos pagãos (cf. Ben Sira 13,17; nalgumas versões, esta imagem aparece em 13,21). Aqui, expressa a situação do discípulo fiel, frente à hostilidade do mundo.

Há, em segundo lugar, uma exigência de pobreza e simplicidade para os discípulos em missão: os discípulos não devem levar consigo nem bolsa, nem alforge, nem sandálias; não devem deter-se a saudar ninguém pelo caminho (vers. 4); também não devem saltar de casa em casa (vers. 7). As indicações de não levar nada para o caminho sugerem que a força do Evangelho não reside nos meios materiais, mas na força libertadora da Palavra; a indicação de não saudar ninguém pelo caminho indica a urgência da missão (que não permite deter-se nas intermináveis saudações típicas da cortesia oriental, sob pena de o essencial – o anúncio do Reino – ser continuamente adiado); a indicação de que não devem saltar de casa em casa sugere que a preocupação fundamental dos discípulos deve ser a dedicação total à missão e não o encontrar uma hospitalidade mais confortável.

Qual deve ser o anúncio fundamental que os discípulos apresentam? Eles devem começar por anunciar “a paz” (vers 5-6). Não se trata aqui, apenas, da saudação normal entre os judeus, mas do anúncio dessa paz messiânica que preside ao Reino. É o anúncio desse mundo novo de fraternidade, de harmonia com Deus e com os outros, de bem-estar, de felicidade (tudo aquilo que é sugerido pela palavra hebraica “shalom”). Esse anúncio deve ser complementado por gestos concretos de libertação, que mostrem a presença do Reino no meio dos homens (vers. 9).

As palavras de ameaça a propósito das cidades que se recusam a acolher a mensagem (vers. 10-11) não devem ser tomadas à letra: são uma forma bem oriental de sugerir que a rejeição do Reino trará consequências nefastas à vida daqueles que escolhem continuar a viver em caminhos de egoísmo, de orgulho e de auto-suficiência.

Nos vers. 17-20, Lucas refere o resultado da acção missionária dos discípulos. As palavras com que Jesus acolhe os discípulos descrevem, figuradamente, a presença do Reino enquanto realidade libertadora (as serpentes e escorpiões são, frequentemente, símbolos das forças do mal que escravizam o homem; a “queda de Satanás” significa que o reino do mal começa a desfazer-se, em confronto com o Reino de Deus).

Apesar do êxito da missão, Jesus põe os discípulos de sobreaviso para o orgulho pela obra feita: eles não devem ficar contentes pelo poder que lhes foi confiado, mas sim porque os seus nomes estão “inscritos no céu” (a imagem de um livro onde estão inscritos os nomes dos eleitos é frequente nesta época, particularmente nos apocalipses – cf. Dn 12,1; Ap 3,5; 13,8; 17,8; 20,12.15; 21,27).

ACTUALIZAÇÃO

Para a reflexão, considerar as seguintes questões:

• O Evangelho que hoje nos é proposto sugere, essencialmente, que os discípulos – a totalidade dos discípulos – são responsáveis pela continuação no mundo do projecto libertador de Jesus, do projecto do Reino. Estamos verdadeiramente conscientes disto? Como é que, na prática, anunciamos Jesus? Jesus já chegou, efectivamente, ao nosso local de trabalho, à nossa escola, à nossa paróquia, à nossa comunidade religiosa? De quem é a responsabilidade, se Jesus ainda parece estar ausente de tantos sectores da vida de hoje? Conseguimos dormir tranquilos quando o egoísmo, a injustiça, a escravidão assentam arraiais à nossa volta e impedem o Reino de acontecer?

• O ser “cordeiro no meio de lobos” e o não levar “nem bolsa, nem alforge, nem sandálias” sugere que o anúncio do Reino não depende do poder dos instrumentos utilizados. Procurar conquistar poder económico ou político para depois impor o Evangelho, controlar os mass-media ou utilizar sofisticadas técnicas de marketing para “vender” a proposta do Reino é negar a essência do Evangelho – que é amor, partilha, serviço, vividos na simplicidade, na humildade, no despojamento…

• O “não andeis de casa em casa” sugere que o missionário deve contentar-se com aquilo que põem à sua disposição e viver com simplicidade e sem exigências. O seu objectivo não é enriquecer ou viver de acordo com o último grito do conforto ou da moda; a sua prioridade é o anúncio do Reino: tudo o mais é secundário.

• O anúncio do “Reino” não se esgota em palavras, mas deve ser acompanhado de gestos concretos… O missionário tem de mostrar nos seus gestos o amor, o serviço, o perdão, a doação que ele anuncia em palavras (se isso não acontecer, o seu testemunho é oco, hipócrita, incoerente e não convencerá ninguém).

Dehonianos

MISSÃO OU DEMISSÃO CRISTÃ

1. Vamos ter o privilégio de poder conviver nos próximos três Domingos (XIV, XV e XVI) com o texto sublime de Lucas 10, todo ele dedicado a afinar os traços do retrato do discípulo de Jesus. Assim, vemos hoje (Domingo XIV do Tempo Comum) o ENVIO dos 72 discípulos de Jesus para um trabalho de ALEGRIA. Veremos no próximo Domingo (XV do Tempo Comum) uma figura belíssima que assume alguns traços fundamentais do discípulo de Jesus: o Bom Samaritano. E, no Domingo XVI, a fechar Lucas 10, veremos as figuras de Marta e de Maria, em que Maria, sentada como aluna atenta aos pés do Mestre, deixa ver mais alguns traços determinantes do discípulo de Jesus.

2. Mas hoje, Domingo XIV, aí estão os 72 discípulos ENVIADOS por Jesus, portanto vinculados a Jesus. O número 72 traduz a universalidade: somos todos enviados por Jesus! Na mentalidade hebraica, eram 72 as nações que povoavam a terra. E as 70 nações que, na tábua dos povos, encontramos em Génesis 10, sobem significativamente para 72 na conhecida versão grega dos LXX!

3. Note-se que, já antes, em Lucas 9,1-6, Jesus enviou os Doze (Apóstolos). O ENVIO dos 72 discípulos que hoje se apresenta diante de nós, em Lucas 10,1-20, é um exclusivo do Evangelho de Lucas e vinca bem a qualidade missionária deste Evangelho, que faz missionários, não apenas os Doze, mas todos os discípulos de Jesus! Sem equívocos: ser cristão ou discípulo de Jesus é ser missionário. Ser missionário não é uma segunda vocação, facultativa, uma espécie de adorno ou adereço que pode advir a alguns cristãos. Sempre sem equívocos: SER CRISTÃO É SER MISSIONÁRIO! É viver intensamente de Jesus e com Jesus, e partir para levar Jesus ao coração dos nossos irmãos. A grande Apóstola das ruas de Ivry, Madeleine Delbrêl (1904-1964), dizia as coisas assim, de maneira contundente, como evangélicas facas de dois gumes: «A missão não é facultativa. Os meios ateus [e indiferentes] em que vivemos impõem-nos uma escolha: MISSÃO OU DEMISSÃO CRISTû.

4. O trabalho da Evangelização a que somos ENVIADOS por Jesus é um trabalho de ALEGRIA. Não de sementeira, mas de CEIFA. De acordo com o Salmo 126, a sementeira é um tempo de lágrimas, ma a CEIFA é um tempo de ALEGRIA e MÚSICA: «Vão andando e chorando, levando as sementes; ao voltar, vêm cantando, trazendo braçados de espigas» (Salmo 126,6).

5. O ENVIADO de Jesus deve partir belo e leve, com causas, e sem coisas: «Ide! (…) Não leveis bolsa, nem alforge, nem sandálias», mas com mansidão, alegria e paz, como cordeiros. O cordeiro é um animal pacífico: não mata, mas é morto! Como Jesus, o cordeiro de Deus! Veja-se, de resto, a riqueza semântica do aramaico talya, que significa «cordeiro, servo, pão e filho»! E com carácter de urgência: «Não vos demoreis pelo caminho». O objectivo é chegar ao coração das pessoas, a quem se deve entregar a PAZ, entenda-se, a FELICIDADE.

6. Somos informados, no final deste imenso texto, que os 72 voltaram cheios de ALEGRIA!

7. O contraponto belíssimo vem hoje do último Capítulo de Isaías: ALEGRAI-vos com Jerusalém! Saciai-vos com o leite das suas consolações! Filhos e filhas, rosados e tranquilos, felizes, cumulados de carícias, ao colo da mãe! A PAZ e o LEITE correrão como um rio! (Isaías 66).

8. Verificação: como este mundo anda triste e distraído, anestesiado e dormente! E como nós, discípulos de Jesus, ENVIADOS a este mundo por Jesus, temos de sentir a urgência de levar este rio de ALEGRIA aos nossos irmãos. A não esquecer: ser cristão é ser missionário! Olhando com amor para este mundo, impõe-se-nos uma escolha: MISSÃO ou DEMISSÃO Cristã!

D. António Couto

O Canto na Liturgia

Antífona de Entra

Recordamos, Senhor – J. Santos

Recordamos, Senhor – F. Santos

Recordamos, ó Deus – C. Silva

Senhor, em vosso templo recordamos – M. Carvalho

Salmo Responsorial

A terra inteira aclame o Senhor (Sl 65) – M. Luís

           

Antífona da Comunhão

A messe é grande – C. Silva

A messe é grande – F. Santos

Vinde a mim todos vós – F. Silva

Vinde a mim todos vós – F. Santos

Vinde a mim todos vós – C. Silva

Saboreai e vede como o Senhor é bom – M. Luís

Saboreai e vede como é bom o Senhor – M. Luís

 

Outros cânticos para o Domingo XIV do Tempo Comum

O Senhor está próximo – F. Lapa

Saboreai como é bom – A. Cartageno

Saboreai como é bom – J. Santos

 

 

Domingo XIII do Tempo Comum – Ano C

Tema do 13º Domingo do Tempo Comum

A liturgia de hoje sugere que Deus conta connosco para intervir no mundo, para transformar e salvar o mundo; e convida-nos a responder a esse chamamento com disponibilidade e com radicalidade, no dom total de nós mesmos às exigências do “Reino”.

primeira leitura apresenta-nos um Deus que, para actuar no mundo e na história, pede a ajuda dos homens; Eliseu (discípulo de Elias) é o homem que escuta o chamamento de Deus, corta radicalmente com o passado e parte generosamente ao encontro dos projectos que Deus tem para ele.

Evangelho apresenta o “caminho do discípulo” como um caminho de exigência, de radicalidade, de entrega total e irrevogável ao “Reino”. Sugere, também, que esse “caminho” deve ser percorrido no amor e na entrega, mas sem fanatismos nem fundamentalismos, no respeito absoluto pelas opções dos outros.

segunda leitura diz ao “discípulo” que o caminho do amor, da entrega, do dom da vida, é um caminho de libertação. Responder ao chamamento de Cristo, identificar-se com Ele e aceitar dar-se por amor, é nascer para a vida nova da liberdade.

LEITURA I – 1 Re 19,16b.19-21

Leitura do Primeiro Livro dos Reis

Naqueles dias,
disse o Senhor a Elias:
«Ungirás Eliseu, filho de Safat, de Abel-Meola,
como profeta em teu lugar».
Elias pôs-se a caminho
e encontrou Eliseu, filho de Safat,
que andava a lavrar com doze juntas de bois
e guiava a décima segunda.
Elias passou junto dele e lançou sobre ele a sua capa.
Então Eliseu abandonou os bois,
correu atrás de Elias e disse-lhe:
«Deixa-me ir abraçar meu pai e minha mãe;
depois irei contigo».
Elias respondeu:
«Vai e volta,
porque eu já fiz o que devia».
Eliseu afastou-se,
tomou uma junta de bois e matou-a;
com a madeira do arado assou a carne,
que deu a comer à sua gente.
Depois levantou-se e seguiu Elias,
ficando ao seu serviço.
 
AMBIENTE
Esta passagem do Primeiro Livro dos Reis leva-nos até ao séc. IX a.C. Estamos na época dos dois reinos divididos.
Os profetas Elias e Eliseu, aqui referenciados, exerceram o seu ministério profético no reino do norte (Israel), no tempo dos reis Acab e Ocozias (Elias), Jorão e Jehú (Eliseu). É uma época de grande desnorte, em termos religiosos: a fé jahwista é posta em causa pela preponderância que os deuses estrangeiros assumem na cultura religiosa de Israel.
Uma grande parte do ministério de Elias desenrola-se durante o reinado de Acab (874-853 a.C.). O rei – influenciado por Jezabel, a sua esposa fenícia – erige altares a Baal e Astarte e prostra-se diante das estátuas desses deuses. Estamos diante de uma tentativa de abrir Israel ao intercâmbio com outras culturas; mas essas razões políticas não são entendidas nem aceites pelos círculos religiosos de Israel. Nessa época, Elias torna-se o grande campeão da fé jahwista (cf. 1 Re 18 – o episódio do “duelo” religioso entre Elias e os profetas de Baal, no monte Carmelo), defendendo a Lei em todas as suas vertentes (inclusive na vertente social – cf. 1 Re 21 – o célebre episódio da vinha de Nabot), contra uma classe dirigente que subvertia a seu bel-prazer as leis e os mandamentos de Jahwéh.
A luta de Elias no sentido de preservar os valores fundamentais da fé jahwista será continuada nos reinados seguintes por um dos seus discípulos – Eliseu. A leitura que nos é proposta apresenta-nos, precisamente, o chamamento de Eliseu.
MENSAGEM
O texto propõe-nos uma reflexão sobre o chamamento de Deus e a resposta do homem.
O quadro inicial da nossa leitura situa-nos no Horeb, a montanha da revelação de Deus ao seu Povo (cf. 1 Re 19,8). Porquê no Horeb? Porque aí, no lugar onde começou a Aliança, Deus vai definir os instrumentos do restabelecimento da Aliança: Elias é convidado a ungir Eliseu como profeta; ele será (juntamente com Jehú, futuro rei de Israel e de Hazael, futuro rei de Damasco) o instrumento de Deus na aniquilação de Acab, o rei infiel a Jahwéh e à Aliança. Trata-se da única vez que o Antigo Testamento refere a “unção” de um profeta.
Após a apresentação inicial, o autor deuteronomista desenha o quadro do chamamento de Eliseu. Ele está no campo, com os bois, a lavrar a terra quando Elias o encontra e o convida a ser profeta: o profeta não é alguém que, repentinamente, cai do céu e invade de forma anormal o mundo dos homens; também não é alguém que se torna profeta porque não serve para outra coisa; mas é sempre um homem normal, com uma vida normal, a quem Deus chama, indo ao seu encontro e falando-lhe na normalidade do trabalho diário, para lhe apresentar o seu desafio.
Elias lança sobre Eliseu o seu “manto”. Este gesto tem de ser entendido à luz da crença de que as roupas ou os objectos pertencentes a uma pessoa representavam essa pessoa e continham qualquer coisa do seu poder: dessa forma, Elias comunica a Eliseu o seu poder e o seu espírito proféticos (cf. 2 Re 2,13-14; 4,29-31; Lc 8,44; Act 19,12).
Temos, depois, a resposta de Eliseu ao desafio que Deus lhe lança através do gesto de Elias: imolou uma junta de bois, queimou o arado, assou a carne dos bois e deu-a a comer à sua família; depois, seguiu Elias e ficou ao seu serviço.
O gesto de Eliseu significa, provavelmente, o abandono da vida antiga, a renúncia à antiga profissão, a ruptura com a própria família e a entrega total à missão profética. Exprime a radicalidade da sua entrega ao serviço de Deus.
 

 

ACTUALIZAÇÃO

Ter em conta, para a reflexão, os seguintes dados:

¨       A história da salvação não é a história de um Deus que intervém no mundo e na vida dos homens de forma espalhafatosa, prepotente, dominadora; mas é uma história de um Deus que, discretamente, sem se impor nem dar espectáculo, age no mundo e concretiza os seus planos de salvação através dos homens que Ele chama. É como se Ele nos dissesse como fazer as coisas, mas respeitasse o nosso caminho e Se escondesse por detrás de nós. É necessário ter em conta que somos os instrumentos de Deus para construir a história, até que o nosso mundo chegue a ser esse “mundo bom” que Deus sonhou. Aceitamos este desafio?

¨       O relato da “vocação” de Eliseu não é o relato de uma situação excepcional, que só acontece a alguns privilegiados, eleitos entre todos por Deus para uma missão no mundo; mas é a história de cada um de nós e dos apelos que Deus nos faz, no sentido de nos disponibilizarmos para a missão que Ele nos quer confiar, quer no mundo, quer na nossa comunidade cristã. Estou atento aos apelos de Deus? Tenho disponibilidade, generosidade e entusiasmo para me empenhar nas tarefas a que Ele me chama?

¨       O chamamento de Deus chega a Eliseu através da acção de Elias… É preciso ter em conta que, muitas vezes, o desafio de Deus nos chega através da palavra ou da interpelação de um irmão; e que, muitas vezes, é preciso contar com o apoio de alguém para discernir o caminho e ser capaz de enfrentar os desafios da vocação.

¨       Finalmente, somos chamados a contemplar a disponibilidade de Eliseu e a forma radical como ele acolheu o desafio de Deus. A referência à morte dos bois, ao desmantelamento do arado (cuja madeira serviu para assar a carne dos animais) e ao banquete de despedida oferecido à família significa que o profeta resolveu “cortar todas as amarras”, pois queria dar-se, radicalmente, ao projecto de Deus. É esse corte radical com o passado e essa entrega definitiva à missão que nos questiona e interpela.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 15 (16)

Refrão: O Senhor é a minha herança.

Defendei-me, Senhor: Vós sois o meu refúgio.
Diga ao Senhor: «Vós sois o meu Deus».
Senhor, porção da minha herança e do meu cálice,
está nas vossas mãos o meu destino.
 
Bendigo o Senhor por me ter aconselhado,
até de noite me inspira interiormente.
O Senhor está sempre na minha presença,
com Ele a meu lado não vacilarei.
 
Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta
e até o meu corpo descansa tranquilo.
Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos,
nem deixareis o vosso fiel sofrer a corrupção.
 
Dar-me-eis a conhecer os caminhos da vida,
alegria plena na vossa presença,
delícias eternas à vossa direita.
 
 

LEITURA II – Gal 5,1.13-18

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Gálatas

Irmãos:
Foi para a verdadeira liberdade que Cristo nos libertou.
Portanto, permanecei firmes
e não torneis a sujeitar-vos ao jugo da escravidão.
Vós, irmãos, fostes chamados à liberdade.
Contudo, não abuseis da liberdade
como pretexto para viverdes segundo a carne;
mas, pela caridade,
colocai-vos ao serviço uns dos outros,
porque toda a Lei se resume nesta palavra:
«Amarás o teu próximo como a ti mesmo».
Se vós, porém, vos mordeis e devorais mutuamente,
tende cuidado, que acabareis por destruir-vos uns aos outros.
Por isso vos digo:
Deixai-vos conduzir pelo Espírito
e não satisfareis os desejos da carne.
Na verdade, a carne tem desejos contrários aos do Espírito,
e o Espírito desejos contrários aos da carne.
São dois princípios antagónicos
e por isso não fazeis o que quereis.
Mas se vos deixais guiar pelo Espírito,
não estais sujeitos à Lei de Moisés.
 
AMBIENTE
Continuamos a ler a Carta aos Gálatas. Já sabemos qual é o problema fundamental aí abordado: os Gálatas estão a ser perturbados por esses “judaízantes” para quem os rituais da Lei de Moisés também são necessários para chegar à vida em plenitude (“salvação”); e Paulo – para quem “Cristo basta” e para quem as obras da Lei já não dizem nada – procura fazer com que os Gálatas não se sujeitem mais à escravidão, nomeadamente à escravidão dos ritos e das leis.
O texto que nos é proposto aparece na parte final da Carta. É o início de uma reflexão sobre a verdadeira liberdade, que é fruto do Espírito (cf. Gal 5,1-6,10).
MENSAGEM
As palavras de Paulo são um convite veemente à liberdade. Logo no início deste texto (vers. 1), ele avisa os Gálatas que foi para a liberdade que Cristo os libertou (a repetição – libertar para a liberdade – é, sem dúvida, um hebraísmo destinado a dar ao verbo “libertar” um sentido mais intenso) e que não convém voltar a cair no jugo da escravidão (mais à frente – vers. 2-4 – ele identifica essa escravidão com a Lei e com a circuncisão).
Os vers. 13-18 explicam em que consiste a liberdade para o cristão. Trata-se da faculdade de escolher entre duas coisas distintas e opostas? Não. Trata-se de uma espécie de independência ético-moral, em virtude da qual cada um pode fazer o que lhe apetece, sem barreiras de qualquer espécie? Também não.
Para Paulo, a verdadeira liberdade consiste em viver no amor (vers. 13-14). O que nos escraviza, nos limita e nos impede de alcançar a vida em plenitude (“salvação”) é o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência; mas superar esse fechamento em nós próprios e fazer da nossa vida um dom de amor torna-nos verdadeiramente livres. Só é autenticamente livre aquele que se libertou de si próprio e vive para se dar aos outros.
Como é que esta “liberdade” (a capacidade de amar, de dar a vida) nasce em nós? Ela nasce da vida que Cristo nos dá: pela adesão a Cristo, gera-se em cada pessoa um dinamismo interior que a identifica com Cristo e lhe dá uma capacidade infinita de amar, de superar o egoísmo, o orgulho e os limites – ou seja, com uma capacidade infinita de viver em liberdade. É o Espírito que alimenta, dia a dia, essa vida de liberdade (ou de amor) que se gerou em nós, a partir da nossa adesão a Cristo (vers. 16).
Viver na escravidão é continuar a viver uma vida centrada em si próprio (Paulo enumera, mais à frente, as obras de quem é escravo – cf. Gal 5,19-21); viver na liberdade (“segundo o Espírito”) é sair de si e fazer da sua vida um dom, uma partilha (Paulo enumera, mais à frente, as obras daquele que é livre e vive no Espírito – cf. Gal 5,22-23).
  

 

ACTUALIZAÇÃO

Considerar, na reflexão, os seguintes elementos:

¨       Os homens do nosso tempo têm em grande apreço esse valor chamado “liberdade”; no entanto têm, frequentemente, uma perspectiva demasiado egoísta deste valor fundamental. Quando a “liberdade” se define a partir do “eu”, identifica-se com “libertinagem”: é a capacidade de “eu” fazer o que quero; é a capacidade de “eu” poder escolher; é a capacidade de “eu” poder tomar as minhas decisões sem que ninguém me impeça… Esta liberdade não gera, tantas vezes, egoísmo, isolamento, orgulho, auto-suficiência e, portanto, escravidão?

¨       Para Paulo, só se é verdadeiramente livre quando se ama. Aí, eu não me agarro a nada do que é meu, deixo de viver obcecado comigo e com os meus interesses e estou sempre disponível – totalmente disponível – para me partilhar com os meus irmãos. É esta experiência de liberdade que fazem hoje tantas pessoas que não guardam a própria vida para si próprias, mas fazem dela uma oferta de amor aos irmãos mais necessitados. Como dar este testemunho e passar esta mensagem aos homens do nosso tempo, sempre obcecados com a verdadeira liberdade? Como explicar que só o amor nos faz totalmente livres?

¨       Falar de uma comunidade (cristã ou religiosa) formada por pessoas livres em Cristo implica falar de uma comunidade voltada para o amor, para a partilha, para as necessidades e carências dos irmãos que estão à sua volta. É isso que realmente acontece com as nossas comunidades? Damos este testemunho de liberdade no dom da vida aos irmãos que nos rodeiam? As nossas comunidades são comunidades de pessoas livres que vivem no amor e na doação, ou comunidades de escravos, presos aos seus interesses pessoais e egoístas, que se magoam e ofendem por coisas sem importância, dominados por interesses mesquinhos e capazes de gestos sem sentido de orgulho e prepotência?

 

ALELUIA – 1 Sam 3,9; Jo 6,68c

Aleluia. Aleluia.

Falai, Senhor, que o vosso servo escuta.
Vós tendes palavras de vida eterna.
 
 
 

EVANGELHO – Lc 9,51-62

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Aproximando-se os dias de Jesus ser levado deste mundo,
Ele tomou a decisão de Se dirigir a Jerusalém
e mandou mensageiros à sua frente.
Estes puseram-se a caminho
e entraram numa povoação de samaritanos,
a fim de Lhe prepararem hospedagem.
Mas aquela gente não O quis receber,
porque ia a caminho de Jerusalém.
Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram a Jesus:
«Senhor,
queres que mandemos descer fogo do céu que os destrua?»
Mas Jesus voltou-Se e repreendeu-os.
E seguiram para outra povoação.
Pelo caminho, alguém disse a Jesus:
«Seguir-Te-ei para onde quer que fores».
Jesus respondeu-lhe:
«As raposas têm as suas tocas
e as aves do céu os seus ninhos;
mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça».
Depois disse a outro: «Segue-Me».
Ele respondeu:
«Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai».
Disse-lhe Jesus:
«Deixa que os mortos sepultem os seus mortos;
tu, vai anunciar o reino de Deus».
Disse-Lhe ainda outro:
«Seguir-Te-ei, Senhor;
mas deixa-me ir primeiro despedir-me da minha família».
Jesus respondeu-lhe:
«Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás
não serve para o reino de Deus».
 
AMBIENTE
Aqui começa, precisamente, a segunda parte do Evangelho segundo Lucas. Até agora, Lucas situou Jesus na Galileia (1ª parte); mas, a partir de 9,51, Lucas põe Jesus a caminhar decididamente para Jerusalém. A “caminhada” que Jesus aqui inicia com os discípulos é mais teológica do que geográfica: não se trata tanto de fazer um diário da viagem ou de fazer a lista dos lugares por onde Jesus vai passar até chegar a Jerusalém; trata-se, sobretudo, de apresentar um itinerário espiritual, ao longo do qual Jesus vai mostrando aos discípulos os valores do “Reino” e os vai presenteando com a plenitude da revelação de Deus. Todo este percurso que aqui se inicia converge para a cruz: ela vai trazer a revelação suprema que Jesus quer apresentar aos discípulos e nela vai irromper a salvação definitiva. Os discípulos são exortados a seguir este “caminho”, para se identificarem plenamente com Jesus… Lucas propõe aqui à sua comunidade o itinerário que os autênticos crentes devem percorrer.
MENSAGEM
Lucas começa por apresentar as “exigências” do “caminho”. O nosso texto apresenta, nitidamente, duas partes, dois desenvolvimentos.
Na primeira parte (vers. 51-56), o cenário de fundo situa-nos no contexto da hostilidade entre judeus e samaritanos. Trata-se de um dado histórico: a dificuldade de convivência entre os dois grupos era tradicional; os peregrinos que iam a Jerusalém para as grandes festas de Israel procuravam evitar a passagem pela Samaria, utilizando preferencialmente o “caminho do mar” (junto da orla costeira), ou o caminho que percorria o vale do rio Jordão, a fim de evitar “maus encontros”.
A primeira lição de Jesus ao longo desta “caminhada” vai para a atitude que os discípulos devem assumir face ao “ódio” do mundo. Que fazer quando o mundo tem uma atitude de rejeição face à proposta de Jesus? Tiago e João pretendem uma resposta agressiva, “musculada”, que retribua na mesma moeda, face à hostilidade manifestada pelos samaritanos (a referência ao “fogo do céu” leva-nos ao castigo que Elias infligiu aos seus adversários – cf. 2 Re 1,10-12); mas Jesus avisa-os que o seu “caminho” não passa nem passará nunca pela imposição da força, pela resposta violenta, pela prepotência (no seu horizonte próximo continua a estar apenas a cruz e a entrega da vida por amor: é no dom da vida e não na prepotência e na morte que se realizará a sua missão). Isto é algo que os discípulos nunca devem esquecer, se estão interessados em percorrer o “caminho” de Jesus.
Na segunda parte (vers. 57-62), Lucas apresenta – através do diálogo entre Jesus e três candidatos a discípulos – algumas das condições para percorrer, com Jesus, esse “caminho” que leva a Jerusalém, isto é, que leva ao acontecer pleno da salvação. Que condições são essas?
O primeiro diálogo sugere que o discípulo deve despojar-se totalmente das preocupações materiais: para o discípulo, o Reino tem de ser infinitamente mais importante do que as comodidades e o bem-estar material.
O segundo diálogo sugere que o discípulo deve despegar-se desses deveres e obrigações que, apesar da sua relativa importância (o dever de sepultar os pais é um dever fundamental no judaísmo), impedem uma resposta imediata e radical ao Reino.
O terceiro diálogo sugere que o discípulo deve despegar-se de tudo (até da própria família, se for necessário), para fazer do Reino a sua prioridade fundamental: nada – nem a própria família – deve adiar e demorar o compromisso com o Reino.
Não podemos ver estas exigências como normativas: noutras circunstâncias, Ele mandou cuidar dos pais (cf. Mt 15,3-9); e os discípulos – nomeadamente Pedro – fizeram-se acompanhar das esposas durante as viagens missionárias (cf. 1 Cor 9,5)… O que estes ensinamentos pretendem dizer é que o discípulo é convidado a eliminar da sua vida tudo aquilo que possa ser um obstáculo no seu testemunho quotidiano do Reino.
 
 
ACTUALIZAÇÃO
 
 

Na reflexão, considerar os seguintes elementos:

¨       A nós, discípulos de Jesus, é proposto que O sigamos no “caminho” de Jerusalém, nesse “caminho” que conduz à salvação e à vida plena. Trata-se de um “caminho” que implica a renúncia a nós mesmos, aos nossos interesses, ao nosso orgulho, e um compromisso com a cruz, com a entrega da vida, com o dom de nós próprios, com o amor até às últimas consequências. Aceitamos ser discípulos, isto é, embarcar com Jesus no “caminho de Jerusalém”?

¨       Jesus recusa, liminarmente, responder à oposição e à hostilidade do mundo com qualquer atitude de violência, de agressividade, de vingança. No entanto, a Igreja de Jesus, na sua caminhada histórica, tem trilhado caminhos de violência, de fanatismo, de intolerância (as cruzadas, as conversões à força, os julgamentos da “santa” Inquisição, as exigências que criam em tantas consciências escravidão e sofrimento…). Diante disto, resta-nos reconhecer que, infelizmente, nem sempre vivemos na fidelidade aos caminhos de Jesus e pedir desculpa aos nossos irmãos pela nossa falta de amor. É preciso, também, continuar a anunciar o Evangelho com fidelidade, com firmeza e com coragem, mas no respeito absoluto por aqueles que querem seguir outros caminhos e fazer outras opções.

¨       O “caminho do discípulo” é um caminho exigente, que implica um dom total ao “Reino”. Quem quiser seguir Jesus, não pode deter-se a pensar nas vantagens ou desvantagens materiais que isso lhe traz, nem nos interesses que deixou para trás, nem nas pessoas a quem tem de dizer adeus… O que é que, na nossa vida quotidiana, ainda nos impede de concretizar um compromisso total com o “Reino” e com esse caminho do dom da vida e do amor total?

Dehonianos

 

 

SEGUIR JESUS

1. Neste Domingo XIII do Tempo Comum proclama-se (o Evangelho é sempre proclamado, e não simplesmente lido) o Evangelho de Lucas 9,51-62, página sublime e sobrecarregada de cenários sucessivos e desconcertantes, que não podem deixar sossegado e de braços cruzados nenhum dos discípulos de Jesus.

2. O primeiro é a anotação radical de que Jesus «tornou o seu rosto duro como pedra na direcção de Jerusalém» (Lucas 9,51). A expressão «tornar o rosto duro como pedra» provém do terceiro canto do Servo do Senhor (Isaías 50,7), e serve para assinalar uma atitude firme e decidida da qual não se pode voltar atrás. Ainda que, no contexto do Evangelho de Lucas, esta anotação marque a viragem geográfica de Jesus da Galileia para Jerusalém, a anotação é sobretudo de ordem teológica, salientando a total confiança de Jesus no Pai, tal como o Servo confia no seu Deus.

3. O segundo é a ilusão do poder de Tiago e João, os filhos de Zebedeu, que propõem a Jesus dizimar uma povoação samaritana só porque recusa acolher Jesus. Os dois discípulos, que ainda não entenderam o caminho manso e humilde de Jesus, como o do Servo do Senhor, são duramente repreendidos (Lucas 9,55) com o mesmo verbo com que Jesus estigmatiza os espíritos impuros (cf. Lucas 4,35).

4. O terceiro fixa a nossa atenção em alguém que se propõe seguir Jesus, com estas palavras: «Seguir-Te-ei para onde quer que vás!» (Lucas 9,57), logo seguidas da declaração de Jesus: «As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça!» (Lucas 9,58). Note-se bem que o texto diz o essencial e omite o circunstancial, deixando-nos sem saber quem era o homem, o que é que o levou a propor-se seguir Jesus, de onde veio, e como terá reagido à declaração de Jesus: seguiu-o no caminho? Foi-se outra vez embora? Com este procedimento escorreito, a intenção do narrador é certamente apresentar a força do seguimento de Jesus enquanto tal, não o fazendo depender desta ou daquela circunstância. Seguir Jesus é um absoluto, sem condições, atitude posta em destaque pelo facto de Jesus não ter eira nem beira, o que torna incontornável a transparência da sua confiança no Pai. Sua e daqueles que o querem seguir.

5. O quarto é o apelo limpo, igualmente despido de acessórios, de Jesus a alguém: «Segue-me!», a que o visado responde imediatamente: «Permite-me ir primeiro sepultar o meu pai!» (Lucas 9,59). E a resposta, quase escandalosa de Jesus: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos. Tu vai anunciar o Reino de Deus!» (Lucas 9,60). Estas imensas palavras de Jesus ganham ainda maior acutilância se soubermos que a mentalidade e a sabedoria judaicas davam enorme importância ao dar sepultura a um familiar. Era uma acção de tal monta e de tal conta que dispensava da oração do Shema‛, da oração das dezoito bênçãos e de todos os preceitos da Lei (Mishnah Berakhot 3,1a). Mas o caminho novo de Jesus inverte o normal caminhar da experiência humana da vida para a morte. O caminho de Jesus e segundo Jesus é da morte para a vida: «nós sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos; quem não ama, permanece na morte» (1 Jo 3,14). Quem quiser seguir Jesus tem, portanto, de apostar tudo no novo sentido que Jesus imprime à existência.

6. O quinto e último é igualmente forte, igualmente desconcertante. Põe diante de nós alguém, também sem a anotação de circunstâncias, que está disposto a seguir Jesus, desde que Jesus lhe conceda apenas despedir-se dos seus familiares. Digamos que pede apenas para dar um pequeno passo atrás, e logo se voltará todo para a frente. Elias fez esta concessão a Eliseu (1 Reis 19,20), Antigo Testamento de hoje. Mas Jesus é mais do que Elias, e não faz qualquer concessão: «Aquele que deita as mãos ao arado e olha para trás não serve para o Reino de Deus!» (Lucas 9,62).

7. Já se vê que é a cena de Elias e de Eliseu, narrada em 1 Reis 19,19-21, que faz de eco ao Evangelho de hoje. Simbolicamente, Elias atira o seu manto sobre Eliseu, maneira de fazer dele seu seguidor. Eliseu andava a lavrar um grande campo, agarrado ao arado, puxado por doze juntas de bois. Sentindo o chamamento de Elias, Eliseu apenas pede o tempo necessário para ir abraçar o seu pai e a sua mãe. Elias concede. Eliseu despede-se de forma radical, sagrada e festiva. Matou uma junta de bois, e assou a sua carne com a madeira do arado. Queimando o arado, é todo um mundo que deixa para trás, sem retorno. Enceta depois um caminho novo atrás de Elias.

8. Dia de Domingo, Dia do Senhor, doação radical, total, ao Senhor. Entenda-se: é um caminho novo que se abre à nossa frente. Sem retrocessos, sem desvios, sem distracções, sem nostalgias, sem saídas de segurança!

D. António Couto

O Canto na Liturgia

Antífona de Entrada

Louvai o Senhor, povos de toda a terra – F. Silva

Louvai, louvai  o Senhor, povos de toda a terra – F. Silva

Louvai o Senhor, povos de toda a terra – F. Santos

Louvai o Senhor, povos de toda a terra – A. Cartageno

Louvai o Senhor, povos de toda a terra – S. Marques

Povos, batei palmas – C. Silva

Povos todos, vinde com júbilo – M. Luís

 

Salmo Responsorial

O Senhor é a minha herança. (Sl 15) – M. Luís

Antífona da Comunhão

A minha alma louva o Senhor – F. Santos

A minha alma louva o Senhor – M. Carneiro

Bendiz, minha alma o Senhor – M. Carneiro

Pai santo, guarda no Teu nome – M. Simões

Eu quero, ó Pai – T. Sousa

Domingo XII do Tempo Comum – Ano C

Tema do 12º Domingo do Tempo Comum

A liturgia deste domingo coloca no centro da nossa reflexão a figura de Jesus: quem é Ele e qual o impacto que a sua proposta de vida tem em nós? A Palavra de Deus que nos é proposta impele-nos a descobrir em Jesus o “messias” de Deus, que realiza a libertação dos homens através do amor e do dom da vida; e convida cada “cristão” à identificação com Cristo – isto é, a “tomar a cruz”, a fazer da própria vida um dom generoso aos outros.

O Evangelho confronta-nos com a pergunta de Jesus: “e vós, quem dizeis que Eu sou?” Paralelamente, apresenta o caminho messiânico de Jesus, não como um caminho de glória e de triunfos humanos, mas como um caminho de amor e de cruz. “Conhecer Jesus” é aderir a Ele e segui-l’O nesse caminho de entrega, de doação, de amor total.

A primeira leitura apresenta-nos um misterioso profeta “trespassado”, cuja entrega trouxe conversão e purificação para os seus concidadãos. Revela, pois, que o caminho da entrega não é um caminho de fracasso, mas um caminho que gera vida nova para nós e para os outros. João, o autor do Quarto Evangelho, identificará essa misteriosa figura profética com o próprio Cristo.

A segunda leitura reforça a mensagem geral da liturgia deste domingo, insistindo que o cristão deve “revestir-se” de Jesus, renunciar ao egoísmo e ao orgulho e percorrer o caminho do amor e do dom da vida. Esse caminho faz dos crentes uma única família de irmãos, iguais em dignidade e herdeiros da vida em plenitude.

LEITURA I – Zac 12,10-11;13,1

Leitura da Profecia de Zacarias

Eis o que diz o Senhor:
«Sobre a casa de David e os habitantes de Jerusalém
derramarei um espírito de piedade e de súplica.
Ao olhar para Mim, a quem trespassaram,
lamentar-se-ão como se lamenta um filho único,
chorarão como se chora o primogénito.
Naquele dia, haverá grande pranto em Jerusalém,
como houve em Hadad-Rimon, na planície de Megido.
Naquele dia, jorrará uma nascente para a casa de David
e para os habitantes de Jarusalém,
a fim de lavar o pecado e a impureza.

AMBIENTE

Como o livro de Isaías, o livro de Zacarias não pode ser atribuído a um só e mesmo profeta. Só os capítulos 1-8 podem ser atribuídos a esse Zacarias, filho de Baraquias (cfr. Zac 1,1.7), que actuou em Jerusalém no pós-exílio e teve um papel preponderante na reconstrução do Templo (estamos à volta de 520 a.C.).

Os capítulos 9-14 parecem ser uma outra colecção de textos, que provêm de um, ou mais provavelmente de vários autores tardios; costuma falar-se deste conjunto de textos usando a designação “Deutero-Zacarias”.

A época em que os textos do Deutero-Zacarias apareceram também é muito discutida (a partir das referências históricas do livro, é possível deduzir todas as épocas, desde o séc. VIII até ao séc. II a.C.). No entanto, a opinião mais difundida actualmente é a que situa a redacção destes capítulos em finais do séc. IV e durante o séc. III a.C. (o ambiente parece revelar a época posterior às vitórias de Alexandre da Macedónia).

O texto que nos é proposto integra uma colecção que vai de 12,1 a 14,21. Essa colecção apresenta-nos um mosaico de temas diversos, embora unidos por uma certa expectativa messiânica. Depois do anúncio da intervenção definitiva de Deus na pessoa de um rei/messias que, na humildade, procurará instaurar o reino ideal (cf. Zac 9,9-10) e da referência a um “pastor” enigmático que virá apascentar o rebanho de Deus (cf. Zac 11,4-17), os textos apresentam-nos um conjunto de oráculos que se referem à salvação e glória de Jerusalém. É nesse enquadramento que podemos situar o nosso texto.

MENSAGEM

O profeta começa por anunciar a efusão de um espírito de piedade e de súplica sobre a casa de David e os habitantes de Jerusalém: esse espírito irá provocar uma transformação interior que colocará toda a gente na órbita de Deus, numa atitude de confiança e de abertura a Deus.

Tal acção resultará da actividade profética de um misterioso “trespassado”. Primeiro, o autor identifica-o com Deus (“olharão para mim”, a quem trespassaram”); mas, logo a seguir, a frase distingue de novo Deus e o misterioso personagem evocado. O “’ly” (“para mim”) significa, provavelmente, que o próprio Deus Se sente atingido pela morte infligida ao seu enviado.

Quem é este personagem? Há quem o identifique com o rei Josias, morto em Meggido em combate contra os egípcios (cf. 2 Re 23,29-30); há, também, quem diga que esta figura se inspira no sumo sacerdote Onias III (cf. 2 Mac 4,34) ou em Simão Macabeu (cf. 1 Mac 16,11-17; se este personagem fosse Simão Macabeu, teríamos de colocar a redacção deste texto na segunda metade do séc. II a.C.). Pode, ainda, ser um qualquer profeta cujo nome desconhecemos… De qualquer forma, trata-se de um mártir inocente e anónimo, por cuja morte os habitantes de Jerusalém se tornaram responsáveis. A figura que melhor ilumina esta passagem ainda é a do “servo sofredor” de Is 53, mesmo se os termos utilizados são bastante diferentes. Como acontece com o “servo de Jahwéh”, o sacrifício deste mártir inocente é fonte de transformação dos corações (cf. Zac 12,10) e de purificação (cf. Zac 13,1): a contemplação dessa vítima inocente iniciará no Povo um processo de arrependimento e de purificação.

A repetida evocação de David neste contexto (cf. Zac 12,7-8.10.12; 13,1) liga este personagem com a promessa messiânica.

João, o autor do Quarto Evangelho, verá em Jesus, morto na cruz e com o coração trespassado pela lança do soldado, a concretização da figura aqui evocada (cf. Jo 19,37).

ACTUALIZAÇÃO

Considerar, na reflexão, os seguintes dados:

¨ Esta figura do “trespassado” faz-nos pensar em todos os “profetas” que lutam pela justiça e pela verdade e que são torturados, vilipendiados, massacrados por causa do seu testemunho incómodo. A identificação do “trespassado” com o próprio Deus diz-nos que o profeta nunca está só e perdido face ao ódio do mundo, mas que Deus está sempre do seu lado; diz-nos, também, que é de Deus que brota a missão profética, mesmo quando ela incomoda e questiona os homens.

¨ Fomos constituídos profetas no momento da nossa opção por Cristo (Baptismo). Como se tem “cumprido” a nossa missão profética? Na fidelidade e no empenho, ou na preguiça e no comodismo? No medo que paralisa, ou na inquebrantável confiança no Deus que está ao nosso lado?

¨ Como acolhemos a interpelação e o questionamento dos outros profetas que Deus envia ao nosso encontro? Com desprezo e arrogância, com frieza e indiferença? Ou com a convicção de que é o próprio Deus que, através deles, nos interpela?

¨ Este texto garante-nos que o sofrimento por causa do testemunho profético não é em vão. Do testemunho profético – mesmo quando “cumprido” na dor, na dificuldade, no fracasso aos olhos do mundo – resultará sempre a transformação dos corações, a conversão e, portanto, o nascimento de um mundo novo.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 62 (63)

Refrão: A minha alma tem sede de Vós, meu Deus.

Senhor, sois o meu Deus: desde a autora Vos procuro.
A minha alma tem sede de Vós.
Por Vós suspiro,
como terra árida, sequiosa, sem água.

Quero contemplar-Vos no santuário,
para ver o vosso poder e a vossa glória.
A vossa graça vale mais que a vida:
por isso os meus lábios hão-de cantar-Vos louvores.

Assim Vos bendirei toda a minha vida
e em vosso louvor levantarei as mãos.
Serei saciado com saborosos manjares
e com vozes de júbilo Vos louvarei.

Porque Vos tornastes o meu refúgio,
exulto à sombra das vossas asas.
Unido a Vós estou, Senhor,
a vossa mão me serve de amparo.

LEITURA II – Gal 3,26-29

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Gálatas

Irmãos:
Todos vós sois filhos de Deus
pela fé em Jesus Cristo,
porque todos vós, que fostes baptizados em Cristo,
fostes revestidos de Cristo.
Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre,
não há homem nem mulher;
todos vós sois um só em Cristo Jesus.
Mas, se pertenceis a Cristo,
sois então descendência de Abraão,
herdeiros segundo a promessa.

AMBIENTE

Continuamos a ler essa carta enviada aos habitantes da região central da Ásia Menor (Galácia), onde se discute se Cristo basta para chegar à salvação ou são precisas também as obras da Lei. Já sabemos que, para Paulo, só Cristo salva; por isso, os gálatas são convidados a fazer “ouvidos de mercador” às exigências dos “judaizantes” e a não se preocuparem com a circuncisão, nem com outras exigências da Lei de Moisés.

Este texto, em concreto, aparece na segunda parte da Carta aos Gálatas (cf. Gal 3,1-6,18), em que Paulo apresenta uma reflexão sobre o cristão e a liberdade. Nos versículos anteriores, Paulo comparara a Lei a um “carcereiro” (cf. Gal 3,23) e a um “pedagogo” greco-romano (cf. Gal 3,24). Estas duas imagens são bem elucidativas: o carcereiro da época era, com muita frequência, exemplo de crueldade; e o pedagogo (geralmente um escravo pouco instruído que acompanhava a criança à escola e a mantinha disciplinada) também não era muito apreciado e evocava a imagem de reprimendas e castigos. É verdade, considera Paulo (cf. Gal 3,25), que é melhor ser conduzido pela mão do que perder-se no caminho; mas seria uma estupidez aspirar a viver sempre no cárcere ou considerar como um ideal ser sempre conduzido pela mão, sem experimentar a liberdade.

MENSAGEM

Aos gálatas, tentados a voltar à escravidão da Lei, Paulo recorda a experiência libertadora que resultou da sua adesão a Cristo.

Pelo Baptismo, os crentes foram “revestidos de Cristo” e tornaram-se “filhos de Deus”. Dizer que os crentes foram “revestidos de Cristo” significa que entre os baptizados e Cristo se estabeleceu uma relação que não é apenas exterior, mas que toca o âmago da existência: pelo Baptismo, os cristãos assumiram a existência do próprio Cristo e tornaram-se, como Ele, pessoas que renunciaram à vida velha do egoísmo e do pecado, para viverem a vida nova da entrega a Deus e do amor aos irmãos. Em todos os crentes circula, agora, a vida do próprio Cristo; essa vida veste-os completamente, da cabeça aos pés.

A primeira consequência que daqui resulta é que os cristãos são livres: eles receberam de Cristo uma vida nova e não estão mais sujeitos à escravatura do egoísmo, do pecado e da morte.

A segunda consequência que daqui resulta é que os cristãos são iguais. Identificados com Cristo (porque todos – judeus e não judeus, homens e mulheres – foram revestidos da mesma vida), não há qualquer diferença ou discriminação quanto à raça, ou ao sexo; todos são “filhos”, com igual direito quanto à herança (todos são filhos do mesmo Pai e todos têm acesso, em Cristo, à mesma vida plena). A “salvação” que Cristo trouxe significa a igualdade fundamental de todos.

A questão é esta: depois de experimentar isto, os gálatas estarão dispostos a ser, outra vez, escravos?

ACTUALIZAÇÃO

Considerar, para a reflexão, as seguintes linhas:

¨ O cristão é, fundamentalmente, aquele que se “revestiu de Cristo”. Que significa isto, em concreto? Que assinamos um documento no qual nos comprometemos a viver como baptizados? Que respeitamos apenas as leis e orientações da hierarquia? Que nos comprometemos somente a ir à missa ao domingo, a ir a Fátima uma vez por ano e a rezar o terço de vez em quando? Ou significa que assumimos o compromisso de viver como Cristo, de assumir os seus valores, de fazer da nossa vida um dom de amor, de nos entregarmos até à morte para construir um mundo de justiça e de paz para todos?

¨ Para os judeus, contemporâneos de Jesus e de Paulo de Tarso, os pagãos e as mulheres eram gente discriminada. “Dou-te graças, Deus altíssimo – diz uma célebre oração rabínica – porque não me fizeste pagão, escravo ou mulher”. Paulo proclama, neste texto, que, a partir da nossa identificação com Cristo, toda a discriminação entre os homens e, sobretudo entre os cristãos, carece de sentido. A Igreja soube tirar as consequências deste facto? Como acolhemos os estrangeiros, os discriminados, os divorciados, os homossexuais, os drogados, as mulheres? Como filhos iguais do mesmo Deus, ou como irmãos “coitados”, que é preciso tolerar e tratar com caridade mas que não são iguais nem têm a mesma dignidade dos outros?

ALELUIA – Jo 10,27

Aleluia. Aleluia.

As minhas ovelhas escutam a minha voz, diz o Senhor;
Eu conheço as minhas ovelhas e elas seguem-Me.

EVANGELHO – Lc 9,18-24

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Um dia, Jesus orava sozinho,
estando com Ele apenas os discípulos.
Então perguntou-lhes:
«Quem dizem as multidões que Eu sou?»
Eles responderam:
«Uns, João Baptista; outros, que és Elias;
e outros, que és um dos antigos profetas que ressuscitou».
Disse-lhes Jesus:
«E vós, quem dizeis que Eu sou?»
Pedro tomou a palavra e respondeu:
«És o Messias de Deus».
Ele, porém, proibiu-lhes severamente
de o dizerem fosse a quem fosse
e acrescentou:
«O Filho do homem tem de sofrer muito,
ser rejeitado pelos anciãos,
pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas;
tem de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia».
Depois, dirigindo-Se a todos, disse:
«Se alguém quiser vir comigo,
renuncie a si mesmo,
tome a sua cruz todos os dias e siga-Me.
Pois quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la;
mas quem perder a sua vida por minha causa,
salvá-la-á».

AMBIENTE

Estamos na fase final da etapa da Galileia. Jesus passou algum tempo a apresentar o seu programa e a levar a Boa Nova aos pobres, aos marginalizados, aos oprimidos (cf. Lc 4,16-21). À volta d’Ele, foi-se formando um grupo de “testemunhas”, que apreciaram a sua actuação e que se juntaram a esse sonho de criar um mundo novo, de justiça, de liberdade e de paz para todos. Agora, antes de começar a etapa decisiva da sua caminhada nesta terra (o “caminho” para Jerusalém, onde Jesus vai concretizar a sua entrega de amor), os discípulos são convidados a tirar as suas conclusões acerca do que viram, ouviram e testemunharam. Quem é este Jesus, que se prepara para cumprir a etapa final de uma vida de entrega, de dom, de amor partilhado? E os discípulos estarão dispostos a seguir esse mesmo caminho de doação e de entrega da vida ao “Reino”?

MENSAGEM

A cena de hoje começa com a indicação da oração de Jesus (vers. 18). É um dado típico de Lucas que põe sempre Jesus a rezar antes de um momento fundamental (cf. Lc 5,16; 6,12; 9,28-29; 10,21; 11,1; 22,32.40-46; 23,34). A oração é o lugar do reencontro de Jesus com o Pai; depois de rezar, Jesus tem sempre uma mensagem importante – uma mensagem que vem do Pai – para comunicar aos discípulos. A questão importante que, no contexto do episódio de hoje, Jesus tem a comunicar, tem a ver com a questão: “quem é Jesus?”

A época de Jesus foi uma época de crise profunda para o Povo de Deus; foi, portanto, uma época em que o sofrimento gerou uma enorme expectativa messiânica. Asfixiado pela dor que a opressão trazia, o Povo de Deus sonhava com a chegada desse libertador anunciado pelos profetas – um grande chefe militar que, com a força das armas, iria restaurar o império de seu pai David e obrigar os romanos opressores a levantar o jugo de servidão que pesava sobre a nação. Na época apareceram, aliás, várias figuras que se assumiram como “enviados de Deus”, criaram à sua volta um clima de ebulição, arrastaram atrás de si grupos de discípulos exaltados e acabaram, invariavelmente, chacinados pelas tropas romanas. Jesus é também um destes demagogos, em quem o Povo vê cristalizada a sua ânsia de libertação?

Aparentemente, Jesus não é considerado pelas multidões “o messias”: o Povo identifica-o, preferentemente, com Elias, o profeta que as lendas judaicas consideravam estar junto de Deus, reservado para o anúncio do grande momento da libertação do Povo de Deus (vers. 19); talvez a sua postura e a sua mensagem não correspondessem àquilo que se esperava de um rei forte e vencedor.

Os discípulos, no entanto, companheiros de “caminho” de Jesus, deviam ter uma perspectiva mais elaborada e amadurecida. De facto, é isso que acontece; por isso, Pedro não tem dúvidas em afirmar: “Tu és o messias de Deus” (vers. 20). Pedro representa aqui a comunidade dos discípulos – essa comunidade que acompanhou Jesus, testemunhou os seus gestos e descobriu a sua ligação com Deus. Dizer que Jesus é o “messias” significa reconhecer nele esse “enviado” de Deus, da linha davídica, que havia de traduzir em realidade essas esperanças de libertação que enchiam o coração de todos.

Jesus não discorda da afirmação de Pedro. Ele sabe, no entanto, que os discípulos sonhavam com um “messias” político, poderoso e vitorioso e apressa-se a desfazer possíveis equívocos e a esclarecer as coisas: Ele é o enviado de Deus para libertar os homens; no entanto, não vai realizar essa libertação pelo poder das armas, mas pelo amor e pelo dom da vida (vers. 22). No seu horizonte próximo não está um trono, mas a cruz: é aí, na entrega da vida por amor, que Ele realizará as antigas promessas de salvação feitas por Deus ao seu Povo.

A última parte do texto (vers. 23-24) contém palavras destinadas aos discípulos: aos de ontem, de hoje e de amanhã. Todos são convidados a seguir Jesus, isto é, a tomar – como Ele – a cruz do amor e da entrega, a derrubar os muros do egoísmo e do orgulho, a renunciar a si mesmo e a fazer da vida um dom. Isto não deve acontecer em circunstâncias excepcionais, mas na vida quotidiana (“tome a sua cruz todos os dias”). Desta forma fica definida a existência cristã.

ACTUALIZAÇÃO

Para a reflexão, considerar os seguintes elementos:

¨ O Evangelho de hoje define a existência cristã como um “tomar a cruz” do amor, da doação, da entrega aos irmãos. Supõe uma existência vivida na simplicidade, no serviço humilde, na generosidade, no esquecimento de si para se fazer dom aos outros. É esse o “caminho” que eu procuro percorrer?

¨ Na sociedade em geral e na Igreja em particular, encontramos muitos cristãos para quem o prestígio, as honras, os postos elevados, os tronos, os títulos são uma espécie de droga de que não prescindem e a que não podem fugir. Frequentemente, servem-se dos carismas e usam as tarefas que lhe são confiadas para se auto-promover, gerando conflitos, rivalidades, ciúmes e mal-estar. À luz do “tomar a cruz e seguir Jesus”, que sentido é que isto fará? Como podemos, pessoal e comunitariamente, lidar com estas situações? Podemos tolerá-las – em nós ou nos outros? Como é possível usar bem os talentos que nos são confiados, sem nos deixarmos tentar pelo prestígio, pelo poder, pelas honras? Tem alguma importância, à luz do que Jesus aqui ensina, que a Igreja apareça em lugar proeminente nos acontecimentos sociais e mundanos e que exija tratamentos de privilégio?

¨ Quem é Jesus, para nós? É alguém que conhecemos das fórmulas do catecismo ou dos livros de teologia, sobre quem sabemos dizer coisas que aprendemos nos livros? Ou é alguém que está no centro da nossa existência, cujo “caminho” tem um real impacto no nosso dia a dia, cuja vida circula em nós e nos transforma, com quem dialogamos, com quem nos identificamos e a quem amamos?

¨ É na oração que eu procuro perceber a vontade de Deus e encontrar o caminho do amor e do dom da vida? Nos momentos das decisões importantes da minha vida, sinto a necessidade de dialogar com Deus e de escutar o que Ele tem para me dizer?

Dehonianos

PARA TODOS, TODOS OS DIAS

1. Este Domingo XII do Tempo Comum oferece-nos a imensa utopiamessiânica que atravessa a profecia de Zacarias 9-14, um povo pobre, explorado, combatido e assassinado, mas que é a«pupila dos olhos do Senhor» (2,12), que tem nele colocados os seus olhos (9,1 e 8). Este povo pobre e mártir tem direito à sua esperança e ao seu rei diferente, pois se apresenta pobre e pacífico, montado num jumento, animal de paz e não de guerra, e que porá fim aos instrumentos de guerra (9,9-10). O texto deste Domingo (12,10-12) faz-nos chorar este povo pobre e mártir personificado num filho único martirizado, mas faz-nos ver também, e fixa o nosso olhar nesta figura desfigurada e transpassada, mas transfigurada, pois se tornará numa fonte de água pura, salvadora e salutar (13,1; 14,8). Neste sentido, «hão-de olhar para aquele que transpassaram» (12,10). Cruzamento de olhares: olha Deus para ele, por ele; olhamos agora também nós para ele, por ele! É sabido que João, vendo Jesus e relendo este texto de Zacarias, fixa o nosso olhar em Jesus crucificado, transpassado, desfigurado, transfigurado (19,37). Então o crucificado ressuscitado que preside à nossa assembleia dominical e à nossa vida deixa de ser uma u-topia [= sem lugar], para se transformar numa eu-topia [= lugar feliz]. Olhar fixo n’Ele! Mãos abertas em concha para Ele, para as encher nessa fonte de graça e de saúde! Sim, somos chamados a transformar o «sem-lugar» deste mundo em «lugar feliz»!

2. Faz equilíbrio com este texto de Zacarias o Evangelho de Lucas 9,18-24. Começa por nos apresentar Jesus a rezar sozinho, o que acontece imensas vezes em Lucas, que é, por isso, também chamado o «Evangelho da oração». E «orar» é, em sentido genuíno, etimológico, orientar a nossa vida toda para Deus, entregar a Deus a nossa vida toda, para que seja Ele a olhar para nós, por nós! É importante sabermos, informa-nos o narrador, que os seus discípulos estavam com EleEstar com Ele é o «lugar feliz» do discípulo de todos os tempos. Estar sem Ele é sempre um «não-lugar». Se for este o caso, temos rapidamente de mudar de lugar!

3. Também ficamos a saber, pela informação dos discípulos de então, que as multidões dizem Jesus com o passado, vendo-o na esteira das figuras do passado, não contendo nada de novo. Em contraponto com as multidões, Pedro diz que Jesus é o Cristo de Deus, sem, todavia, com este dizer, renovar a sua vida, sem fixar n’Ele os olhos e sem encher as mãos em concha com a água viva que d’Ele vem.

4. É Jesus, e só podia ser Jesus, que se auto-apresenta aos seus discípulos de ontem e de hoje, como tendo de sofrer, ser morto, e ressuscitar. Aí está o transpassado, desfigurado, transfigurado, fonte única de água viva para nós, fonte da nossa vida. Dizemos muitas coisas. É necessário ouvir Jesus dizer. Porque só Ele se diz e nos diz. Para o discípulo, escutar é deixar-se dizer! Para o discípulo, dizer é redizer o dito de Jesus. Eis o Mestre. Eis o discípulo.

5. Ainda duas coisas únicas deste Evangelho, duas pérolas, portanto: «Dizia Ele a todos: “Se alguém quer vir atrás de mim, diga não a si mesmo, e tome a sua cruz todos os dias, e siga-me» (9,23). A primeira pérola está em que Jesus diz para todos. O dizer de Jesus, o seu ensino novo, não é para elites, para alguns iluminados. É para todos. Entenda-se que a escola de Jesus está aberta a todos, ricos e pobres, maus e bons, especialistas e ignorantes. Já se sabe que o ignorante é aquele que não sabe; de resto, também o especialista não sabe, mas não sabe com grande autoridade e competência! Ainda bem, portanto, que Jesus diz para todos. A segunda pérola é que a vida cristã, seguir Jesus, é coisaquotidiana, de todos os dias. Não é só para alguns dias de festa. Não pode ter pausas.

6. Dizer não a si mesmo é pensar ao contrário do que estamos habituados. Pensamos sempre primeiro em nós, em salvar-nos a nós mesmos. Para nos salvarmos a nós mesmos, temos de nos anteciparmos aos outros, sermos mais espertos que os outros, passar à frente dos outros. Exactamente o contrário de Jesus, que não quis salvar-se a si mesmo. Quis salvar-nos a nós, pôr-se ao nosso serviço, fazer-se fonte de água viva para nós. «Salva-te a ti mesmo, e desce da Cruz!» (Lucas 23,35-39). Se se tivesse salvo a si mesmo, não nos salvava a nós! Lógica nova do «quem perde, ganha», jogo novo do cristianismo.

D. António Couto

O Canto na Liturgia

Antífona de Entrada

O Senhor é a força do seu povo – F. Silva

O Senhor é a força do seu povo – F. Santos

Salvai, Senhor, vosso povo – J. Santos

Deus vive na suamorada santa – F. Santos

 

Salmo Responsorial

A minha alma tem sede de Vós, meu Deus (sl 62) – A. Cartageno

 

Antífona da Comunhão

Eu sou o Bom Pastor – C. Silva

 

Outros cânticos para o Domingo XII do Tempo Comum

Se alguém quiser seguir-Me – C. Silva

Se alguém quiser seguir-Me – M. Borda

Se alguém quer vir após Mim – M. Luís

Quem quiser vir após de Mim – B. Sousa

O Cordeiro de Deus é o nosso pastor – Az. Oliveira

O Cordeiro de Deus é o nosso pastor – C. Silva

O Senhor é meu pastor – F. Santos

Domingo XI do Tempo Comum – Ano C

Tema do 11º Domingo do Tempo Comum

A liturgia deste domingo apresenta-nos um Deus de bondade e de misericórdia, que detesta o pecado, mas ama o pecador; por isso, Ele multiplica “a fundo perdido” a oferta da salvação. Da descoberta de um Deus assim, brota o amor e a vontade de vivermos uma vida nova, integrados na sua família.

A primeira leitura apresenta-nos, através da história do pecador David, um Deus que não pactua com o pecado; mas que também não abandona esse pecador que reconhece a sua falta e aceita o dom da misericórdia.

Na segunda leitura, Paulo garante-nos que a salvação é um dom gratuito que Deus oferece, não uma conquista humana. Para ter acesso a esse dom, não é fundamental cumprir ritos e viver na observância escrupulosa das leis; mas é preciso aderir a Jesus e identificar-se com o Cristo do amor e da entrega: é isso que conduz à vida plena.

O Evangelho coloca diante dos nossos olhos a figura de uma “mulher da cidade que era pecadora” e que vem chorar aos pés de Jesus. Lucas dá a entender que o amor da mulher resulta de haver experimentado a misericórdia de Deus. O dom gratuito do perdão gera amor e vida nova. Deus sabe isso; é por isso que age assim.

LEITURA I – 2 Sm 12,7-10.13

Leitura do Segundo Livro de Samuel

Naqueles dias,
disse Natã a David:
«Assim fala o Senhor, Deus de Israel:
Ungi-te como rei de Israel
e livrei-te das mãos de Saul.
Entreguei-te a casa do teu senhor
e pus-te nos braços as suas mulheres.
Dei-te a casa de Israel e de Judá
e, se isto não é suficiente, dar-te-ei muito mais.
Como ousaste desprezar a palavra do Senhor,
fazendo o que é mal a seus olhos?
Mataste à espada Urias, o hitita;
tomaste como esposa a sua mulher,
depois de o teres feito passar à espada pelos amonitas.
Agora a espada nunca mais se afastará da tua casa,
porque Me desprezaste
e tomaste a mulher de Urias, o hitita,
para fazeres dela tua esposa».
Então David disse a Natã:
«Pequei contra o Senhor».
Natã respondeu-lhe:
«O Senhor perdoou o teu pecado:
Não morrerás».

AMBIENTE

O “Livro de Samuel” (dividido em duas partes) é um livro que nos apresenta os primórdios da monarquia, em Israel. Não é, contudo, um livro escrito por políticos, por historiadores ou por sociólogos; é um livro escrito por teólogos, empenhados em fazer catequese e em ler a história passada à luz da fé. Não lhes interessa demasiado que a sua perspectiva seja uma leitura rigidamente objectiva dos acontecimentos; interessa-lhes, sobretudo, que a sua leitura ajude os crentes a tirar conclusões acerca de Deus e da forma de Deus actuar.

O texto que hoje nos é proposto faz parte de um conjunto de tradições sobre o reinado de David (cf. 2 Sam 7-20). Depois de descrever o pecado de David (que cometeu adultério com Betsabé e mandou que o marido desta – Urias, soldado do exército de David – fosse colocado num lugar arriscado, no combate contra os amonitas, a fim de que corresse riscos e morresse – cf. 2 Sm 11,1-27), o autor deuteronomista apresenta – pela voz do profeta Natã – a reacção de Deus diante do pecado do rei. Estamos em Jerusalém – nesta altura, capital do Israel unificado – nos primeiros anos do séc. X a.C.

MENSAGEM

Deus poderá pactuar com esta atitude egoísta e prepotente do rei? De forma nenhuma. Pela boca do profeta Natã, o autor deuteronomista anuncia que Deus não fica indiferente diante da injustiça cometida e que pede contas ao agressor. Daí os castigos anunciados contra David e a sua casa.

O autor deuteronomista escreve muitos anos depois destes acontecimentos. Ele conhecia uma série de desgraças que, entretanto, se tinham abatido sobre a família de David (morte violenta de três filhos de David: Amon – cf. 2 Sm 13,23-39; Absalão – cf. 2 Sm 18,9-15; e Adonias – cf. 1 Re 2,24-25). Naturalmente, não foram castigos de Deus, mas acontecimentos históricos normais, típicos de uma época violenta, em que a luta pelo poder terminava, tantas vezes, em tragédias pessoais e familiares; mas esses acontecimentos foram lidos pelo teólogo como sinais claros de que Jahwéh não estava disposto a pactuar com as injustiças e as arbitrariedades cometidas pelo rei. A mensagem do nosso “catequista” é evidente: Deus não deixa passar em claro a atitude daqueles que se aproveitam do poder para fins egoístas e desfazem a vida dos irmãos.

A última palavra do texto é, no entanto, de esperança. Confrontado com o seu crime, David reconhece, com humildade, o seu comportamento errado e pede perdão; e Deus acaba por perdoar a sua falta. Desta forma, o deuteronomista resume a lógica de Deus, que condena o pecado, mas que não abandona o pecador. Assim, o nosso catequista está a enviar uma mensagem aos homens do seu tempo: apesar das nossas falhas, a misericórdia de Deus não nos abandona e dá-nos sempre a hipótese de recomeçar.

ACTUALIZAÇÃO

Considerar, na reflexão, as seguintes linhas:

• A reflexão fundamental que este texto nos apresenta é à volta da “lógica” de Deus: Ele não pactua com o pecado, mas manifesta uma misericórdia infinita para com o pecador. É esta a nossa “lógica” quando alguém nos magoa ou ofende?

• O exercício do poder é, tantas vezes, uma forma de “levar a água ao seu moinho”. O nosso tempo é fértil em figuras que, para proteger os seus interesses pessoais ou os interesses dos seus partidos e ideologias, arrastam populações inteiras por caminhos de morte e de sofrimento. Que sentido é que isto faz? Nós cristãos, filhos de um Deus que não suporta o egoísmo e a injustiça, podemos pactuar com estas situações? Podemos, tranquilamente, votar naqueles que cometem injustiças gritantes?

• A atitude de David, ao reconhecer humildemente a sua falta, é uma atitude que nos questiona pela sua sinceridade, honestidade e coerência. Contrasta violentamente com a irresponsabilidade dos “assassinos do volante”, que nunca têm culpa de nada; contrasta violentamente com a irresponsabilidade dos cinzentos gestores das sociedades anónimas, que provocam catástrofes ambientais e não têm culpa; contrasta violentamente com a irresponsabilidade dos governantes que deixam ruir pontes e morrer pessoas, mas nunca têm qualquer culpa… O exemplo de David convida-nos a assumir, com coerência, as nossas responsabilidades e a ter vontade de remediar as nossas acções erradas; convida-nos, também, ao arrependimento e à conversão – condições essenciais para que o “pecado” desapareça das nossas vidas.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 31 (32)

Refrão: Perdoai, Senhor, minha culpa e meu pecado.

Feliz daquele a quem foi perdoada a culpa
e absolvido o pecado.
Feliz o homem a quem o Senhor não acusa de iniquidade
e em cujo espírito não há engano.

Confessei-vos o meu pecado
e não escondi a minha culpa.
Disse: Vou confessar ao Senhor a minha falta
e logo me perdoastes a culpa do pecado.

Vós sois o meu refúgio, defendei-me dos perigos,
fazei que à minha volta só haja hinos de vitória.
Alegrai-vos, justos, e regozijai-vos no Senhor,
exultai vós todos os que sois rectos de coração.

LEITURA II – Gal 2,16.19-21

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Gálatas

Irmãos:
Sabemos que o homem não é justificado pelas obras da Lei,
mas pela fé em Jesus Cristo;
por isso acreditámos em Cristo Jesus,
para sermos justificados pela fé em Cristo
e não pelas obras da Lei,
porque pelas obras da Lei ninguém é justificado.
De facto, por meio da Lei, morri para a Lei,
a fim de viver para Deus.
Com Cristo estou crucificado.
Já não sou eu que vivo,
é Cristo que vive em mim.
Se ainda vivo dependente de uma natureza carnal,
vivo animado pela fé no Filho de Deus,
que me amou e Se entregou por mim.
Não quero tornar inútil a graça de Deus,
porque, se a justificação viesse por meio da Lei,
então Cristo teria morrido em vão.

AMBIENTE

As comunidades cristãs da Galácia (centro da Ásia Menor) conheceram, pelos anos 56/57, um ambiente de alguma instabilidade. A culpa era de certos pregadores cristãos de origem judaica que, chegados à zona, procuravam impor aos gálatas a prática da Lei de Moisés (cf. Gal 3,2; 4,21; 5,4) e, em particular, a circuncisão (cf. Gal 2,3-4; 5,2; 6,12). São, ainda, esses “judaizantes” que, nas primeiras décadas do cristianismo, tanta confusão trouxeram às comunidades cristãs de origem pagã.

Paulo não está disposto a pactuar com estas exigências. Para ele, esta questão não é secundária, mas algo que toca no essencial da fé: se as obras da Lei são fundamentais, é porque Cristo, por si só, não pode salvar. Isto será verdadeiro? Quanto a esta questão, Paulo tem ideias claras: Cristo basta; a Lei de Moisés não é importante para a salvação.

É neste ambiente que Paulo escreve aos gálatas. Diz-lhes que os ritos judaizantes apenas os prenderão numa escravatura da qual Cristo já os tinha libertado. O tom geral da carta é firme e veemente: era o essencial da fé que estava em causa.

Depois de analisar a situação (cf. Gal 1,6-10), de dizer que tem um mandato de Cristo para anunciar o Evangelho aos pagãos (cf. Gal 1,11-24) e de se defender da acusação de pregar um evangelho próprio, diferente do pregado pelos outros apóstolos (cf. Gal 2,1-10), Paulo vai anunciar o “seu” Evangelho (que é o Evangelho da Igreja, o mesmo que é anunciado pelos outros apóstolos): não é a Lei e as obras que salvam, mas a fé.

MENSAGEM

Neste texto que nos é proposto, Paulo apresenta uma espécie de síntese daquilo que ele considera o autêntico Evangelho.

Na primeira parte (vers. 16), Paulo sustenta que a salvação vem, única e exclusivamente, por Cristo. É por Cristo que somos “justificados” e não pelas obras da Lei. “Justificação” é, aqui, sinónimo de “salvação”. Significa que a “justiça de Deus” (que não é a estrita aplicação das leis, como no tribunal, mas é a fidelidade de Deus aos compromissos que Ele assumiu para com o seu Povo, no sentido de salvá-lo) derrama gratuitamente sobre o homem o amor e a misericórdia, mesmo quando o homem pecador não merece. Ora, Deus “salva” o homem pecador, não por ele cumprir a Lei de Moisés, mas por crer em Jesus (“crer” significa aderir a Ele, segui-l’O).

Na segunda parte (vers. 19-21), a reflexão de Paulo gira à volta da acção de Cristo e da acção da Lei, no sentido de “salvar” o homem. A Lei salva? Não. Ao crucificar Jesus, a Lei demonstrou que não gerava vida, mas morte; desqualificou-se, assim, e demonstrou a sua falência no sentido de conduzir à vida plena o homem que estava sob a sua jurisdição. Depois de ser responsável pela morte de Cristo, a Lei não terá qualquer legitimidade para se impor e já não será vista por ninguém como geradora de vida.

Cristo, por seu lado, com a sua vida e, sobretudo, com a sua morte (provocada pela Lei) mostrou a todos a falência da Lei e libertou os homens de um regime que apenas criava escravatura e morte.

Quanto a si, Paulo identifica-se plenamente com Cristo. Sendo um com Cristo, Paulo também foi crucificado pela Lei e descobriu, com Cristo, que a Lei não gerava vida, mas morte. Assim, ele aprendeu que só Cristo dá vida e que só Cristo liberta. É na identificação com esse Cristo do amor e da entrega total (“que me amou e Se entregou por mim”) e não na Lei, que Paulo descobre a vida plena, a vida do Homem Novo.

Conclusão: a Lei gera morte; só Cristo salva. Esta é a convicção profunda que Paulo procura passar aos gálatas.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão pode fazer-se à volta dos seguintes elementos:

• O texto põe em relevo, em primeiro lugar, a atitude de Deus para com o homem. O nosso Deus não é o Deus que aplica rigorosamente as leis (nesse caso o homem pecador não teria acesso à salvação), mas é o Deus que, de forma gratuita, “justifica” o homem. O acesso à vida em plenitude não é uma conquista humana, mas um dom gratuito, que brota da bondade de Deus. De Deus não podemos exigir nada, mesmo que nos tenhamos “portado bem” e cumprido as regras: de Deus, podemos apenas esperar a graça da salvação como dom gratuito e incondicional. Isto retira-nos qualquer legitimidade para assumir atitudes de arrogância e auto-suficiência, quer em relação a Deus, quer em relação aos nossos irmãos.

• É preciso ter consciência de que “Cristo basta”. Muitas vezes a nossa caminhada religiosa alicerça-se em aspectos folclóricos, que são absolutizados e considerados essenciais. Inventamos comportamentos “religiosamente correctos” e procuramos impô-los, discutimos leis, magoamos as pessoas por causa de preceitos legais, marginalizamos e catalogamos por causa dos princípios de um código legal e esquecemos que Cristo é o único essencial. A comunidade cristã deixa de ser verdadeiramente a comunidade dos que aderem a Cristo. Que sentido é que isto faz, à luz da catequese de Paulo?

• Paulo chama, ainda, a atenção para a nossa identificação com Cristo. O cristão é aquele que se identifica com Cristo no seu amor e na sua entrega e que, nesse caminho, encontra a verdadeira vida, a vida em plenitude. É esse o caminho que eu procuro seguir? A minha vida desenrola-se de tal forma que eu posso dizer – como Paulo – “já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”? A vida de Cristo circula em mim e aparece, aos olhos dos meus irmãos, nos meus gestos, nas minhas palavras, no meu amor?

ALELUIA – 1 Jo 4,10b

Aleluia. Aleluia.

Deus amou-nos e enviou o seu Filho
como vítima de expiação pelos nossos pecados.

EVANGELHO – Lc 7,36 – 8,3

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
um fariseu convidou Jesus para comer com ele.
Jesus entrou em casa do fariseu e tomou lugar à mesa.
Então, uma mulher – uma pecadora que vivia na cidade –
ao saber que Ele estava à mesa em casa do fariseu,
trouxe um vaso de alabastro com perfume;
pôs-se atrás de Jesus e, chorando muito,
banhava-Lhe os pés com as lágrimas
e enxugava-lhos com os cabelos,
beijava-os e ungia-os com o perfume.
Ao ver isto, o fariseu que tinha convidado Jesus pensou consigo:
«Se este homem fosse profeta,
saberia que a mulher que O toca é uma pecadora».
Jesus tomou a palavra e disse-lhe:
«Simão, tenho uma coisa a dizer-te».
Ele respondeu: «Fala, Mestre».
Jesus continuou:
«Certo credor tinha dois devedores:
um devia-lhe quinhentos denários e o outro cinquenta.
Como não tinham com que pagar, perdoou a ambos.
Qual deles ficará mais seu amigo?»
Respondeu Simão:
«Aquele – suponho eu – a quem mais perdoou».
Disse-lhe Jesus: «Julgaste bem».
E voltando-Se para a mulher, disse a Simão:
«Vês esta mulher?
Entrei em tua casa e não Me deste água para os pés;
mas ela banhou-Me os pés com as lágrimas
e enxugou-os com os cabelos.
Não Me deste o ósculo;
mas ela, desde que entrei, não cessou de beijar-Me os pés.
Não Me derramaste óleo na cabeça;
mas ela ungiu-Me os pés com perfume.
Por isso te digo:
São-lhe perdoados os seus muitos pecados,
porque muito amou;
mas aquele a quem pouco se perdoa,
pouco ama».
Depois disse à mulher:
«Os teus pecados estão perdoados».
Então os convivas começaram a dizer entre si:
«Quem é este homem, que até perdoa os pecados?»
Mas Jesus disse à mulher:
«A tua fé te salvou. Vai em paz».
Depois disso, Jesus ia caminhando por cidades e aldeias,
a pregar e a anunciar a boa nova do reino de Deus.
Acompanhavam-n’O os Doze,
bem como algumas mulheres que tinham sido curadas
de espíritos malignos e de enfermidades.
Eram Maria, chamada Madalena,
de quem tinham saído sete demónios,
Joana, mulher de Cusa, administrador de Herodes,
Susana e muitas outras,
que serviam Jesus com os seus bens.

AMBIENTE

O texto situa-nos na primeira parte do Evangelho segundo Lucas. Convém recordar que esta primeira parte se desenrola na Galileia, sobretudo à volta do Lago de Tiberíades. Durante essa fase, Jesus aparece a concretizar o seu programa: trazer aos homens – sobretudo aos pobres e marginalizados – a liberdade e a salvação de Deus. Toda esta primeira parte é, aliás, dominada pelo anúncio programático da sinagoga de Nazaré, onde Jesus define a sua missão como “anunciar a Boa Nova aos pobres, proclamar a libertação aos cativos e mandar em liberdade os oprimidos” (cf. Lc 4,16-30). Este episódio põe em evidência um tema caro a Lucas: a misericórdia de Jesus frente àqueles que necessitam de libertação. O episódio anterior terminou com uma descrição de Jesus como amigo dos pecadores (cf. Lc 7,34); agora, este princípio vai ser ilustrado com um facto real.

O episódio situa-nos no ambiente de um banquete, em casa de um fariseu chamado Simão (o “banquete” é, neste contexto, o espaço da familiaridade, da irmandade, onde os laços entre as pessoas se estabelecem e se consolidam). Lucas é o único evangelista que mostra os fariseus tão próximos de Jesus que até aceitam sentar-se à mesa com Ele (cf. Lc 11,37;14,1) e preveni-l’O em relação à ameaça de Herodes (cf. Lc 13,31). Lucas está, no que diz respeito a esta questão, bem mais perto da realidade histórica do que Marcos e, sobretudo, do que Mateus (que, influenciado pelas polémicas da Igreja primitiva com os fariseus, apresenta sistematicamente os fariseus como adversários de Jesus).

MENSAGEM

A perspectiva fundamental deste episódio tem a ver com a definição da atitude de Jesus (e, portanto, de Deus) para com os pecadores.

A personagem central é a mulher a quem Lucas apresenta como “uma mulher da cidade que era pecadora”. Não há qualquer indicação acerca de anteriores contactos entre Jesus e esta mulher, embora possamos supor que a mulher já se tinha encontrado com Jesus e tinha percebido n’Ele uma atitude diferente dos mestres da época, sempre preocupados em evitar os pecadores notórios e em condená-los.

A acção da mulher (o choro, as lágrimas derramadas sobre os pés de Jesus, o enxugar os pés com os cabelos, o beijar os pés e ungi-los com perfume) é descrita como uma resposta de gratidão, como consequência do perdão recebido (vers. 47). A parábola que Jesus conta, a este propósito (vers. 41-42), parece significar, não que o perdão resulta do muito amor manifestado pela mulher, mas que o muito amor da mulher é o resultado da atitude de misericórdia de Jesus: o amor manifestado pela mulher nasce de um coração agradecido de alguém que não se sentiu excluído nem marginalizado, mas que, nos gestos de Jesus, tomou consciência da bondade e da misericórdia de Deus.

A outra figura central deste episódio é Simão, o fariseu. Ele representa aqueles zelosos defensores da Lei que evitavam qualquer contacto com os pecadores e que achavam que o próprio Deus não podia acolher nem deixar-Se tocar pelos transgressores notórios da Lei e da moral. Jesus procura fazê-lo entender que só a lógica de Deus – uma lógica de amor e de misericórdia – pode gerar o amor e, portanto, a conversão e a vida nova. Jesus empenha-se em mostrar a Simão que não é marginalizando e segregando que se pode obter uma nova atitude do pecador; mas que é amando e acolhendo que se pode transformar os corações e despertar neles o amor: essa é a perspectiva de Deus. O perdão não se dá a troco de amor, mas dá-se, simplesmente, sem esperar nada em troca. A reacção de Jesus não é um caso isolado, mas resulta da missão de que Ele se sente investido por Deus – atitude que Ele procurará manifestar em tantas situações semelhantes: dizer aos proscritos, aos moralmente fracassados, que Deus não os condena nem marginaliza, mas vem ao seu encontro para os libertar, para dar-lhes dignidade, para os convocar para o banquete escatológico do Reino. É esta atitude de Deus que gera o amor e a vontade de começar vida nova, inserida na lógica do Reino.

O texto que nos é proposto termina com uma referência ao grupo que acompanha Jesus: os Doze e algumas mulheres. O facto de o “mestre” Se fazer acompanhar por mulheres (Lucas é o único evangelista que refere a incorporação de mulheres no grupo itinerante dos discípulos) era algo insólito, numa sociedade em que a mulher desempenhava um papel social e religioso marginal. No entanto, manifesta a lógica de Deus que não exclui ninguém, mas integra todos – sem excepção – na comunidade do Reino. As mulheres – grupo com um estatuto de subalternidade, cujos direitos sociais e religiosos eram limitados pela organização social da época – também são integradas nessa comunidade de irmãos que é a comunidade do Reino: Deus não exclui nem marginaliza ninguém, mas a todos chama a fazer parte da sua família.

ACTUALIZAÇÃO

Considerar, na reflexão, as seguintes questões:

• Em primeiro lugar, o nosso texto põe em relevo a atitude de Deus, que ama sempre (mesmo antes da conversão e do arrependimento) e que não Se sente conspurcado por ser tocado pelos pecadores e pelos marginais. É o Deus da bondade e da misericórdia, que ama todos como filhos e que a todos convida a integrar a sua família. É esse Deus que temos de propor aos nossos irmãos e que, de forma especial, temos de apresentar àqueles que a sociedade trata como marginais.

• A figura de Simão, o fariseu, representa aqueles que, instalados nas suas certezas e numa prática religiosa feita de ritos e obrigações bem definidos e rigorosamente cumpridos, se acham em regra com Deus e com os outros. Consideram-se no direito de exigir de Deus a salvação e desprezam aqueles que não cumprem escrupulosamente as regras e que não têm comportamentos social e religiosamente correctos. É possível que nenhum de nós se identifique totalmente com esta figura; mas, não teremos, de quando em quando, “tiques” de orgulho e de auto-suficiência que nos levam a considerar-nos mais ou menos “perfeitos” e a desprezar aqueles que nos parecem pecadores, imperfeitos, marginais?

• A exclusão e a marginalização não geram vida nova; só o amor e a misericórdia interpelam o coração e provocam uma resposta de amor. Frequentemente fala-se, entre nós, no agravamento das penas previstas para quem infringe as regras sociais, como se estivesse aí a solução mágica para a mudança de comportamentos… A lógica de Deus garante-nos que só o amor e a misericórdia conduzem à vida nova.

• Na linha do que a Palavra de Deus nos propõe hoje, como tratar esses excluídos, que todos os dias batem à porta da “fortaleza Europa” à procura de condições mínimas para viver com dignidade? E os moralmente fracassados, que testemunho de amor e de misericórdia encontram nas nossas comunidades?

• Ultimamente, fala-se muito do papel e do estatuto das mulheres na comunidade cristã. Este texto diz-nos que, ao contrário do que era costume na época, as mulheres faziam parte do grupo de Jesus. Que significa isso: que elas devem ter acesso aos ministérios na comunidade cristã? Seja qual for a resposta, o que é importante é que não façamos disto uma luta pelo poder, ou uma reivindicação de direitos, mas uma questão de amor e de serviço.

Dehonianos

HOMEM DO SÉCULO XXI,

TENHO UMA COISA PARA TE DIZER!

1. À boca da cena do Evangelho deste Domingo XI do Tempo Comum (Lucas 7,36-8,3) perfilam-se três personagens: o fariseu Simão, Jesus, e uma mulher pecadora. Ao fundo da cena estão ainda os convidados, que só intervêm no final do relato. Todos, menos a mulher, estão recostados à mesa, em casa do fariseu Simão, pois foram por ele convidados.

2. As primeiras atenções dirigem-se para a mulher, introduzida pelo narrador com aquele: «E EIS uma mulher…», que passa claramente por uma fórmula de atenção. Também não deve o leitor estranhar muito esta súbita, e parece que não desejada, entrada desta mulher em casa alheia. No mundo oriental, as portas das casas permaneciam abertas, e qualquer pessoa podia espreitar pela porta para ver o que lá dentro se passava, sobretudo quando eram perceptíveis movimentações fora do habitual. Estranho, neste caso, foi que a mulher se tenha aventurado a entrar na sala, e não apenas a espreitar à porta!

3. Uma vez lá dentro, é a pessoa de Jesus o centro único do seu interesse (vê-se que foi unicamente por causa d’Ele que entrou), vão para Ele todas as suas atenções, em relação a Ele cumpre SEIS ACÇÕES simbólicas e grandemente significativas, sempre sem dizer uma palavra:

A) vem e traz um frasco com perfume;
B) coloca-se por detrás dos pés de Jesus;
C) chorando, com as lágrimas banha os pés de Jesus;
C’) e com os cabelos da sua cabeça enxugava-os;
B’) e beijava os pés de Jesus;
A’) e ungia-os com perfume.

4. Enquanto isto acontecia em silêncio, aberto, portanto, à interpretação de todos, também à nossa, diz-nos o narrador que o fariseu murmurava acerca de Jesus, que seguramente não seria um profeta, pois se o fosse, saberia certamente que era uma pecadora que o tocava, e teria impedido tal procedimento.

5. Assim pensava o fariseu, quando Jesus mostra que é, de facto, profeta, interceptando-lhe e corrigindo-lhe os pensamentos enviesados e retorcidos, apontando-lhe o essencial, que é a GRAÇA, e pondo-o a falar bem e abertamente. «Simão, tenho uma coisa para te dizer». «Fala, Mestre», respondeu ele. «Um credor tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos denários e o outro cinquenta. Como não tinham com que pagar, fez graça (charízomai) a ambos. Qual dos dois o amará (agapáô) mais?». Simão respondeu: «Suponho que aquele a quem fez mais graça (charízomai)». Jesus disse: «Julgaste bem» (Lucas 7,40-43).

6. Neste momento, há já na sala um excesso de luz. Salta à vista que as SEIS ACÇÕES da mulher apontam para a SÉTIMA, que enche agora a cena toda e prende todos os pensamentos: é a ACÇÃO DE DEUS, a ACÇÃO DA GRAÇA concedida por Deus e actuante nos dois devedores que não tinham com que pagar (Lucas 7,41-42). Este relevo da ACÇÃO DA GRAÇA está bem marcado, de resto, pelas únicas ocorrências em Lucas do verbo charízomai [= fazer graça] (Lucas 7,21b.42-43).

7. Vendo que os seus pensamentos tinham sido interceptados por Jesus, o fariseu responde cautelosamente à pergunta formulada por Jesus: «SUPONHO que…». Ao contrário da mulher, que arrisca tudo, expondo-se a todos os olhares, pensamentos e dizeres. O fariseu é mesmo apresentado como o homem do NÃOao contrário da mulher: «TU NÃO me deste água para os pés; ELA, AO CONTRÁRIO, banhou-me os pés com as suas lágrimas e enxugou-os com os seus cabelos; TU NÃO me deste um beijo; ELA, AO CONTRÁRIO, desde que entrei, não cessou de me beijar os pés; TU NÃO me ungiste a cabeça com óleo perfumado; ELA, AO CONTRÁRIO, ungiu-me os pés com perfume» (Lucas 7,44-46).

8. Em suma, esta mulher pecadora arriscou tudo por amor. Foi perdoada e ganhou a GRAÇA de uma vida nova (Lucas 7,48-50).

9. E esta mulher pecadora e silenciosa é, para todas as gerações, um imenso discurso sobre a GRAÇA e a ACÇÃO DA GRAÇA de Deus, que nos precede e acompanha sempre. GRAÇA preveniente, concomitante, consequente.

D. António Couto

O Canto na Liturgia

Antífona de Entrada

Ouvi, Senhor, a voz da minha súplica – F. Santos

Chegue até vós, Senhor – F. Santos

Escutai, Senhor, a voz do meu clamor – C. Silva

Salmo Responsorial

Perdoai, Senhor, minha culpa e meu pecado. (Sl 31) – M. Luís

 

Antífona da Comunhão

Quem é este homem – M. Luís

Pai santo, guarda noTeu nome – M. Simões

Outros cânticos para o Domingo XI do Tempo Comum

 Eu quero, ó Pai – T. Sousa

Escutai, Senhor, as minhas palavras – M. Carneiro

Escutai-me, Senhor, e respondei-me – F. Silva

Inclinai o vosso ouvido – F. Lapa

Já não sou eu que vivo – Az. Oliveira

Já não sou eu que vivo – C. Silva

Já não sou eu que vivo – M. Frisina

Já não sou eu que vivo – M. Silva

Ouvi, Senhor, as minhas palavras – F. Silva

Domingo X do Tempo Comum – Ano C

 

Tema do 10º Domingo do Tempo Comum

A dimensão profética percorre a liturgia da Palavra deste domingo, em Elias, o profeta da esperança e da vida, em Paulo, o profeta do Evangelho recebido de Deus, e, particularmente, em Jesus, o grande profeta que visita o seu povo em atitude de total oblação.

A primeira leitura apresenta-nos a figura da mulher de Sarepta, que significa a perda da esperança e o sentimento de derrota e de procura de um culpado, e a figura do profeta Elias, que acredita no Deus da vida, que não abandona o homem ao poder da morte, ressuscitando o filho da viúva.

No Evangelho, temos a revelação de Deus expressa na atitude de piedade e compaixão de Jesus no milagre da ressurreição do filho da viúva. Deus visita o seu povo em Jesus, “um grande profeta”, realizando o reino pela ressurreição, oferecendo a sua vida e dando-lhe pleno sentido.

Na segunda leitura, acolhemos a absoluta gratuidade da conversão de Paulo, para quem o Evangelho é uma força vital e criadora, que produz o que anuncia; a sua força é Deus. É uma força vital, uma dinâmica profética que ele recebeu diretamente de Deus.

LEITURA I – 1 Reis 17, 17-24

Leitura do Primeiro Livro dos Reis

Naqueles dias,
caiu doente o filho da viúva de Sarepta
e a enfermidade foi tão grave que ele morreu.
Então a mãe disse a Elias:
«Que tens tu a ver comigo, homem de Deus?
Vieste a minha casa lembrar-me os meus pecados
e causar a morte do meu filho?»
Elias respondeu-lhe:
«Dá-me o teu filho».
Tomando-o dos braços da mãe,
levou-o ao quarto de cima, onde dormia,
e deitou-o no seu próprio leito.
Depois, invocou o Senhor, dizendo:
«Senhor, meu Deus,
quereis ser também rigoroso para com esta viúva,
que me hospeda em sua casa,
a ponto de fazerdes morrer o seu filho?»
Elias estendeu-se três vezes sobre o menino
e clamou de novo ao Senhor:
«Senhor, meu Deus,
fazei que a alma deste menino volte a entrar nele».
O senhor escutou a voz de Elias:
a alma do menino voltou a entrar nele
e o menino recuperou a vida.
Elias tomou o menino,
desceu do quarto para dentro da casa
e entregou-o à mãe, dizendo:
«Aqui tens o teu filho vivo».
Então a mulher exclamou:
«Agora vejo que és um homem de Deus
e que se encontra verdadeiramente nos teus lábios
a palavra do Senhor».

Breve comentário à primeira leitura.

O episódio de hoje, a ressurreição do filho da viúva de Sarepta, é um dos milagres atribuídos a Elias e enquadra-se na polémica contra a religião cananeia do deus Baal. Este era considerado o senhor e o esposo da terra e simbolizava a fertilidade dos campos, dos animais, das famílias. Enfim, era o deus da fecundidade e da vida. Portanto, em Canaã, celebrava-se todos os anos a festa da morte e da ressurreição da natureza na figura de Baal.

O milagre de Elias, como outros a eles atribuídos, significa fundamentalmente que Yahveh é a única fonte da vida e da fertilidade. A vida vem de Deus. Toda a vida e ação de Elias apontam nesse sentido; o próprio nome Elias significa “Yahveh é o meu Deus”. Portanto, todos os elementos da mensagem devem ser vistos à luz desta centralidade. Todo o relato, que pode denotar referências mágicas na relação entre pecado e doença, baseia-se na oração de Elias, que deixa clara a sua fé num Deus pessoal, senhor e fonte de vida.

A viúva de Sarepta, uma mulher estrangeira, confessa a fé em Elias como “homem de Deus”, “porta-voz de Deus”: “Agora vejo que és um homem de Deus e que se encontra verdadeiramente nos teus lábios a palavra do Senhor”. Naamã confessará uma fé semelhante, depois de ser curado e se ter lavado no Jordão por indicação de Eliseu (cf. 2 Re 5,15). Jesus fará referência à viúva de Sarepta e ao sírio Naamã como representante dos gentios que entram n Igreja, após receber o Evangelho (cf. Lc 4,25-27).

A figura da mulher significa a perda da esperança e o sentimento de derrota e de procurar um culpado. O profeta Elias é a figura que acredita no Deus da vida, que não abandona o homem ao poder da morte.

Como pensamos e agimos hoje, nós que somos cristãos? Não ficamos muitas vezes no paganismo, na falta de esperança, no derrotismo das desgraças que nos atingem? Quando é que, verdadeiramente, agimos como se Deus fosse verdadeiramente o único Deus da vida e da bondade? Quanto caminho a fazer para sermos profetas à maneira de Elias…

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 29 (30)

Refrão: O Senhor é quem liberta.

Eu Vos glorifico, Senhor, porque me salvastes
e não deixastes que de mim se regozijassem os inimigos.
Tirastes a minha alma da mansão dos mortos,
vivificastes-me para não descer ao túmulo.

Cantai salmos ao Senhor, vós os seus fiéis,
e dai graças ao seu nome santo.
A sua ira dura apenas um momento
e a sua benevolência a vida inteira.
Ao cair da noite vêm as lágrimas
e ao amanhecer volta a alegria.

Ouvi, Senhor, e tende compaixão de mim,
Senhor, sede vós o meu auxílio.
Vós convertestes em júbilo o meu pranto:
Senhor meu Deus, eu Vos louvarei eternamente.

LEITURA II – Gal 1, 11-19

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Gálatas

Quero que saibais, irmãos:
O Evangelho anunciado por mim
não é de inspiração humana,
porque não o recebi ou aprendi de nenhum homem,
mas por uma revelação de Jesus Cristo.
Certamente ouvistes falar do meu proceder outrora no judaísmo
e como perseguia terrivelmente a Igreja de Deus
e procurava destruí-la.
Fazia mais progressos no judaísmo
do que muitos dos meus compatriotas da mesma idade,
por ser extremamente zeloso das tradições dos meus pais.
Mas quando Aquele que me destinou desde o seio materno
e me chamou pela sua graça,
Se dignou revelar em mim o seu Filho
para que eu O anunciasse aos gentios,
decididamente não consultei a carne e o sangue,
nem subi a Jerusalém
para ir ter com os que foram Apóstolos antes de mim;
mas retirei-me para a Arábia
e depois voltei novamente a Damasco.
Três anos mais tarde,
subi a Jerusalém para ir conhecer Pedro
e fiquei junto dele quinze dias.
Não vi mais nenhum dos Apóstolos,
a não ser Tiago, irmão do Senhor.

Breve comentário à segunda leitura.

O texto de hoje enquadra-se na acentuação muito forte da absoluta gratuidade da conversão de Paulo. A essa luz Paulo prega um Evangelho que não é de origem humana. Poder-se-ia pensar que este Evangelho tem um conteúdo da catequese sobre os factos e os ditos de Jesus. Ora, Paulo, quando perseguia ferozmente os cristãos, conhecia bem o conteúdo da sua doutrina. Para Paulo, o Evangelho é uma força vital e criadora, que produz o que anuncia; a sua força é Deus. É uma força vital, uma dinâmica profética que Paulo recebeu diretamente de Deus.

Para Paulo, a sua conversão é obra exclusiva de Deus. Temos aqui um equilíbrio dinâmico entre a gratuidade da fé e a adesão à tradição e magistério eclesiástico.
Somos convidados a estarmos sempre abertos à revelação de Deus, à autêntica conversão, ao acolhimento do Evangelho vivo de Deus.

ALELUIA – Lc 7,16

Aleluia. Aleluia.

Apareceu no meio de nós um grande profeta:
Deus visitou o seu povo.

EVANGELHO – Lc 7,11-17

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
dirigia-Se Jesus para uma cidade chamada Naim;
iam com Ele os seus discípulos e uma grande multidão.
Quando chegou à porta da cidade,
levavam um defunto a sepultar,
filho único de sua mãe, que era viúva.
Vinha com ela muita gente da cidade.
Ao vê-la, o Senhor compadeceu-Se dela e disse-lhe:
«Não chores».
Jesus aproximou-Se e tocou no caixão;
e os que o transportavam pararam.
Disse Jesus:
«Jovem, Eu te ordeno: levanta-te».
O morto sentou-se e começou a falar;
e Jesus entregou-o à sua mãe.
Todos se encheram de temor
e davam glória a Deus, dizendo:
«Apareceu no meio de nós um grande profeta;
Deus visitou o seu povo».
E a fama deste acontecimento
espalhou-se por toda a Judeia e pelas regiões vizinhas.

Breve comentário ao Evangelho.

Temos aqui o episódio da ressurreição do filho de uma viúva, em paralelismo com o da primeira leitura. O milagre relatado neste texto, assim como o dos versículos anteriores, respondem à pergunta de João de Baptista a Jesus: “és Tu que hás de vir ou devemos esperar outro?” Jesus oferece a salvação (cf. Lc 7,1-10) e mostra o verdadeiro triunfo da vida (cf. Lc 7,11-17). Não é o relato em si que é o mais importante, mas o sentido que nos transmite.

Antes de mais, temos aqui uma revelação de Deus. Diante da atitude de piedade e compaixão de Jesus, neste milagre de ressurreição, vemos a exclamação do povo: “Deus visitou o seu povo”. Jesus é “um grande profeta”, não apenas porque transmite a Palavra de Deus e anuncia o reino com palavras, mas sobretudo porque veio realizar o reino pela ressurreição, oferecendo a sua vida.

Em seguida, vemos aqui o sentido da vida. Jesus veio criar, oferecer ao homem a alegria de uma vida aberta com todo o sentido.

Percebemos ainda todo o carácter de sinal presente no milagre. A ressurreição do filho da viúva testemunha Jesus que há de vir, cuja vida triunfa plenamente sobre a morte.

Significa que para nós, hoje como então, Deus Se encontra onde há o sentido da piedade, do amor vivificante. Significa ainda que, seguindo Jesus, só podemos também suscitar vida, ter piedade dos que sofrem, oferecer a nossa ajuda, ter uma atitude de oblação.

Das duas, uma: ou fazemos da nossa vida um cortejo de morte, dos sem esperança, que acompanham o cadáver, em atitude de choro, de luto, de desespero; ou fazemos do nosso peregrinar um caminho de esperança, de ressurreição, de transformação do choro e da morte em sentido de vida. Podemos escolher, é certo. Mas se somos seguidores de Cristo e nos deixamos visitar por este grande profeta, não temos alternativa!

SER PROFETA HOJE

(algumas interpelações)

A partir da liturgia de hoje, podemos percorrer algumas interpelações sobre o sentido da profecia para os tempos atuais. Como ser profeta hoje? Como ser profeta à luz da Palavra de Deus que ilumina os acontecimentos das nossas vidas, da Igreja e do mundo? Algumas interpelações:

1. Descobrir e propor o projeto de Deus para o mundo e para os homens. O profeta é homem do seu tempo, marcado pelas descobertas, conquistas, contradições e esperanças dos homens do seu tempo… É também alguém com uma fé profunda, com uma consciência muito forte da presença de Deus na própria vida. A vida de união e de comunhão com Deus vai impregnando a vida do profeta, de modo que vai aprendendo a interpretar todos os acontecimentos políticos, sociais e religiosos à luz de Deus e do seu projeto. Só deste modo ele pode apresentar o projeto de Deus para os homens hoje.

2. Sentir-se chamado por Deus, receber de Deus uma missão, ser enviado por Deus ao mundo. Deus chama de muitas formas… Um sonho, uma leitura, um acontecimento, um sinal… Às vezes descobre-se o seu apelo no rosto de um pobre ou de um escravizado; outras vezes, nas páginas dos jornais; outras, nas necessidades da Igreja ou da sociedade; outras, nos acontecimentos turbulentos do presente; outras, mais simplesmente, nas palavras de um amigo ou de um mestre… Ao ser chamado, o profeta recebe de Deus uma missão.

3. Estar marcado pelas experiências de solidão, angústia, sofrimento, crise, rejeição, incompreensão… Ser fiel à missão de Deus, mesmo quando, com essa atitude, o profeta se sente abandonado, rejeitado, incompreendido. No fundo, trata-se de arriscar a vida, na certeza da presença de Deus.

4. Estar desinstalado, num território concreto… como espaço de verificação e de rejeição da profecia anunciada. Ninguém é profeta na sua terra, é certo. Mas é na terra, no espaço concreto, na escola, no local de trabalho, na comunidade, na Igreja… que a profecia deve ser anunciada. Com coragem, com desassombro.

5. Viver no quotidiano da existência, na minha situação concreta, aqui e agora. Como ser profeta, aqui e agora, na minha situação, face aos problemas reais que me entram pelos olhos e interpelam o meu coração aberto ao Pai e ao próximo?

6. Anunciar as Boas Novas de sempre duma forma sempre nova. O conteúdo do anúncio profético é sempre o mesmo. Mas esta única Palavra de Deus deve ressoar duma forma sempre nova…

7. Assumir um modo novo e inédito de viver e anunciar o essencial. Anunciar um modo novo de viver o essencial. E o essencial é a fé, a esperança e a plenitude do amor, das quais os profetas foram testemunhas vulneráveis mas obstinados. O Espírito sopra onde quer e como quer, com liberdade imprevisível, não se deixando amarrar em esquemas exclusivos ou demasiado estreitos…

8. Escutar, aprender, receber, acolher… o Deus do povo e o povo de Deus.

9. Ser coerente entre a palavra anunciada e as opções pessoais. Quantos pretensos profetas gritam diante dos microfones, ditam sentenças nos jornais a torto e a direito, gesticulam nas praças e na televisão… mas não dão testemunho com a sua vida. Por isso, não mudam as coisas! Há incoerência entre pensamento e vida, entre ideal e prática.

10. Denunciar não apenas os pecados, mas as estruturas de pecado, promover e estimular novas estruturas de virtudes e valores.

11. Testemunhar entre o silêncio intenso-pleno e o silêncio despojado-vazio. Diante dos dramas recentes e atuais, diante das angústias e sofrimentos, diante dos vazios e da falta de esperança, o profeta dá testemunho, com o seu silêncio, do silêncio de Deus. Não é fácil, mas pode ser um silêncio fecundo que fala.

12. Lutar contra os novos ídolos de hoje: detetá-los, desmascará-los, denunciá-los…

13. Anunciar a fé e a justiça, assumir a esperança como raiz da profecia. Não se trata de duas coisas distintas: a fidelidade ao Deus vivo exige a defesa dos direitos do pobre. A mensagem profética, na sua capacidade de denúncia, integra-se e aperfeiçoa-se, especificando-se, na proposta de uma utopia, na “proposta de uma alternativa”, chamada esperança. Sem esperança não há profecia.

14. Profetizar no século XXI, viver pobre a profecia da gratuidade, da sobriedade, da essencialidade: sentir a alegria de dar, gratuitamente; experimentar a força do Amor criador de Deus; praticar diariamente uma vida simples, sóbria; ir profeticamente contra a corrente do domínio e do consumo; ser capaz de desmascarar as raízes do egoísmo e as suas consequências…

15. Profetizar no século XXI, viver obediente a profecia da multiculturalidade: descobrir a única vontade de Deus Pai; deixar os isolamentos, os nossos planos egoístas; procurar a vontade de Deus na vontade da comunidade; deixar de lado o escândalo da excomunhão mútua; comungar no mesmo Deus…

16. Profetizar no século XXI, viver casto a profecia da sexualidade redimida: testemunhar a redenção de Cristo na globalidade do nosso ser (inteligência, liberdade, fantasia, corpo, afetos, sentidos); ser profetas da libertação integral…

Dehonianos

 

 

 

DEUS VISITOU O SEU POVO

1. Abraão, em idade avançadíssima, estava sentado numa esteira na sua tenda de chefe tribal, quando vislumbrou ao longe, sobre o caminho arenoso do deserto, a figura de um dos anjos que, alguns anos antes, o tinham visitado para lhe dar a notícia feliz do nascimento do seu filho Isaac. Mas, quando o anjo se aproximou um pouco mais, Abraão sentiu um calafrio e compreendeu que este não era o anjo da vida, mas o anjo da morte, que se aproximava para lhe levar a vida. Mal o anjo chegou junto dele, Abraão encheu-se de coragem e disse-lhe: «Anjo da morte, tenho uma pergunta para te fazer. Eu sou o amigo de Deus. Responde-me: já algum dia viste um amigo desejar a morte do seu amigo?». O anjo, então, respondeu: «Também eu te farei uma pergunta: já algum dia viste um enamorado recusar encontrar-se com a pessoa amada?». Neste momento, Abraão exclamou: «Anjo da morte, leva-me!».

2. Este delicioso apólogo da tradição mística judaica e muçulmana, que tem como protagonista Abraão, o «pai na fé», comum às três grandes religiões monoteístas (hebraica, cristã e muçulmana), traduz luminosamente os dois rostos da morte: o monstruoso e o angélico, o da separação e o do encontro. Estas duas facetas atravessam os textos deste Domingo X do Tempo Comum. Desde logo, o Evangelho de Lucas 7,11-17, vulgarmente conhecido como «ressurreição do filho da viúva de Naim», e 1 Reis 17,17-24, vulgarmente conhecido como «ressurreição do filho da viúva de Sarepta». Parecem, à primeira vista, dois textos paralelos: ambos falam de uma viúva e da morte e do regresso à vida do seu filho único, num caso por obra de Elias, no outro por obra de Jesus. Mas as diferenças são mais do que as semelhanças.

3. Comecemos, como é de bom tom, pelo relato do Evangelho. Eis-nos de imediato perante uma pobre mãe, viúva, que acompanha, chorando, o seu filho único ao cemitério. Acompanha-a uma grande multidão, mas aquela pobre mãe, atravessada pela dor mais profunda, atravessa também a mais cruel solidão. É o cortejo da morte. Vem ao seu encontro, em contraponto, o cortejo da vida: Jesus, acompanhado pelos seus discípulos e também por uma grande multidão. Ao ver a pobre viúva que chorava, Jesus COMOVEU-SE, e ordenou à mulher: «Não chores!». Depois, tocou o esquife aberto, como é usual no oriente, e ordenou: «Jovem, eu te digo, LEVANTA-te!» O jovem SENTOU-se, sinal narrativo de que o esquife ia, de facto, aberto, e começou a FALAR, e Jesus DEU-o à sua mãe. E só agora reage a multidão, que ficou tomada de temor e glorificava a Deus, dizendo: «Um profeta grande se LEVANTOU entre nós, e Deus VISITOU o seu povo!».

4. Notas a considerar: 1) Jesus comove-se (verbo gregosplagchnízomai), comoção entranhada, maternal, divina; 2) Jesus intervém por pura graça: não responde a nenhum queixume nem a nenhum pedido; 3) Jesus ordena àquela mãe que não chore: como Deus que enxuga as lágrimas dos nossos olhos (cf. Isaías 25,8; Apocalipse 17,7; 21,4); 4) Jesus ordena, em primeira pessoa, ao jovem que se levante da morte (não invoca Deus para que dê a vida ao jovem, como faz Elias no relato da viúva de Sarepta); 5) Jesus dá o filho àquela mãe: importante lição para nós que pensamos que os filhos são nossos, e não dados! 6) a multidão reage no final: enche-se de temor [= vê com maravilha cair as certezas a que até então se agarrou, e nasce de novo de acordo com a novidade boa que vê vir de Deus], e proclama a VISITA boa, com bons olhos (grego episképtomai) (Lucas 7,16), donde vem o nosso termo epískopos [= bispo] e episkopê[= visita ou visitação] (Lucas 19,44), de Deus: Deus-connosco! Tantas Maravilhas a descobrir com um bom olhar! Tantas maravilhas a fazer acontecer com um bom olhar! O próprio Deus se apresenta como o visitador bom (Êxodo 3,16), e, no Evangelho de Lucas, já tinha sido cantado por Zacarias como aquele que visita e redime o seu povo (Lucas 1,68).

5. A narrativa de 1 Reis 17,17-24, da ressurreição do filho da viúva de Sarepta, não fala de multidão. Passa-se tudo em casa. O milagre vai realizar-se como prémio da generosa hospitalidade daquela viúva, que expõe a sua queixa a Elias. E, sobretudo, Elias não é Jesus. Não ordena o regresso à vida do rapaz. Invoca-o de Deus, e por mais de uma vez…

6. Que Deus desde sempre se mete connosco, eis o que testemunha Paulo aos Gálatas (1,11-19), e é assim que aprende e ensina a viver a vida, não pelo cursor dos poucos anos da nossa breve existência fechada sobre si, mas visitada pela força do amor novo e eterno, novo porque eterno, de Deus. Também Paulo andava perdido e distraído ao sabor do GPS da carne do sangue, mas quando chegou o tempo de ser visitado por este amor primeiro e derradeiro, verdadeiro, de Deus, não hesita um segundo, e esforça-se para lhe responder (Filipenses 3, 8,14).

7. Também nós somos do tempo novo da eterna novidade e da beleza do Evangelho e da visita boa e bela de Deus. Atenção, porém, redobrada atenção, porque Jerusalém não reconheceu o tempo da sua visita! (Lucas 19,44).

D. António Couto

O Canto na Liturgia

Antífona de Entrada

 O Senhor é minha luz e salvação – F. Santos (BML 77 | CEC II, p. 53)

 O Senhor é minha luz – F. Silva (BML 64)

O Senhor é minha luz – M. Faria (NRMS 16)

Minha luz e salvação é o Senhor – F. Silva (NRMS 119)

Salmo Responsorial

Eu Vos glorifico, Senhor, porque me salvastes (sl 29) – F. Santos

Antífona da Comunhão

Deus é amor – M. Luís  – harm.: J. Mateus 

Deus é amor – A. Morais

Apareceu entre nós um grande profeta – Az. Oliveira



Outros cânticos para o Domingo X do Tempo Comum

Eu sou a ressurreição e a vida – C. Silva

Eu sou a ressurreição e a vida – M. Carneiro

Eu sou a ressurreição e a vida – M. Luís

Eu sou o pão da vida – M. Luís

Eu sou o Pão da vida quem me come não morrerá – B. Sousa

Eu sou o Pão vivo – M. Luís

Eu sou o Pão vivo descido do Céu – C. Silva

Eu vim para que tenham vida – F. Silva

Quem come a minha carne – C. Silva

Quem come deste pão – M. Luís

Quem come deste pão – C. Silva

Quem comer deste pão – C. Silva

 

Domingo IX do Tempo Comum – Ano C

Tema do 9º Domingo do Tempo Comum

 

 

A liturgia deste domingo dá-nos conta da expansão da fé, não mais confinada ao território histórico de Israel. Este tema está bem presente no convite do refrão do Salmo, a anunciar o Evangelho em todo o mundo.

Na primeira leitura, Salomão invoca o Senhor, pedindo que escute as orações que os estrangeiros lhe dirigirem no Templo de Jerusalém, de modo que o Senhor seja conhecido para lá das fronteiras de Israel e todos os povos possam prestar culto ao Deus de Israel.

Na segunda leitura, Paulo apresenta-se como guardião do verdadeiro Evangelho de Cristo que é anunciado também aos pagãos, reclamando a falsidade de qualquer outra mensagem que negue que a salvação de Deus vem pela fé em Jesus Cristo, de quem ele recebeu o Evangelho que agora transmite.

O Evangelho mostra-nos a grande fé de um estrangeiro, um oficial romano, que coloca toda a sua confiança na misericórdia de Jesus e na sua Palavra, enquanto pede a cura de um seu servo. Jesus acede à sua súplica e mostra admiração pela grande fé deste homem estrangeiro.

 

 

LEITURA I – 1 Reis 8, 41-43

 

Leitura do Primeiro Livro dos Reis

 

Naqueles dias,

Salomão fez no templo a seguinte oração:

«Quando um estrangeiro,

embora não pertença ao vosso povo, Israel,

vier aqui dum país distante por causa do vosso nome

– pois ouvirão falar do vosso grande nome,

da vossa mão poderosa e do vosso braço estendido -,

quando vier orar neste templo,

escutai-o do alto do Céu, onde habitais,

e atendei os seus pedidos,

a fim de que todos os povos da terra

conheçam o vosso nome

e Vos temam como o vosso povo, Israel,

e saibam que o vosso nome é invocado

neste templo que eu edifiquei».

 

AMBIENTE

Os livros dos Reis (1-2Rs) continuam a narrativa da história da monarquia em Israel, que tinha começado já em 1Sam 11,12-15, com o reconhecimento do reinado de Saul sobre Israel. Com David, segundo rei de Israel, viria a conquistar-se Jerusalém e aí estabelecer a capital do reino que passa a englobar os territórios das várias tribos do Norte e do Sul num só reino. 1Rs 3-11 são capítulos que descrevem a sabedoria e a excelência de Salomão, bem como esplendor das suas construções, sobretudo do templo, sonhado por David, mas concretizado apenas no reino do filho Salomão (cf. 1Rs 6; 1Sm 7,1-16).

O texto da primeira leitura de hoje é um excerto da grande oração de Salomão (1Rs 8,23-53), que por sua vez se insere no contexto da festa da dedicação do templo de Jerusalém, acabado de construir, em que Salomão, além de rei, exerce funções sacerdotais, proferindo orações de louvor diante do Senhor, abençoando o povo e oferecendo sacrifícios diante do altar do Senhor.

A grande oração que Salomão profere no templo (1Rs 8,23-53), voltado para o povo e de mãos levantas ao céu tem uma estrutura típica de um salmo, começando por invocar a fidelidade de Deus ao rei David e à nação (vv. 23-24), suplicando a continuidade dessa fidelidade (vv. 25-27) e o favor de Deus (vv. 28-30). A oração prossegue estabelecendo uma relação entre o céu, morada de Deus, e o templo, de construção humana, dando sete exemplos de oração de súplica e da resolução que o povo espera do seu Deus a essas orações de súplica (vv. 31-53). O texto da primeira leitura é o quinto desses exemplos e é uma digressão sobre a oração do estrangeiro que não pertence ao povo.

 

MENSAGEM

Este pedaço da oração de Salomão é basicamente um pedido a Deus para que escute a oração que um estrangeiro Lhe dirigir no Templo que se está a dedicar (v. 43a). Antes de mais, este trecho da oração ajuda a esclarecer o significado do Templo para Salomão e para a teologia de Israel: o Templo é o lugar onde se invoca a Deus (v. 41), mas não a morada de Deus que é nos céus (v. 43a).

A este respeito será interessante notar alguns elementos que estão subjacentes a esta formulação. Antes de mais, a oração fornece-nos os motivos que terão levado o estrangeiro a ir rezar ao Templo de Jerusalém: depois de ter ouvido falar dos grandes feitos maravilhosos de Deus em favor do povo de Israel, o estrangeiro sentirá desejo de invocar o Deus de Israel (v. 42).

Poderá estranhar-se que os israelitas em guerra com os povos estrangeiros, com uma configuração patriótica exclusivista, peçam ao Senhor que escute a oração dos estrangeiros. Todavia, pode facilmente identificar-se uma motivação de expansão missionária da religião javista: na medida em que as orações dos estrangeiros forem atendidas no Templo de Jerusalém, o templo e, sobretudo, o Senhor, Deus de Israel, que nele se invoca serão famosos e hão de ser temidos também na terra do estrangeiro (v. 43b).

Note-se, portanto, uma abertura da religião de Israel ao estrangeiro, na medida em que reconhece, por um lado, que este último poderá vir ao Templo de Jerusalém por causa do nome do Senhor, ou seja, por reconhecer a presença do Senhor no Templo (v. 41) e, por outro lado, que o nome do Senhor, Deus de Israel, poderá ser temido, adorado na terra do estrangeiro (v. 43).

 

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 116 (117), 1.2

 

Refrão: Ide por todo o mundo, anunciai a boa nova.

 

Louvai o Senhor, todas as nações,

aclamai-O, todos os povos.

 

Firme a sua misericórdia para connosco,

a fidelidade do Senhor permanece para sempre.

 

 

LEITURA II – Gal 1, 1-2.6-10

 

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Gálatas

 

Irmãos:

Paulo, apóstolo,

não da parte dos homens, nem por intermédio de um homem,

mas por mandato de Jesus Cristo

e de Deus Pai, que O ressuscitou dos mortos,

e todos os irmãos que estão comigo,

às Igrejas da Galácia:

Surpreende-me que tão depressa tenhais abandonado

Aquele que vos chamou pela graça de Cristo,

para passar a outro evangelho.

Não que haja outro evangelho;

mas há pessoas que vos perturbam

e pretendem mudar o Evangelho de Cristo.

Mas se alguém

– ainda que fosse eu próprio ou um Anjo do Céu –

vos anunciar um evangelho diferente

daquele que nós vos anunciamos,

seja anátema.

Como já vo-lo dissemos, volto a dizê-lo:

Se alguém vos anunciar um evangelho diferente

daquele que recebestes,

seja anátema.

Estarei eu agora a captar o favor dos homens

ou o de Deus?

Acaso procuro agradar aos homens?

Se eu ainda pretendesse agradar aos homens,

não seria servo de Cristo.

 

AMBIENTE

As comunidades cristãs da Galácia (centro da Ásia Menor) conheceram, pelos anos 56/57, um ambiente de alguma instabilidade. A culpa era de certos pregadores cristãos de origem judaica que, chegados à zona, procuravam impor aos gálatas a prática da Lei de Moisés (cf. Gal 3,2; 4,21; 5,4) e, em particular, a circuncisão (cf. Gal 2,3-4; 5,2; 6,12). São, ainda, esses “judaizantes” que, nas primeiras décadas do cristianismo, tanta confusão trouxeram às comunidades cristãs de origem pagã.

Paulo não está disposto a pactuar com estas exigências. Para ele, esta questão não é secundária, mas algo que toca no essencial da fé: se as obras da Lei são fundamentais, é porque Cristo, por si só, não pode salvar. Isto será verdadeiro? Quanto a esta questão, Paulo tem ideias claras: Cristo basta; a Lei de Moisés não é importante para a salvação.

É neste ambiente que Paulo escreve aos Gálatas. Diz-lhes que os ritos judaizantes apenas os prenderão numa escravatura da qual Cristo já os tinha libertado. O tom geral da carta é firme e veemente: era o essencial da fé que estava em causa.

Começa-se hoje a leitura da Carta aos Gálatas. Depois de uma breve saudação epistolar, em que Paulo se apresenta (cf. Gal 1,1-2), Paulo continuará a expor aquele a situação e o problema fundamental (cf. Gal 1,6-10) que o levará a discorrer sobre a relação entre a fé e as obras da Lei e que serão motivo da nossa reflexão nos próximos domingos.

 

MENSAGEM

Na saudação epistolar (vv. 1-2), além de dar conta dos destinatários da sua carta – “às Igrejas da Galácia” -, Paulo apresenta-se como “apóstolo por mandato de Jesus Cristo e de Deus Pai, que O ressuscitou dos mortos”, rejeitando a possibilidade de uma apostolado meramente humano. Desta forma, Paulo está a antecipar a sua tese exposta em Gal 1,11-12: tal como o seu mandato de apóstolo, também o “seu” Evangelho não é de origem humana, mas divina, de Jesus Cristo, por revelação divina. É, por isso, importante esta caracterização da sua missão de apóstolo que lhe garantirá o caráter inviolável da mensagem do “seu” evangelho. Ainda nesta breve saudação, Paulo demonstra que não está sozinho, mesmo se tem opositores, como se notará no corpo desta carta: de forma inteligente, Paulo apresenta a saudação de todos os irmãos que estão com ele, ou seja, de todos os que aceitam e defendem o carácter inviolável do “seu” Evangelho.

A leitura continua com uma expressão de surpresa de Paulo (v. 6), dirigindo-se aos Gálatas, mas tendo em vista sobretudo aqueles que perturbaram a fé desta comunidade, aqueles “que pretendem mudar o Evangelho de Cristo” (v. 7). Ao falar de um “outro evangelho”, como se fosse possível haver mais que um, o apóstolo deixa claro que há um único Evangelho, o de Cristo, e que corresponde ao conteúdo do seu anúncio e do “seu” Evangelho (v. 7). Vai mais longe e declara anátema – ou seja, fora da comunhão da fé – quem anunciar um evangelho diferente do “seu” (v. 8-9): a Carta deixa de ter assim carácter apologético, de defesa de Paulo, para tomar um carácter de direito divino, tal como o Evangelho de Paulo provém de revelação divina.

O texto termina com perguntas retóricas e uma afirmação de Paulo: demonstra que procura agradar a Deus e não aos homens, o que decorre de ser servo de Cristo (v. 10). O apóstolo demonstra assim o seu carácter irreprovável e a ortodoxia da sua fé e do seu anúncio. Mostrando que é a Deus que procura agradar, Paulo tenta indiretamente agradar aos seus próprios opositores que reprovariam imediatamente alguém que tentasse agradar mais aos homens que a Deus.

 

 

ALELUIA – Jo 3, 16

 

Aleluia. Aleluia.

 

Deus amou tanto o mundo

que lhe deu o seu Filho unigénito;

quem acredita n’Ele tem a vida eterna.

 

 

EVANGELHO – Lc 7, 1-10

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

 

Naquele tempo,

quando Jesus acabou de falar ao povo,

entrou em Cafarnaum.

Um centurião tinha um servo a quem estimava muito

e que estava doente, quase a morrer.

Tendo ouvido falar de Jesus,

enviou-Lhe alguns anciãos dos judeus

para Lhe pedir que fosse salvar aquele servo.

Quando chegaram à presença de Jesus,

os anciãos suplicaram-Lhe insistentemente:

«Ele é digno de que lho concedas,

pois estima a nossa gente

e foi ele que nos construiu a sinagoga».

Jesus acompanhou-os.

Já não estava longe da casa,

quando o centurião Lhe mandou dizer por uns amigos:

«Não Te incomodes, Senhor,

pois não mereço que entres em minha casa,

nem me julguei digno de ir ter contigo.

Mas diz uma palavra e o meu servo será curado.

Porque também eu, que sou um subalterno,

tenho soldados sob as minhas ordens.

Digo a um: ‘Vai’ e ele vai,

e a outro: ‘Vem’ e ele vem,

e ao meu servo: ‘Faz isto’ e ele faz».

Ao ouvir estas palavras,

Jesus sentiu admiração por ele

e, voltando-se para a multidão que O seguia, exclamou:

«Digo-vos que nem mesmo em Israel

encontrei tão grande fé».

Ao regressarem a casa,

os enviados encontraram o servo de perfeita saúde.

 

AMBIENTE

O texto situa-nos na primeira parte do Evangelho segundo Lucas. Convém recordar que esta primeira parte se desenrola na Galileia, sobretudo à volta do Lago de Tiberíades. Durante essa fase, Jesus aparece a concretizar o seu programa: trazer aos homens – sobretudo aos pobres e marginalizados – a liberdade e a salvação de Deus. Toda esta primeira parte é, aliás, dominada pelo anúncio programático da sinagoga de Nazaré, onde Jesus define a sua missão como “anunciar a Boa Nova aos pobres, proclamar a libertação aos cativos e mandar em liberdade os oprimidos” (cf. Lc 4,16-30). Citando os exemplos de Elias com a viúva de Sarepta e de Eliseu com o sírio Naamã, Jesus já tinha aí deixado claro que Deus tinha tido atenção aos estrangeiros na história de Israel. O nosso texto de hoje coloca-nos diante de uma situação em que Jesus exaltará a fé de um estrangeiro, um centurião romano, mostrando a sua misericórdia para com este homem com um alto cargo, mas com a capacidade de se abaixar, entrando na lógica do Evangelho de Jesus: os últimos serão os primeiros. Lucas entra assim na discussão teológica sobre o acesso dos pagãos à salvação anunciada a Israel, que será fundamental para a segunda parte da sua obra, nos Atos dos Apóstolos, onde um outro oficial romano, Cornélio, fará despoletar a discussão entre a comunidade cristã nascente sobre qual o estatuto dos pagãos que abraçam o Evangelho no contexto da Igreja.

 

MENSAGEM

O episódio da cura do servo do centurião romano centra-se no valor da fé deste homem que é um pagão, apesar de se ter mostrado favorável aos judeus e de lhes ter construído a sinagoga, conforme as palavras dos mensageiros judeus em Lc 7,4. É verdade que esta é uma história de uma cura, conforme é dado pela situação inicial em Lc 7,2 – “um servo que estava doente, quase a morrer” – e no resultado final, em Lc 7,10 – “os enviados encontraram o servo de perfeita saúde”. No entanto, o grande objetivo do texto é a exaltação da grande fé de um pagão, a ponto de Jesus reconhecer: “Nem mesmo em Israel encontrei tão grande fé” (Lc 7,9). De facto, grande parte do texto centra-se a contar os procedimentos não da cura, mas da súplica do centurião romano: (1) manda mensageiros judeus e pede que Jesus venha a casa (cf. Lc 7,3); (2) mostra-se a insistência dos mensageiros judeus, exaltando as características deste oficial pagão (cf. Lc 7,4-5); (3) apesar de Jesus ter acedido ao pedido dos primeiros mensageiros, este homem manda novos emissários, a declarar a sua indignidade e falta de mérito para que Jesus venha a sua casa (cf. Lc 7,6-8). Tudo isto resulta na declaração de Jesus sobre a fé deste homem em Lc 7,9.

Esta declaração de Jesus abre a fé aos estrangeiros que, por estatuto, não teriam outro modo para se aproximar do credo de Israel, senão convertendo-se e, consequentemente, abraçando todas as tradições israelitas. Apesar dos merecimentos deste homem, bem evidenciados pelos mensageiros dos anciãos judeus, é bem claro que ele não fazia parte da comunidade judaica oficial.

Mas este episódio de Lucas, sendo uma sucessão de súplicas, conforme já se mostrou, vem de encontro a uma caracterização da oração cristã. Notamos antes de mais que o servo que está doente não vai ao encontro de Jesus, mas é o seu patrão, o centurião, a interessar-se por ele. Por sua vez, o centurião faz-se valer de mensageiros que por ele falam a Jesus. Por outro lado, notamos que os primeiros a abeirar-se de Jesus, os anciãos dos judeus, além da insistência com que suplicam, fazem-se valer dos méritos deste homem no modo de suplicar (cf. Lc 7,5-6: “ele merece”). O texto deixa claro que Jesus não se opõe a este raciocínio, acompanhando-os (cf. Lc 7,7). Mas a admiração de Jesus pela fé do oficial romano (cf. Lc 7,9) vem da mensagem enviada pelos amigos, onde o homem se faz despir de todos os méritos: “Eu não mereço que entres em minha casa, nem me julguei digno de ir ter contigo” (Lc 7,6-7). Mais forte ainda é a súplica cheia de fé e confiança que causa admiração: “Diz uma palavra e o meu servo será curado” (Lc 7,7). Há, por assim dizer, uma progressividade da fé manifestada na oração: este oficial romano dá conta que, para realizar o seu desejo, não fazem falta méritos, nem posses ou subalternos, porque o que conta é a misericórdia de Deus, manifestada em Jesus, que é totalmente gratuita.

Este milagre de Jesus dispensa o toque e mesmo a proximidade física de Jesus. Pelas palavras do centurião, entendemos o valor da palavra de Jesus (cf. Lc 7,7), que se aliará à fé daquele que suplica, independentemente de haver méritos ou não. É bem que se note que já no relato da cura de um paralítico tinha sido a fé a impressionar Jesus e instiga-lo ao milagre (cf. Lc 5,20: “Vendo a fé daquela gente”), se bem que aí Jesus estava próximo do doente a curar. Neste caso, apesar da distância, é a palavra de Jesus, que expressa a sua grande misericórdia em favor dos que estão oprimidos por qualquer tipo de mal; e a misericórdia precisa apenas da fé do orante. A sucessão narrativa, que coloca a notícia da cura miraculosa (cf. Lc 7,10) depois de ter dado conta da admiração de Jesus pela fé do centurião (cf. Lc 7,9), é uma forma implícita de reconhecer o que será reconhecido explicitamente noutras curas, que é a fé a salvar (cf. Lc 17,19).

 

 

A LITURGIA DA PALAVRA INTERPELA-NOS HOJE

 

Acreditar na Palavra

Neste 9.º domingo do tempo comum, o Evangelho apresenta-nos a figura de um centurião romano que se dirige a Jesus para que salve o seu servo, que estava muito doente. É impressionante este relato em que o centurião, amigo dos judeus pois até lhes construiu a sinagoga, pede a alguns anciãos dos judeus para interceder junto de Jesus pela cura do servo a quem muito estimava. E quando Jesus se dirige para a sua casa, manda alguns amigos dizer para não entrar, pois basta-lhe a sua palavra para que aconteça a cura.

Temos aqui uma relação muito estreita e concreta entre a fé e a palavra de Jesus, que se enche de admiração pela fé deste homem a ponto de dizer que nem em Israel encontrou tão grande fé. E tudo na infinita misericórdia e compaixão de Jesus para com o servo e o seu senhor. Este centurião, homem de grande fé, para mais estrangeiro à raça de Israel e aos seus cultos, aponta-nos o sentido da nossa fé, sempre em profunda intimidade com a Palavra e na atenção dedicada a quem precisa do nosso amor.

«Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo»: são as palavras do centurião que dizemos antes de comungarmos em cada Eucaristia que celebramos. É profundamente eucarístico este encontro entre o centurião que acredita sem mais em Jesus, sem o ver, e a palavra de Jesus, proclamada também sem ver o centurião. A Eucaristia, celebrada, adora e quotidianamente vivida, não é mais do que um encontro como este.

Às vezes pergunto-me se nós, cristãos de hoje, que andamos enfarinhados nas coisas de Deus, nas liturgias bem aprumadas e em longas orações, assumimos a causa de Deus na liturgia quotidiana da nossa vida. Pergunto-me se basta a Palavra para a fé, ou ainda procuramos outros sinais que podem parecer importantes mas não essenciais. Pergunto-me se andamos no único Evangelho que conta, o de Jesus Cristo, ou navegamos noutros evangelhos; assim nos provoca Paulo na segunda leitura. Pergunto-me se habitamos e conhecemos o nome de Deus e lhe oramos com plena escuta do nosso ser ou entretemo-nos com outros nomes e repetidas orações que apenas passam pelo ouvido; assim nos interpela a primeira leitura.

Toda a liturgia deste domingo nos coloca nesta centralidade em Jesus que a todos se dá, sem exceção e sem olhar a quem, exigindo a adesão plena à sua Pessoa a quem o quiser seguir como discípulo missionário. Uma adesão de fé centrada no amor misericordioso de Deus em Jesus Cristo, que há três dias celebrámos na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo e que na próxima semana vamos intensamente viver na Solenidade do Sagrado Coração.

Dehonianos

O Canto na Liturgia

 

Antífona de Entrada

Olhai para mim, Senhor – Az. Oliveira

Olhai para mim, Senhor – A. Cartageno

Olhai para mim, Senhor – M. Carneiro

Olhai para mim, Senhor – M. Faria

Os meus olhos estão sempre fixos no Senhor – M. Faria

Os meus olhos se fixam no Senhor – F. Lapa (Libellus 1)

Os meus olhos, Senhor – M. Luís

 

Salmo Responsorial

Ide por todo o mundo e anunciai a boa nova (Sl 116) – Az. Oliveira

Antífona da Comunhão

Inclinai o vosso ouvido – F. Lapa

Escutai, Senhor, as minhas palavras – M. Carneiro

Respondei-me, Senhor – F. Valente

Ouvi, Senhor, as minhas palavras – F. Silva

Outros cânticos para o Domingo IX do Tempo Comum

Como é admirável – F. Santos

Tudo o que pedirdes na oração – C. Silva/P. Cruz

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo – Ano C

 

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

 

No centro da Solenidade deste domingo está a celebração de Deus que alimenta o seu povo e que, no seu Filho, dá-lhe o alimento supremo e eterno, a grande Eucaristia dos crentes.

Para exprimir esta oração de louvor e de agradecimento, que dirigimos ao Senhor acolhendo o dom do seu amor, a Escritura emprega duas palavras: a bênção (primeira leitura) e a ação de graças (segunda leitura).

Estas duas dimensões de oração estão intimamente ligadas e devem habitar a nossa vida para além da missa, para testemunhar todo o amor com o qual Cristo ama os homens (Evangelho).

 

LEITURA I

Gen 14, 18-20

Leitura do Livro do Génesis

Naqueles dias,
Melquisedec, rei de Salém, trouxe pão e vinho.
Era sacerdote do Deus Altíssimo
e abençoou Abraão, dizendo:
«Abençoado seja Abraão pelo Deus Altíssimo,
criador do céu e da terra.
Bendito seja o Deus Altíssimo,
que entregou nas tuas mãos os teus inimigos».
E Abraão deu-lhe a dízima de tudo.
 
 
 
 
 
 
 

 

Breve comentário à primeira leitura.

Na história do povo de Deus, o rei Melquisedec só intervém uma vez, no seu encontro com Abraão. Mas este episódio teve uma importância decisiva para a ação de Jesus.

O Antigo testamento está cheio de sacrifícios sangrentos. Mas eis aqui um sacrifício sem qualquer efusão de sangue. Melquisedec, um rei sacerdote, oferece diante de Abraão pão e vinho. Os cristãos reconheceram nesse gesto um anúncio da Eucaristia e muitas vezes representaram este sacrifício nas pinturas e vitrais das igrejas, na proximidade do altar. Reconhecemos também neste episódio antigo um traço da pedagogia divina, que provocou continuamente o seu Povo a purificar as suas práticas sacrificiais, para prepará-lo para acolher a ação definitiva do seu Filho.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 109 (110)

Refrão 1: O Senhor é sacerdote para sempre.

Disse o Senhor ao meu Senhor:
«Senta-te à minha direita,
até que Eu faça de teus inimigos escabelo de teus pés».
 
O Senhor estenderá de Sião
o cetro do teu poder
e tu dominarás no meio dos teus inimigos.
 
A ti pertence a realeza desde o dia em que nasceste
nos esplendores da santidade,
antes da aurora, como orvalho, Eu te gerei».
 
O Senhor jurou e não Se arrependerá:
«Tu és sacerdote para sempre,
segundo a ordem de Melquisedec».
 
 

LEITURA II

1 Cor 11, 23-26

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios

Irmãos:
Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti:
o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue,
tomou o pão e, dando graças, partiu-o e disse:
«Isto é o meu Corpo, entregue por vós.
Fazei isto em memória de Mim».
Do mesmo modo, no fim da ceia, tomou o cálice e disse:
«Este cálice á a nova aliança no meu Sangue.
Todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de Mim».
Na verdade, todas as vezes que comerdes deste pão
e beberdes deste cálice,
anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha».
 
  

Breve comentário à segunda leitura.

As dificuldades surgidas na primeira comunidade de Corinto tinham incitado o apóstolo Paulo a recordar por escrito o que comporta a celebração do grande mistério da fé, a Eucaristia.

Nesta narração da instituição da Eucaristia, Paulo põe na boca de Jesus uma dupla «ordem de reiteração». Depois da fração do pão, e mesmo antes de lhes dar o cálice, Jesus diz aos Apóstolos: «Fazei isto em memória de Mim». Palavra explícita, fundadora da nossa prática eucarística. E Jesus explica todo o alcance deste memorial, tal como o canta a anamnese: proclamar o que Jesus fez por nós (dom da sua vida), celebrar a sua Ressurreição que nos salva, esperar a sua vinda na glória.

O que os Apóstolos nos dizem da Eucaristia está nestas breves linhas de uma carta de São Paulo.

Que diferenças entre as primeiras celebrações e as nossas, atualmente. Paulo dá-nos indicações importantes: refere-se, em primeiro lugar, à tradição que ele mesmo recebeu, e esta tradição vem do próprio Senhor, que deu a ordem de «refazer isso em memória dele»; indica, em seguida, que esta celebração recebida da tradição está integrada numa refeição, como a fração do pão na última Ceia e as refeições do Ressuscitado com os seus discípulos, em Emaús e em Jerusalém. Esta refeição coloca-nos em situação de esperança, sempre na espera do regresso do nosso Mestre Jesus Cristo, nosso Deus e Senhor.

 

SEQUÊNCIA

Terra, exulta de alegria,
Louva o teu pastor e guia,
Com teus hinos, tua voz.
 
Quanto possas tanto ouses,
Em louvá-l’O não repouses:
Sempre excede o teu louvor.
 
Hoje a Igreja te convida:
O pão vivo que dá vida
Vem com ela celebrar.
 
Este pão – que o mundo creia –
Por Jesus na santa Ceia
Foi entregue aos que escolheu.
 
Eis o pão que os Anjos comem
Transformado em pão do homem;
Só os filhos o consomem:
Não será lançado aos cães.
 
Em sinais prefigurado,
Por Abraão imolado,
No cordeiro aos pais foi dado,
No deserto foi maná.
 
Bom pastor, pão da verdade,
Tende de nós piedade,
Conservai-nos na unidade,
Extingui nossa orfandade
E conduzi-nos ao Pai.
 
Aos mortais dando comida,
Dais também o pão da vida:
Que a família assim nutrida
Seja um dia reunida
Aos convivas lá do Céu.
 
 

ALELUIA 

Jo 6,51

Aleluia. Aleluia.

Eu sou o pão vivo descido do Céu, diz o Senhor.
Quem comer deste pão viverá eternamente.
 
 

EVANGELHO

Lc 9, 11b-17

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
estava Jesus a falar à multidão sobre o reino de Deus
e a curar aqueles que necessitavam.
O dia começava a declinar.
Então os Doze aproximaram-se e disseram-Lhe:
«Manda embora a multidão
para ir procurar pousada e alimento
às aldeias e casais mais próximos,
pois aqui estamos num local deserto».
Disse-lhes Jesus:
«Dai-lhes vós de comer».
Mas eles responderam:
«Não temos senão cinco pães e dois peixes…
Só se formos nós mesmos
comprar comida para todo este povo».
Eram de facto uns cinco mil homens.
Disse Jesus aos discípulos:
«Mandai-os sentar por grupos de cinquenta».
Assim fizeram e todos se sentaram.
Então Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes,
ergueu os olhos ao Céu
e pronunciou sobre eles a bênção.
Depois partiu-os e deu-os aos discípulos,
para eles os distribuírem pela multidão.
Todos comeram e ficaram saciados;
e ainda recolheram doze cestos dos pedaços que sobraram.
  
 

Breve comentário ao Evangelho.

A refeição da fração do pão, que Jesus celebrou com os seus discípulos, é destinada ao conjunto do seu povo. O próprio Jesus significou isso alimentando a multidão que O seguia, como Deus o havia feito outrora no deserto.

Para viver, é preciso comer. E como Deus nos quer vivos, Ele próprio intervém. Como um Pai que cuida dos seus filhos, quando estes não encontram o alimento necessário. A tradição de Israel tinha guardado a memória de uma intervenção providencial, em que Deus tinha alimentado o seu povo no deserto, depois da saída do Egipto, com o maná e as codornizes (Ex 16); era um pão vindo do céu, portanto, de Deus.

Por seu lado, Jesus alimenta o povo que está quase a fracassar. Vários detalhes anunciam a Eucaristia: Jesus parte os pães e fá-los distribuir pelos seus discípulos, como na comunhão: o povo está organizado, os Apóstolos fazem o serviço, é a Igreja; no deserto, o maná era apenas suficiente, mas aqui, no banquete do Senhor, restam cestos cheios, porque o pão de Jesus é-nos oferecido generosamente, para que tenhamos a vida em abundância (Jo 10,10).

É impossível isolar a «ordem de reiteração» da Eucaristia propriamente dita de outras ordens que Jesus nos deu: muito próximo da Eucaristia, há o «exemplo» do lava-pés; há ainda o «mandamento do amor» e a necessidade primordial de amar o nosso próximo; e hoje, o apelo a darmos nós mesmos de comer àqueles que nada têm que comer. Significando já o Reino onde todos os bens superabundam, Jesus recorda que Ele quer associar desde já todos os batizados à sua construção, ao seu anúncio. E para isso, Ele santifica-nos com a sua própria vida.

Dehonianos

O Canto na Liturgia

 

Antífona de Entrada

O Senhor alimentou-nos – C. Silva

O Senhor alimentou o seu povo – F. Santos

O Senhor alimentou o seu povo – M. Carneiro

Da flor da farinha os alimentou – M. Carneiro

 

Salmo Responsorial

O Senhor é sacerdote para sempre (Sl 109) – M. Luís

Sequência 

Terra exulta de alegria – M. Faria

Antífona da Comunhão

Quem come a minha carne – M. Simões

Quem come a minha carne – F. Santos

Quem come a minha carne – M. Carneiro

Tomai e comei – F. Silva

 

 

Outros cânticos para a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

A minha carne é verdadeira comida – F. Silva

Abriu o Senhor as portas do Céu – Az. Oliveira

Bendito sejas, Senhor – A. Cartageno

Como é suave, Senhor – M. Luís

Corpo de Deus, Pão da vida – Az. Oliveira

Corpus Domini Nostri – M. Sousa Santos

Do Céu nos destes, Senhor, o pão – F.Santos

Ecce Panis – M. Ribeiro

Encheis a terra,Senhor – P. Miranda

Eucaristia, Corpo de Jesus –  P. Cruz

Eu sou o pão da vida – M. Luís

Eu sou o Pão da vidaquem me come não morrerá – B. Sousa

Eu sou o Pão vivo – M. Luís

Eu sou o Pão vivo – Duarte Morgado

Eu sou o Pão vivo descido do Céu – C. Silva

Isto é o meu corpo – F.Santos

Isto é o meu corpo – F. Santos

Isto é o meu corpo – C. Silva

Isto é o meu corpo – M. Carneiro

O Corpo de Jesus é alimento – A. Cartageno

O Corpo de Jesus é alimento –  D. Oliveira

O Pão de Deus  – J. Santos (NRMS 62| IC, p. 498)

O Pão que vem do Céu – T. Sousa

O Senhor abriu as portas do Céu – F. Silva

O Senhor deu-lhes o pão do Céu – Az. Oliveira

O vosso Corpo é o Pão – J. Santos

Ó Sagrado Banquete – C. Silva

Ó verdadeiro Corpo do Senhor – M. Simões

Ó verdadeiro Corpo do Senhor – C. Silva

Porque ele está connosco – F. Santos

Quem come deste pão – C. Silva

Quem comer deste pão – C. Silva

Quem come deste pão – M. Luís

Quem come deste pão – M. Luís

Saciastes o vosso povo – F. Silva

Senhor, Tu és o Pão – G. Kirbye

Somos o novo Israel – F. Santos

Vós sois o pão vivo, Senhor – F. Santos

Vós sois o pão vivo, Senhor – F. Silva

Ó sacrossanta Hóstia – J. Santos

 

 

 
 
 
 

ATITUDES FUNDAMENTAIS DA 

EUCARISTIA

 

 

INTRODUÇÃO

Que a Eucaristia é uma Festa é um dado adquirido. Mas é igualmente seguro que a Festa, biblicamente falando, é uma roda de alegria, um círculo aberto. Na verdade, na Bíblia, uma Festa é um encontro marcado (mô‘ed) , plural mô‘adîm, de ya‘ad [= marcar um encontro], com Deus e com os outros [1]. Sendo um encontro marcado com Deus e com os outros, então é sempre um espaço de alegria, de filialidade e de fraternidade. E se a Festa é de peregrinação, como são a Páscoa, as Semanas ou Pentecostes e as Tendas –, então a alegria, a filialidade e a fraternidade são ainda mais intensas, dado que Festa de peregrinação se diz, na língua hebraica, hag, plural hagîm. E hag deriva de hûg, que significa círculo, e, portanto, família, lareira, encontro, alegria, música, roda, dança, vida [2].

Os verbos implicam acção, traduzem atitudes, desenham passos e gestos. É, por isso, importante, neste estudo sobre a Eucaristia, começar por mostrar os verbos que lhe servem de suporte no Novo Testamento. Percorremos, para o efeito, todos os textos significativos que a manifestam: a) os cinco textos que se referem à instituição da Eucaristia (Mt 26,26-27; Mc 14,22-23; Lc 22,17-20; 1 Cor 11,23-26; 1 Cor 10,16), a que acrescentaremos ainda um texto do Livro dos Actos (27,35); b) os seis textos que habitualmente são mencionados a propósito da chamada «multiplicação dos pães» (Mt 14,19; 15,36; Mc 6,41; 8,6; Lc 9,16; Jo 6,11), a que acrescentaremos um sétimo (Lc 24,30), que também poderíamos catalogar na secção da instituição da Eucaristia. Apresentamos primeiro os verbos tal como aparecem no texto grego do NT, logo seguidos da respectiva versão em língua portuguesa. No que se refere à instituição da Eucaristia, apresentamos primeiro o pão, depois o cálice. No que diz respeito à chamada «multiplicação dos pães», apresentamos em primeiro lugar a primeira e depois a segunda, sendo que Lc 24,30 ocupa aqui o lugar da segunda, que falta em Lucas. João conta apenas uma.

 

1. TEXTOS REFERENTES À INSTITUIÇÃO DA EUCARISTIA

Mt 26,26-27        Mc 14,22-23     Lc 22,17-20      1 Cor 11,23-26

1 Cor 10,16         Act 27,35

 

2. TEXTOS REFERENTES À «MULTIPLICAÇÃO» DOS PÃES

Mt 14,19                        Mc 6,41           Lc 9,16               Jo 6,11

Mt 15,36                        Mc 8,6             Lc 24,30

 

3. VERBOS FUNDAMENTAIS DA EUCARISTIA

Tendo em conta os textos atrás apresentados, podemos enunciar assim os verbos fundamentais, que traduzem as atitudes fundamentais que fazem a Eucaristia:

RECEBER, BENDIZER e AGRADECER,
PARTILHAR e DAR,
COMEMORAR, ANUNCIAR e ESPERAR

Debruçar-nos-emos de seguida sobre cada um destes verbos e respectivas atitudes.

 

3.1. RECEBER (1 Cor 11,23b-26; Mt 26,26-29)

Como se vê no alinhamento dos textos bíblicos acima enunciados, o verbo «receber» (lambánô) abre todos os textos. Vejamo-lo, a título de exemplo, agora inserido em dois textos seleccionados:

«11,23(…) O SENHOR JESUS, na noite em que ia ser entregue (paredídeto),  RECEBEU  (élaben) o pão (árton),  24e dando graças (eucharistêsas), partiu-o (éklasen) e disse: “Isto é o meu corpo, que é para vós; isto fazei para memória de mim”. 25Do mesmo modo fez com o cálice, depois da ceia, dizendo: “Este cálice é a nova Aliança no meu sangue; isto fazei, sempre que o beberdes, para memória de mim”.26Portanto, sempre que comerdes este pão e beberdes este cálice, estais a anunciar (kataggéllete) a morte do Senhor até que Ele venha (áchris hoû élthê)» (1 Cor 11,23-26).

26,26Enquanto comiam, tendo RECEBIDO  (labôn) Jesus o pão (árton) e tendo bendito (eulogêsas), partiu-o (éklasen) e, tendo-o dado (dídômi) aos discípulos, disse: “RECEBEI  (lábete) e comei; isto é o meu corpo”. 27E tendo RECEBIDO  (labôn) um cálice, e tendo dado graças (eucharistêsas), deu-lho (édoken), dizendo: “Bebei dele todos;  28 isto é o meu sangue da aliança, que é derramado por muitos para remissão dos pecados”. 29Digo-vos a vós: “desde agora não beberei deste fruto da videira até (héôs) àquele dia em que beberei convosco o vinho novo no Reino do meu Pai”» (Mt 26,26-29).

O verbo «receber» (lambánô) qualifica a relação de Jesus em relação ao Pai, de quem recebeu tudo o que tem e é: «Este é o mandamento que recebi de meu Pai» (Jo 10,18; cf. Ap 2,28). O receber de Jesus em relação ao Pai está em relação com o «dar» do Pai a Jesus. O Pai deu ao Filho «tudo» (Jo 3,35; 13,3; 17,7; Mt 11,27), «ter a vida em si mesmo» (Jo 5,26), «as palavras» (Jo 17,8), o «julgamento» (Jo 5,22.27), «as obras» e «a obra» (Jo 5,36; 17,4), os homens (Jo 6,37.39; 10,29; 17,2.6.9-11-12.24; 18,9), a «glória» (Jo 17,22.24) … A identidade da pessoa do Pai constitui-se em dar tudo ao Filho, assim como a identidade do Filho se constitui em receber tudo do Pai. O Espírito, por sua vez, é aquele que recebe o que é do Filho, e que o Filho recebeu do Pai. E o que «recebe», o Espírito «anuncia» (Jo 16,13.14.15) [3]. A Eucaristia começa com um imenso movimento de recepção.

O homem bíblico deve viver de mãos abertas (kaph), mãos que recebem e dão. Deus governa o mundo com as mãos abertas, dando: «Ele governa o mundo com a palma da sua mão» (Ecli 18,3), que tem sempre posta sobre nós (Sl 139,5). O Talmud, que é a sabedoria hebraica condensada em cinco milhões de palavras, refere exemplarmente que o punho cerrado representa a sabedoria do imbecil, que pensa que detém o mundo nas malhas da sua rede. E refere depois que, quando a mão inicia o movimento de se abrir, é como as pétalas de uma flor que se abre à vida. E acrescenta: é assim que floresce a inteligência. E, quando a mão se abre completamente, é a mão do sábio, que não retém nada, mas conhece o valor do encontro e do dom. E, cruzando agora as duas mãos abertas, ficamos com a imagem do «pássaro, livre, que voa» [4].

Processo inverso ao da filosofia, desde Zenão a Platão, Descartes, Fichte e Nietzsche, que apresentam o conhecimento como a captura ou compreensão que o sujeito faz do objecto. A verdade (a-lêtheia) é assim o desvelamento ou desocultação a que o sujeito submete o objecto, para dele se apoderar, representando-o e reproduzindo-o na mente, «adequação entre a coisa e a mente» (adequatio rei et intellectus), como referem Aristóteles e Tomás de Aquino. O último Heidegger, o Heidegger de depois de Sein und Zeit  (1926), o Heidegger de Beiträge zur Philosophie (Vom Ereignis),  escrito entre 1936 e 1938, mas publicado postumamente, em 1989[5], considera que esta concepção de verdade é a matriz da violência do ocidente, e diz as coisas de outra maneira: não é o sujeito que captura e desoculta o objecto, mas é o objecto que sai do seu esconderijo e se oferece ao homem como dom, como evento (Ereignis). Por isso, a função do sujeito já não é capturar e dominar com o que há de «prender» no compreender [6], mas acolher com espanto e reconhecimento. A Bíblia e a teologia estão claramente do lado do último Heidegger. Mas vão muito mais longe: não se trata de objectos que se entregam ao homem; trata-se de um Tu, o Tu de Deus, que, por amor, vem até ao homem e a ele se entrega por amor [7], debruçando-se sobre ele e abaixando-se até ao ponto de lhe lavar os pés e a alma [8], de cuidar dele, de o alimentar, de lhe afagar o rosto, de o ensinar a andar:

«11,3Fui Eu que ensinei a andar Efraim,
que os ergui nos meus braços,
mas não conheceram que era Eu que cuidava deles!
4Com vínculos humanos (’adam) Eu os atraía.
Com laços de amor,
Eu era para eles como os que erguem (merîmîm: part. de rûm) uma criancinha de peito (‘ûl) contra a sua face (lehêhem: de  le),
e me debruçava (natah) sobre ela para a alimentar» (Os 11,3-4).

Mãos abertas para Receber. Para Acolher. Para Acariciar. Para Dar. Para Repartir. Para Condividir.

Receber é, portanto, um grande verbo bíblico, que traduz a maneira de ser de Deus e do homem. É paradigmático que a Bíblia apresente o pecado como a atitude de o ser humano não querer mais viver de mãos abertas, recebendo-se e recebendo tudo de Deus, que dá tudo ao homem (Gn 2), e queira passar a viver de mãos fechadas, fechado na sua autonomia, manifestada naquela atitude de estender a mão para apanhar, possuir e comer um fruto de uma árvore, por conta própria e a seu bel-prazer (Gn 3,6).

 

3.2. BÊNÇÃO/BENDIZER/DIZER BEM/QUERER BEM/FAZER BEM

3.2.1. Nós bendizemos

Apresentamos também, neste apartado, apenas alguns textos seleccionados e significativos, para se poder ver o termo «bênção» ou o verbo «bendizer» no seu contexto:

«10,16O cálice da BÊNÇÃO  (tò potêrion tês eulogías) que BENDIZEMOS  (eulogoûmen) não é comunhão no sangue de Cristo? O pão que partimos (kláô) não é comunhão no corpo de Cristo?» (1 Cor 10,16).

«26,26Enquanto comiam, tendo recebido (labôn) Jesus o pão (árton) e tendo BENDITO  (eulogêsas), partiu-o (éklasen) e, tendo-o dado (dídômi) aos discípulos, disse: “recebei (lábete) e comei; isto é o meu corpo”. 27E tendo recebido (labôn) um cálice, e tendo dado graças (eucharistêsas), deu-lho (édoken), dizendo: “Bebei dele todos; 28 isto é o meu sangue da aliança, que é derramado por muitos para remissão dos pecados”. 29Digo-vos a vós: “desde agora não beberei deste fruto da videira até (héôs) àquele dia em que beberei convosco o vinho novo no Reino do meu Pai”» (Mt 26,26-29).

«24,30E aconteceu que, tendo-se reclinado à mesa (kataklithênai: aor. inf. pass. de kataklínô) com eles, recebeu (labôn: part. aor2 de lambánô) o pão,  BENDISSE  (eulógêsen: aor. de eulogéô), e partiu (klásas: part. aor. de kláô) e dava-lhes (epedídou: imperf. de epidídômi) (Lc 24,30).

É sabido que o primeiro texto apresentado (1 Cor 10,16) é considerado a mais antiga evocação da Eucaristia, que, então, se chamaria eulogía, «bênção».

3.2.2. Deus bendiz

Deus que bendiz ou abençoa é uma das constantes da inteira Escritura. Com a sua bênção permanente (Sl 139,5; Ecli 18,3), Deus enche-nos de bem e de bondade. Vejamos apenas uma pequena, mas bela amostra das bênçãos de Deus nas Escrituras:

«6,24Deus te BENDIGA e te guarde,
25ilumine YHWH o seu rosto sobre ti e te faça graça (hanan),
26te faça ver YHWH o seu rosto e te conceda a paz!
27Porão assim o meu nome sobre os filhos de Israel e Eu os BENDIREI» (Nm 6,24-27).
 
«48,15… “Que o Deus diante de quem caminharam os meus pais, Abraão e Isaac, que o Deus que foi o meu Pastor desde que eu nasci até hoje,
16que o Anjo que me salvou de todo o mal BENDIGA estas crianças (…),
que elas cresçam e se multipliquem sobre a terra!”» (Gn 48,15-16).
 
«3,26Para vós, antes de mais, Deus ressuscitou o seu Servo e enviou-o para vos BENDIZER  (eulogéô) (Act 3,26)».
 

3.2.3. Outros bendizeres

Apresentamos ainda, neste último apartado dedicado ao verbo «bendizer», um entrançado de pequenas fórmulas que atravessam a Escritura e a liturgia Eucarística:

«41,14BENDITO seja YHWH, Deus de Israel, desde agora e para sempre!» (Sl 41,14; cf. 72,18; 89,53; 106,48), servindo de separador aos cinco livros dos Salmos.

«1,68BENDITO seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e redimiu o seu povo» (Lc 1,68) (Zacarias).

«1,3BENDITO  (eulogêtós) o Deus e Pai do Senhor nosso Jesus Cristo,

que nos BENDISSE (eulogêsas) com todas as BÊNÇÃOS (eulogía) espirituais em Cristo» (Ef 1,3) (Paulo).

«6,28BENDIZEI os que vos maldizem» (Lc 6,28).

«BENDITO sejais, Senhor, Deus do Universo, pelo pão que recebemos da vossa BONDADE… (Oferta dos dons).

«ABENÇOE-VOS (BENDIGA-VOS)  Deus todo-poderoso, Pai… (Bênção final).

É sabida a importância da Bênção bíblica (berakah), que é sempre unitiva – ao contrário da Maldição (‘alah), que divide –, e une num círculo inquebrável Deus e o Homem, o Homem e Deus, e os Homens entre si, estendendo-se a sua influência benfazeja à inteira criação. Partindo de Deus, então é Deus que une a si e entre si a humanidade bendita. Bendizer Deus, por parte do homem, implica uma verdadeira ruptura «epistemológica»: a bênção reconduz as coisas criadas ao seu estatuto de dom e retira ao homem o poder sobre elas e entrega-o a Deus, ficando assim o homem constituído em puro beneficiário em relação às coisas [9]. Numa perspectiva bíblica, as coisas não são objecto de bênção, mas motivo de bênção [10]Barak é o grande verbo hebraico que traduz a força da bênção bíblica, unitiva e circular. E é debarak e da berakah hebraica que se desdobram os verbos eulogéô eeucharistéô, em que assenta a nossa Eucaristia [11], e fazem dela um círculo unitivo de bênção e de amor.

 

3.3. DAR GRAÇAS / AGRADECER  (1 Cor 11,23-26)

Para contextualizar a locução «dar graças» (eucharistéô), apresentamos o texto muito significativo de 1 Cor 11,23-26):

«11,23 (…) O Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue (paredídeto), recebeu (élaben) o pão (árton),  24e DANDO GRAÇAS (eucharistêsas), partiu-o (éklasen) e disse: “Isto é o meu corpo, que é para vós; isto fazei para memória de mim”. 25Do mesmo modo fez com o cálice, depois da ceia, dizendo: “Este cálice é a nova Aliança no meu sangue; isto fazei, sempre que o beberdes, para memória de mim”.26Portanto, sempre que comerdes este pão e beberdes este cálice, estais a anunciar (kataggéllete) a morte do Senhor até que Ele venha (áchris hoû élthê)» (1 Cor 11,23-26).

Já sabemos que os termos eulogía e eucharistía, ambos derivados do hebraico barak/berakah, são, no NT, usados indiferentemente como sinónimos (basta ver como são usados indistintamente nos textos da instituição da Eucaristia e da chamada «multiplicação dos pães»). Na tradição litúrgico-eclesial, acabou, no entanto, por prevalecer o termo eucharistía para indicar o rito por ecelência da celebração cristã [12].

 

3.4. PARTIR / FRACÇÃO DO PÃO  (Act 2,42; Lc 24,35)

Mais uma vez, para contextualizar e sublinhar esta atitude, oferecemos uma pequeníssima, mas significativa selecção de textos, com o intuito de mostrar bem a dimensão intensamente fraterna da Eucaristia:

«2,42Eram perseverantes no ensino dos Apóstolos e na comunhão, na FRACÇÃO DO PÃO (klásis toû ártou) e na oração» (Act 2,42).

«24,30E aconteceu que, tendo-se reclinado à mesa (kataklithênai: aor. inf. pass. de kataklínô) com eles, recebeu (labôn: part. aor2 de lambánô) o pão, bendisse (eulógêsen: aor. de eulogéô), e PARTIU  (klásas: part. aor. de kláô) e dava-lhes (epedídou: imperf. De  epidídômi). 31Foram abertos (diênoíchthêsan: aor. pass. de dianoígô) então os seus olhos e reconheceram-no (epégnôsan: aor2 de epignôskô), mas ele desapareceu da vista deles. […]  35 E eles explicavam (exêgoûnto: imperf. de exêgéomai) as coisas acontecidas no caminho (tà en tê hodô) e como foi reconhecido (egnôsthê: aor. pass. de ginôsko) por eles NO PARTIR DO PÃO» (en tê klásei toû ártou) (Lc 24,30-35).

Na verdade, não se trata de «partir o pão» para vincar uma simples dimensão ou sentimento sócio-caritativo. Trata-se, antes, de afirmar que nenhum de nós é dono, mas simples servo, pertencendo a Deus a propriedade de tudo, com base no espantoso texto de Lv 25,23: «Toda a terra é minha, e vós sois, para mim, estrangeiros (gerîm) e hóspedes (tôshabîm)». Partir o pão entre nós é então uma exigente afirmação teológica e ontológica da soberania boa de Deus e da nossa fraternidade recebida[13].

3.4.1. Hospedados na casa de Deus: «Secção dos pães» (Mc 6,30-8,26)

O episódio a seguir referido ilustra e esclarece a afirmação teológica que acabámos de fazer no apartado anterior acerca da soberania boa de Deus e da nossa condição de hóspedes e de irmãos:

«6,30E reúnem-se os apóstolos junto de JESUS e contam-lhe todas as coisas que tinham feito e ensinado.  31Ele diz-lhes: “Vinde vós, à parte, para um lugar deserto, e descansai um pouco”. Eram, na verdade, muitos os que vinham e partiam, e nem sequer para comer tinham tempo.  32E partiram numa barca para um lugar deserto, à parte. 33Viram-nos, porém, partir, e sabendo, muitos, a pé, de todas as cidades, correram e chegaram antes deles.  34E tendo saído da barca, viu uma grande multidão e TEVE MISERICÓRDIA (esplagchnístê) deles, porque eram como ovelhas sem pastor (cf. Is 53,6).

E COMEÇOU A ENSINAR-LHES (êrxato didáskein) muitas coisas.  35E tendo a hora adiantado muito, aproximaram-se d’Ele os discípulos d’Ele e diziam: “O lugar é deserto e a hora adiantada.  36MANDA-OS EMBORA, para que, partindo para os campos e aldeias à volta, COMPREM de comer PARA SI MESMOS  (heautoîs) ”. 37Então Ele, respondendo, disse-lhes: “DAI-LHES vós de comer”. Dizem-lhe: “Partindo, compraremos duzentos denários de pães (ártous) para lhes dar de comer?” 38Ele diz-lhes. “Quantos pães (ártous) tendes? Ide ver”. E tendo sabido, dizem: “Cinco, e dois peixes”. 39E ordenou-lhes que fizessem reclinar (anaklínô) a todos, em grupos, sobre a erva verde (klôròs chórtos). 40E sentaram-se em grupos de cem e de cinquenta.  41E recebendo (labôn) os cinco pães (ártous) e os dois peixes, levantou os olhos (anablépsas) para o céu, bendisse (eulógêsen) e PARTIU  (katéklasen) os pães (ártous) e dava (edídou) aos discípulos d’Ele para que os pusessem diante deles, e os dois peixes repartiu para todos.  42E todos comeram e foram cheios,  43e recolheram doze cestas (kóphinoi)[14] cheias de pedaços de pão (klásmata) e dos peixes.  44Os que tinham comido os pães (ártous) eram cinco mil homens (ándres)» (Mc 6,30-44).

O episódio que acabámos de referir, retirado do Evangelho de Marcos, é conhecido como a «primeira “multiplicação dos pães”», realizada, neste caso, em mundo judaico. Mas vê-se bem que o título de «multiplicação» é inadequado, pois o que está aqui em causa não é, na verdade, uma multiplicação, mas uma divisão ou condivisão [15].

Neste episódio, salta à vista o comportamento compassivo, acolhedor, inclusivo e de partilha de Jesus em confronto com o comportamento insensível, não-acolhedor, exclusivista, frio, mercantilista, consumista, egoísta e egocêntrico destes discípulos de Jesus, que propõem a Jesus que mande as pessoas embora, para que cada um compre de comer para si mesmo (Mc 6,36). O diagrama a seguir mostra os dois comportamentos em confronto:

Jesus Discípulos
Misericórdia Acolher

Ensinar

Dar

Condividir

Insensibilidade Excluir

Mandar embora

Comprar

Cada um para si

A Escritura mostra que o perigo espreita sempre que se quebra o círculo da fraternidade, e alguém passa a viver, a comprar, a acumular para si mesmo, ou a querer salvar-se a si mesmo (heautô) (Ez 34,2; Lc 12,21; 23,35.37.39; Rm 14,7; 2 Cor 5,15)[16]:

«34,2Filho do Homem, profetiza contra os pastores de Israel. Profetiza e diz-lhes: “Contra os pastores, assim diz o Senhor YHWH: Ai (hôy) dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos (ro‘îm ’ôtam TM; poiménes heautoús LXX) ”» (Ez 34,2; cf. 34,8.10).

«12,21Assim acontece àquele que entesoura (ho têsaurízôn) para si mesmo (heautô), e não é rico para Deus» (Lc 12,21).

«23,35Também os chefes faziam pouco dele, dizendo: “Salvou outros; que se salve a si mesmo (heautón)» (Lc 23,35).

«23,36Também os soldados faziam pouco dele, e, aproximando-se, ofereciam-lhe azeite,  37e diziam: se tu és o Rei dos judeus, salva-te a ti mesmo (seautón)”» (Lc 23,36-37).

«23,39Um dos malfeitores suspensos blasfemava, dizendo-lhe: “Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo (seautón) e a nós”» (Lc 23,39).

«147Nenhum de nós para si mesmo (heautô) vive e nenhum para si mesmo (heautô) morre;  8se vivemos, é para o Senhor (tô Kyríô) que vivemos; se morremos, para o Senhor (tô Kyríô) morremos» (Rm 14,7).

«5,15E por todos (Cristo) morreu, para que os vivos não vivam para si mesmos (heautoîs), mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou» (2 Cor 5,15).

Sempre neste sentido, o inédito da Cruz é «obsceno», no sentido etimológico, fica fora da cena do nosso imaginário. Diz muito bem Silvano Fausti: «Um sistema de violência acaba sempre por repousar sobre uma alternativa: matar ou ser morto. Nós escolhemos preventivamente a primeira: cada um de nós faz o mal que pode, como profissão principal, de maneira a ser bem sucedido: o ladrão ou o banqueiro, o comerciante ou o operário, o médico ou o barbeiro, o patrão ou o criado, o padre ou o assaltante, o benfeitor ou o delinquente. Cada um, com os meios que tem, pensa primeiro em si» [17]. Na verdade, se cada um é inimigo do outro por definição, e se, para cada um, prioritária é a salvaguarda da ameaça do outro, as possibilidades do eu são vencer ou sucumbir, e, em caso extremo, matar ou ser morto [18]».

O que estes malfeitores, que somos nós, não sabemos, e, por causa deste nosso não saber, fazemos o mal, é que existe um Pai, a quem compete cuidar dos seus filhos. E se temos um Pai que cuida de nós, não nos compete ser inimigos, mas irmãos. E se somos filhos e irmãos, também não compete a cada um prover-se e salvar-se a si mesmo, pois é o nosso Pai que nos alimenta, nos veste e nos salva (Mt 6,26-34).

Aí está outra vez à vista o inédito da Cruz: Jesus não se salva a si mesmo, porque salvar-se a si mesmo é mau. Na verdade, é para se salvarem a si mesmos que os homens se odeiam e fazem guerra. Ora, Jesus quer salvar-nos a nós. E, para nos salvar a nós, perde-se a si mesmo. Exactamente o contrário do que fazemos nós, que perdemos os outros pensando que assim nos salvamos a nós mesmos [19].

 

3.5. DAR

A atitude das mãos abertas em relação a Deus, para tudo receber dele, deve agora manter-se em direcção aos nossos irmãos, sublinhando a atitude de dar. Eis também, a título ilustrativo, um breve repositório de textos:

«26,26Enquanto comiam, tendo recebido (labôn) Jesus o pão (árton) e tendo bendito (eulogêsas), partiu-o (éklasen) e, tendo-o DADO  (dídômi) aos discípulos, disse: “recebei (lábete) e comei; isto é o meu corpo”.27E tendo recebido (labôn) um cálice, e tendo dado graças (eucharistêsas),  DEU-lho (édoken), dizendo: “Bebei dele todos;  28 isto é o meu sangue da aliança, que é derramado por muitos para remissão dos pecados”. 29Digo-vos a vós: “desde agora não beberei deste fruto da videira até (héôs) àquele dia em que beberei convosco o vinho novo no Reino do meu Pai”» (Mt 26,26-29).

«24,30E aconteceu que, tendo-se reclinado à mesa (kataklithênai: aor. inf. pass. de kataklínô) com eles, recebeu (labôn: part. aor2 de lambánô) o pão, bendisse (eulógêsen: aor. de eulogéô), e partiu (klásas: part. aor. de kláô) e DAVA-lhes (epedídou: imperf. de epidídômi)» (Lc 24,30).

«16,20nutriste o teu povo com um alimento de ANJOS, / DESTE-lhe o PÃO do CÉU, / com mil sabores:/ 21manifestava a tua DOÇURA (glykýtês). // 26Assim os teus FILHOS QUERIDOS aprenderam, Senhor, / que NÃO É A PRODUÇÃO DE FRUTOS que alimenta os homens, / mas a tua palavra que a todos sustenta» (Sb 16,20-21.26).

Textos sublimes. Mostram, sobretudo o último, que não são as coisas que contam, mas a bondade, a doçura e a intencionalidade de Deus que as habita e as faz ser [20], e que os nossos gestos devem realizar no quotidiano essas maravilhas que celebramos ritualmente na Eucaristia. Note-se ainda, no texto de Lc 24,30, a tradução da vida toda de Jesus como aquele que dá sempre – continuando, portanto, a dar ainda hoje –, atitude expressa naquele imperfeito de duração (Dava-lhes) [21].

 

3.6. COMEMORAR / FAZER EM MEMÓRIA DE MIM

Seleccionámos um único texto, para nos ensinar esta importante atitude eucarística, que passa muitas vezes despercebida:

«11,23Eu recebi (parélabon) do Senhor o que também vos transmiti (parédôka): que o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue (paredídeto), recebeu (élaben) o pão (árton),  24e dando graças (eucharistêsas), partiu-o (éklasen) e disse: “Isto é o meu corpo, que é para vós; isto fazei para MEMÓRIA DE MIM” (toûto poieîte eis tên emên anámnêsin). 25Do mesmo modo fez com o cálice, depois da ceia, dizendo: “Este cálice é a nova Aliança no meu sangue; isto fazei, sempre que o beberdes, para MEMÓRIA DE MIM” (toûto poieîte… eis tên emên anámnêsin). 26Portanto, sempre que comerdes este pão e beberdes este cálice, estais a anunciar (kataggéllete) a morte do Senhor até que Ele venha (áchris hoû élthê)» (1 Cor 11,23-26).

Trata-se de «fazer memória» de uma pessoa concreta. Não consiste em qualquer procedimento mental ou psicológico tipicamente cartesiano ou do pensamento moderno, nem sequer da muito falada «reactualização», de acordo com a escola do mito ciclicamente encenado pelo rito, «a escola mítico-ritual» (The Myth and Ritual School), de A. Bentzen, S. H. Hooke e S. Mowinckel [22]. Trata-se do nosso envolvimento pessoal na proclamação da morte de Cristo com a nossa vida, e com estilos de vida concretos, que resultam da compreensão da nossa identidade de cristãos em plena comunhão com Cristo que dá a sua vida para salvar a nossa [23]. «Fazer memória» de Jesus e da sua morte na Cruz não quer dizer recordar o seu sofrimento, porque o sofrimento, em si mesmo, não redime, e, como ensina a experiência, pode mesmo fechar-nos na incompreensão; também não se trata de recordar a coragem com que enfrentou a paixão e a morte injustas (também os heróis gregos souberam enfrentar com dignidade a sua sorte adversa); trata-se, antes, de contemplar com a inteligência e o coração o milagre do amor que, naquela Cruz, se despregou [24].

 

3.7. ANUNCIAR

Voltamos ao grande texto de 1 Cor 11,23-26, para inculcar esta fundamental atitude Eucarística, também bastante negligenciada:

«11,23Eu recebi (parélabon) do Senhor o que também vos transmiti (parédôka): que o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue (paredídeto), recebeu (élaben) o pão (árton),   24e dando graças (eucharistêsas), partiu-o (éklasen) e disse: “Isto é o meu corpo, que é para vós; isto fazei para memória de mim” (toûto poieîte eis tên emên anámnêsin). 25Do mesmo modo fez com o cálice, depois da ceia, dizendo: “Este cálice é a nova Aliança no meu sangue; isto fazei, sempre que o beberdes, para memória de mim” (toûto poieîte… eis tên emên anámnêsin). 26Portanto, sempre que comerdes este pão e beberdes este cálice,  ESTAIS A ANUNCIAR  (kataggéllete) a morte do Senhor até que Ele venha (áchris hoû élthê)» (1 Cor 11,23-26).

A sintaxe e o encadeado das palavras mostra que a ênfase é colocada na «morte do Senhor», mas apresenta também a forma verbalkataggéllete como um presente contínuo, com o significado de «vós estais a anunciar». Esta forma de dizer, não só retoma da anterior atitude a nossa identificação com Cristo que dá a sua vida por nós, mediante estilos de vida concretos, como dá um passo em frente, reclamando de nós, como requer em muitas outras passagens o uso do verbo kataggéllô, o anúncio concreto do Evangelho (1 Cor 9,14), pregar a palavra de Deus (Act 13,5), pregar Cristo (Act 4,2; Fl 1,17-18). Este kataggéllô, além de reclamar a nossa radical identificação com Cristo que dá a sua vida por nós, convida-nos ainda a subir ao púlpito para proclamar o Evangelho de Cristo, alto e bom som [25]. Anunciar a morte de Jesus não tem qualquer sentido fúnebre, não é anunciar o sofrimento dorido ou a coragem do herói, tão-pouco a resignação ou, no pólo oposto, qualquer aspecto belicoso – do tipo in hoc signo vinces, de constantiniana memória, ou dos estandantes dos cruzados [26], ou qualquer outra manifestação de heroicidade por alguém e contra alguém, como vemos nos modernos kamikaze  –, mas sim a soberana novidade da dádiva da vida.

 

3.8. ESPERAR / ATÉ QUE ELE VENHA

Ainda o mesmo texto de 1 Cor 11,23-26 para vincar uma nova atitude da esperança cristã, também, por sinal, bastante esquecida:

«11,23Eu recebi (parélabon) do Senhor o que também vos transmiti (parédôka): que o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue (paredídeto), recebeu (élaben) o pão (árton),   24e dando graças (eucharistêsas), partiu-o (éklasen) e disse: “Isto é o meu corpo, que é para vós; isto fazei para memória de mim”. 25Do mesmo modo fez com o cálice, depois da ceia, dizendo: “Este cálice é a nova Aliança no meu sangue; isto fazei, sempre que o beberdes, para memória de mim”.26Portanto, sempre que comerdes este pão e beberdes este cálice, estais a anunciar (kataggéllô) a morte do Senhor ATÉ QUE Ele venha (áchris hoû élthê)» (1 Cor 11,23-26).

Este «até que» desenha claramente a grande atitude da esperança cristã, que deve informar todos os gestos do nosso quotidiano, mesmo os mais humildes, como os textos a seguir referidos documentam [27]:

«26,29ATÉ QUE  (héôs) venha o Reino de Deus» (Mt 26,29; Mc 14,25; Lc 22,16-18);

«13,33O Reino de Deus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e introduziu em sessenta quilos de farinha “ATÉ QUE” (héôs) tudo fique levedado» (Mt 13,33; Lc 13,21);

«15,4Qual o homem entre vós que tendo cem ovelhas e tendo perdido delas uma só, não deixa as noventa e nove no deserto e vai atrás da que perdeu  ATÉ  (héôs) a encontrar?» (Lc 15,4);

«15,8Ou qual a mulher que tendo dez dracmas, se perder uma só, não acende uma luz e varre a casa e procura atentamente  ATÉ  (héôs) a encontrar?» (Lc 15,8).

«10,8ESPERARÁS sete dias  ATÉ  (‘ad TM / héôs LXX) eu ir ter contigo para te fazer ver o que deves fazer» (1 Sm 10,8).

A esperança bíblica e cristã traduz-se numa fortíssima atitude eucarística, que torna o nosso rosto tenso para receber Alguém (apekdechómethaapò + ek + déchomai) (Rm 8,25), no sentido de quem vive de (ek) receber e de se receber (déchomai) de Alguém (1 Cor 1,7)[28], saindo de si (apó) para se orientar completamente para o Outro (Sl 130,5-6):

«130,5Eu espero (qiwwitî) YHWH, / nele espera (qiwwetah) a minha alma (naphshî), / e na sua palavra confio (hôhaltî). / 6A minha alma para o Senhor, / mais do que as sentinelas para a manhã, / as sentinelas para a manhã» (Sl 130,5-6).

Esta intensa prece individual assenta na forma  piel  (intensiva) do verbo  qawah  (2 vezes) – «esperar em» – e na forma  hiphil  (causativa) do verbo  yahal  – «esperança e confiança em nós provocada» por Deus, tensão nova e segura, caminho novo e seguro, aberto por Deus e trilhado por nós com a confiança que brota do amor [29].

A mesma atitude é expressa com apokaradokía:   apò  +  kára  +  dokía  (Rm 8,19; Fl 1,20)[30], termo cunhado por Paulo, e que traduz um rosto tenso para Deus, à espera de Deus. Tanta é a força da espera esperante que nos move, que é como se o nosso rosto (kára), de tão tendido (dokía) pela atitude da espera, quase se desligasse do pescoço (apó).

No mundo grego, esperança é elpís, e tem o significado de «previsão», «lícita expectativa», assente nos nossos calculismos e exercícios racionais [31]. Ao contrário, a esperança bíblica e cristã é sem medida, tem a ver com o nunca antes visto, aponta para além das leis da natureza, está em luta aberta contra as evidências. Trata-se de «esperar contra a esperança» (par’ elpída ep’ elpídi = contra a esperança na esperança)» (Rm 4,18) [32]. É assim que Paulo define a atitude de Abraão. No mundo hebraico, esperança é tiqwah [33], e deriva de qaw, que pode significar «fio», «fita métrica», «cordel para medir». Percebe-se que tem a ver com o «fio» que se estende para medir, até chegar à medida ainda sem medida e sem solução à vista, mas que tem solução recebida de Deus. É como o «fio», a «corda», o «arame» estendido entre a dor e a consolação esperada, entre a humanidade e Deus, fio tenso e seguro entre duas mãos, a de Deus e a nossa. A esperança bíblica e cristã consiste na dupla atitude de estarmos sempre à espera de Alguém, e de sabermos que Alguém espera por nós.

 

4. CÂNON, ANÁFORA, PREFÁCIO, ORAÇÃO EUCARÍSTICA

O termo «cânon», do hebraico nekonah [34], que significa «cana», «unidade de medida», é o mais antigo e venerando em uso no Ocidente, desde S. Gregório Magno (535-604) até ao II Concílio do Vaticano. Com o recurso a este termo, a tradição quis dizer que o louvor ou a bênção, que se segue à oração universal, não é apenas uma oração entre outras, mas a oração normativa e paradigmática, a oração por excelência [35]. Abre com: «Corações ao alto!» e «Demos Graças ao Senhor, nosso Deus»! Termina com a doxologia epiclética: «Por Cristo, com Cristo, em Cristo, / a vós, Deus Pai, todo-poderoso, / na unidade do Espírito Santo, / toda a honra e toda a glória, / agora e para sempre».

O termo «anáfora» impôs-se sobretudo nas Igrejas do Oriente, e implica um movimento ascensional, sair do «eu», até à alteridade divina, num puro movimento de louvor e reconhecimento [36]. Em tudo semelhante é o termo «prefácio», que remete para o latim  preafari  [= proclamar], que põe em evidência o aspecto público e solene do louvor que o presidente da assembleia formula oficialmente em nome de toda a assembleia celebrante [37].

A locução «oração eucarística» impôs-se sobretudo a partir do II Concílio do Vaticano [38], e traduz todos os significados já apresentados nos verbos analisados em 5.

Apraz-me terminar recorrendo a S. Paulo e à Anáfora III: «Na noite em que Ele ia ser entregue…» (1 Cor 11,23): assim começa a mais bela melodia que conheço!

Dá-nos, Senhor, um coração novo,
capaz de conjugar em cada dia
os verbos fundamentais da Eucaristia:
RECEBER, BENDIZER e AGRADECER,
PARTILHAR e DAR,
COMEMORAR, ANUNCIAR e ESPERAR.
 
Dá-nos, Senhor, um coração sensível e fraterno,
capaz de escutar
e de recomeçar.
 
Mantém-nos reunidos, Senhor,
à volta do pão e da palavra.
E ajuda-nos a discernir
os rumos a seguir
nos caminhos sinuosos deste tempo,
por Ti semeado e por Ti redimido.
 
Ensina-nos, Senhor,
a saber colher
o Teu amor
semeado e redentor.
 
Única fonte de sentido
que temos para oferecer
a este mundo
de que és o único Salvador. 

 

D. António Couto


[1] G. DEIANA, Levitico. Nuova versione, introduzione e commento, Milão, Paoline, 2005, p. 244-245 e 254; J. ELIAS, The Haggadah. Passover Haggadah / with translation and a new commentary based on Talmudic, Midrashic, and Rabbinic Sources, Nova Iorque, Mesorah Publications, 3.ª ed., 1980, p. 58.

[2] J. ELIAS, The Haggadah, p. 58.

[3] G. FERRARO, Il Paraclito, Cristo, il Padre nel quarto Vangelo, Cidade do Vaticano, Editrice Vaticana, 1996, p. 137-138.164; S. A. PANIMOLLE,Dio Padre nel Nuovo Testamento, in S. A. PANIMOLLE (ed.), Abbà-Padre(Dizionario di Spiritualità Biblico Patristica [= DSBP], 1), Roma, Borla, 1992, p. 132-133; C.-J. PINTO DE OLIVEIRA, Le verbe Didónai comme expression des rapports du Père et du Fils dans le IVe Évangile, in Revue des Sciences Philosophiques et Théologiques, 49, 1965, p. 81-104.

[4] M.-A. OUAKNIN, Les dix commandements, Paris, Seuil, 1999, p. 250-251.

[5]  M. HEIDEGGER, Beiträge zur Philosophie (Vom Ereignis), Frankfurt am Main, Klostermann, 1989. Veja-se a recente tradução italiana Contributi alla Filosofia (dall’Evento), Milão, Adelphi Edizioni, 2007.

[6] Expressão usada por E. LEVINAS, Ética e infinito. Diálogos com Philippe Nemo, Lisboa, Edições 70, 2000, p. 53.

[7] C. DI SANTE, Parole di luce. Segnavia dello Spirito, Villa Verucchio, Pazzini, 2005, p. 119-126.

[8] H. URS VON BALTHASAR, L’amour seul est digne de foi, Aubier, Montaigne, 1966, p. 130-131.

[9] C. DI SANTE, La Preghiera di Israele. Alle origini della liturgia cristiana, Casale Monferrato, Marietti, 1985, p. 44-45.

[10] C. DI SANTE, L’eucaristia terra di benedizione. Saggio di Antropologia Biblica, Bolonha, EDB, 1987, p. 13.

[11] C. DI SANTE, La preghiera eucaristica erede e interprete della berakah, in A. N. TERRIN (ed.), Scriptura crescit cum orante. Bibbia e liturgia – II, Pádua, Messagero, 1993, p. 131-150; C. DI SANTE,L’eucaristia terra di benedizione.

[12] C. DI SANTE, L’eucaristia terra di benedizione, p. 11.

[13] C. DI SANTE, L’eucaristia terra di benedizione, p. 27-29 e 176-202; C. DI SANTE, Parola e Terra. Per una teologia dell’ebraismo, Génova, Marietti, 1990, p. 48-58.

[14] De notar as doze cestas (kóphinoi) dos judeus (6,43; 8,19) em confronto com os sete cestos (spyrídes) dos pagãos (8,8.20). Diferença de tamanho e diferente simbologia numérica.

[15] Ver, a propósito, a inteligente reflexão de C. DI SANTE, L’Eucaristia terra di benedizione, p. 190-202; C. DI SANTE, Eucaristia. L’amore estremo, Villa Verucchio, Pazzini, 2005, p. 110-112; C. DI SANTE,Risponsabilità. L’io-per-l’altro, Roma – Fossano, Lavoro – Esperienze, 1996, p. 154-157; G. PERINI, Le domande di Gesù nel Vangelo di Marco. Approccio pragmatico: ricorrenze, uso e funzioni, Roma – Milão, Pontificio Seminario Lombardo – Glossa, 1998, p. 75.

[16] A. SERRA, La fuga e il ritorno del figlio prodigo (Lc 15,11-32). Parabola del peccato e della conversione d’Israele?, in R. FABRIS (ed.), La Parola di Dio cresceva (At 12,24), p. 238.

[17] S. FAUSTI, L’Idiozia. Con postilla sul giubileo, Milão, Àncora, 1999, p. 53.

[18] C. DI SANTE, La passione di Gesù, 136.

[19] S. FAUSTI, L’Idiozia, p. 57-58.

[20] A. WÉNIN, Pas seulement de pain… Violence et alliance dans la Bible, Paris, Cerf, 1998, p. 220-221.

[21] Ch. PERROT, Emmaüs ou la rencontre du Seigneur (Lc 24,13-35), in M. BENZERATH, A. SCHMID, J. GUILLET (eds.), La Pâque du Christ Mystère de Salut. Mélanges offerts au P. F.-X. Durrwel pour son 70eanniversaire avec un témoignage du jubilaire, Paris, Cerf, 1982, p. 164.

[22] A. C. THISELTON, The First Epistle to the Corinthians. A Commentary on the Greek Text, Grand Rapids – Cambridge – Carlisle, Eerdmans – Paternoster, 2000, p. 878-879, com outras referências.

[23] A. C. THISELTON, The First Epistle to the Corinthians, p. 880-882.

[24] C. DI SANTE, Eucaristia. L’amore estremo, p. 76.

[25] A. C. THISELTON, The First Epistle to the Corinthians, p. 886-887.

[26] G. BARBAGLIO, Il pensare dell’apostolo Paolo, Bolonha, EDB, 2004, p. 118.

[27] P. GRELOT, L’institution du «Repas du Seigneur». Pour une lecture des textes parallèles, in Esprit et Vie, 34-35-36, 1996, p. 478.

[28] B. MAGGIONI, Il Dio di Paolo. Il vangelo della grazia e della libertà, Milão, Paoline, 2.ª ed. actualizada e ampliada, 2008, p. 113.

[29] E. S. GERSTENBERGER, Psalms, Part 2, and Lamentations [«The Forms of the Old Testament Literature», Vol. XV], Grand Rapids – Cambrigde, Eerdmans, 2001, p. 356-357.

[30] O termo apokaradokía, de apo + kara + dokéô [= fora de + cara (rosto) + esperar], não aparece no grego antes do cristianismo, e Paulo é o único a usá-lo no NT (Rm 8,19; Fl 1,20), e mostra o gesto de quem alonga o pescoço para ver o que vai suceder e traduz bem as criaturas como pessoas. S. LÉGASSE, L’épître de Paul aux Romains, Paris, Cerf, 2002, p. 538, nota 24; D. MOO, The Epistle to the Romans, «The New International Commentary on the New Testament», Grand Rapids, Eerdmans, 1996, p. 513; J. A. FITZMYER, Lettera ai Romani. Commentario critico-teologico, Casale Monferrato, Piemme, 1999, p. 603-604.

[31] D. GAROTA, Tra caparra e compimento, in R. FABRIS, D. GAROTA, M. GUZZI, C. MILITELLO, M. TENACE, Salvati nella Speranza. Commento e guida alla lettura dell’Enciclica Spe Salvi di Benedetto XVI, Milão, Paoline, 2008, p. 142.

[32] D. GAROTA, Tra caparra e compimento, p. 142.

[33] D. GAROTA, Tra caparra e compimento, p. 142.

[34] «…Não falastes canonicamente (nekonah) de mim, como fez o meu    servo Job» (Jb 42,7).

[35] C. DI SANTE, L’Eucaristia terra di benedizione, p. 67-68; C. DI SANTE, Eucaristia. L’Amore estremo, p. 52-53.

[36] C. DI SANTE, Eucaristia. L’Amore estremo, p. 53-54.

[37] C. DI SANTE, Eucaristia. L’Amore estremo, p. 54.

[38] C. DI SANTE, Eucaristia. L’Amore estremo, p. 54-60.

 

 

 

 

 

PÃO PARTILHADO É PÃO ABENÇOADO!

 

Pão partilhado é pão abençoado!

Homilia na Solenidade do Corpo de Deus

1. Experiência humana

Sem dúvida que, de entre as diversas mercearias da nossa cozinha, o alimento mais popular entre nós é o pão. Um alimento descoberto há 6000 mil anos na Mesopotâmia e que, mais tarde, durante a civilização egípcia, começou a ser fermentado e consumido tal como nos dias de hoje. Daqui surgiram depois as primeiras padarias, criadas pelos hebreus na cidade de Jerusalém, e, com a chegada do Império Romano, este alimento difundiu-se por toda a Europa, graças à criação de escolas especializadas neste fabrico.

Contudo, só passados apenas 4000 anos de fabricação deste alimento, chegou alguém capaz de nos indicar o modo correcto de consumir este alimento, como escutávamos no evangelho de hoje. Ora, e se é verdade que a sabedoria popular nos ensina que “pão comido é pão esquecido”, Jesus, porém, opta por uma outra lógica: “pão partilhado é pão abençoado!” (isto é, aprovado por Deus).

2. Liturgia da Palavra/Reflexão Teológica

Neste sentido, o excerto da Primeira Carta aos Coríntios, que escutávamos na segunda leitura, apresenta-nos a narração mais antiga da instituição da eucaristia: o momento em que Jesus partilhou o pão e o vinho, pedindo aos seus discípulos que repetissem aquele gesto, fazendo assim o memorial da sua Paixão.

De facto, quando estamos reunidos à volta da mesma mesa (eucarística), partilhamos a mesma identidade e comemos sempre o mesmo pão, encontrando aí o fundamento da nossa unidade e vida fraterna. [1] E como foi belo este momento de unidade em que, simultaneamente em todo o mundo, fizemos uma adoração eucarística sincronizada com o Papa Francisco, contemplando Jesus, o verdadeiro Pão do Céu, porque acreditamos na sua presença real na hóstia consagrada.

Aliás, todas as nossas vidas encaixam nesta metáfora do pão, pois elas também são constantemente semeadas, regadas, crescidas, maturadas, ceifadas, amassadas e cozidas na trama do quotidiano. Mas se todas as vidas são pão, nem todas são eucaristia, ou seja: oferta radical de si aos outros, serviço e partilha. [2] E porquê? Porque “a eucaristia não se cinge ao mero acto celebrativo. E o gesto do lava-pés, evocado em Quinta-Feira Santa, revela o seu sentido missionário.” [3]

[A propósito, achei pertinente o belo testemunho da actual Ministra Assunção Cristas, que também esteve presente no nosso evento Átrio dos Gentios, e que, num recente programa televisivo, admitiu a necessidade de participar na eucaristia dominical para aí receber um pouco de tranquilidade e sentido na sua vida. [4] ]

3. Desafios Pastorais

O mundo espera dos cristãos esse fermento do amor, da partilha e da fé que marca a diferença em tantos ambientes hostis. Ao vivermos o Ano da Fé, não foi inadvertidamente que pedi a constituição de Grupos de Fé e a celebração paroquial ou interparoquial do Dia da Fé.

Trata-se de re-descobrir, em comum, o tesouro da fé e programar iniciativas, nunca de mera índole festivo, mas sempre suscitadoras de compromissos concretos, que matem a fome de alimento, justiça, liberdade, dignidade e paz de tanta gente.

Como nos adverte o cartaz do Ano Pastoral, espalhado pelas igrejas da Arquidiocese, entrar na Porta da Fé é, paradoxalmente, sair para o mundo, não para o condenar, mas para o purificar!

Para terminar, gostaria de partilhar um texto daquele que foi um autêntico mártir da Eucaristia, Bispo D. Oscar Romero: “Como é bonita a missa, sobretudo quando é celebrada numa catedral cheia como a nossa, aos domingos! Ou quando é celebrada humildemente nas capelas das povoações com pessoas cheias de fé, que sabem que Cristo, o rei da Glória, o sacerdote eterno, acolhe tudo o que Lhe trazemos da semana: penas, fracassos, esperanças, projectos, alegrias, tristezas e dores. Irmãos, quantas coisas cada um de vós leva para a sua missa dominical! O eterno Sacerdote acolhe-as nas suas mãos e, através do homem sacerdote que celebra, eleva-as ao Pai. É o fruto do trabalho de toda esta gente. Unida ao meu sacrifício presente neste altar, essa gente torna-se divina. Quando sai da Catedral continua a trabalhar, a lutar, a sofrer, mas sempre unida ao eterno Sacerdote que permanece presente na Eucaristia para que O saibam encontrar no próximo domingo.” [5]

Com base neste belo testemunho eucarístico, há aqui uma grande lição a reter: que, na eucaristia, também coloquemos sobre o altar o pão da nossa vida, tantas vezes cicatrizado pelas feridas da nossa pouca fé, para ser de novo amassado e revitalizado pelas mãos de Deus! E, uma vez alimentados pela sagrada comunhão, ficamos fortalecidos para contagiar o mundo com o fermento do amor, através do exercício da caridade.

Por isso, peço-vos apenas que não vos esqueçais deste slogan: “pão partilhado é, sem dúvida, um pão abençoado!”

+ Jorge Ortiga, A.P.

2 de Junho de 2013, Sé Catedral de Braga.

 

 


[1] Cf. Igreja Viva (Suplemento do Jornal «Diário do Minho», 30 de Maio de 2013), A Igreja alimenta-se da Palavra – Solenidade do Corpo de Deus, 6.

[2] Cf. José Tolentino Mendonça, Pai-Nosso que estais na Terra, 106-107.

[3] D. Jorge Ortiga, A ortopraxis eucarística. Homilia na Solenidade do Corpo de Deus – 2012.

[4] Cf. Programa “Alta Definição” (SIC), 2 de Março de 2013.

[5] Oscar Romero, A doce violência do amor, 44-45.

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